Livro descreve os brasis e os brasileiros
encontrados pelos doutores do Mais Médicos

Ao longo de um ano, o escritor Antonio Lino acompanhou o trabalho de médicos e médicas em aldeias indígenas, comunidades quilombolas, assentamentos rurais e periferias urbanas. A proposta era conhecer de perto os brasis, os brasileiros e as brasilidades encontrados por sete doutoras e cinco doutores do Programa Mais Médicos.

O resultado destas idas e vindas pelos cafundós do país é o livro Branco vivo, que será lançado pela Editora Elefante no dia 26 de agosto, em São Paulo. Além das nove histórias escritas por Lino, a publicação traz um ensaio fotográfico do renomado intérprete do Brasil Araquém Alcântara.

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Num itinerário que passou pelas cinco regiões do país, foram escolhidas nove localidades que demonstrassem a diversidade nacional: das aldeias xikrin, no Pará, até os pampas gaúchos, passando pelo sertão do Sergipe, Vale do Jequitinhonha e periferias de Manaus e São Paulo. Na maioria cubanos, os doutores e doutoras retratados no livro participaram do Mais Médicos entre 2013 e 2017.

Tomando a saúde pública como ponto de partida, Branco vivo lança um olhar panorâmico para as realidades locais, registrando histórias de vida que extrapolam os prontuários clínicos. Pelos textos de Antonio Lino e pelas fotos de Araquém Alcântara, o livro oferece um ponto de vista sensível e profundo sobre gentes e lugares que o Brasil esconde — ou revela.

 

LANÇAMENTO

Data: 26 de agosto, sábado, às 15h
Local: Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga, São Paulo-SP
Bate-papo com Antonio Lino e Araquém Alcântara, comes, bebes, abraços e beijos.

 

BRANCO VIVO

Autor: Antonio Lino
Fotos: Araquém Alcântara
Projeto Gráfico: Ana Carolina Soman
Editora Elefante
Páginas: 252
Publicação: Agosto de 2017
ISBN: 978-85-93115-04-2
Dimensões: 14 x 21​ cm

 

SOBRE OS AUTORES 

ANTONIO LINO é escritor. Nasceu em São Paulo, em 1978. Trabalha há 15 anos como redator independente para organizações da sociedade civil e para o governo, escrevendo sobre temas como políticas públicas de juventude, meio ambiente e cultura popular. Durante um ano e três meses, morou numa Kombi e percorreu mais de trinta mil quilômetros pelo Brasil. Em 2011, publicou Encaramujado, livro que reúne suas crônicas de viagem. Atualmente, depois de uma temporada de dez meses na África, o autor prepara um romance sobre a história da Libéria.

ARAQUÉM ALCÂNTARA nasceu em Florianópolis em 1951 e é um dos mais importantes fotógrafos em atuação no país. Desde 1970, se dedica integralmente à documentação da natureza e do povo brasileiro. É autor de mais de quarenta livros, como Terra Brasil (1997), Brasileiros (2004), Amazônia (2005), Bichos do Brasil (2008) e Sertão sem fim (2009). Premiado nacional e internacionalmente, já teve mais de setenta exposições individuais. Priorizando a fotografia como expressão plástica e instrumento de transformação social, é um dos mais combativos artistas em defesa do patrimônio natural do país.

“A caça às bruxas nunca terminou,
e as mulheres nunca deixaram de resistir”

Débora Prado
Agência Patrícia Galvão

A feminista e historiadora italiana Silvia Federici esteve recentemente no Brasil, debatendo as formas particulares de discriminação e exploração das mulheres no capitalismo, as lutas feministas contemporâneas e a construção de novos paradigmas – mais coletivos – de sociedade.

A visita aconteceu entre os dias 16 e 23 de julho, motivada pelo lançamento da versão impressa de seu livro Calibã e a Bruxa – mulheres, corpo e acumulação primitiva, traduzido pelo Coletivo Sycorax e publicado pela Editora Elefante, com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. Em atividades realizadas no centro e também nas periferias de São Paulo e do Rio de Janeiro, Silvia Federici, de 75 anos, fala de sua obra e relaciona a pesquisa histórica que fez para a publicação com os temas atuais da condição das mulheres.

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Silvia Federici define o Calibã e a Bruxa como um livro histórico e ao mesmo tempo político. “Ele foi gerado em um contexto político específico, que tem a ver com meu ativismo nos anos 1960 e com a busca pelas causas das formas específicas de opressão que as mulheres sofrem no capitalismo”, explicou durante uma das atividades em São Paulo, que reuniu dezenas de pessoas no centro da cidade.

Na obra, Silvia se debruça sobre essas formas particulares de discriminação e exploração que atingem as mulheres, fazendo um resgate histórico dos processos que construíram a hierarquização dos trabalhos por meio do salário e a invisibilidade do trabalho reprodutivo, relegado à força como uma tarefa a ser executada exclusivamente por mulheres de forma não remunerada na transição do feudalismo para o capitalismo na Europa.

capa do livro Caliba e a bruxaO resgate da autora evidencia que esses padrões, que colocam a mulher em um lugar subordinado na sociedade, foram construídos artificialmente e com o emprego de violência em larga escala no ao longo de 500 anos de vigência do capitalismo. Por isso, encontram-se hoje em dia bastante naturalizados – de onde emerge a importância da pesquisa histórica e das críticas realizadas pela autora, não só para demonstrar que tais padrões de feminino nada têm de natural, como também para reforçar que podem ser desconstruídos e transformados.

Por isso, nas atividades de que participou, a historiadora Silvia Federici buscou retomar o caminho percorrido em seu livro para debater formas atuais de resistência, lembrando: “a caça às bruxas nunca terminou de fato, mas as as mulheres também nunca deixaram de resistir”.

Violência contra as mulheres no desenvolvimento do capitalismo

Foto da autora e feminista italiana Silvia Federici em Sao PauloA transição para o capitalismo na Europa, explica a autora, foi marcada por um processo altamente violento, que incluiu a colonização dos continentes americano e africano e a escravidão de seus povos. O emprego da violência foi a forma pela qual o novo sistema produtivo e social mudou a forma como os indivíduos se relacionavam com o mundo – desde seus próprios corpos, que deveriam agora se tonar máquinas disciplinadas para o trabalho e passíveis de exploração, até a forma como as pessoas se organizavam, impondo processos de individualização da vida.

O que poucos livros de crítica ao capitalismo contam, porém, é a centralidade da violência contra as mulheres nessa etapa histórica. Para compreender o desenvolvimento do controle do Estado sobre o corpo das mulheres e sobre os processos reprodutivos é fundamental, segundo a autora, retomar o fenômeno da caça às bruxas no século 18.

