A uberização da uberização

por Rodrigo Firmino e Bruno Cardoso
Le Monde Diplomatique

 

Desde a década de 1980, a crise que assola o mundo do trabalho e a sociedade salarial vem sendo documentada e pensada pelo trabalho acadêmico, e amplamente debatida nas arenas políticas dos mais diversos países. Essa crise implica o abalo do modelo que prevaleceu em parte considerável do século XX, caracterizado pelo predomínio do emprego formal, pela força da representação sindical e pelas negociações setoriais, além da associação entre a identidade dos cidadãos e sua ocupação profissional e um perfil de gênero majoritariamente masculino.

Muitas dessas transformações se consolidaram ou se radicalizaram com a popularização e a conexão constante de dispositivos comunicacionais digitais e a internet, assunto que vem sendo tratado de forma exaustiva pela sociologia. [1] Como efeitos, temos ao mesmo tempo o lento fim dos empregos e o esvaecimento das fronteiras entre o trabalho e o não trabalho. Além disso, os dispositivos tecnológicos e a rede vêm propiciando o surgimento de novos modelos de trabalho e de exploração de serviços, entre os quais nos interessa aqui diretamente o da sharing economy.

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Tendo como protagonistas empresas que rapidamente se tornaram gigantes do ramo, como Airbnb e Uber, o fenômeno se espalha para vários tipos de serviço, acompanhados pela grande quantidade de empresas que apostam no que ficou conhecido como uberização. Esse fenômeno é marcado, entre outras coisas, pela precarização das relações de trabalho, já que as empresas se apresentam apenas como fornecedoras da tecnologia de intermediação de serviços, não assumindo com isso nenhuma responsabilidade trabalhista em relação a seus usuários-parceiros. Exemplos são os mais variados e assustadores, como o caso da prefeitura de Ribeirão Preto (SP), que chegou a elaborar um projeto, popularmente conhecido como professor Uber, para a contratação de aulas avulsas para a rede municipal de educação. [2]

Se para a Uber a consequência mais imediata parece ser a precarização das relações de trabalho e a extinção do vínculo formal, no caso do Airbnb os impactos se sentem mais, para além do setor hoteleiro, no processo de gentrificação das vizinhanças e da expulsão dos locatários tradicionais, com contratos longos e valores (bem menores) mensais, e não diários. Ambos, Airbnb e Uber, colaboram para a produção da cidade contemporânea, bastante diferente das cidades que viram o encerramento do século XX.

A rapidez da disseminação e o impacto da economia colaborativa não podem ser explicados apenas em razão do encolhimento do mercado de trabalho formal e da precarização das relações de trabalho, nem por conta do desenvolvimento e popularização dos dispositivos tecnológicos conectados pela internet. O modelo Uber-Airbnb obteve sucesso, diante de várias tentativas diferentes de start-ups na fervilhante economia dos aplicativos, também por ter “afinidade eletiva”, como diria Max Weber, com aquilo que é chamado de self empreendedor, [3] característico da racionalidade neoliberal [4] contemporânea e dos modos de subjetivação que a produzem.

Em outras palavras, trata-se da sedução do empreendedorismo, da autoconcepção dos indivíduos como “empresas de si”, constituídas primordialmente por capital humano e concorrendo com inúmeros outros indivíduos-empresa pela prestação de serviços ou por oportunidades de mercado. De proprietários imobiliários com vários imóveis no Airbnb a motoristas de Uber que trabalham até catorze horas por dia, seja como forma de aumentar seu capital econômico ou de sobreviver em um contexto de crise e queda nos índices de vagas de trabalho formal e de encolhimento do valor real do salário mínimo, cada vez mais pessoas se envolvem com o modelo da sharing economy.

Dani e o “comandante”: a precarização da liberdade

A uberização ganha contornos curiosos a cada dia, mas recentemente presenciamos o que parece ser uma tentativa de elevar ao máximo o aproveitamento desse tipo de precarização do ponto de vista da exploração do trabalho. Os detalhes do esquema impressionam pela engenhosidade das relações propostas para maximizar a exploração das horas contratadas de um trabalhador, a ponto de o contratado realizar atividades adicionais em suas horas de trabalho para, indiretamente, pagar por seu próprio salário.

Após um encontro da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits), em São Paulo, tomamos um UberX conduzido por uma jovem motorista chamada Daniele, [5] muito simpática e alegre. Daniele seguia o caminho sugerido pelo aplicativo e conduzia com eficiência. Animados com as possibilidades de novos projetos de pesquisa sobre vigilância da Lavits, conversávamos sobre Big Data e as possibilidades de uso da coleta e manipulação de dados por governos, empresas e cidadãos. Debatíamos projetos para, por exemplo, modificar a precificação de apólices de seguro baseada na análise de dados individualizados e em tempo real de clientes, personificando de maneiras cada vez mais precisas os cálculos de risco.

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Daniele manipulava seu celular enquanto conduzia, recebendo e respondendo mensagens de um interlocutor chamado “comandante”, mas parecia atenta à nossa conversa. Foi quando nos ocorreu envolvê-la na discussão, questionando-a sobre as condições do seguro de seu veículo pelo fato de usá-lo como instrumento de trabalho informal. Daniele respondeu dizendo que no seguro não havia informações sobre o uso da Uber, mas disse que o veículo, na verdade, pertencia a outra pessoa, seu “chefe”. Esse fato não passou despercebido, e queríamos saber mais sobre o que parecia ser um exemplo de terceirização de frota Uber, o que não seria o primeiro caso.

