Jornal inglês elogia livro sobre
‘uberização’ publicado no Brasil

Por Steven Poole
The Guardian

Tradução
João Peres

“Compartilhamento” é um dos valores retóricos mais abusados em nossos tempos. Primeiro tivemos o eufemismo do “compartilhamento de arquivos” para reproduzir e oferecer cópias de álbuns ou filmes na internet. Bem, você não pode compartilhar o que não é seu, para início de conversa. (Se eu pego dinheiro de um banco e dou a meus amigos, eu posso alegar que era apenas “compartilhamento de dinheiro”, mas é mais provável que eu seja condenado por roubo.)

Agora nós supostamente temos uma “economia do compartilhamento”, cujos exemplos mais mencionados são duas empresas — Uber e Airbnb — que são corporações gigantes buscando o poder do monopólio e brigando com governos ao redor do mundo. O que exatamente está sendo compartilhado aqui, e em benefício de quem?

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As primeiras organizações da “economia do compartilhamento” permitiam aos integrantes dividir coisas como carros e ferramentas, em lugar de apenas ter a propriedade sobre um objeto que fica ocioso a maior parte do tempo. Em essência, esses grupos eram de “iguais-para-iguais”: auto-organizados, sem uma autoridade central. Uma vez que uma companhia lucrativa é estabelecida para lidar com a logística, no entanto, a noção de “compartilhar” já foi jogada pela janela.

Apesar disso, remanesce aquele núcleo de uma ideia comunitária da origem do Airbnb, fundado por dois trabalhadores da tecnologia que alugaram colchões de ar na sala para uma conferência, e pensaram que isso poderia se transformar em um negócio. O marketing do Airbnb ainda joga sobre os sentimentos de sociabilidade aventureira e virtuosa erguida sobre a ideia de um “visitante” ficando em um espaço vazio da casa do “anfitrião”.

Porém, como indica o livro fantasticamente bem argumentado de Tom Slee, o grande negócio do Airbnb agora são aluguéis de imóveis inteiros: flats ou casas autônomas. Inquilinos em cidades como San Francisco estão sendo expulsos por proprietários que enxergam mais lucro nas estadias de curto prazo do Airbnb. Tom Slee realiza uma pesquisa de dados muito inteligente e descobre que o apartamento mais caro do Airbnb em Roma é um de muitos imóveis de luxo alugados por um empreendedor de tecnologia dos Estados Unidos, que os comprou com os lucros da venda de sua última empresa de software.

A ideia de “compartilhamento” é tão sem sentido aqui quanto no conceito da Uber de “viagens compartilhadas”, que soa tão ecologicamente preocupado quanto “compartilhamento de carros”, mas que em verdade descreve um serviço de táxi. Nem qualquer “compartilhamento” vai ocorrer com companhias como TaskRabbit, na qual pessoas se oferecem para cumprir as tarefas bizarras de outras pessoas.

O que explicitamente não é compartilhado por qualquer dos garotos-propaganda da “economia do compartilhamento” é a responsabilidade. Quando alguma coisa sai terrivelmente errada com uma transação no Airbnb ou na Uber, as empresas simplesmente dizem: “Não fui eu.” (A megacorporação supostamente não é compradora nem vendedora, mas uma inocente mediadora.)

Tom Slee tem um capítulo brilhante sobre como os “sistemas de reputação” baseados em classificações por estrelas simplesmente não funcionam porque as pessoas se sentem mal em dar notas baixas mesmo quando merecido, de modo que tudo fica entre quatro e cinco estrelas. Em vez disso, a confiança tem de ser imposta por uma vigilância autoritária e uma disciplina imposta pela própria companhia.

Ainda assim, as empresas insistem que não estão provendo um serviço; as páginas e os aplicativos são uma simples “plataforma de comunicação” para conectar fornecedores e consumidores. (Mesmo que elas explorem os fornecedores, como a Uber tomando parcelas crescentes das remunerações, que chegam a 30% da tarifa). Nem, notoriamente, a Uber considera seus motoristas como empregados, com quem deveriam assumir responsabilidades: eles são, em vez disso, “autônomos”.

O que todas essas estruturas artificiais significam para Uber, Airbnb e companhia é uma tentativa de burlar leis construídas ao longo de décadas precisamente para proteger inquilinos e proprietários, taxistas e passageiros. Impressionados pela popularidade e pelo poder financeiro, muitos legisladores se curvam para acomodá-los. A Califórnia aprovou uma lei especial que reconhece a Uber e seus competidores como “Companhias de Redes de Transporte”. Diante das queixas dos motoristas de táxi de Londres, a alta corte definiu no ano passado que o smartphone de um motorista da Uber — que faz a medição da quilometragem e o cálculo da tarifa através de sinais de GPS e internet — não é um taxímetro.

Isso pode parecer a alguns como uma recusa perversamente criativa para fazer valer a letra fria da lei. A definição integral de “taxímetro” na legislação londrina de 1988 é: “Nessa seção, taxímetro significa um dispositivo para calcular a tarifa a ser cobrada em razão de qualquer deslocamento, tendo como referência a distância viajada ou o tempo perdido desde o começo do deslocamento (ou uma combinação de ambos).”

Nada disso diz que lucrativas operações pseudocompartilhadas não podem ser estabelecidas em benefício de todos. A introdução em Paris de um esquema de empréstimo de bicicletas em 2007 foi um grande boom para os residentes, e agora a cidade tem o Autolib, uma operação exitosa similar para carros elétricos. Muitos de nós continuarão a usar a Uber, também. Criticá-la não é tarefa solitária de pessoas que são admiradoras pouco fundamentadas das altas tarifas de táxi de Londres.

Tom Slee defende, com razão, que seus argumentos não dependem de ele ou os leitores realmente usarem esses serviços. Em nossos tempos, fomos deseducados a acreditar que a escolha do consumidor é todo-poderosa, mas a ideia de que consumidores exercendo o direito soberano de escolha sempre levarão às melhores soluções é obviamente de interesse de corporações que buscam evitar a regulação oficial. Então, o próprio autor usa o Airbnb*, mas cobra das autoridades municipais uma regulação mais rigorosa; e não há contradição entre tomar um Uber para casa depois de uma festa e desejar que a empresa se comporte melhor. Apenas a lei pode forçar a isso.