“Quando você olha quem eram essas mulheres que sofreram acusações fantasiosas, como ‘a de dormir com o diabo’, para serem condenadas a ser queimada viva e compara a posição dessas mulheres com as exigências do desenvolvimento econômico, você compreende este fenômeno”, explica Silvia, resgatando as formas como a violência foi empregada desde a Inquisição para impor a desvalorização do trabalho das mulheres e a separação entre trabalho produtivo e aquele de reprodução da vida e da capacidade das pessoas de trabalharem.

Entre as mulheres resgatadas em sua pesquisa estavam, por exemplo, aquelas que tinham poder social na comunidade – como as curandeiras –, as que exerciam sua sexualidade livremente e aquelas mais envelhecidas e pobres, que viviam de doações da comunidade justamente no momento de instauração de uma nova ética e disciplina social, em que a caridade era mal vista por supostamente minar a capacidade de as pessoas trabalharem.

“Milhares de mulheres foram presas, torturadas e queimadas vivas no exato momento em que o capitalismo está decolando, e isso não está registrado nos livros socialistas – essa é uma enorme omissão”, apontou, realizando um contraponto ao legado marxista.

Demonização das mulheres e colonização

Ao retomar essa história invisibilizada no capitalismo e apagada nas teorias críticas a ele, Silvia Federici evidencia que a perseguição às mulheres na Europa e aquela empregada nas colônias se retroalimentavam e usavam a ‘demonização’ como recurso para ‘legitimar’ as mais extremas violências, violações e formas de exploração. “Essa não é uma história do passado, mas do presente”, ressaltou a feminista italiana, citando as formas de violência contra as mulheres, as pessoas negras, indígenas e que atuam em movimentos de resistência e que estiveram presentes desde esta época aos dias atuais.

No debate sobre seu livro em São Paulo, a atualidade do violento legado colonialista no Brasil foi aprofundada pelas mulheres do Coletivo Sycorax e pela professora do Departamento de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia, Maíra Kubik Mano, convidadas a debater a obra com a autora.

O genocídio da população negra nas periferias e favelas, as violências contra as mulheres e sua expressão fatal nos feminicídios, as medidas de austeridade econômica e social, as mudanças conservadoras na legislação, o fundamentalismo religioso e a perseguição aos que são considerados divergentes são elementos que unem o contexto de transição capitalista da Europa em outros séculos, retrato por Silvia em sua pesquisa, com o momento vivido no Brasil hoje, segundo as debatedoras.

“Toda vez que o poder se vê diante de uma crise importante no capitalismo, ele tem que fortalecer suas fundações”, reagiu Silvia Federici. Apesar do reconhecimento do papel estrutural da violência para frear forças de mudança, a mensagem de resistência foi a que a feminista mais quis ressaltar: “é preciso empregar toda essa violência, porque a força de resistência é permanente e cresce”, destacou Silvia Federici.

Para a feminista italiana, as resistências passam necessariamente pela reorganização do trabalho reprodutivo e pela reconstrução do tecido social a partir de formas mais coletivas e autônomas de organização. “Não existe uma forma ‘ideal’ ou ‘pura’ de resistência. Estamos todos rodeados de estruturas capitalistas. Mas a força da comunidade é necessária para interagir com o público e para resistir”, explicou, reforçando que as mulheres seguirão protagonizando movimentos por transformações necessárias.

Debate marca relançamento de 
Corumbiara, caso enterrado

O que já era ruim ficou muito pior. E ainda vai piorar.

Há dois anos, quando lançamos Corumbiara, caso enterrado, sabíamos que a situação de violência no campo brasileiro não estava resolvida. Muitas pessoas continuavam sendo assassinadas, o poder de resposta do Estado era baixo e enviesado, a bancada ruralista dava as cartas em Brasília. Mas não imaginávamos que grandes chacinas voltassem a ocorrer. Tampouco imaginássemos que haveria um golpe de Estado no Brasil do século 21. Subestimamos nossa capacidade de produzir barbárie.

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Aqui estamos, com 51 mortes no campo apenas nos seis primeiros meses de 2017, a caminho do recorde neste século. E agora? A recente chacina de Pau d’Arco, no Pará, nos remonta ao Brasil dos anos 1990, marcado pelos massacres de Corumbiara e de Eldorado do Carajás. Naquele momento, pelo menos, havia um governo com alguma legitimidade, e que podia ser cobrado por setores da população porque mantinha laços com o mundo real. Agora, não.

O Ministério da Justiça virou uma banca de advocacia do presidente golpista, alçado ao poder pela força ruralista e financista e lá mantido às custas de muita negociata à luz do dia. Não há um mísero setor da sociedade com interlocução com o governo, a menos que a gente considere que o mercado financeiro é a sociedade.

Nessa angústia, decidimos nos juntar ao De Olho nos Ruralistas na próxima segunda-feira em São Paulo para reunir uma turma de peso em busca de discutir as origens do problemas e suas possíveis soluções. E também para relançar Corumbiara, caso enterrado, de João Peres. O livro esgotou-se no começo deste ano, mas seu ciclo ainda não estava cumprido: a obra precisa continuar circulando para ampliar o debate sobre como o Brasil do presente é o Brasil do passado.

Nesses dois anos vertiginosos, o trabalho ganhou o segundo lugar no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, em 2015, e foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2016. As láureas são importantes, claro, mas o mais importante para nós é a grande rede de solidariedade que se formou para discutir o tema e fazer com que o trabalho chegasse aos cantinhos de Rondônia, palco da tragédia de 1995.

Olha só o pessoal que vai debater a violência no campo:

Alceu Castilho, coordenador do De Olho nos Ruralistas e autor de Partido da terra.
Kátia Brasil, Amazônia Real (por Skype, direto de Manaus).
Carolina Motoki, Repórter Brasil.
Padre Antônio Naves, Comissão Pastoral da Terra.
Josineide Costa Sousa, Movimento dos Pequenos Agricultores.

Mediação:

João Peres, autor de Corumbiara, caso enterrado.

 

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Serviço:
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Debate: Os crimes no campo explodem novamente. E agora?
Data: 31 de julho de 2017
Horário: 19h
Local: Ateliê do Gervásio
Rua Conselheiro Ramalho, 945
Bixiga, São Paulo-SP
Entrada franca!

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A descoberta de que pessoas atrás das grades
também são… pessoas

Por Bruna Escaleira
Revista Azmina

 

O muro de concreto que separa a prisão do resto da cidade nem é tão alto. Mas as barreiras físicas e simbólicas que vão surgindo no caminho de Natalia até seu local de trabalho impõem uma separação irrevogável entre o fora e o dentro da prisão. “Um lugar que existe não em prol dos que lá estão, mas em prol dos que lá não se encontram”. Um espaço de constante vigilância, “guardando quem não pode sair, como histórias que tivessem de permanecer caladas, abafadas pelas portas todas”.