No entanto, estávamos equivocados. Daniele era motorista profissional, contratada por Michel para servir sua família. Seu trabalho seguia todas as regras trabalhistas, como jornada de oito horas diárias e registro em carteira. Entretanto, nas horas em que estava a trabalho e sem atividades específicas com a família de Michel, Daniele era obrigada a realizar corridas como motorista Uber, com as seguintes condições: todo valor repassado pela Uber iria diretamente para a conta do chefe; o e-mail cadastrado no serviço era o de Michel, que monitorava valores e trajetos conforme estes aconteciam; em caso de acidentes, a responsabilidade recairia sobre Daniele; celular e veículo eram de propriedade de Michel; e não havia a possibilidade de trabalhar sem aceitar essas condições.

Muito constrangidos e preocupados, começamos a fazer cada vez mais perguntas e a tecer comentários, sugerindo cuidados e o registro de todo o processo em caso de problemas futuros com a justiça trabalhista. Daniele então nos revelou outro detalhe assustador: o “comandante” com quem ela trocara mensagens pouco antes era o próprio Michel, que reclamava da quantidade pequena e do preço baixo das corridas. Afinal, ele recebia relatos de todas as corridas em tempo real. Já nos preocupávamos se nossas conversas também não estariam sendo monitoradas pelo “comandante”. Daniele se sentia pressionada e tinha de cumprir todos os requisitos, pois, como ela própria disse, “desse jeito sou eu que pago meu próprio salário”. A lucidez de sua análise ressaltava que o pagamento que recebia era composto por parte do que ela mesma arrecadava com o serviço de Uber durante sua jornada de trabalho, desempenhando uma função que se desviava de sua atividade-fim – conduzir a família de Michel ao shopping, à escola, ao clube etc.

A exploração se revelou complexa, astuta e eticamente questionável, de uma trabalhadora “semiprecarizada”, em uma situação construída sobre ambiguidades, por um patrão que se identificava no celular como “comandante”. Tratava-se de uma maximização da exploração de sua força de trabalho. Era curioso e surpreendente que, numa atividade tão característica da sharing economy e do self empreendedor, os velhos conceitos de mais-valia e de propriedade dos “meios de produção” pudessem fazer tanto sentido.

A história ganhou contornos de assédio moral quando Daniele relatou ter pedido para ser bloqueada pela própria Uber. Bloqueios de usuários/parceiros da Uber são comuns em casos de desobediência das regras de uso do serviço, mas nunca ou raramente a pedido do próprio usuário/parceiro. Isso mostra uma tentativa de Daniele de se desvencilhar da atividade adicional sem perder o emprego. Funcionou por alguns dias, apesar dos pedidos insistentes do “comandante” para que ela resolvesse a situação junto à Uber.

A pressão se dava por meio de constantes comentários de que ele não conseguiria manter a motorista e que seria “obrigado a demiti-la”. Impaciente, ele mesmo criou uma nova conta para Daniele, que precisou voltar a fazer as corridas, já que dependia do dinheiro para se manter. Ela contou que, no auge da pressão, foi no escritório da Uber e explicou a história, sendo informada de que aquela situação era irregular e que não seria possível reativar sua conta. Já buscando abandonar definitivamente essa situação de “uberização da Uber”, Daniele contou que estava completando um curso para motorista de ônibus e que já tinha trabalhado como motorista de van escolar, função que não se importaria de desempenhar novamente.

Pouco antes de nos deixar em nosso destino, ainda houve tempo de sabermos outra faceta do caso: Daniele mencionou haver outra motorista trabalhando para a família nas mesmas circunstâncias. Chamou-nos a atenção o fato de serem ambas motoristas mulheres, o que foi justificado por Daniele como ciúme do “comandante” pelo fato de as motoristas estarem à disposição de sua esposa.

Para além do ciúme da esposa, outros atravessamentos por relações de gênero (e poder) podem ser percebidos nessa situação, já que o “comandante” parecia inspirar medo em sua motorista e alimentava a relação patronal com constantes ameaças, certamente aproveitando-se do fato de sua funcionária ser mulher. A razão de empregar apenas mulheres possivelmente o fazia exercer outras formas de dominação e poder mais ou menos sutis e já extensamente pensadas e apontadas como características das relações de gênero no mundo do trabalho.

Antes que deixássemos Daniele e ela se fosse com outro passageiro, perguntamos se ela gostaria que a avaliássemos com a nota máxima (cinco estrelas) ou se preferia uma nota baixa, para ser bloqueada novamente pelo aplicativo. “Nota alta, né, porque a gente tem nosso orgulho.” A nota que demos, cinco estrelas, não era de forma alguma injusta. Longe disso, a viagem acabou sendo perturbadoramente agradável, apesar da história de precarização disfarçada, muito pela simpatia e abertura da própria Daniele, duplamente uberizada e sob vigilância de seu “comandante”.

Uberizações

O caso de Daniele nos mostra aspectos sombrios daquilo que vem sendo chamado de sharing economy. No lugar da maior liberdade e autonomia prometidas pelas formas de empreendedorismo criativo, o que pudemos ver foi um trabalho ainda mais intenso, controlado e hierarquizado. Se é verdade que o modelo de trabalho que constituiu o capitalismo industrial fordista vem se enfraquecendo desde a década de 1980, pelo menos não foi para nos dirigirmos a um mundo no qual o próprio trabalho e sua importância na constituição disciplinar da sociologia perderiam a cada dia mais sua centralidade. [6] De modo quase oposto, o trabalho vai se tornando onipresente, distribuído por dispositivos tecnológicos que nos acompanham a todo momento, nos alertam, nos conectam, nos rastreiam e, até certo ponto, nos aprisionam na mais plena mobilidade.

