Frei Henri continua vivo
na luta pela reforma agrária

Por Carolina Motoki

 

No acampamento Frei Henri des Roziers havia uma enorme castanheira. Aos seus pés, o frade dominicano que empresta nome à comunidade comemorou seu último aniversário no Brasil. Ali gostaria de ser enterrado. Um dia depois que as famílias acampadas receberam a notícia de que Henri havia morrido na França, no final de novembro passado, aos 87 anos, a castanheira tombou. Sobrevivente do desmatamento que transformou a floresta em capim, no sul-sudeste paraense, a árvore de tronco comprido e copa alta não sabe viver só.

Uma outra árvore frondosa Henri avistava pela janela do seu quarto no convento de Saint-Jacques, em Paris, onde passou seus últimos anos, cabeça sã, corpo quase imóvel. A árvore lhe indicava as estações do ano, tão marcadas na França. Seu amigo Didier Laurent escreveu que ela “era natureza viva, feito relógio de sol na parede da igreja, marcando o tempo longo e lento”. Dizia que a árvore cuidava dele.

Memorial em homenagem a Frei Henri construído em assentamento que leva seu nome, em Curionópolis (Foto: Idelma Santiago)

Estou no carro com Didier. De Marabá a Xinguara, onde Henri viveu mais da metade dos quase quarenta anos que passou no Brasil, quase não há mais castanheiras. Somos conduzidos por Frei Xavier Plassat, companheiro de Henri de origem, de fé e de batalhas travadas. Percorremos a estrada da região banhada de luta, conhecida pelos assentamentos e acampamentos de trabalhadores sem-terra, mas também pelos latifúndios sem fim.

Paramos onde houve banho de sangue: na curva do S, a juventude do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) se reunia para estudar, em memória ao massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido 22 anos antes. Paramos também no “acampamento de Henri” em Curionópolis, onde um mutirão terminava de construir a capela: no sábado, 14 de abril, as cinzas de Frei Henri seriam depositadas ali, atendendo a um pedido dele mesmo.

“Apaixonado por justiça”: o título do livro lançado em seu funeral resume bem a história desse frade dominicano, advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), defensor de camponeses, trabalhadores sem-terra e daqueles que foram escravizados em busca de vida digna. Frei Henri era um obstáculo aos fazendeiros que pretendem se fazer donos do mundo e reis do gado a qualquer custo. E assim era, pois caminhava ao lado do povo.

Por conta disso, recebeu a homenagem do MST ainda vivo: o acampamento Frei Henri existe há oito anos. Marcada pela transitoriedade e pela incerteza, a vida das famílias acampadas é feita de respirar diariamente o conflito concreto, ora pelos tiros dos pistoleiros, ora pela dificuldade de se resistir de sol a sol. Nas mãos que secam o suor, a esperança é sedimento de superação da condição de pobreza, de superação da escravidão reiterada. É a transformação da fome em alimento. É a construção de uma nova possibilidade de vida, das plantações e paredes da escola à árdua tarefa de reaprender a conviver em comunidade.

Da castanheira que caiu após a morte de Henri, as famílias acampadas fizeram uma ponte, que hoje é caminho entre as moradias e as roças, antes separadas por um igarapé.

Sepultar ali, em um símbolo de eternidade, quem esteve boa parte da vida jurado de morte por fazendeiros e grileiros é como ocupar novamente o território, fincar a bandeira da reforma agrária, quando esta parece tremular cada vez menos no debate nacional. No ano passado, nem uma só família foi assentada no Brasil. Pelo menos 65 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo.

Violência contínua

Na região, a disputa territorial não dá trégua. Os constantes ataques ao acampamento Frei Henri são marca disso. A terra, pertencente à União, foi retomada de um grileiro pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mas as famílias ainda não foram assentadas e continuam sofrendo ameaças e violências.

Os casos se multiplicam e compõem uma estatística doída, colocando o estado do Pará entre os campeões de mortes no campo. Em sua vida, Henri se empenhou pessoalmente no combate à impunidade dos mandantes de muitos desses assassinatos.

No ano passado, quando já estava de volta a Paris, doente, Henri soube do maior massacre dos últimos anos, ocorrido bem na região onde vivia: dez pessoas foram assassinadas por policiais militares e civis na fazenda Santa Lúcia, no município de Pau D’Arco. Mais uma morreu dias depois, aumentando o número para onze mortos.