Funcionária do Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário (CHSP) desde 2012, a psiquiatra paulistana enfrentou um longo processo de adaptação e percepção de uma realidade tão diferente da sua. A chave para lidar com aquela estrutura dura, incômoda e suas regras absurdas, no entanto, não estava nas fechaduras das inúmeras portas e grades do sistema prisional. Estava nas pessoas:

“Amenizado o receio inicial de que eu pudesse ser agredida fisicamente, desrespeitada sexualmente, ter minha vida imediatamente ou fora dali ameaçada, compreendo agora, passados quatro anos, haver vivido naquele começo um certo encantamento com a prisão, por mais absurdo que isso soe. Depois de perceber que meus medos não se configuravam como perigos constantes e iminentes, houve espaço para este sentimento aparentemente deslocado, que consistia na descoberta óbvia e simples, mas grande, de que aquelas pessoas eram pessoas.” (Desterros, p. 25)

Com o objetivo de compor sua dissertação de mestrado em Psicologia Clínica na USP, Natalia começou a escrever relatos sobre seus atendimentos e a colher depoimentos de detentas e detentos internados no CHSP. Porém, assim como a linguagem da “rua” (como quem está dentro da prisão chama tudo e todos que estão fora) não é suficiente para interpretar as nuances das gírias e códigos que circulam por entre as grades, o relato médico parecia não conseguir abarcar todas as dimensões humanas daquelas histórias. Foi assim que o olhar sensível de Natalia transbordou e se tornou literatura.

Desterros: histórias de um hospital-prisão mistura as percepções da autora a histórias de pessoas muito diversas, exceto pelo fato de estarem ou terem passado por um período de encarceramento. Uma série de relatos curtos intercala-se ao desenvolvimento mais longo de uma história em especial: a da angolana Donamingo. Vítima de um esquema de tráfico internacional de drogas, ela deixou a África para vender sapatos no Brasil e descobriu-se presa em uma terra tão distante da sua ao mesmo tempo em que se descobria grávida do segundo filho.

“Sentada diante de mim, na lanchonete de uma galeria no centro de São Paulo, Donamingo rememora seus últimos dias em Luanda tentando emprestar a eles a tristeza que lhes caberia se soubesse o que estava por vir.

Mas não consegue.

É capaz, no máximo, de se surpreender com a ingenuidade de quem não temia nada, e a alegria que relembra é o avesso opaco da tristeza atual, uma sem acesso à outra. Dois mundos incomunicáveis, feitos de passado e futuro que não se encontram, e no entanto ela estava ali, na minha frente, personificação do impossível.” (Desterros, p. 29)

Em uma edição tão criativa e cuidadosa quanto a escrita de Natalia, com as costuras da encadernação à mostra, a independente Editora Elefante nos presenteia com mais um título extremamente pertinente e necessário para o entendimento da realidade em que vivemos — quem assina a capa, aliás, é a designer Karen Ka, que já falou conosco sobre seu projeto Lambe Buceta. Fique agora com algumas palavras da própria autora em nossa entrevista:

AzMina: O que te motivou a escrever o livro?

Natalia Timerman: Quando comecei a trabalhar como psiquiatra no Centro CHSP, eu tinha acabado de entrar no mestrado com um projeto sobre pacientes borderline. Nas primeiras semanas de trabalho, aquele me pareceu um lugar tão surpreendente e desafiador que mudei todo o projeto. Minha dissertação acabou sendo feita a partir do meu olhar ao hospital penitenciário e da leitura de Hannah Arendt. O resultado, chamado A liberdade segundo sua privação: (im)possibilidades do homem num hospital penitenciário, foi o embrião do livro Desterros.

São tantas as questões que a prisão suscita, e tantas outras as que resultam do encontro entre um hospital e uma prisão, duas instituições em si complexas, que dá mesmo vontade de escrever. Nesses anos no CHSP, já escutei de diversos profissionais que a vivência ali dava um livro. Um só não, vários, assim como as histórias que se passam ali dentro. Tive essa sensação ao terminar o livro: eu poderia seguir escrevendo infinitamente, mas, em algum momento, precisava de um ponto final.

AM: Você já tinha alguma experiência com escrita literária antes dessa obra? Nos conte um pouco da sua relação com a literatura.

NT: Desde cedo gostava de ler e de escrever. Meu sonho de criança era ser escritora e, apesar de meu percurso profissional a princípio não me aproximar da literatura, os livros sempre estiveram por perto e foram um norte e um refúgio. Escrever e ler sempre foram uma forma de me relacionar com o mundo, ao mesmo tempo necessária e prazerosa. Eu tinha cadernos e cadernos preenchidos como diários e escrevia alguns contos; cheguei também a começar um romance. Mas era como se tivesse que, a cada vez, tomar a decisão de escrever, porque isso não cabia no meu dia a dia, e essa decisão não durava.

Eu costumo dizer que dei uma grande volta para chegar até esse lugar de escrita, que passou pela medicina, pela psiquiatria e pela psicologia (e também um pouco pela faculdade de Letras, que cheguei a começar durante o curso de Medicina, mas que não consegui terminar). Hoje vejo que foi uma volta importante até mesmo para a maneira como se dá meu escrever. O Desterros é exemplo disso.

AM: Como se deu a escolha do formato do livro e dos relatos?

NT: Já na dissertação, a descrição do hospital-prisão e os relatos foram feitos a partir do meu olhar e da minha voz, e minha transformação durante os anos de trabalho compõe um elemento importante desse ponto de vista. Mas o mestrado era mais teórico e tinha menos relatos. A história da Donamingo, tão central no livro, era apenas um deles.

Algumas pessoas começaram a me dizer que eu tinha um livro nas mãos; cheguei a mandar a dissertação para algumas editoras, mas nenhuma quis publicá-la como estava. Eu conheci uma das pessoas da Editora Elefante por acaso na mesma época, que leu e sugeriu algumas mudanças, como que eu me aprofundasse na história da Donamingo, tão potente. Essa pessoa disse que eu poderia até inventar: como não era mais um mestrado, não havia mais uma preocupação acadêmica. Eu tentei, mas não gostei do resultado.

Foi quando decidi tentar encontrá-la (o que conto com mais detalhes no livro) para preencher as lacunas do que eu sabia sobre ela. Já não me lembro se a ideia de que a história dela fosse o eixo do livro veio antes ou depois disso: agora, parece tão natural que seja assim que não consigo saber. Depois, o trabalho foi quase de costura, com o precioso olhar de preparação e edição, para fazer com que os relatos seguissem um rumo e que dialogassem com os trechos em que a descrição do hospital e minha reflexão sobressaem.

AM: Quem você espera que seja o leitor de Desterros?

NT: Eu gostaria que o livro fosse lido por quem não tem a menor ideia de como seja a prisão, por quem imagina o mundo detrás das grades segundo os preconceitos do senso comum, como eu mesma via, para que justamente isso seja desconstruído. Acho que olhar pessoas como pessoas é também uma forma de olhar para si, de se rever enquanto dono de um olhar viciado para determinados assuntos.