O “comandante”, sem dúvida, foi empreendedor ao ter a ideia de colocar suas duas funcionárias para trabalhar, nas “horas vagas de trabalho” como motoristas de sua família, também como motoristas potenciais de qualquer usuário da Uber em São Paulo. Ao ter a ideia de transformar seu veículo particular em meio de produção e, por meio de um contrato formal ambíguo, apropriar-se da mais-valia produzida por suas duas trabalhadoras, o “comandante” não faz algo muito diferente daquilo que Marx observou na aurora do capitalismo industrial, ainda no século XIX.

Não pretendemos com isso afirmar que a economia compartilhada e suas variações de capitalismo criativo empreendedor possam ser reduzidas ao caso que apresentamos, ou mesmo que este seja significativo das relações econômicas e sociais que emergem da sharing economy e a sustentam. Muito menos defendemos que a perspectiva marxista, elaborada 150 anos antes do surgimento de empresas como Uber e Airbnb e do modelo econômico que proporcionam, seja a principal chave de explicação para as transformações contemporâneas do mundo do trabalho. Contudo, ao destacarmos as especificidades desse caso, levando em consideração o contexto político do Brasil do pós-golpe de 2016 e o avanço das políticas neoliberais de desregulamentação do trabalho, não há como não pensarmos nas crescentes possibilidades de radicalização da exploração capitalista e da precarização das relações de trabalho. Gradualmente, um pouco sem sentirmos, um tanto sem reagirmos, vamos nos acostumando com formas cada vez mais criativas, empreendedoras e autônomas de explorar os mais pobres, mais fracos e mais precários. Um mundo de uberexploração de um trabalho cada vez mais uberificado.

Rodrigo Firmino é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), editor-chefe da revista urbe (www.scielo.br/urbe) e membro fundador da Rede Latino-Americana de Estudos em Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits – www.lavits.org). E-mail: rodrigo.firmino@pucpr.br.

Bruno Cardoso é professor adjunto do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro fundador da Lavits. E-mail: brunovcardoso@hotmail.com.

1 Ver, por exemplo, Manuel Castells, A sociedade em rede, Paz e Terra, São Paulo, 1999.
2 Ver Ana Luiza Basilio, “Professor Uber: a precarização do trabalho invade as salas de aula”, Carta Capital, 28 ago. 2017. Disponível em: <https://goo.gl/BaAMiW>.
3 Nikolas Rose, Inventando nossos selfs, Vozes, Petrópolis, 2011; Nikolas Rose e Peter Miller, Governando o presente, Paulus, São Paulo, 2012.
4 Pierre Dardot e Christian Laval, A nova razão do mundo, Boitempo, São Paulo, 2016.
5 Os nomes foram modificados para preservar a identidade dos envolvidos.
6 Claus Offe, “Trabalho: a categoria-chave da sociologia?”, RBCS: Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.4, n.10, p.6-20, 1989.

Elefante vs. Amazon

Se você está com a Editora Elefante há mais tempo, certamente já recebeu e-mails explicando como é importante para nós o gesto de pessoas que, como você, compram livros diretamente em nosso saite. Assim driblamos o pedágio das livrarias — sobretudo das grandes redes — e conseguimos valorizar cada um de nossos exemplares, o que possibilita o financiamento de novos títulos sem que leitores e leitoras paguem um centavo a mais por isso.

Com esta nova mensagem, pedimos licença para reforçar o argumento. O jornal duplamente golpista (1964 e 2016, não esqueçamos) Folha de S. Paulo publicou neste domingo, 15 de abril de 2018, em seu caderno “Ilustríssima”, o artigo “Contra a Amazon: razões para não gostar da gigante americana”, em que o escritor catalão Jorge Carrión elenca sete motivos para que não compremos livros neste hipermercado virtual globalizado e globalizante.

O texto reforça — e muito — o entendimento da Editora Elefante sobre a espinhosa questão da venda e distribuição de livros. Não, não somos contra a internet. Óbvio que não, né? Tampouco somos contra o comércio online. E muito menos contra as livrarias, sobretudo as pequenas. Quer prazer mais simples e delicioso do que passear por prateleiras, bater um papo com o livreiro (espécie em extinção), selecionar alguns títulos, pedir um café e demoradamente sentar-se em um sofá para folheá-los, escolhendo então essa boa companhia para dias chuvosos, pesquisas e fomes intelectuais em geral?

Devido à pequenez da Editora Elefante e à nossa incapacidade de entregar livros com a extrema agilidade que a pressa dos dias e das redes impõe a nossas vontades e desejos, temos enfrentado muitas queixas sobre a “demora” dos Correios em entregar os livros que vocês adquirem em nosso saite. Sim, lamentamos muito que essa empresa orgulhosamente pública, que foi um verdadeiro xodó dos brasileiros durante anos, esteja sendo submetida a um processo de sucateamento com vistas à privatização, com prejuízos a seus clientes: tanto aos remetentes (nós) quanto aos destinatários (vocês).

Nossa impossibilidade, minúsculos que somos, de atender imediatamente os pedidos de livros em nosso saite e o recente desleixo dos Correios podem alimentar desejos de encontrar formas mais ágeis de compra e envio. E aqui entra a Amazon, que promete entregar produtos em até uma hora depois da compra em mais de quarenta cidades do mundo — entre elas, Barcelona, de onde escreve Jorge Carrión. Mas, claro, isso tem um preço, um preço humano, que nós não temos condições nem vontade de pagar, nem de incentivar.