(*) Há um pequeno erro do autor da resenha. Tom Slee deixa claro que não usa Airbnb, mas também enfatiza que a ideia do livro não é fazer o consumidor se sentir culpado por uma escolha individual.

Um olhar ‘equilibrado’ sobre Cuba

Na segunda-feira, 16 de outubro, a Editora Elefante lança seu décimo-sexto título retornando ao tema da América Latina, que marcou o início de suas publicações. Cuba no século XXI: dilemas da revolução, organizado por Fabio Luis Barbosa dos Santos, Joana Salém Vasconcelos e Fabiana Rita Dessoti, traz 22 artigos que procuram responder a perguntas-chave sobre a vida, a política, a economia e a sociedade cubanas, motivos de intensos debates quando se trata da ilha:

Por que a Revolução Cubana não caiu depois da ruína da União Soviética e dos regimes do Leste Europeu? Como a juventude se relaciona com a revolução? Cuba é uma democracia? Há censura na ilha? Os cubanos têm acesso e podem navegar livremente pela internet? Há machismo, homofobia e racismo no úncio país socialista das Américas? O empreendedorismo está crescendo em Cuba? Para onde levará as tentativas de reaproximação com os Estados Unidos? Há desemprego na ilha?

Trata-se de um livro escrito por pesquisadores que simpatizam com as conquistas do movimento liderado por Fidel Castro em 1959, mas que nem por isso fecham os olhos para os problemas do processo. “Este é o melhor texto sobre Cuba ao alcance do leitor brasileiro na virada dos anos 2017-2018”, escreve Frei Betto, no prefácio, “leitura obrigatória para quem, frente a Cuba, reage com equilíbrio, sem o reacionarismo anticomunista dos que veneram o capitalismo nem o esquerdismo infantil e dogmático de quem considera a Revolução Cubana o paraíso na Terra.”

Cuba no século XXI: dilemas da revolução é resultado de uma parceria entre Editora Elefante e o projeto de extensão “Realidade Latino-Americana” da Universidade Federal de São Paulo, que reuniu 33 investigadores de várias universidades brasileiras (Unifesp, USP, Unicamp, Unirio, UFRR e Unila) e de diferentes áreas do conhecimento (Relações Internacionais, História, Economia) em estudos coletivos, leituras e palestras, ocorridas no Memorial da América Latina, em São Paulo, ao longo de 2016. A jornada culminou com uma viagem à ilha em dezembro de 2016, para pesquisas de campo e entrevistas com pesquisadores, movimentos, dirigentes políticos e instituições especializadas.

Os autores formam um grupo politicamente diverso, mas que encontra pontos em comum na defesa do pensamento crítico, no compromisso com a transformação social e na rejeição aos dogmatismos. A partir desta perspectiva, entregam ao leitor um material de formação política e histórica, visando estimular o debate e a reflexão fraterna, em sintonia com quem encontra na experiência cubana um ponto inescapável para o estudo da América Latina. Não pretendem apresentar a Revolução Cubana como “modelo” ou “contra-modelo”, mas sim analisar as lições que sua história pode nos oferecer para o presente e o futuro.

CUBA NO SÉCULO XXI
Organização: Fabio Luis Barbosa dos Santos, Joana Salém & Fabiana Dessotti
Fotos: Matheus Paschoal & Ellen Elsie
Prefácio: Frei Betto
Capa: Ana Carolina Soman
Projeto gráfico: Bianca Oliveira
Editora Elefante
Páginas: 256
Publicação: Outubro de 2017
Dimensões: 13,7 x 21​ cm

LANÇAMENTO
Dia 16/10, às 19h
Debate com Frei Betto
Memorial da América Latina
Auditório da Biblioteca
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664
Barra Funda
São Paulo-SP
Entrada franca

Uber, Airbnb, TaskRabbit
e o lado menos cool dos apps

Uber, Airbnb e outros aplicativos da chamada Economia do Compartilhamento juram de pés juntos que as novas tecnologias estão nos levando a um mundo incrível. Vizinhos ajudando vizinhos, cidades onde todos se respeitam, sistemas de transporte eficientes, o retorno da confiança na boa-fé dos seres humanos, tudo isso possibilitado por um smartphone com conexão à internet: a “revolução” na palma da mão.

Nesses novos dias, as alegrias serão de todos, é só querer! No horizonte, um arco-íris em fim de tarde (temperatura agradável, 26 graus) e, ao pé dele, Dona Benta nos aguarda com café — ou chá, para quem não curte cafeína —, biscoitos de polvilho e um bolo de chocolate, talvez de cenoura. Atrás da bela imagem construída pelo marketing, podemos (não) ver direitos trabalhistas sonegados, empresas que não se responsabilizam pelos danos decorrentes do uso de suas tecnologias, e um movimento massivo de enfraquecimento das últimas instâncias democráticas.

“A Economia do Compartilhamento é um movimento: um movimento pela desregulação”, escreve Tom Slee, autor de nosso porretíssimo lançamento Uberização: a nova onda do trabalho precarizado. “Grandes instituições financeiras e fundos influentes de capital de risco estão vislumbrando uma oportunidade para desafiar as regras formuladas pelos governos municipais democráticos ao redor do mundo. E para remodelar as cidades de acordo com seus interesses. Não se trata de construir uma alternativa à economia de mercado dirigida por corporações. Trata-se de expandir o livre mercado para novas áreas de nossas vidas.”

Tendemos a olhar para Uber e Airbnb como empresas que estão chegando para “quebrar paradigmas” e desbancar negócios caducos, elitistas e meio mafiosos, como táxis e hotéis. São cool, high tech, ajudam a galera a fazer uma grana a mais. Transformam problemas concretos em facilidades digitais. Quem não poderia gostar disso?

Depois de ler nosso lançamento de outubro, que chega ao público brasileiro com prefácio de Ricardo Abramovay, você talvez fique decepcionado. Não conosco, pô, porque demos duro para colocar mais esse livro no mundo. Mas com essas empresas tão incríveis.