Frei Xavier Plassat e o livro Apaixonado por justiça, sobre Frei Henri, traduzido por ele (Foto: Thomas Bauer)

Na semana das cerimônias do sepultamento de Henri, entre os dias 12 e 16 de abril de 2018, o cheiro de violência ainda pairava no ar: policiais civis envolvidos no massacre declararam, em audiências de instrução e julgamento, que foram coagidos por PMs a apertar o gatilho. Um policial descreveu como atirou em trabalhadores sem-terra já rendidos: um deles pediu para morrer em pé. Como as árvores.

Reunião de ódio

Os policiais civis também disseram no depoimento que pecuaristas fizeram uma “vaquinha” para pagar os envolvidos. Revestidos dos símbolos da modernidade de um agronegócio pujante e “pop”, os crimes perenes ao longo dos anos — além de assassinatos, grilagem de terras, degradação ambiental e trabalho escravo — mostram que são muitos os fazendeiros que não abrem mão da violência. Ainda assim, organizados, com ampla representação no Congresso e com força de incidir na disputa eleitoral, tentam mudar o estatuto do desarmamento para enfrentar, armados, a violência da qual se dizem vítimas.

Como narrado pelos policiais e denunciado por entidades ligadas aos trabalhadores rurais e à defesa dos direitos humanos, os fazendeiros da região são conhecidos pela ação em conjunto, os chamados “consórcios”. Teria sido tomada em “consórcio” a resolução de matar lideranças conhecidas, entre elas duas pessoas que trabalharam ao lado de Henri: o padre Josimo, morto nos anos 1980 por sua atuação no norte do estado do Tocantins, e a missionária Dorothy Stang, executada em 2005, no Pará.

O ódio que Josimo e Dorothy ainda suscitam entre grileiros e latifundiários não se esconde. Seus rostos estampavam o convite de um evento que aconteceria no Maranhão, na mesma semana do funeral de Henri, intitulado “Os falsos mártires da teologia da libertação”. Quando Dorothy foi executada, fogos de artifício foram ouvidos em Anapu, onde sofreu o atentado.

Fogos de artifício também foram ouvidos na mesma cidade para comemorar outro feito, neste ano: a prisão de padre Amaro, também da CPT, e apontado como um dos sucessores de Dorothy no apoio às famílias que lutam por um pedaço de chão. Em nota divulgada pela Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), a entidade patronal descreve as inúmeras denúncias protocoladas desde 2015 contra padre Amaro, assim como as “provas” apresentadas, sem receio de atacar de forma raivosa o religioso, a CPT, a própria irmã Dorothy e até o ex-ouvidor agrário nacional, Gercino da Silva Filho, classificados como incitadores das “invasões no campo”. Exemplo de expressões atribuídas a padre Amaro são “diatribes”, “embusteiro” e “subversivo”, reveladoras do ódio que fazendeiros manifestam contra os que denunciam seus crimes.

A assessoria jurídica da CPT produziu um documento que contesta as acusações contra Amaro que, dia após dia, denunciava irregularidades constatadas pelo Ministério Público Federal em visita recente a Anapu. Padre Amaro continua no presídio de Altamira. Por enquanto, os fazendeiros seguem vitoriosos.

O sonho possível

De quantas vidas é construída a memória de um lugar? De quantas mortes? Em que territórios se assentam sonhos em roças? Em quais deles se alongam as clareiras de gente, expulsas pelas cercas dos pastos sem fim, adubados pelo sangue derramado e pelo suor de quem foi explorado?

Fogos de artifício também foram ouvidos diversas vezes em Xinguara, quando fazendeiros achavam — erroneamente — que Henri havia morrido. Diz-se que um churrasco foi feito para comemorar sua morte, quando efetivamente ocorreu, na França. No acampamento, no dia em que as suas cinzas ocuparam a capelinha, não houve uma cerimônia de morte. Não se tratou de um enterro. Ao contrário, presenciamos uma celebração da vida.

“Frei Henri está presente, e a gente até sente o pulsar de seu coração”. Foi essa frase, repetida inúmeras vezes por quem estava no acampamento, que acompanhou as cinzas de Henri do palco onde aconteceu a celebração até o lugar onde hoje repousa, em “seu” acampamento.