“Atualmente os ‘amazonians’ [trabalhadores da Amazon] são auxiliados por robôs Kiva, capazes de levantar 340 kg e de se mover na velocidade de 1,5 m por segundo. Sincronizados com os trabalhadores humanos através de um algoritmo, se ocupam de erguer e movimentar as estantes para facilitar a recolha dos produtos”, explica Carrión. “Uma vez reunidos os produtos que um cliente tenha comprado, outra máquina, chamada Slam, com sua enorme esteira, se encarrega de escaneá-los e embalá-los.”

Imaginem vocês nosso estarrecimento ao ficar sabendo disso. Nós, que somos duas pessoas na lida diária, que processamos os pedidos, empacotamos os livros e enviamos e-mails de agradecimento manualmente… “Para a Amazon, não existe diferença substancial entre patinhos de borracha, pacotes de bolachas, cachorrinhos de pelúcia e livros. São mercadorias de classe semelhante. Mas não para nós”, continua Carrión, ecoando nossa visão das coisas. “Para nós, um livro é um livro, é um livro. E a leitura dos livros — atenção e júbilo — é um ritual, o eco do eco do eco do que foi sagrado.”

Não iremos nos estender em citações. Vale a pena ler o artigo todo.

Queremos apenas reiterar a importância de vocês para a Editora Elefante. Cada livro que vocês compram diretamente conosco, ou cada livro nosso que vocês adquirem em pequenas livrarias — nas que estão resistindo ou nas que, contra todos os prognósticos, como as pequenas editoras, estão sendo corajosamente abertas nestes dias de ultraconectividade –, é uma ode à humanidade, às pequenas iniciativas literárias, ao cuidado não apenas com o objeto-livro mas com a ideia-livro. E também desconcentra renda.

Os preços e as condições de entrega da Amazon podem ser tentadores, mas é sempre bom saber o que existe por trás de cada desconto. Megacorporações que roubam seus dados, por exemplo, robotização indiscriminada, ritmos frenéticos de trabalho, empregados estressados. Por trás da Editora Elefante, em compensação, há uma rede de cabeças pensantes, profissionais talentosos, gente esforçada, pessoas imbuídas de uma paixão meio inexplicável por produzir livros bons, bonitos e baratos. E vocês, claro. Porque, sem querer parecer repetitivo, não seríamos nada sem vocês.

Continuem conosco, em manada.

Grande abraço,

Os paquidermes

Leitura para entender (e repensar) a uberização

Está faltando emprego pra geral, as contas não dão clemência e, de repente, pinta uma proposta que parece linda de morrer: um trampo com horários livres e sem patrão. Você topa. Parabéns! Você foi uberizado, uberizada. Você, não. Uma montanha de gente mundo afora. Os analistas da mídia tradicional apressam-se em dizer que essa é uma tendência global, que será melhor assim, que todos e todas teremos um futuro mais pleno e feliz.

Nem é, ó. Não é preciso esperar muito tempo para sacar que o paraíso prometido é uma roubada ainda mais zoada que a anterior. Os motoristas da Uber arcam com os custos de gasosa e manutenção do carro, além do celular. Se ficam doentes, o azar é deles. Se são roubados em serviço, idem. Se a empresa decide aumentar os ganhos, é na carteira do motorista que o bagulho pesa. Enquanto isso, o dono da Uber, Travis Kalanick, vai galgando postos na lista dos homens mais ricos do mundo e já chega a um patrimônio superior a 6 bilhões de dólares, crescimento paralelo ao da corporação.

Os mesmos analistas que celebram nosso emprego em tempo parcial e livre de patrão dizem que a tendência vai se espalhar por várias áreas do mercado de serviços. De fato, já estamos vendo e sentindo o fenômeno em nosso cotidiano. Para entender melhor de que se trata essa tal de uberização, sugerimos um guia breve de leituras e reflexões. Vamos aproveitar uma semana de brigas na Casa Grande, quer dizer, no Congresso Nacional, para ler antes que aprovem definitivamente o desmonte das leis trabalhistas e da previdência.

1. Começamos puxando a brasa para nossa sardinha: Cooperativismo de Plataforma: contestando a economia do compartilhamento corporativa é um livro rápido de ler e fácil de entender. O autor, Trebor Scholz, é artista e professor de cultura e mídia digital da The New School, em Nova York. Ele conta como o poderoso Vale do Silício, região dos Estados Unidos que concentra a alta tecnologia aliada ao mercado financeiro, busca se apropriar daquilo que poderia ser verdadeiramente libertador.

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O livro, lançado este ano em parceria entre a Editora Elefante, a Autonomia Literária e a Fundação Rosa Luxemburgo, considera que ainda é tempo de frearmos essa tendência. E garante que, se não o fizermos, vamos nos arrepender amargamente muito em breve. Para isso, o passo fundamental é nos apropriarmos da tecnologia para criar ferramentas que garantam um trabalho digno.