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Na real, foi um sentimento de profunda traição que levou Slee a escrever a respeito. Britânico que vive no Canadá e trabalha na indústria de software, com pós-doutorados em Oxford e Waterloo, ele ficou muito puto quando viu bandeiras legítimas da sociedade sendo apropriadas pelos criadores da Economia do Compartilhamento, um conjunto de empresas do Vale do Silício bancadas pela alta grana da nata da especulação do mercado financeiro. Obcecado, transformou-se num dos grandes estudiosos do assunto, levantando dados inéditos que ajudaram a desmontar o discurso de altruísmo e baixo impacto desses negócios — e a ver que o cool é, na verdade, um cu.

“O que havia começado como um apelo ao comunitário, a conexões interpessoais, a sustentabilidade, a compartilhamento, tornou-se o playground de bilionários, de Wall Street e de capitalistas de risco, expandindo seus valores de livre mercado cada vez mais fundo em nossas vidas.” O desenrolar das atividades dessas empresas pelo mundo é autoexplicativo, e Slee traz centenas de exemplos ocorridos com Uber e Airbnb na América do Norte e na Europa para embasar seus argumentos.

O título original do livro, What’s Yours is Mine [O que é seu é meu], reflete essa decepção. Trata-se de uma resposta ao generoso slogan fundador da Economia do Compartilhamento, “o que é meu é seu”. A promessa era de que, daqui por diante, graças aos maravilhosos programadores do Vale do Silício, todos privilegiaríamos o dividir em lugar do possuir. Esses aplicativos “nos abririam” a possibilidade de estar em contato uns com os outros, com uma mediação segura garantida por uma tecnologia infalível.

Nós compartilhamos nossas forças de trabalho, nossos dados, nosso tempo, nosso dinheiro. E em troca o que recebemos até agora foi muito pouco, quase nada. Claro que nós podemos encontrar por aí a história daquele motorista que saiu do buraco financeiro dirigindo para a Uber, ou de um anfitrião que levantou uns trocos no Airbnb — e assim conseguiu pagar o aluguel. Enquanto isso, CEOs amealham bilhões de dólares, armam exércitos de lobistas e influenciam governos mundo afora.

Como ressalta Slee, precisamos nos perguntar sobre as histórias que não são mostradas por essas empresas: aquelas que não entram no marketing agressivo que nos assalta nas ruas e nas redes sociais. A Uber alavanca seu controverso modelo de negócios empurrando aos motoristas uma série de responsabilidades — seguro, manutenção, combustível, segurança — e deixando de atender às exigências e arrecadar os impostos que os táxis têm de pagar às cidades. Nos últimos meses, surgiram dezenas de casos de violência relatados no Brasil envolvendo a plataforma, vitimando passageiros e motoristas. Nessas horas, o que a empresa faz é tirar o corpo fora: chamam seus motoristas ou anfitriões de “parceiros” e alegam que são meras mediadoras do serviço.

“A promessa de um caminho mais humano para o mundo corporativo é, pelo contrário, uma forma mais agressiva de capitalismo: desregulação, novas formas de consumismo e um novo mundo de trabalho precário”, escreve Slee, para quem a receita de sucesso desses fenômenos do capitalismo tardio é simples: os riscos ficam com todos nós, as recompensas ficam todas com eles, e os ricaços de Wall Street multiplicam suas fortunas injetando toneladas de dinheiro em aplicativos que estão definindo novos modelos de trabalho que em breve serão adotados por toda e qualquer empresa para maximizar os lucros de seus proprietários.

Em um mundo que bate recordes de desigualdade, nós achamos fundamental debater aquilo que buscam nos apresentar como um futuro cool e inevitável. A recente imposição de uma desregulação trabalhista no Brasil, por sinal, não pode ser vista como desconectada de toda essa movimentação global. Assim, lançar Uberização: a nova onda do trabalho precarizado é um prazer. Mas também um sentimento de que estamos, dentro de nossas limitações sempre evidentes, cumprindo a missão de jogar luzes sobre um debate central — e propositalmente ofuscado.

 

LANÇAMENTO

24 de outubro de 2017, às 19h
Casa do Povo
Rua Três Rios, 252, Bom Retiro, São Paulo-SP
Debate:
Ricardo Abramovay, USP
Eliane Lucina, procuradora do Trabalho
Ludmila Costhek Abilio, Unicamp
Mediação: João Peres

FICHA TÉCNICA

Uberização: a nova onda do trabalho precarizado
Autor: Tom Slee
Tradução: João Peres
Prefácio: Ricardo Abramovay
Capa: Isabela Sanches
Lançamento: outubro 2017
Páginas: 320
Dimensões: 13,7 x 21 cm
Preço: R$ 40,00

SOBRE O AUTOR

Tom Slee escreve cética e criticamente sobre o crescimento de novas tecnologias e plataformas globais, com atenção especial à Economia do Compartilhamento. Nos últimos anos, tornou-se um dos principais estudiosos dos problemas provocados pelas corporações do Vale do Silício, na Califórnia. Tem um phd em química teórica e pós-doutorados nas universidades de Oxford e Waterloo. Nasceu na Grã-Bretanha, em 1959, mas reside no Canadá, e tem uma longa carreira na indústria de software. Além de Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, é autor de No One Makes You Shop at Wal-Mart [Ninguém te obriga a comprar no Walmart, editora Between the Lines, 2006], uma investigação sobre escolhas individuais que foi adotada em cursos universitários de economia, sociologia e filosofia. Mantém o site http://tomslee.net/.

Um eterno 7×1 para além do futebol

Se o placar de 7×1 na Copa de 2014 foi inesperado para uma partida entre Brasil e Alemanha, nas relações econômicas bilaterais essa disparidade é a regra. Historicamente, a balança comercial entre os dois países é uma goleada em favor dos alemães. E o esquema de jogo é conhecido: enquanto compramos máquinas e produtos industrializados, vendemos matérias-primas.