Mas tenho percebido que as pessoas que já se interessam pelo mundo do cárcere têm sido também leitores do Desterros. Num dos eventos de divulgação do livro, tive o prazer e a honra de dividir uma mesa com uma jurista que me apontou para algo que eu não havia enxergado: eu, trabalhando no hospital penitenciário, tenho uma posição muito privilegiada para olhar e dizer o que se passa lá. Para alguém da sociedade civil que queira escrever sobre a prisão, não é tão fácil conseguir o acesso que eu já tinha, e talvez por isso este livro tenha interesse para essas pessoas.

AM: Como você conta no livro, a realidade do sistema prisional brasileiro não é fácil. A escrita te ajuda de alguma forma a lidar com ela?

NT: Certamente. Escrever me ajuda a lidar com a realidade do sistema prisional brasileiro porque é também um meio de reflexão. Escrevendo, à medida em que as narrativas se tecem, consigo criar para mim mesma compreensões que, antes da existência daquelas histórias de forma organizada literariamente, eu não conseguia alcançar. É um alento para mim, e espero que, através de um enxergar humanizador, também para aqueles sobre quem falei.

AM: Você ainda trabalha no CHSP? Pretende seguir carreira lá?

NT: Sim, eu ainda trabalho no CHSP – agora estou de licença-maternidade, mas pretendo voltar quando a licença acabar. É um lugar de muitos desafios e aprendizados.

AM: Pode nos contar um pouco sobre a sua relação com a personagem principal, Donamingo?

NT: Acho que o Desterros é, em alguma medida, também a história dessa relação: uma mulher branca, psiquiatra, que conhece uma mulher negra, presa. O livro é um pouco a história desse abismo. O título Desterros, no plural, remete em primeiro lugar ao fato de Donamingo se encontrar longe da terra dela. Depois, ao fato de que, de alguma forma, todos os presos são desterrados. Finalmente, remete ao desterro em que estamos todos diante da história de alguém sem lugar.

Mas isso só é acessível dentro de cada um, a partir de olhar um outro. O acesso a esse olhar para mim através do outro, devo muito à Donamingo. E também devo a ela tantas outras questões e sentimentos que visitei, por exemplo, quando segurei nos braços o filho dela fora da prisão. Foi inevitável comparar o peso dele ao peso do meu filho, um pouco mais velho. Ela me deu a oportunidade radical de me rever em vários sentidos. Até como psiquiatra: quando fui escrever a história dela, vi que faltavam muitos elementos para a compreender como pessoa. Percebi quão rasa pode ser, quantas lacunas deixa, uma narrativa que busca apenas sintomas.

AM: Os personagens sabem sobre o livro? Algum deles chegou a lê-lo?

NT: Alguns personagens sabem, principalmente aqueles cujos relatos estavam já na dissertação. Para outros tantos, não tive a oportunidade de dizer: saíram do CHSP, ou faleceram, ou eu os havia atendido apenas no ambulatório e não cheguei a encontrar novamente. De toda forma, todos os nomes foram modificados para que a identidade deles fosse preservada. Eu não sei se algum deles leu, exceto pela Donamingo: eu li para ela alguns trechos do livro uma das vezes em que nos encontramos fora da prisão. Foi uma experiência e tanto, vê-la se reconhecer nas minhas palavras. Ela sorria e concordava com a cabeça.

AM: Já tem algum próximo projeto literário?

NT: Enquanto o Desterros estava sendo preparado, eu comecei uma pós-graduação em formação de escritores no Instituto Vera Cruz, que terminei há pouco. Foi muito importante e prazeroso; aprendi e li muito, e consegui abrir espaço para a escrita no meu dia a dia. O trabalho final desse curso é um romance acerca de uma mulher às voltas com o fim de um relacionamento curto, mas que a abalou muito. Um tema bem diferente do Desterros

Calibã e a bruxa está no mundo!

Deem uma olhada nas fotos que tiramos do Lançamento de Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, que aconteceu no Centro Cultural Olido no último dia 20 de julho em São Paulo. Já dissemos nas redes sociais por aí que foi incrével, então não vamos repetir que foi incrével, mesmo tendo sido incrével. Sério: muita gente apareceu pra ver e ouvir a Silvia. Umas trezentas pessoas. Incrével. Mas, como prometemos, não vamos ficar escrevendo que foi incrével.

garanta seu exemplar!

Em vez disso, vamos dizer que o caminho até aqui foi looooongo. Começou com o Coletivo Sycorax, que traduziu colaborativamente essa obra importantíssima que é Calibã e a bruxa, e disponibilizou o conteúdo todo na internet em html. Essa versão digital do livro foi lançada em São Paulo com a presença da autora em 2016. Então, a Fundação Rosa Luxemburgo se interessou em apoiar a publicação da versão brasileira. Conexões aqui e ali colocaram a Editora Elefante no rolê, ainda mais depois dos conselhos de Júlia Rabahie sobre a relevância do livro.

Então o trabalho começou: e foi muito trabalho, cruzes. O projeto gráfico ficou a cargo das queridas e talentosíssimas Bianca Oliveira e Karen Ka, cuja parceria mais uma vez fez bonito nos livros da Elefante. Várias reuniões e muitas horas-bunda depois, olhos ardendo na frente do computador pra resolver mil detalhes, mil tretas, vai-vem de provas da gráfica, ajustes, enfim, temos a edição mais linda de nosso catálogo.

Eis nosso décimo-terceiro título. Urrú!

O pré-lançamento no Rio de Janeiro, em 16 de julho, também foi porreta demais. Menos gente, mais intimista. O tempo ajudou e o sol deu o tom daquela tarde de domingo na sede da Grande Companhia Brasileira de Mysterios e Novidades, na Gambôa, um bairro carioca permeado pela história da escravidão e da resistência negra. Saca só esse vídeo, feito pela querida Ana Rezende:

Naquela mesma rua se encontra o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), que preserva a memória do Cemitério dos Pretos Novos. “Pretos novos” era como se chamavam os escravos negros aportados no Rio de Janeiro, e que ali permaneciam em “quarentena” antes de entrarem no país. Uma porcentagem significativa dos cativos morria nos primeiros dias, e seus corpos eram enterrados dentro de barracões ou nos arredores.

Enfim… estamos orgulhosos demais do que fizemos com este livro (são muitos elogios, muito apaixonados, inclusive da autora — Silvia, você é um amor de pessoa) e com o que estamos fazendo com nossa pequena casa editorial, ampliando as parcerias e reunindo cada vez mais gente em nossa manada. Só temos a agradecer a confiança e o apoio de vocês.

Neste segundo semestre teremos mais sete lançamentos. E queremos vocês conosco.

Continuem com os elefantes =)

‘O feminicídio tem como
objetivo aterrorizar as mulheres’

Por Jessica Zeller
Goethe-Institut

Você acaba de fazer 75 anos. É difícil estabelecer um diálogo com feministas mais jovens?