2. Entre muitos trabalhos bacanas lançados recentemente, destacamos a Revista do Instituto Humanitas Unisinos, do Rio Grande do Sul. A galera preparou um número especial muito porreta, com entrevistas densas e tensas. Separamos um trechinho da conversa com Andrea Fumagalli, professor no Departamento de Economia Política da Università di Pavia, na Itália, mas há muito mais nessa edição:

“A vida inteira, nas suas singularidades, torna-se objeto de exploração, até mesmo na sua simples cotidianidade. Novas produções ganham vida. A reprodução social, desde sempre operante na história da humanidade, torna-se diretamente produtiva, mas apenas parcialmente assalariada [salarizzata]; a gênese da vida (aprocriação) transforma-se em business; o tempo livre é encaixotado, assim como as relações de amizade e sentimentais, dentro de trilhos e de dispositivos que, graças às tecnologias algorítmicas, permitem a extração de mais-valia (valor de rede); os processos de aprendizagem e de formação são inseridos nas estratégias de marketing e de valorização do capital; o corpo humano, nos seus componentes físicos assim como cerebrais, torna-se a matéria-prima para a produção e a programação da saúde e do prolongamento da vida, graças às novas técnicas biomédicas.”

2.1. O pessoal da Revista IHU Unisinos emplacou mais uma na lista: uma entrevista fresquinha com Trebor Scholz. O autor de Cooperativismo de Plataforma coloca os pingos nos Is, mostrando como a chegada da Uber é sempre marcada por uma desregulação geral do serviço de transporte e provocam uma marginalização ainda maior de imigrantes e trabalhadores pobres. Para ele, o que hoje parece ótimo para os consumidores já se afigura como um grande perigo à medida em que uma única empresa, conhecida por métodos nada corretos de atuação, vai se consolidando como dona do mercado global de mobilidade, podendo se valer de preços e práticas que lhe venham à cabeça. “Não sou nostálgico quanto à relação de emprego. Mas atualmente muita gente atribui maior flexibilidade à economia de compartilhamento, que muitos empregos fixos não conseguem oferecer. Por outro lado, em troca de certo grau de flexibilidade os trabalhadores estão renunciando a todos os direitos tradicionalmente associados ao emprego.”

3. Quem também marca presença na revista é Ludmila Costhek Abilio, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade de Campinas (Unicamp). Mas nós decidimos sugerir a leitura de outro texto escrito por ela no Passa Palavra. Ludmila é uma das pessoas que primeiro sacaram a presença dos precursores da Uber no Brasil: é autora de Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos (São Paulo: Boitempo, 2014), que conta como a Natura construiu fortuna em cima do esforço de mulheres que fazem as vendas das empresas de porta em porta, país afora, sem direitos trabalhistas nem garantia de vencimentos:

“A uberização consolida a passagem do estatuto de trabalhador para o de um nanoempresário-de-si permanentemente disponível ao trabalho; retira-lhe garantias mínimas ao mesmo tempo que mantém sua subordinação; ainda, se apropria, de modo administrado e produtivo, de uma perda de formas publicamente estabelecidas e reguladas do trabalho. Entretanto, essa apropriação e subordinação podem operar sob novas lógicas. Podemos entender a uberização como um futuro possível para empresas em geral, que se tornam responsáveis por prover a infraestrutura para que seus ‘parceiros’ executem seu trabalho; não é difícil imaginar que hospitais, universidades, empresas dos mais diversos ramos adotem esse modelo, utilizando-se do trabalho de seus ‘colaboradores just-in-time‘ de acordo com sua necessidade.”

4. Vale também dar uma lida pá-pum num material do Nexo sobre ‘Ubereconomia’. A repórter Juliana Domingos Lima ouviu dois estudiosos da uberização. O Rafael Zanatta é o tradutor de nosso Cooperativismo de plataforma e pesquisador em direitos digitais e telecomunicações no Idec. E Fabro Steibel é diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio:

“É preciso questionar o modelo organizacional das plataformas do Vale do Silício, que são hierárquicos e excludentes da perspectiva de participação dos que estão nas pontas. Plataformas inspiradas no cooperativismo propõem copropriedade e inclusão, evitando precarização. A questão vai além da aplicação das leis trabalhistas”, diz Rafael.

E Fabro acrescenta: “O direito da cidade e o interesse público têm que ser colocados antes da prestação do serviço. A gente não deve ver esse serviço como uma relação entre entes privados: alguém contrata o motorista e o motorista acha um cliente. Essa é uma narrativa que leva a uma privatização do debate. É possível fomentar inovação e ao mesmo tempo fazer garantias, mas é importante que se privilegie o interesse público nessa negociação.”

5. A página da Fundação Oswaldo Cruz também publicou uma entrevista interessante. Marcio Pochmann, professor do Instituto de Economia da Unicamp, pensa sobre a uberização em relação àquilo que vigia até há pouco, com relações mais ou menos regulamentadas e trabalhadores aglutinados em sindicatos e entidades de classe. E coloca a questão no marco do desmonte das leis trabalhistas e previdenciárias levada adiante pelo governo Temer.

“Não há garantia alguma. Se houver trabalho, você terá uma parte daquilo que você veio a realizar. É uma total instabilidade, que não vai permitir ao trabalhador contribuir com o sistema de proteção social como no passado foi possível pelo fordismo e em grande medida ainda pelo toyotismo. Agora ele não tem condições de garantir o pagamento da previdência se não sabe nem se vai receber salário.”

6. No campo mais factual, tem uma matéria recente do jornal Folha de S. Paulo que também vale a leitura. Os repórteres Thiago Amâncio, Daniel Castro e Paulo Gomes fizeram um belo levantamento de dados sobre boletins de ocorrência envolvendo a palavra “Uber”. Foram 684 entre janeiro de 2015 e fevereiro de 2017 no estado de São Paulo. Roubo, furto ou sequestro-relâmpago são os casos mais comuns – 319 no total. O texto tenta colocar foco no problema dos passageiros, como se os motoristas fossem o problema. Mas a real é que os motoristas são as maiores vítimas porque ficam expostos a crimes variados. E, assim como já havia feito em outros países, a empresa lavou as mãos, afirmando que todos seus colaboradores (nunca se usa a palavra “empregado”) passam por extensa checagem de dados.