Os negócios começaram com Dom Pedro II, que ainda no século XIX importou as primeiras armas alemãs para o Brasil, e se intensificaram durante o “milagre econômico”, promovido pelo regime militar à base de repressão, arrocho salarial e endividamento público. Hoje, a Grande São Paulo é a região que mais concentra empresas alemãs fora da Europa.

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Contudo, esse investimento internacional — que muita gente vê como sinônimo de progresso — guarda uma face pouco conhecida, permeada por superexploração do trabalho, violações aos direitos humanos, destruição ambiental, influência política e lucros estratosféricos. É o que demonstra Christian Russau em Empresas alemãs no Brasil: o 7×1 na economia, publicado pela Fundação Rosa Luxemburgo e pela ONG medico internacional em parceria com a Editora Elefante e a Autonomia Literária.

Munido de farta documentação, o jornalista revela que empresas alemãs apoiaram a prisão e a tortura de sindicalistas durante a ditadura; faturaram com os riscos decorrentes da construção de grandes barragens na Amazônia; se beneficiaram da extração de minério de ferro nas jazidas do país; se envolveram em casos de corrupção; e colaboraram para a poluição de rios e solos, e para a intoxicação de trabalhadores brasileiros.

A investigação de Christian Russau demonstra que, se as mazelas da “relação especial” entre Brasil e Alemanha se limitassem a um jogo humilhante no estádio do Mineirão, o cenário não seria tão trágico. O problema são todas as demais partidas que os brasileiros — não os atletas, mas a população mais vulnerável e desassistida — enfrentam todos dias contra gigantes transnacionais que, com o apoio das elites locais, entram em campo sem respeitar as regras, e muitas vezes com o juiz comprado.

 

LANÇAMENTO

Empresas alemãs no Brasil: o 7×1 na economia
Christian Russau

Dia 14 setembro 2017, às 19h
Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga, São Paulo-SP

Debate
Christian Russau, autor
Lucio Bellentani, ex-metalúrgico da Volks
Mediação: Verena Glass, Fundação Rosa Luxemburgo

Branco vivo,
um olhar para o Brasil

Nosso décimo-quarto título é uma belezura de livro. Pra chegar até o lançamento, dia de beijos, abraços e autógrafos, tivemos que relar muito. O casamento de Branco vivo com a Editora Elefante começou há muito tempo: mais ou menos uns cinco anos, quando tomamos uma cerveja com Antonio Lino para conversar sobre assuntos de que não nos lembramos mais.

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Os tempos passaram, cada um para o seu lado, e nos reencontramos no início de 2017. Lino já tinha um livro publicado, o Encaramujado, nós já havíamos colocado o mundo uns onze títulos. Nos gostamos. Então reunimos os contos não ficcionais do autor, preparados e revisados por Tadeu Breda, aos talentos gráficos de Ana Carol Soman e Bianca Oliveira, responsáveis pelo projeto gráfico e pelo tratamento das fotografias — sim, as fotografias de Araquém Alcântara, que gentil e generosamente aderiu ao projeto com o fruto de seu olhar privilegiado sobre o Brasil, as brasilidades e os brasileiros.

Conversas, ajustes, testes: e mais um livro ganhou o mundo. Estamos felizes. Só temos a agradecer. A manada cresce, bonita, cada vez mais bonita. O caminho ensina. Vamoquevamo!

Livro descreve os brasis e os brasileiros
encontrados pelos doutores do Mais Médicos

Ao longo de um ano, o escritor Antonio Lino acompanhou o trabalho de médicos e médicas em aldeias indígenas, comunidades quilombolas, assentamentos rurais e periferias urbanas. A proposta era conhecer de perto os brasis, os brasileiros e as brasilidades encontrados por sete doutoras e cinco doutores do Programa Mais Médicos.

O resultado destas idas e vindas pelos cafundós do país é o livro Branco vivo, que será lançado pela Editora Elefante no dia 26 de agosto, em São Paulo. Além das nove histórias escritas por Lino, a publicação traz um ensaio fotográfico do renomado intérprete do Brasil Araquém Alcântara.

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Num itinerário que passou pelas cinco regiões do país, foram escolhidas nove localidades que demonstrassem a diversidade nacional: das aldeias xikrin, no Pará, até os pampas gaúchos, passando pelo sertão do Sergipe, Vale do Jequitinhonha e periferias de Manaus e São Paulo. Na maioria cubanos, os doutores e doutoras retratados no livro participaram do Mais Médicos entre 2013 e 2017.

Tomando a saúde pública como ponto de partida, Branco vivo lança um olhar panorâmico para as realidades locais, registrando histórias de vida que extrapolam os prontuários clínicos. Pelos textos de Antonio Lino e pelas fotos de Araquém Alcântara, o livro oferece um ponto de vista sensível e profundo sobre gentes e lugares que o Brasil esconde — ou revela.

 

LANÇAMENTO

Data: 26 de agosto, sábado, às 15h
Local: Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga, São Paulo-SP
Bate-papo com Antonio Lino e Araquém Alcântara, comes, bebes, abraços e beijos.

 

BRANCO VIVO

Autor: Antonio Lino
Fotos: Araquém Alcântara
Projeto Gráfico: Ana Carolina Soman
Editora Elefante
Páginas: 252
Publicação: Agosto de 2017
ISBN: 978-85-93115-04-2
Dimensões: 14 x 21​ cm

 

SOBRE OS AUTORES 

ANTONIO LINO é escritor. Nasceu em São Paulo, em 1978. Trabalha há 15 anos como redator independente para organizações da sociedade civil e para o governo, escrevendo sobre temas como políticas públicas de juventude, meio ambiente e cultura popular. Durante um ano e três meses, morou numa Kombi e percorreu mais de trinta mil quilômetros pelo Brasil. Em 2011, publicou Encaramujado, livro que reúne suas crônicas de viagem. Atualmente, depois de uma temporada de dez meses na África, o autor prepara um romance sobre a história da Libéria.