Henri está presente, como nunca, na luta que segue, ainda necessária. Ali, mesmo pequenino, transformado em pó, ele reuniu muita gente em torno de um só sonho. Sob o céu do sul-sudeste paraense, encontraram-se muitas pessoas — vindas de diversos lugares — que acreditam que o campo deve ser um lugar onde é possível retomar a esperança e construir pontes a partir das árvores tombadas. Porque, definitivamente, elas não vivem sozinhas.

Elefante vs. Amazon

Se você está com a Editora Elefante há mais tempo, certamente já recebeu e-mails explicando como é importante para nós o gesto de pessoas que, como você, compram livros diretamente em nosso saite. Assim driblamos o pedágio das livrarias — sobretudo das grandes redes — e conseguimos valorizar cada um de nossos exemplares, o que possibilita o financiamento de novos títulos sem que leitores e leitoras paguem um centavo a mais por isso.

Com esta nova mensagem, pedimos licença para reforçar o argumento. O jornal duplamente golpista (1964 e 2016, não esqueçamos) Folha de S. Paulo publicou neste domingo, 15 de abril de 2018, em seu caderno “Ilustríssima”, o artigo “Contra a Amazon: razões para não gostar da gigante americana”, em que o escritor catalão Jorge Carrión elenca sete motivos para que não compremos livros neste hipermercado virtual globalizado e globalizante.

O texto reforça — e muito — o entendimento da Editora Elefante sobre a espinhosa questão da venda e distribuição de livros. Não, não somos contra a internet. Óbvio que não, né? Tampouco somos contra o comércio online. E muito menos contra as livrarias, sobretudo as pequenas. Quer prazer mais simples e delicioso do que passear por prateleiras, bater um papo com o livreiro (espécie em extinção), selecionar alguns títulos, pedir um café e demoradamente sentar-se em um sofá para folheá-los, escolhendo então essa boa companhia para dias chuvosos, pesquisas e fomes intelectuais em geral?

Devido à pequenez da Editora Elefante e à nossa incapacidade de entregar livros com a extrema agilidade que a pressa dos dias e das redes impõe a nossas vontades e desejos, temos enfrentado muitas queixas sobre a “demora” dos Correios em entregar os livros que vocês adquirem em nosso saite. Sim, lamentamos muito que essa empresa orgulhosamente pública, que foi um verdadeiro xodó dos brasileiros durante anos, esteja sendo submetida a um processo de sucateamento com vistas à privatização, com prejuízos a seus clientes: tanto aos remetentes (nós) quanto aos destinatários (vocês).

Nossa impossibilidade, minúsculos que somos, de atender imediatamente os pedidos de livros em nosso saite e o recente desleixo dos Correios podem alimentar desejos de encontrar formas mais ágeis de compra e envio. E aqui entra a Amazon, que promete entregar produtos em até uma hora depois da compra em mais de quarenta cidades do mundo — entre elas, Barcelona, de onde escreve Jorge Carrión. Mas, claro, isso tem um preço, um preço humano, que nós não temos condições nem vontade de pagar, nem de incentivar.

“Atualmente os ‘amazonians’ [trabalhadores da Amazon] são auxiliados por robôs Kiva, capazes de levantar 340 kg e de se mover na velocidade de 1,5 m por segundo. Sincronizados com os trabalhadores humanos através de um algoritmo, se ocupam de erguer e movimentar as estantes para facilitar a recolha dos produtos”, explica Carrión. “Uma vez reunidos os produtos que um cliente tenha comprado, outra máquina, chamada Slam, com sua enorme esteira, se encarrega de escaneá-los e embalá-los.”

Imaginem vocês nosso estarrecimento ao ficar sabendo disso. Nós, que somos duas pessoas na lida diária, que processamos os pedidos, empacotamos os livros e enviamos e-mails de agradecimento manualmente… “Para a Amazon, não existe diferença substancial entre patinhos de borracha, pacotes de bolachas, cachorrinhos de pelúcia e livros. São mercadorias de classe semelhante. Mas não para nós”, continua Carrión, ecoando nossa visão das coisas. “Para nós, um livro é um livro, é um livro. E a leitura dos livros — atenção e júbilo — é um ritual, o eco do eco do eco do que foi sagrado.”