7. E, por fim, uma leitura gringa direta e reta. Freddie De Boer, acadêmico e blogueiro em Nova York, escreve no Medium sobre as inovações mirabolantes do Vale do Silício. Ele diz que o epicentro global da tecnologia faz fortuna basicamente apresentando como novo o que, em verdade, é apenas a repetição de uma mesma ideia: precarizar nossas vidas para obter lucros bilionários. DeBoer narra também os esforços para vender como bacaníssima a ideia de que agora todos devemos ficar hiperconectados, dormir pouco, comer quando dá tempo: é romance puro para garantir a criação de “um exército de trabalhadores precários desesperados que nunca irão para a cama sentindo-se seguros sobre o futuro financeiro durante a vida inteira”.

8. No The New York Times, o repórter Mike Isaac conta como a Uber violou dados privados de usuários na ânsia por combater os concorrentes. O texto (textão) vai a fundo nas controvérsias envolvendo o CEO da Uber, tido como explosivo e competitivo até o talo. E revela como a corporação valeu-se de trapaças para tentar minar concorrentes e explorou lacunas nas leis para se transformar numa das maiores empresas da nova era dos negócios. O texto, reproduzido pela Folha de S. Paulo, conta que a Apple chegou a ameaçar banir a empresa de seus aplicativos devido às violações de informações.

9. Também o Times narra os esforços da Uber para controlar o único aspecto que hoje lhe escapa: quanto trabalham e para onde se movem os motoristas. Enquanto faz um esforço para tentar soar mais amigável, a empresa investe milhões em pesquisas para criar mecanismos que façam os trabalhadores ficarem mais horas ao volante. A reportagem de Noam Scheiber conta que uma das ideias é de, quando a pessoa estiver por fechar o aplicativo e encerrar a jornada, enviar uma mensagem sobre uma meta que está por ser alcançada, estimulando-a a continuar. E, também, por acionar novas corridas antes mesmo que as atuais terminem, diminuindo o tempo livre e forçando a trabalhar por mais e mais tempo.

Parceria com Doria e desconto em dia de greve
escancaram oportunismo da Uber

Descolada, high-tech, pronta para derrubar as estruturas arcaicas: a imagem que a Uber tenta promover de si mesma mundo afora é maravilhosa — e distorcida. A parceria com o prefeito de São Paulo, João Doria, para que funcionários municipais furem a Greve Geral, e o desconto a usuários que recorrerem ao app para chegar ao trabalho na sexta-feira, dia 28 de abril, só faz reforçar a imensa distância entre as aparências e a realidade da “economia do compartilhamento” corporativa.

Inicialmente, o tucano anunciou em seu pululante perfil no Facebook que havia fechado um acordo com Uber e 99Taxis para que fizessem o transporte gratuito de servidores públicos dispostos a não aderir à paralisação nacional contra o desmonte de direitos sociais promovido pelo governo golpista de Michel Temer. As duas companhias estavam juntas para tentar atenuar os efeitos da manifestação, que se avizinha como a maior desde o golpe e, quiçá, uma das mais importantes em décadas.

Já durante a noite de quarta surgiram manifestações em redes sociais propondo o boicote à Uber. Um evento criado no Facebook já tinha, na tarde desta quinta-feira, 27 de abril, quase seis mil confirmados. Diante disso, tanto Uber quanto 99Taxis recuaram. Passaram a dizer genericamente que darão viagens para a população paulistana, sem fazer menções à participação no movimento fura-greve. Não deveria causar surpresa que empresas especializadas em precarizar o trabalho de seus “colaboradores” apoiem medidas que legalizam o esbulho trabalhista aliando-se a políticos alinhados com as reformas, como João Doria. Mas causa espécie que o façam vendendo a imagem de empresas bem-intencionadas, que apenas querem ajudar as pessoas a se locomover.

Eis a nota que a megacorporação norte-americana — hoje avaliada em US$ 70 bilhões, valor muitíssimo maior que o das grandes empresas do setor de aluguel de veículos — emitiu sobre o episódio:

Como todos sabem, os motoristas parceiros da Uber são autônomos e todos os dias têm o poder de escolher se desejam ou não dirigir pela plataforma. Dado o altíssimo trânsito esperado em São Paulo nesta sexta-feira (28), a forma como a Uber pode ajudar a cidade é incentivando quem for se movimentar a compartilhar um carro. Desta forma, para colocar mais gente em menos carros, vamos oferecer duas viagens de R$ 20 de uberPOOL para quem precisar sair de casa em horários de pico (7h às 11h e 16h às 20h).

A nota e os acontecimentos fazem dar ainda mais razão às críticas contidas no livro Cooperativismo de Plataforma, que nós, da Editora Elefante, tivemos o prazer de lançar recentemente em parceria com a Autonomia Literária e a Fundação Rosa Luxemburgo. Em linhas gerais, o autor Trebor Scholz, professor de cultura e mídia digital da The New School, em Nova York, advoga que a Uber tenta se apropriar de todo um discurso por igualdade e justiça, arrogando-se a posição de responsável por uma ruptura de paradigma no setor de transportes a nível global. “Seu motorista particular” foi o principal slogan da empresa erigida no Vale do Silício, nos Estados Unidos.