ARAQUÉM ALCÂNTARA nasceu em Florianópolis em 1951 e é um dos mais importantes fotógrafos em atuação no país. Desde 1970, se dedica integralmente à documentação da natureza e do povo brasileiro. É autor de mais de quarenta livros, como Terra Brasil (1997), Brasileiros (2004), Amazônia (2005), Bichos do Brasil (2008) e Sertão sem fim (2009). Premiado nacional e internacionalmente, já teve mais de setenta exposições individuais. Priorizando a fotografia como expressão plástica e instrumento de transformação social, é um dos mais combativos artistas em defesa do patrimônio natural do país.

“A caça às bruxas nunca terminou,
e as mulheres nunca deixaram de resistir”

Débora Prado
Agência Patrícia Galvão

A feminista e historiadora italiana Silvia Federici esteve recentemente no Brasil, debatendo as formas particulares de discriminação e exploração das mulheres no capitalismo, as lutas feministas contemporâneas e a construção de novos paradigmas – mais coletivos – de sociedade.

A visita aconteceu entre os dias 16 e 23 de julho, motivada pelo lançamento da versão impressa de seu livro Calibã e a Bruxa – mulheres, corpo e acumulação primitiva, traduzido pelo Coletivo Sycorax e publicado pela Editora Elefante, com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. Em atividades realizadas no centro e também nas periferias de São Paulo e do Rio de Janeiro, Silvia Federici, de 75 anos, fala de sua obra e relaciona a pesquisa histórica que fez para a publicação com os temas atuais da condição das mulheres.

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Silvia Federici define o Calibã e a Bruxa como um livro histórico e ao mesmo tempo político. “Ele foi gerado em um contexto político específico, que tem a ver com meu ativismo nos anos 1960 e com a busca pelas causas das formas específicas de opressão que as mulheres sofrem no capitalismo”, explicou durante uma das atividades em São Paulo, que reuniu dezenas de pessoas no centro da cidade.

Na obra, Silvia se debruça sobre essas formas particulares de discriminação e exploração que atingem as mulheres, fazendo um resgate histórico dos processos que construíram a hierarquização dos trabalhos por meio do salário e a invisibilidade do trabalho reprodutivo, relegado à força como uma tarefa a ser executada exclusivamente por mulheres de forma não remunerada na transição do feudalismo para o capitalismo na Europa.

capa do livro Caliba e a bruxaO resgate da autora evidencia que esses padrões, que colocam a mulher em um lugar subordinado na sociedade, foram construídos artificialmente e com o emprego de violência em larga escala no ao longo de 500 anos de vigência do capitalismo. Por isso, encontram-se hoje em dia bastante naturalizados – de onde emerge a importância da pesquisa histórica e das críticas realizadas pela autora, não só para demonstrar que tais padrões de feminino nada têm de natural, como também para reforçar que podem ser desconstruídos e transformados.

Por isso, nas atividades de que participou, a historiadora Silvia Federici buscou retomar o caminho percorrido em seu livro para debater formas atuais de resistência, lembrando: “a caça às bruxas nunca terminou de fato, mas as as mulheres também nunca deixaram de resistir”.

Violência contra as mulheres no desenvolvimento do capitalismo

Foto da autora e feminista italiana Silvia Federici em Sao PauloA transição para o capitalismo na Europa, explica a autora, foi marcada por um processo altamente violento, que incluiu a colonização dos continentes americano e africano e a escravidão de seus povos. O emprego da violência foi a forma pela qual o novo sistema produtivo e social mudou a forma como os indivíduos se relacionavam com o mundo – desde seus próprios corpos, que deveriam agora se tonar máquinas disciplinadas para o trabalho e passíveis de exploração, até a forma como as pessoas se organizavam, impondo processos de individualização da vida.

O que poucos livros de crítica ao capitalismo contam, porém, é a centralidade da violência contra as mulheres nessa etapa histórica. Para compreender o desenvolvimento do controle do Estado sobre o corpo das mulheres e sobre os processos reprodutivos é fundamental, segundo a autora, retomar o fenômeno da caça às bruxas no século 18.

“Quando você olha quem eram essas mulheres que sofreram acusações fantasiosas, como ‘a de dormir com o diabo’, para serem condenadas a ser queimada viva e compara a posição dessas mulheres com as exigências do desenvolvimento econômico, você compreende este fenômeno”, explica Silvia, resgatando as formas como a violência foi empregada desde a Inquisição para impor a desvalorização do trabalho das mulheres e a separação entre trabalho produtivo e aquele de reprodução da vida e da capacidade das pessoas de trabalharem.

Entre as mulheres resgatadas em sua pesquisa estavam, por exemplo, aquelas que tinham poder social na comunidade – como as curandeiras –, as que exerciam sua sexualidade livremente e aquelas mais envelhecidas e pobres, que viviam de doações da comunidade justamente no momento de instauração de uma nova ética e disciplina social, em que a caridade era mal vista por supostamente minar a capacidade de as pessoas trabalharem.

“Milhares de mulheres foram presas, torturadas e queimadas vivas no exato momento em que o capitalismo está decolando, e isso não está registrado nos livros socialistas – essa é uma enorme omissão”, apontou, realizando um contraponto ao legado marxista.

Demonização das mulheres e colonização

Ao retomar essa história invisibilizada no capitalismo e apagada nas teorias críticas a ele, Silvia Federici evidencia que a perseguição às mulheres na Europa e aquela empregada nas colônias se retroalimentavam e usavam a ‘demonização’ como recurso para ‘legitimar’ as mais extremas violências, violações e formas de exploração. “Essa não é uma história do passado, mas do presente”, ressaltou a feminista italiana, citando as formas de violência contra as mulheres, as pessoas negras, indígenas e que atuam em movimentos de resistência e que estiveram presentes desde esta época aos dias atuais.

No debate sobre seu livro em São Paulo, a atualidade do violento legado colonialista no Brasil foi aprofundada pelas mulheres do Coletivo Sycorax e pela professora do Departamento de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia, Maíra Kubik Mano, convidadas a debater a obra com a autora.

O genocídio da população negra nas periferias e favelas, as violências contra as mulheres e sua expressão fatal nos feminicídios, as medidas de austeridade econômica e social, as mudanças conservadoras na legislação, o fundamentalismo religioso e a perseguição aos que são considerados divergentes são elementos que unem o contexto de transição capitalista da Europa em outros séculos, retrato por Silvia em sua pesquisa, com o momento vivido no Brasil hoje, segundo as debatedoras.