Muito pelo contrário! A maioria das pessoas que conheço hoje em dia é de ativistas jovens. Acho que isso acontece porque há um novo movimento feminista no mundo todo. É para mim um prazer enorme ter essas mulheres no entorno, pois o mundo está nas mãos delas.

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Esse novo feminismo é simplesmente mais jovem ou é também diferente daqueles movimentos de mulheres dos anos 1970 e 1980, dos quais você já participou ativamente?

As ativistas naturalmente aprenderam com o tempo. Só para citar um exemplo: naquela época, reivindicávamos um “salário para o trabalho doméstico”. Hoje, ninguém mais tem ilusões a respeito da libertação das mulheres através do trabalho remunerado. Pois a maioria das mulheres, embora trabalhem, têm empregos precários, precisando assumir dois ou três deles para sobreviver. Além disso, as feministas jovens apostam menos nas instituições estatais como motores de mudanças sociais.

Em janeiro de 2017, centenas de milhares de mulheres foram às ruas nos Estados Unidos na Marcha das Mulheres em Washington. Como você vivenciou isso?

Não foram apenas feministas: outros atores sociais também estiveram nas ruas nesse dia, tanto mulheres quanto homens. A ordem de grandeza desse evento tem certamente a ver com o fato de que as pessoas queriam dar vazão à ira contra Donald Trump e seu sexismo. E queriam expressar sua preocupação com o perigo de que o novo governo pudesse reintroduzir uma proibição do aborto.

Ou seja, o que importava nesse dia era defender conquistas e direitos adquiridos?

Além do direito de definir elas próprias o planejamento familiar, as mulheres nos Estados Unidos não têm tantas conquistas assim a serem defendidas. Números recentes mostram até mesmo que a expectativa de vida de mulheres da classe trabalhadora diminuiu. Do ponto de vista estatístico, elas vão morrer cinco anos mais cedo que suas mães. Também com relação a isso existe um mal-estar enorme na sociedade, que foi articulado na Marcha das Mulheres.

Em outras regiões do mundo também têm ocorrido protestos feministas constantes, como por exemplo na América Latina, com o lema “nenhuma a menos”, contra o feminicídio e contra a cultura machista.

Uma mobilização realmente impressionante. Em 2017, a campanha “nenhuma a menos” foi tema do Dia Internacional da Mulher, convocado pelas mulheres na Argentina. Lá, nesse dia, houve uma greve geral feminina. Há pouco tempo encontrei em Nova York três ativistas argentinas que me mostraram um vídeo do seu protesto em Buenos Aires. Isso quase me levou às lágrimas de emoção.

O feminicídio e o combate a ele são um assunto principalmente latino-americano?

Com certeza não. A brutalidade e a frequência desses casos aumenta no mundo todo. Na Índia e em alguns países africanos, percebemos uma verdadeira “caça às bruxas” contra as mulheres. Em regiões do interior do Canadá há assassinatos em série. E a Itália aprovou há alguns anos uma lei contra o feminicídio. Isso é muito sintomático. Na minha infância, na Itália, falava-se sobre um caso desses durante meses, tão extraordinário ele era. Hoje, há no país assassinatos de mulheres quase que diariamente.

Quais são as razões para esse aumento da violência?

O feminicídio está sempre relacionado com o desenvolvimento geral de uma sociedade. A ideia que se esconde por trás dele é intimidar e aterrorizar as mulheres. As razões específicas variam. Na América Latina, por exemplo, ele atinge frequentemente mulheres que vivem em regiões onde há megaprojetos acontecendo ou sendo planejados — projetos que servem à exploração desrespeitosa de matéria-prima. Nos protestos das populações locais, as mulheres estão muitas vezes na linha de frente. Ao matá-las, demonstra-se à comunidade que resistir é inútil.

Livro aponta opressão da mulher como sustentáculo do capitalismo

A feminista e historiadora italiana Silvia Federici estará no Brasil para as atividades de lançamento do livro Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, traduzido colaborativamente pelo Coletivo Sycorax e publicado pela Editora Elefante com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. A autora, que atualmente leciona na Universidade de Hofstra, em Nova York, participará de bate-papos e palestras no centro e nas periferias de São Paulo e Rio de Janeiro entre os dias 16 e 23 de julho, com entrada franca.

garanta seu exemplar!

Silvia é uma das mais importantes teóricas do feminismo na atualidade, e em sua extensa pesquisa analisa, entre outros aspectos, o trabalho assalariado a partir de uma perspectiva de gênero. Nascida em Parma, na Itália, em 1942, vive nos Estados Unidos desde os anos 1960, onde participou ativamente do movimento contra a guerra e ajudou a fundar o Coletivo Feminista Internacional, que impulsionou a Campanha por um Salário para o Trabalho Doméstico. Nos anos 1980, Silvia passou uma temporada na Nigéria, onde lecionou na universidade de Port Harcourt, acompanhou o movimento de mulheres nigeriano e, ao ver de perto os resultados do ajuste estrutural patrocinado pelo Banco Mundial e pelo FMI sobre os estilos de vida comunitários do país, percebeu a atualidade das teses que expõe em Calibã e a bruxa.

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O livro discorre sobre a violência brutal empreendida contra as mulheres durante a transição do feudalismo para o capitalismo na Europa, e sustenta que a “caça às bruxas” relacionou-se diretamente com criação de um novo sistema econômico, forjado na escravidão, na colonização e na exploração e dominação do corpo e dos saberes femininos. O título da obra faz referência a duas personagens shakespearianas — Calibã e sua mãe, Sycorax, uma bruxa — para simbolizar a dimensão sexista e racista que o capital impõe a quem resiste à sua ordem.

Baseada em uma exaustiva pesquisa documental e iconográfica, e em farta bibliografia, Silvia Federici argumenta que o assassinato de centenas de milhares de bruxas foi, juntamente com a submissão dos povos africanos e americanos, um aspecto fundacional do sistema capitalista, uma vez que designou às mulheres o papel de “produtoras de mão de obra”, obrigando-as, pelo terror, a exercer gratuitamente os serviços domésticos necessários para sustentar os maridos e os filhos homens que seriam usados como força de trabalho do sistema nascente.

Nesse sentido, Calibã e a bruxa apresenta um contraponto ao pensamento de Karl Marx sobre a acumulação, afirmando que, em vez de se tratar de um aspecto precursor do capitalismo, a acumulação seria inerente a ele. O livro dialoga ainda com de Michel Foucault, a quem critica duramente por não haver levado em conta em sua História da sexualidade a campanha contra o corpo feminino e o extermínio de centenas de milhares de mulheres na fogueira.