Não, os motoristas não são autônomos, nem podem escolher quando desejam dirigir. A Justiça do Trabalho em Belo Horizonte decidiu há poucas semanas que existe um vínculo trabalhista bem clarinho entre a empresa e aqueles que dirigem para ela. Desta maneira, determinou que a empresa arque com o básico do básico: fundo de garantia, décimo-terceiro, férias etc. Os ganhos são tão instáveis e a possibilidade de descredenciamento tão iminente que os motoristas acabam forçados a trabalhar muitas horas, sempre arcando com os próprios custos, enquanto a Uber e seus investidores entram nas listas dos mais ricos do mundo.

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O marketing da empresa bate forte no Big Taxi, numa tentativa de dizer que a indústria de táxis mundo afora é dominada por canalhas que precisam ser derrubados – Uber à frente desse movimento em prol de todos nós. Acontece que nenhuma empresa de táxi, por mais problemas que esse módulo de transporte tenha, jamais chegou a uma ínfima parte do valor que hoje detém a Uber. E nem ao poder: em todo o planeta, a megacorporação tem buscado impor às cidades uma agenda de desregulação do deslocamento, desrespeitando leis e buscando revogar aquelas que possam impor-lhes obstáculos.

Em certo sentido, é muito normal que João Doria e Uber deem as mãos. O prefeito de São Paulo e o CEO da empresa de transportes, Travis Kalanick, são conhecidos pelo comportamento intempestivo e pelos padrões de exigência absolutamente descabidos. Ambos tratam o mundo como extensão de seu quintal de negócios. Por aqui, o tucano afirmou que, embora reconhecendo a legitimidade da greve, vai cortar o ponto dos funcionários simplesmente porque não concorda com o mote da paralisação. Como se coubesse a ele definir o que fazem seus vassalos. Saiu-se ainda com a explicação de que a reforma que arrebenta com as chances de aposentadoria de muita gente não afeta quase ninguém.

Já Kalanick não opinou sobre a greve brasileira, obviamente. Mas sua empresa teve o mesmo comportamento quando taxistas decidiram se juntar a manifestações contra a reforma imigratória de Donald Trump, o que também resultou em um movimento de boicote. Feita a besteira, Kalanick enviou uma mensagem aos motoristas dizendo que buscaria ajudar aqueles que se vissem afetados pelos cortes de direitos dos trabalhadores estrangeiros em terras norte-americanas.

De novo, e de novo, e de novo, o discurso não convence. A postura da Uber é frontalmente oposta à imagem simpática que busca passar. Reportagem publicada esta semana pelo The New York Times, que já comentamos aqui em nosso blogue, expõe como a empresa invadiu os dados de usuários que baixaram o aplicativo por dispositivos da Apple. E narrou também as tentativas nada descoladas de limar do mapa os principais concorrentes.

Além disso, Kalanick afirmou no começo do governo Trump que buscaria trabalhar em parceria para encontrar soluções. Mas, claro, é preciso dar um verniz bacaninha a essa história: “Seremos parceiros de qualquer um no mundo contanto que esteja fazendo o transporte nas cidades melhor, criando oportunidades de emprego, facilitando o deslocamento, tirando a população do ar e o trânsito das ruas.” Tudo o que Trump não fez. Nem a Uber.

Seremos todos ‘uberizados’?

Canalhas, canalhas, mil vezes canalhas!

Patrocinada por um governo golpista e ilegítimo que conta com apoio de apenas 4% da população brasileira e que jamais seria eleito nas urnas, a Câmara dos Deputados votou a toque de caixa, ontem, 26 de abril, uma reforma trabalhista que enterra salvaguardas criadas há 74 anos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). É bem verdade que o marco criado por Getúlio Vargas tem vários defeitos, mas também é verdade tais defeitos, que poderiam ser corrigidos e aprimorados com debate e participação social, a partir de agora mais se parecerão com detalhes tão pequenos de nós todos…

Depois da aprovação por 296 votos favoráveis e 177 contrários — nenhuma surpresa para um parlamento repleto de defensores dos interesses empresariais –, falta agora ver como o texto do governo ilegítimo se sai entre os senadores. Se passar tal como está, seremos todos “uberizados”. Puxa! Que legal! Eu posso trabalhar na hora em que quiser? Definir meus ganhos? Ser dono da minha vida? Não, guri, não pode. Pergunte a um motorista da Uber se a vida anda fácil.

“Daqui a vinte ou trinta anos, quando provavelmente enfrentaremos o fim das profissões e mais empregos serão ‘uberizados’, podemos muito bem acordar e imaginar por que não protestamos contra essas mudanças com mais força”, resume Trebor Scholz em Cooperativismo de Plataforma: contestando a economia do compartilhamento corporativa, livro lançado em parceria entre a Editora Elefante, a Autonomia Literária e a Fundação Rosa Luxemburgo.

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O norte-americano, que é artista e professor de cultura e mídia digital da The New School, em Nova York, problematiza aquilo que é vendido como vantagem pelas grandes corporações dessa área, muito bem simbolizadas pela Uber. E que é vendido como vantagem pelo governo de Michel Temer e por seus comparsas legislativos.