“Toda vez que o poder se vê diante de uma crise importante no capitalismo, ele tem que fortalecer suas fundações”, reagiu Silvia Federici. Apesar do reconhecimento do papel estrutural da violência para frear forças de mudança, a mensagem de resistência foi a que a feminista mais quis ressaltar: “é preciso empregar toda essa violência, porque a força de resistência é permanente e cresce”, destacou Silvia Federici.

Para a feminista italiana, as resistências passam necessariamente pela reorganização do trabalho reprodutivo e pela reconstrução do tecido social a partir de formas mais coletivas e autônomas de organização. “Não existe uma forma ‘ideal’ ou ‘pura’ de resistência. Estamos todos rodeados de estruturas capitalistas. Mas a força da comunidade é necessária para interagir com o público e para resistir”, explicou, reforçando que as mulheres seguirão protagonizando movimentos por transformações necessárias.

Debate marca relançamento de 
Corumbiara, caso enterrado

O que já era ruim ficou muito pior. E ainda vai piorar.

Há dois anos, quando lançamos Corumbiara, caso enterrado, sabíamos que a situação de violência no campo brasileiro não estava resolvida. Muitas pessoas continuavam sendo assassinadas, o poder de resposta do Estado era baixo e enviesado, a bancada ruralista dava as cartas em Brasília. Mas não imaginávamos que grandes chacinas voltassem a ocorrer. Tampouco imaginássemos que haveria um golpe de Estado no Brasil do século 21. Subestimamos nossa capacidade de produzir barbárie.

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Aqui estamos, com 51 mortes no campo apenas nos seis primeiros meses de 2017, a caminho do recorde neste século. E agora? A recente chacina de Pau d’Arco, no Pará, nos remonta ao Brasil dos anos 1990, marcado pelos massacres de Corumbiara e de Eldorado do Carajás. Naquele momento, pelo menos, havia um governo com alguma legitimidade, e que podia ser cobrado por setores da população porque mantinha laços com o mundo real. Agora, não.

O Ministério da Justiça virou uma banca de advocacia do presidente golpista, alçado ao poder pela força ruralista e financista e lá mantido às custas de muita negociata à luz do dia. Não há um mísero setor da sociedade com interlocução com o governo, a menos que a gente considere que o mercado financeiro é a sociedade.

Nessa angústia, decidimos nos juntar ao De Olho nos Ruralistas na próxima segunda-feira em São Paulo para reunir uma turma de peso em busca de discutir as origens do problemas e suas possíveis soluções. E também para relançar Corumbiara, caso enterrado, de João Peres. O livro esgotou-se no começo deste ano, mas seu ciclo ainda não estava cumprido: a obra precisa continuar circulando para ampliar o debate sobre como o Brasil do presente é o Brasil do passado.

Nesses dois anos vertiginosos, o trabalho ganhou o segundo lugar no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, em 2015, e foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2016. As láureas são importantes, claro, mas o mais importante para nós é a grande rede de solidariedade que se formou para discutir o tema e fazer com que o trabalho chegasse aos cantinhos de Rondônia, palco da tragédia de 1995.

Olha só o pessoal que vai debater a violência no campo:

Alceu Castilho, coordenador do De Olho nos Ruralistas e autor de Partido da terra.
Kátia Brasil, Amazônia Real (por Skype, direto de Manaus).
Carolina Motoki, Repórter Brasil.
Padre Antônio Naves, Comissão Pastoral da Terra.
Josineide Costa Sousa, Movimento dos Pequenos Agricultores.

Mediação:

João Peres, autor de Corumbiara, caso enterrado.

 

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Serviço:
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Debate: Os crimes no campo explodem novamente. E agora?
Data: 31 de julho de 2017
Horário: 19h
Local: Ateliê do Gervásio
Rua Conselheiro Ramalho, 945
Bixiga, São Paulo-SP
Entrada franca!

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A descoberta de que pessoas atrás das grades
também são… pessoas

Por Bruna Escaleira
Revista Azmina

 

O muro de concreto que separa a prisão do resto da cidade nem é tão alto. Mas as barreiras físicas e simbólicas que vão surgindo no caminho de Natalia até seu local de trabalho impõem uma separação irrevogável entre o fora e o dentro da prisão. “Um lugar que existe não em prol dos que lá estão, mas em prol dos que lá não se encontram”. Um espaço de constante vigilância, “guardando quem não pode sair, como histórias que tivessem de permanecer caladas, abafadas pelas portas todas”.

Funcionária do Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário (CHSP) desde 2012, a psiquiatra paulistana enfrentou um longo processo de adaptação e percepção de uma realidade tão diferente da sua. A chave para lidar com aquela estrutura dura, incômoda e suas regras absurdas, no entanto, não estava nas fechaduras das inúmeras portas e grades do sistema prisional. Estava nas pessoas:

“Amenizado o receio inicial de que eu pudesse ser agredida fisicamente, desrespeitada sexualmente, ter minha vida imediatamente ou fora dali ameaçada, compreendo agora, passados quatro anos, haver vivido naquele começo um certo encantamento com a prisão, por mais absurdo que isso soe. Depois de perceber que meus medos não se configuravam como perigos constantes e iminentes, houve espaço para este sentimento aparentemente deslocado, que consistia na descoberta óbvia e simples, mas grande, de que aquelas pessoas eram pessoas.” (Desterros, p. 25)

Com o objetivo de compor sua dissertação de mestrado em Psicologia Clínica na USP, Natalia começou a escrever relatos sobre seus atendimentos e a colher depoimentos de detentas e detentos internados no CHSP. Porém, assim como a linguagem da “rua” (como quem está dentro da prisão chama tudo e todos que estão fora) não é suficiente para interpretar as nuances das gírias e códigos que circulam por entre as grades, o relato médico parecia não conseguir abarcar todas as dimensões humanas daquelas histórias. Foi assim que o olhar sensível de Natalia transbordou e se tornou literatura.