Não iremos nos estender em citações. Vale a pena ler o artigo todo.

Queremos apenas reiterar a importância de vocês para a Editora Elefante. Cada livro que vocês compram diretamente conosco, ou cada livro nosso que vocês adquirem em pequenas livrarias — nas que estão resistindo ou nas que, contra todos os prognósticos, como as pequenas editoras, estão sendo corajosamente abertas nestes dias de ultraconectividade –, é uma ode à humanidade, às pequenas iniciativas literárias, ao cuidado não apenas com o objeto-livro mas com a ideia-livro. E também desconcentra renda.

Os preços e as condições de entrega da Amazon podem ser tentadores, mas é sempre bom saber o que existe por trás de cada desconto. Megacorporações que roubam seus dados, por exemplo, robotização indiscriminada, ritmos frenéticos de trabalho, empregados estressados. Por trás da Editora Elefante, em compensação, há uma rede de cabeças pensantes, profissionais talentosos, gente esforçada, pessoas imbuídas de uma paixão meio inexplicável por produzir livros bons, bonitos e baratos. E vocês, claro. Porque, sem querer parecer repetitivo, não seríamos nada sem vocês.

Continuem conosco, em manada.

Grande abraço,

Os paquidermes

Uma vida dedicada à reforma agrária e ao combate do trabalho escravo

Sabemos da extrema violência que acomete os camponeses que lutam pela terra nas paragens mais distantes dos grandes centros urbanos brasileiros, sobretudo na região amazônica. Mas existe pouquíssima informação disponível sobre as pessoas que levam consigo a bandeira da reforma agrária — e menos ainda sobre as dificuldades e alegrias que colhem na aridez cotidiana de ameaças, mobilizações e decisões judiciais.

Eis uma das principais contribuições do livro Apaixonado por justiça: conversas com Sabine Rousseau e outros escritos, de Henri Burin des Roziers, publicado pela Editora Elefante em parceria com a Comissão Pastoral da Terra e a Comissão Dominicana de Justiça e Paz no Brasil. Conhecido no país como Frei Henri, o religioso francês chegou ao Bico do Papagaio, região entre Tocantins, Pará e Maranhão, e reconhecida pelos índices de violência no campo, nos anos 1980. Antes, na França, havia participado ativamente do Maio de 1968 e de lutas sindicais.

Formado em Direito em Paris, Frei Henri começou a atuar como advogado dos camponeses que lutavam pela terra na região. Viu amigos e companheiros serem perseguidos e brutalmente assassinados, como Gabriel Pimenta, jovem advogado da CPT, e Paulo Fonteles, deputado estadual paraense. O próprio Henri foi alvo de inúmeras ameaças de morte, e viu sua cabeça valer milhares de reais na mesma época em que pistoleiros acabaram com a vida da irmã norte-americana Dorothy Stang em Anapu, no Pará, em 2005.

Apaixonado por justiça está dividido em três partes. A primeira consiste em uma longa entrevista, no formato de perguntas e respostas, concedida por Frei Henri à historiadora Sabine Rousseau. A segunda parte traz textos do próprio religioso. Na terceira é possível conhecer a repercussão ocorrida no Brasil e na França pela morte de Frei Henri, que faleceu em Paris em novembro de 2017 devido a complicações de uma miopatia congênita.

“Esse homem magro, de fala mansa e andar compassado, tornou-se referência no acolhimento de vítimas do combate ao trabalho escravo e na denúncia desse crime à Justiça e ao mundo. Mas também se tornou um dos principais atores na luta pela reforma agrária, contra a impunidade dos ricos detentores de terras e pelo fim das arbitrariedades policiais”, escreveu Leonardo Sakamoto em seu blogue por ocasião da morte do frade francês.

“O falecimento de Henri por causas naturais, e não provocada por algum dos muitos que queriam sua morte, foi uma vitória, apesar de trazer um vazio a todos seus amigos — grupo ao qual, orgulhosamente, me incluo”, continua o jornalista. “Pois nenhuma das várias ameaças que recebeu e nenhuma das tentativas de assassinato que sofreu conseguiram impedir seu trabalho.”