Além de reconhecida produção teórica, Silvia Federici segue vinculada com as lutas feministas contemporâneas e com os desafios impostos pelo capitalismo, que, como podemos atestar diariamente na violência de gênero e nos crescentes índices de encarceramento feminino, por exemplo, continua oprimindo e matando as mulheres, sobretudo na África e na América Latina. A construção de um novo paradigma de sociedade, com base nos “bens comuns” (commons), também integra os temas discutidos por Silvia.

“É preciso criar um tecido social mais forte, capaz de resistir ao que está acontecendo, e também começar a construir novas relações. Começar a implementar novas formas de autogovernar-nos, ter o controle de nossa vida, não apenas nos opormos, mas sim definirmos que tipo de sociedade queremos, como iremos construí-la, o que precisamos de imediato e quais são os objetivos de futuro”, disse Silvia Federici em recente entrevista.

Nesta que será sua segunda visita no Brasil, Silvia Federici irá discutir os principais pontos de seu livro e o protagonismo das mulheres nas lutas sociais, e terá a oportunidade de conhecer e dialogar com as experiências e ações de coletivos e movimentos de mulheres que estão na linha de frente em alguns dos territórios periféricos de São Paulo e Rio de Janeiro.
Confira abaixo a agenda:

RIO DE JANEIRO

Dia 16 de julho – a partir das 11h
Pré-lançamento do livro Calibã e a bruxa e Urgências!
Sede da Cia de Mystérios e Novidades – Rua Pedro Ernesto, 21 – Gamboa

Dia 18 de julho – a partir das 15h
Roda de Conversa e Sarau
Museu da Maré – Av. Guilherme Maxwel, 26 – Maré
SÃO PAULO

Dia 20 de julho – a partir das 18h
Lançamento do libro Calibã e a bruxa
Galeria Olido – Avenida São João, 473 – Centro

Dia 22 de julho – a partir das 14h
Roda de conversa e sarau
Teatro Ventre de Lona – Centro Cultural Arte em Construção
Avenida dos Metalúrgicos, 2.100 – Cidade Tiradentes

Iniciativa
Fundação Rosa Luxemburgo, Goethe Institut, Coletivo Sycorax e Editora Elefante

Parceria RJ
Museu da Maré, CEASM, Instituto PACS

Parceria SP
Pombas Urbanas e Biblioteca Solano Trindade

‘Mais do que conceitos ou teorias,
o Bem Viver sintetiza vivências’

O pensador equatoriano Alberto Acosta, autor de O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos, livro que lançamos em janeiro de 2016 em parceria com a Autonomia Literária e a Fundação Rosa Luxemburgo, concedeu em maio uma entrevista ao Vitor Taveira, do portal Cidadanista. O Blogue da Elefante reproduz o bate-papo abaixo.

Com a crise generalizada da esquerda e do sistema político, e agora que a euforia do “desenvolvimento” vivido na era Lula abandonou de vez o coração e a mente dos brasileiros, as ideias do Bem Viver estão ganhando corpo no país. Cada vez mais movimentos sociais incorporam as noções descritas por Alberto Acosta, e emanadas da vida em resistência das populações tradicionais andinas e amazônicas, em suas rotinas de luta.

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Em maio, a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) e o Iser Consultoria lançaram a cartilha Para evitar o desastre: como construir a sociedade do bem viver, que usa a obra de Alberto Acosta, entre outras, como referência para discutir os desafios da crise — que não é apenas política, mas também social e ecológica.

O que é o Bem Viver e quais suas influências? Seu livro lançado no Brasil o sugere como “uma oportunidade para imaginar outros mundos”. O que quer dizer com isso?

Mais do que conceitos ou teorias, o Bem Viver sintetiza vivências. Surge a partir das comunidades indígenas. Nutre-se de seus valores, de suas experiências e sobretudo de suas múltiplas práticas. Não provém da academia ou de algum partido político. E na medida em que promove a vida em harmonia dos seres humanos vivendo em comunidade e destas vivendo em harmonia com a natureza, nos oferece há centenas de anos uma série de lições de como se poderiam imaginar outros mundos em que caibam todos os mundos, sempre assegurando a justiça social e a justiça ecológica.

O que podemos considerar como a comunidade indígena, em termos amplos, tem um projeto coletivo de futuro com clara continuidade desde seu passado. Uma evidente demonstração de responsabilidade com a vida. Essas utopias andinas e amazônicas, junto a outras formas similares de vida ao redor do planeta, se manifestam de diversas formas em seu discurso, em seus projetos políticos e sobretudo em práticas sociais e culturais, inclusive econômicas. Aqui radica uma das maiores potencialidades do Bem Viver.

A tarefa então é apreender das experiências dos povos que têm sabido viver com dignidade e harmonia desde tempos imemoriais, isso sem chegar a idealizar a realidade indígena.

Você propõe o Bem Viver como uma alternativa ao desenvolvimento e não como um “desenvolvimento alternativo”. Em que o Bem Viver se diferencia essencialmente da proposta do desenvolvimento, considerada como uma grande ideologia do século XX?

Estas cosmovisões, ligadas a territórios específicos, propõem opções diferentes à cosmovisão ocidental, ao surgir de raízes comunitárias não capitalistas, harmonicamente relacionadas com a natureza. A partir desta leitura, o Bem Viver propõe uma transformação de alcance civilizatório ao ser biocêntrica, já não mais antropocêntrica (na realidade se trata de uma trama de relações harmoniosas vazias de qualquer centro); comunitária, não só individualista; sustentada na pluralidade e na diversidade, não unidimensional, nem monocultural. Para entendê-la é preciso um profundo processo de descolonização no político, no social, no econômico e, com certeza, no cultural.

Um ponto deve ficar claro, ao falar de Bem Viver, pensemos no plural. Ou seja, imaginemos bons conviveres e não um Bem Viver único e homogêneo, que resulta impossível de cristalizar. O Bem Viver, definitivamente, não poderá tornar-se um mandato global único como aconteceu com o fracassado conceito de “desenvolvimento” desde meados do século XX.

A Constituição do Equador inclui algumas novidades em nível internacional, entre elas a inclusão pela primeira vez do Bem Viver e dos Direitos da Natureza. O que significa para o país e o mundo? Como estes princípios se relacionam?

Esses avanços de conotação revolucionária, alcançados na Constituição de 2008 no Equador, ficaram plasmados simplesmente numa série de dispositivos constitucionais. Os Direitos da Natureza, que nunca foram compreendidos pelo ex-presidente equatoriano, foram empregados por ele para colher aplausos em nível internacional, mas na prática não são respeitados. E o Bem Viver, esvaziado de seus conteúdos transformadores, se converteu em um instrumento de propaganda para consolidar o poder do caudilho do século XXI: Rafael Correa. Algo similar acontece na Bolívia com Evo Morales.

Então não se pode cair na armadilha da propaganda do Bem Viver dos governos desses países. Nesses casos, terminou-se por vampirizar esse conceito para colocá-lo a serviço de seus apetites de concentração de poder e de disciplinamento de suas sociedades. Assim, o Bem Viver funciona como um dispositivo de poder para modernizar o capitalismo. Uma verdadeira aberração.