Desterros: histórias de um hospital-prisão mistura as percepções da autora a histórias de pessoas muito diversas, exceto pelo fato de estarem ou terem passado por um período de encarceramento. Uma série de relatos curtos intercala-se ao desenvolvimento mais longo de uma história em especial: a da angolana Donamingo. Vítima de um esquema de tráfico internacional de drogas, ela deixou a África para vender sapatos no Brasil e descobriu-se presa em uma terra tão distante da sua ao mesmo tempo em que se descobria grávida do segundo filho.

“Sentada diante de mim, na lanchonete de uma galeria no centro de São Paulo, Donamingo rememora seus últimos dias em Luanda tentando emprestar a eles a tristeza que lhes caberia se soubesse o que estava por vir.

Mas não consegue.

É capaz, no máximo, de se surpreender com a ingenuidade de quem não temia nada, e a alegria que relembra é o avesso opaco da tristeza atual, uma sem acesso à outra. Dois mundos incomunicáveis, feitos de passado e futuro que não se encontram, e no entanto ela estava ali, na minha frente, personificação do impossível.” (Desterros, p. 29)

Em uma edição tão criativa e cuidadosa quanto a escrita de Natalia, com as costuras da encadernação à mostra, a independente Editora Elefante nos presenteia com mais um título extremamente pertinente e necessário para o entendimento da realidade em que vivemos — quem assina a capa, aliás, é a designer Karen Ka, que já falou conosco sobre seu projeto Lambe Buceta. Fique agora com algumas palavras da própria autora em nossa entrevista:

AzMina: O que te motivou a escrever o livro?

Natalia Timerman: Quando comecei a trabalhar como psiquiatra no Centro CHSP, eu tinha acabado de entrar no mestrado com um projeto sobre pacientes borderline. Nas primeiras semanas de trabalho, aquele me pareceu um lugar tão surpreendente e desafiador que mudei todo o projeto. Minha dissertação acabou sendo feita a partir do meu olhar ao hospital penitenciário e da leitura de Hannah Arendt. O resultado, chamado A liberdade segundo sua privação: (im)possibilidades do homem num hospital penitenciário, foi o embrião do livro Desterros.

São tantas as questões que a prisão suscita, e tantas outras as que resultam do encontro entre um hospital e uma prisão, duas instituições em si complexas, que dá mesmo vontade de escrever. Nesses anos no CHSP, já escutei de diversos profissionais que a vivência ali dava um livro. Um só não, vários, assim como as histórias que se passam ali dentro. Tive essa sensação ao terminar o livro: eu poderia seguir escrevendo infinitamente, mas, em algum momento, precisava de um ponto final.

AM: Você já tinha alguma experiência com escrita literária antes dessa obra? Nos conte um pouco da sua relação com a literatura.

NT: Desde cedo gostava de ler e de escrever. Meu sonho de criança era ser escritora e, apesar de meu percurso profissional a princípio não me aproximar da literatura, os livros sempre estiveram por perto e foram um norte e um refúgio. Escrever e ler sempre foram uma forma de me relacionar com o mundo, ao mesmo tempo necessária e prazerosa. Eu tinha cadernos e cadernos preenchidos como diários e escrevia alguns contos; cheguei também a começar um romance. Mas era como se tivesse que, a cada vez, tomar a decisão de escrever, porque isso não cabia no meu dia a dia, e essa decisão não durava.

Eu costumo dizer que dei uma grande volta para chegar até esse lugar de escrita, que passou pela medicina, pela psiquiatria e pela psicologia (e também um pouco pela faculdade de Letras, que cheguei a começar durante o curso de Medicina, mas que não consegui terminar). Hoje vejo que foi uma volta importante até mesmo para a maneira como se dá meu escrever. O Desterros é exemplo disso.

AM: Como se deu a escolha do formato do livro e dos relatos?

NT: Já na dissertação, a descrição do hospital-prisão e os relatos foram feitos a partir do meu olhar e da minha voz, e minha transformação durante os anos de trabalho compõe um elemento importante desse ponto de vista. Mas o mestrado era mais teórico e tinha menos relatos. A história da Donamingo, tão central no livro, era apenas um deles.

Algumas pessoas começaram a me dizer que eu tinha um livro nas mãos; cheguei a mandar a dissertação para algumas editoras, mas nenhuma quis publicá-la como estava. Eu conheci uma das pessoas da Editora Elefante por acaso na mesma época, que leu e sugeriu algumas mudanças, como que eu me aprofundasse na história da Donamingo, tão potente. Essa pessoa disse que eu poderia até inventar: como não era mais um mestrado, não havia mais uma preocupação acadêmica. Eu tentei, mas não gostei do resultado.

Foi quando decidi tentar encontrá-la (o que conto com mais detalhes no livro) para preencher as lacunas do que eu sabia sobre ela. Já não me lembro se a ideia de que a história dela fosse o eixo do livro veio antes ou depois disso: agora, parece tão natural que seja assim que não consigo saber. Depois, o trabalho foi quase de costura, com o precioso olhar de preparação e edição, para fazer com que os relatos seguissem um rumo e que dialogassem com os trechos em que a descrição do hospital e minha reflexão sobressaem.

AM: Quem você espera que seja o leitor de Desterros?

NT: Eu gostaria que o livro fosse lido por quem não tem a menor ideia de como seja a prisão, por quem imagina o mundo detrás das grades segundo os preconceitos do senso comum, como eu mesma via, para que justamente isso seja desconstruído. Acho que olhar pessoas como pessoas é também uma forma de olhar para si, de se rever enquanto dono de um olhar viciado para determinados assuntos.

Mas tenho percebido que as pessoas que já se interessam pelo mundo do cárcere têm sido também leitores do Desterros. Num dos eventos de divulgação do livro, tive o prazer e a honra de dividir uma mesa com uma jurista que me apontou para algo que eu não havia enxergado: eu, trabalhando no hospital penitenciário, tenho uma posição muito privilegiada para olhar e dizer o que se passa lá. Para alguém da sociedade civil que queira escrever sobre a prisão, não é tão fácil conseguir o acesso que eu já tinha, e talvez por isso este livro tenha interesse para essas pessoas.