Sua interrelação, para atender à segunda parte da pergunta, é evidente. O Bem Viver propõe uma vida em harmonia dos seres humanos entre si e destes com a natureza. Nesse contexto entram os Direitos da Natureza. Seu potencial de superar as fronteiras equatorianas, se projeta em nível global. Este reconhecimento constitucional começa a ser motivo de amplas reflexões e debates, inclusive começa-se a trabalhar no que poderia ser num futuro não distante uma Declaração Universal dos Direitos da Natureza. Igualmente tem sido proposta a criação de uma institucionalidade internacional que julgue os crimes contra a natureza; outra iniciativa que abriu as portas é o Tribunal Ético Permanente dos Direitos da Natureza, colocado em marcha há alguns anos por parte de várias organizações da sociedade civil e que já teve sessões em vários continentes (e no qual eu tenho a honra de participar como juiz).

Outro pilar apontado para permitir um Bem Viver seria o Estado plurinacional. Que diferenças esse teria em relação ao modelo tradicional de Estado na América Latina? E qual seria o papel do Estado em um projeto político baseado no Bem Viver e na plurinacionalidade?

Um ponto-chave: não se trata de conquistar e modernizar o Estado como conhecemos para a partir daí, de cima para baixo, tentar mudar o mundo. Esse foi outro dos graves erros do progressismo: concentrar-se no fortalecimento do Estado, acreditando que essa era a única ferramenta adequada para impulsionar as mudanças que desejavam.

Cada vez estamos mais convencidos que é preciso pensar em outro tipo de Estado – talvez um Estado plurinacional, como propõem os movimentos indígenas da Bolívia e Equador –, que possa contribuir para a construção de uma sociedade não autoritária e que esteja controlada desde a base. Ou seja, desde as instâncias de autogoverno, comunitárias em essência, cujo poder compartilhado vai subindo em níveis, os quais se sustentam sempre na base de comunidades diversas. Nessas estruturas não há espaço para caudilhos iluminados e autoritários.

Não se trata de dar resposta à equação de mais Estado ou mais mercado. Essa é uma aproximação falsa em sua essência. A base das transformações se encontra nas comunidades, essa seria uma leitura acertada do Bem Viver. O que não implica desconhecer ou descuidar de outros âmbitos de ação estratégica, incluindo também o internacional.

Há diferenças e contradições de fundo entre povos indígenas e posições da esquerda tradicional, mais especificamente das vertentes marxistas. Em seu ponto de vista, há como superá-las no sentido de construir unidade entre as esquerdas ou são contradições insuperáveis no campo teórico e na prática política?

Assim como há pontos de coincidência, há outros que os mantêm em margens opostas. A busca da justiça social poderia ser o grande ponto de união. Entretanto, as grandes diferenças aparecem quando se constata que as esquerdas tradicionais ainda estão presas à Modernidade, de alguma maneira são suas filhas. Basta ver que muitas delas continuam atadas a promessas do progresso em sua direção produtivista e do desenvolvimento, sobretudo em sua visão mecanicista de crescimento econômico.

O Bem Viver, como alternativa ao desenvolvimento, tem essas premissas. Portanto, o socialismo, se é que pretende se manter em sintonia com suas origens transformadoras, deve necessariamente superar essas lógicas próprias do progresso e aquelas posições antropocêntricas. E isso implica, por exemplo, caminhar para a desmercantilização da natureza se realmente quer aprofundar os processos de emancipação da humanidade.

Se se propõe superar a exploração da natureza em função da acumulação de capital, com maior razão haverá que deixar para trás a exploração do ser humano. Particularmente, haverá que valorizar e entender tanto o que representam a justiça social como a justiça ecológica, intimamente inter-relacionadas, pois não há uma sem a outra, e vice-versa. É indispensável, então, erradicar a pobreza, o que só será possível se simultaneamente se combater a excessiva concentração da riqueza.

O que interessa, então, é conhecer as diferenças para superar democraticamente as distâncias existentes enfrentando a civilização capitalista que, definitivamente, sintetiza a soma de civilizações fundamentadas na dominação sobre seres humanos e natureza. No Bem Viver, ao contrário, se poderiam reunir todas aquelas visões que propõem a emancipação dos seres humanos e de todos os seres vivos de toda forma de dominação e exploração.

Além disso, as esquerdas deverão ser simultaneamente socialistas, ecologistas, feministas, descoloniais, laicas, em essência, democráticas.

Que contribuições acredita que um olhar desde o Bem Viver pode contribuir para pensar a realidade brasileira, que por um lado acompanha a crise do ciclo desenvolvimentista e por outro acaba de assistir à tomada do poder pela direita?

Um primeiro passo que se deve dar no Brasil e em outros países em que os limites dos governos progressistas demonstram seu esgotamento é a autocrítica. Ainda que surpreenda algumas pessoas, o certo é que o retorno das forças de direita tradicional ao poder se deve, em primeiro lugar, ao fracasso dos progressismos. Que o império e a CIA, assim como as grandes corporações, conjuntamente com os grupos oligárquicos de poder internos, tenham trabalhado a favor do retorno das direitas tradicionais ao poder é algo óbvio. O contrário seria algo que surpreenderia.

É um fato que esses governos progressistas, apesar de terem prezado pela modernização do capitalismo, não foram cômodos aos grupos de poder transnacionais e locais. O lamentável é que o neoliberalismo e inclusive a restauração conservadora estejam de volta junto a governos progressistas no Brasil com Dilma Rousseff, na Bolívia com Evo Morales ou no Equador com Rafael Correa.

No caso brasileiro resulta muito indispensável reconhecer que o atual presidente Temer e seu partido político corrupto foram estreitos aliados do governo do PT durante muitos anos. Um governo que não conseguiu cristalizar os ansiados e muito indispensáveis clamores pela reforma agrária. Um governo que forçou como nunca antes os extrativismo, atropelando as comunidades indígenas e a natureza; o que explica, além do mais, a reprimarização e inclusive a desindustrialização da economia brasileira. O governo de Dilma, sobretudo em sua última etapa, se reencontrou com as práticas econômicas neoliberais. Os governos do PT, além disso, não foram capazes de evitar ou neutralizar a reprodução da corrupção.

Esses governos do PT, como os outros governos progressistas da região, não questionaram o Estado como forma de organizar e exercer a autoridade pública, ou seja, o poder. Simplesmente se empenharam em modernizá-lo, buscando também conseguir mais ingressos fiscais para impulsionar obras públicas e uma maior redistribuição do ingresso. Ou seja, são governos estatistas que reforçaram o estatismo existente nessas sociedades. E, ao reforçar o estatismo, frearam os processos emancipadores que surgem no seio da sociedade.