AM: Como você conta no livro, a realidade do sistema prisional brasileiro não é fácil. A escrita te ajuda de alguma forma a lidar com ela?

NT: Certamente. Escrever me ajuda a lidar com a realidade do sistema prisional brasileiro porque é também um meio de reflexão. Escrevendo, à medida em que as narrativas se tecem, consigo criar para mim mesma compreensões que, antes da existência daquelas histórias de forma organizada literariamente, eu não conseguia alcançar. É um alento para mim, e espero que, através de um enxergar humanizador, também para aqueles sobre quem falei.

AM: Você ainda trabalha no CHSP? Pretende seguir carreira lá?

NT: Sim, eu ainda trabalho no CHSP – agora estou de licença-maternidade, mas pretendo voltar quando a licença acabar. É um lugar de muitos desafios e aprendizados.

AM: Pode nos contar um pouco sobre a sua relação com a personagem principal, Donamingo?

NT: Acho que o Desterros é, em alguma medida, também a história dessa relação: uma mulher branca, psiquiatra, que conhece uma mulher negra, presa. O livro é um pouco a história desse abismo. O título Desterros, no plural, remete em primeiro lugar ao fato de Donamingo se encontrar longe da terra dela. Depois, ao fato de que, de alguma forma, todos os presos são desterrados. Finalmente, remete ao desterro em que estamos todos diante da história de alguém sem lugar.

Mas isso só é acessível dentro de cada um, a partir de olhar um outro. O acesso a esse olhar para mim através do outro, devo muito à Donamingo. E também devo a ela tantas outras questões e sentimentos que visitei, por exemplo, quando segurei nos braços o filho dela fora da prisão. Foi inevitável comparar o peso dele ao peso do meu filho, um pouco mais velho. Ela me deu a oportunidade radical de me rever em vários sentidos. Até como psiquiatra: quando fui escrever a história dela, vi que faltavam muitos elementos para a compreender como pessoa. Percebi quão rasa pode ser, quantas lacunas deixa, uma narrativa que busca apenas sintomas.

AM: Os personagens sabem sobre o livro? Algum deles chegou a lê-lo?

NT: Alguns personagens sabem, principalmente aqueles cujos relatos estavam já na dissertação. Para outros tantos, não tive a oportunidade de dizer: saíram do CHSP, ou faleceram, ou eu os havia atendido apenas no ambulatório e não cheguei a encontrar novamente. De toda forma, todos os nomes foram modificados para que a identidade deles fosse preservada. Eu não sei se algum deles leu, exceto pela Donamingo: eu li para ela alguns trechos do livro uma das vezes em que nos encontramos fora da prisão. Foi uma experiência e tanto, vê-la se reconhecer nas minhas palavras. Ela sorria e concordava com a cabeça.

AM: Já tem algum próximo projeto literário?

NT: Enquanto o Desterros estava sendo preparado, eu comecei uma pós-graduação em formação de escritores no Instituto Vera Cruz, que terminei há pouco. Foi muito importante e prazeroso; aprendi e li muito, e consegui abrir espaço para a escrita no meu dia a dia. O trabalho final desse curso é um romance acerca de uma mulher às voltas com o fim de um relacionamento curto, mas que a abalou muito. Um tema bem diferente do Desterros

Calibã e a bruxa está no mundo!

Deem uma olhada nas fotos que tiramos do Lançamento de Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, que aconteceu no Centro Cultural Olido no último dia 20 de julho em São Paulo. Já dissemos nas redes sociais por aí que foi incrével, então não vamos repetir que foi incrével, mesmo tendo sido incrével. Sério: muita gente apareceu pra ver e ouvir a Silvia. Umas trezentas pessoas. Incrével. Mas, como prometemos, não vamos ficar escrevendo que foi incrével.

garanta seu exemplar!

Em vez disso, vamos dizer que o caminho até aqui foi looooongo. Começou com o Coletivo Sycorax, que traduziu colaborativamente essa obra importantíssima que é Calibã e a bruxa, e disponibilizou o conteúdo todo na internet em html. Essa versão digital do livro foi lançada em São Paulo com a presença da autora em 2016. Então, a Fundação Rosa Luxemburgo se interessou em apoiar a publicação da versão brasileira. Conexões aqui e ali colocaram a Editora Elefante no rolê, ainda mais depois dos conselhos de Júlia Rabahie sobre a relevância do livro.

Então o trabalho começou: e foi muito trabalho, cruzes. O projeto gráfico ficou a cargo das queridas e talentosíssimas Bianca Oliveira e Karen Ka, cuja parceria mais uma vez fez bonito nos livros da Elefante. Várias reuniões e muitas horas-bunda depois, olhos ardendo na frente do computador pra resolver mil detalhes, mil tretas, vai-vem de provas da gráfica, ajustes, enfim, temos a edição mais linda de nosso catálogo.

Eis nosso décimo-terceiro título. Urrú!

O pré-lançamento no Rio de Janeiro, em 16 de julho, também foi porreta demais. Menos gente, mais intimista. O tempo ajudou e o sol deu o tom daquela tarde de domingo na sede da Grande Companhia Brasileira de Mysterios e Novidades, na Gambôa, um bairro carioca permeado pela história da escravidão e da resistência negra. Saca só esse vídeo, feito pela querida Ana Rezende:

Naquela mesma rua se encontra o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), que preserva a memória do Cemitério dos Pretos Novos. “Pretos novos” era como se chamavam os escravos negros aportados no Rio de Janeiro, e que ali permaneciam em “quarentena” antes de entrarem no país. Uma porcentagem significativa dos cativos morria nos primeiros dias, e seus corpos eram enterrados dentro de barracões ou nos arredores.

Enfim… estamos orgulhosos demais do que fizemos com este livro (são muitos elogios, muito apaixonados, inclusive da autora — Silvia, você é um amor de pessoa) e com o que estamos fazendo com nossa pequena casa editorial, ampliando as parcerias e reunindo cada vez mais gente em nossa manada. Só temos a agradecer a confiança e o apoio de vocês.

Neste segundo semestre teremos mais sete lançamentos. E queremos vocês conosco.

Continuem com os elefantes =)

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