Não se pode minimizar o fato de que estes governos (sobretudo o equatoriano e o boliviano) têm tratado de subordinar os movimentos sociais, e ao não conseguir, têm buscado sua divisão e inclusive sua desaparição. A ampliação dos extrativismos nestes países com governos progressistas, assim como acontece naqueles com governos neoliberais, se dá com base na perseguição e criminalização de quem defende a natureza e os Direitos Humanos. Não nos esqueçamos de que a violência não é uma consequência dos extrativismos, a violência é uma condição necessária dos mesmos.

Então, se pretende encontrar respostas desde as cosmovisões do Bem Viver, resulta indispensável repensar as alternativas superando essas práticas falidas dos governos progressistas. É preciso assumir como ponto de referência os principais elementos do Bem Viver: o comunitário, a relação harmoniosa com a natureza e aquelas questões que sintetizam a alma dos povos vivendo em comunidade. Há que enfrentar o capitalismo, não conviver com ele e menos ainda tratar de modernizá-lo.

Esse empenho demanda sempre mais democracia, tanto na organização das agrupações políticas e suas frentes de luta, como na construção de propostas transformadoras. Não se trata simplesmente de reconquistar o poder perdido, como parece ser a ânsia das forças políticas progressistas deslocadas do governo no Brasil e Argentina.

Mais um 13 de junho,
mais um ano sem justiça

São Paulo, 13 de junho de 2017. Faz quatro anos que milhares de manifestantes marcharam pelo centro pedindo a redução da tarifa de transporte público na cidade. Era a quarta manifestação seguida convocada pelo Movimento Passe Livre contra mais um aumento abusivo das tarifas de ônibus e metrô, articulado pela prefeitura e pelo governo do estado em prejuízo da população trabalhadora e em benefício dos barões instalados dentro e fora dos palácios.

Faz quatro anos que sofremos uma repressão absurda, injustificável, inexplicável, descontrolada e violenta na esquina da Rua da Consolação com a Rua Maria Antônia. Mais de duzentos presos. Mais de cento e cinquenta feridos. Dois olhos alvejados e um globo ocular explodido por uma das quinhentas e seis balas de borracha que a Polícia Militar reconhece haver disparado naquela noite adentro.

Era uma vez a visão esquerda de Sérgio Silva…

BAIXE “MEMÓRIA OCULAR” EM PDF

Conforme o tempo passa, 13 de junho de 2013 vai mostrando seus desdobramentos. De lá pra cá, houve repressões ainda mais truculentas que aquela. Os brasileiros elegeram o Congresso mais conservador desde a redemocratização. Houve golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff. O prefeito de São Paulo naquele então, Fernando Haddad, do PT, foi trucidado nas urnas quando tentou mais quatro anos no poder. Seu algoz, João Doria, é o pupilo do governador Geraldo Alckmin, igualmente alvo daqueles protestos, mas que continua firme e forte no Palácio dos Bandeirantes, cotado para a Presidência da República.

E tantas outras coisas…

Não é possível dizer que essa chamada “onda conservadora” teve início naquele 13 de junho, e muito menos dá pra afirmar que o 13 de junho provocou a avalanche de retrocessos sociais a que estamos assistindo. Mas é fato que, entre gritos, revolta, bombas e multidões, alguma coisa começou a acontecer no Brasil há exatos quatro anos. Um tal “gigante” acordou. A direita saiu de casa vestindo verde e amarelo. A imprensa mostrou que ainda dá as cartas na política nacional. Enfim.

Há muitas análises sobre as jornadas de junho. E haverá muitas mais, porque aquele junho ainda não acabou — e nem acabará tão cedo. Mas as vítimas, bem, elas não precisam ser analisadas. Precisam ser lembradas. Até porque a violência policial — pra não falar sobre o genocídio que acontece nas periferisa — continua mutilando manifestantes.

Aqui na Editora Elefante, contamos a história de Sérgio Silva, fotógrafo, jornalista, ser humano que perdeu a visão do olho esquerdo após ser alvejado pela bolinha de elastômero supostamente não letal das forças de segurança pública. De lá pra cá, tivemos pelo menos mais três vítimas oculares da PM na cidade de São Paulo.

Vitor Araújo, de 17 anos, perdeu o olho em um protesto ocorrido em 7 de setembro de 2013, logo depois das jornadas de junho, mas que se dirigia aos desmandos governamentais ocorridos por ocasião da Copa do Mundo. Douglas Santana, de apenas 12 anos, deixou de enxergar com um dos olhos em 23 de abril de 2016, após a repressão policial a um baile funk. E Débora Fabbri, de 19 anos, foi atingida por um estilhaço enquanto se manifestava conta a farsa do impeachment e a ascensão do golpista Michel Temer em 31 de agosto de 2016.

A justiça está cega, surda e muda para todos eles. A maior prova disso é que nenhum policial militar ou governante foi responsabilizado pelos acontecimentos. Nem será. E, pior, Sérgio Silva, que entrou com pedido de indenização contra o Estado pela violência que sofreu em 2013, ainda teve que ouvir de um juiz que é o único culpado pelo olho que perdeu. Cabe recurso da decisão, como sempre. Mas o tempo vai passando. A vida segue. São quatro anos.

Cultivar a memória é o mínimo que podemos e devemos fazer. Por isso lançamos Memória ocular, um livro que conta a história dos três anos da violência sofrida por Sérgio Silva em 13 de junho de 2013. O lançamento ocorreu em 13 de junho de 2016, há um ano, exatamente na esquina em que a infeliz bala de borracha mutilou o fotógrafo. Muita gente voltou ao cruzamento para descomemorar a data ao lado de Sérgio.

Agora, disponibilizamos o livro em PDF para quem quiser baixá-lo. É nossa maneira de marcar mais um aniversário da dor. E de manifestar nossa solidariedade, que é e será infinita. Força, Sérgio — e Vitor, e Douglas, e Débora. Força!

PT é esquerda? Esquerda é PT?
Um debate necessário

Em 11 de abril, por iniciativa da Editora Elefante, quatro militantes-intelectuais da esquerda brasileira se juntaram na sede da Fundação Rosa Luxemburgo, em São Paulo, para discutir a profunda crise que se abateu sobre partidos e movimentos populares brasileiros após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Marcado pelo alto nível argumentativo e pelo respeito entre os participantes, o debate também serviu para lançar hipóteses sobre a situação do Partido dos Trabalhadores e suas relações passadas, presentes e futuras com as organizações sociais.

encomende seu exemplar!

A ideia foi trazer à roda as ideias e os autores de dois livros publicados recentemente sobre o tema: André Singer, Cibele Rizek e Isabel Loureiro, que assinam artigos em As contradições do lulismo (Boitempo, 2016); e Fabio Luis Barbosa dos Santos, responsável pelo ensaio Além do PT: A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana, cuja primeira edição lançamos em novembro de 2016, mas que já tem uma segunda, lançada em março.

A íntegra do debate pode ser ouvida aqui:

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