“O presidente Michel Temer tem coragem para apresentar essas reformas. Ele faz isso não pensando na próxima eleição, mas nas próximas gerações, para que no futuro todos os brasileiros tenham casa e emprego.” Guardem essas palavras. São do ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, do PTB, que foi exonerado pelo presidente da República junto de outros três ministros para reassumir sua cadeira de deputado e votar a favor da medida. Mais uma vitória típica de Michel Temer: manobras regimentais para lá de estranhas, microfones cortados, atropelos à oposição. Tudo sob o comando do presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ), que faz cada vez mais jus ao passado ditatorial de seu partido.

Sob as promessas da modernização — sempre ela –, Congresso e Planalto sequestrados pelos lobbies mais inconfessáveis da concentração de renda e poder se esforça em agilidade para fazer da vida dos grandes empresários algo ainda mais fácil, às custas do que restou de nossa liberdade. São muitos os pontos em jogo, e o noticiário internet afora está repleto de textos que comentam cada um. Para nós, importa o espírito da bagaça toda: precarizar nossas vidas até o último fio de cabelo.

“Apesar de toda a deliciosa e caseira conveniência da ‘economia do compartilhamento’, podemos acabar compartilhando as sobras e não a economia”, prossegue Trebor, que, vamos lembrar, está falando de mudanças em nível global, ou seja, os brasileiros não somos privilegiados na perda de direitos trabalhistas, apesar de nossas especificidades. “Podemos sentir remorso por não termos buscado alternativas anteriormente. Sem dúvida, não podemos mudar o que não entendemos. Portanto, estou perguntando, o que a ‘economia do compartilhamento’ significa?”

cooperativismo_de_plataforma_layout_3DBasta olhar para a emblemática Uber para entender o que significa. Os motoristas estão sujeitos às regras da empresa, sem possibilidade de discussão, e não têm direitos trabalhistas. Se um deles adoece, o azar é só dele, já que a megacorporação avaliada em US$ 70 bilhões diz-se mera intermediadora de serviços. Se recebe notas baixas dos usuários, pode ser descredenciado sem mais, perdendo o sustento. Se a empresa decide mudar as tarifas de uma hora para outra, só cabe ao motorista trabalhar mais mais e mais para compensar a redução dos ganhos.

Por esses dias, a Revista do Instituto Humanitas Unisinos, do Rio Grande do Sul, publicou uma bela edição especial sobre a uberização de nossas vidas, analisando a questão tanto a nível global como a nível nacional. Entre muitas reflexões bacanas, pinçamos a de Ludmila Costhek Abílio, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Ela lembra que a Uber dá escala e novas formas a antigos sonhos empresariais de precarização da vida de todos nós.

“Ao mesmo tempo em que se livra do vínculo empregatício, a uberização mantém, de formas um tanto evidentes, o controle, gerenciamento e fiscalização sobre o trabalho. Trata-se então da consolidação da transformação do trabalhador em um nanoempreendedor de si próprio. E da empresa como uma simples provedora dos meios de trabalho”, avalia. “A empresa Uber deu visibilidade a este padrão, mas, como diz o professor Marcio Pochmann, é possível pensar que seja generalizável por todos os setores econômicos.”

Ainda não está claro de que maneira outros setores serão incluídos nesta precarização, mas já está claro que não faltam tentativas nesse sentido. Há páginas de internet e aplicativos voltados ao oferecimento de serviços de comunicação e de design, de Direito e de Medicina, de limpeza e de pequenos consertos. Com ganhos muito rebaixados devido à competição predatória e a exigências descabidas, todos acabam obrigados a trabalhar muito mais, em horários imprecisos e exóticos, arcando com os próprios custos.

Mas, então, o que podemos fazer? Isso também ainda não está claro. A pressa do governo golpista brasileiro em votar rapidamente a reforma trabalhista tem explicação: a greve geral convocada por centrais sindicais para amanhã, dia 28 de abril. Teme o presidente ilegítimo que o tamanho da paralisação, prometida como a maior em três décadas, acabe por intimidar alguns parlamentares, e por isso se esforça por dar celeridade ao desmonte da legislação trabalhista.

Não é à toa que a Uber se somou ao prefeito-show de São Paulo, João Doria, para furar a greve geral de amanhã, definitiva nos rumos desse trem todo: uma manifestação realmente massiva, como parece se avizinhar, pode ser a pressão que falta para colocar freio em algumas das iniciativas cruéis do atual governo. Assim como já havia feito em Nova York, o serviço de transporte de passageiros vai oferecer deslocamento gratuito aos servidores públicos interessados em furar a paralisação nacional.

Olhando mais a longo prazo, e falando desde um ponto de vista global, Trebor Scholz entende que é possível, sim, criar muitas saídas. E tudo começa por ir ao coração das grandes corporações que buscam precarizar nossas vidas, sugando delas as ideias que, trabalhadas coletivamente, podem revolucionar a maneira como nos relacionamos com o trabalho. O autor de Cooperativismo de plataforma lembra que a economia do compartilhamento em si não é um problema: a questão reside na maneira como o capitalismo se apropriou da tecnologia para fabricar precariedades. Se conseguirmos mudar essa lógica e sermos os próprios donos da tecnologia, está aberto o caminho para a mudança.

Uber violou regras, tentou limar
concorrentes e explorou lacunas nas leis

Uma extensa reportagem publicada pelo jornal The New York Times mostra como a Uber fraudou dados, valeu-se de trapaças para tentar minar concorrentes e explorou lacunas nas leis para se transformar numa das maiores empresas da nova era dos negócios. O texto, reproduzido pela Folha de S. Paulo, conta que a Apple chegou a ameaçar banir a corporação de seus aplicativos.

O quase racha entre as duas gigantes do Vale do Silício é um dos muitos momentos controversos envolvendo o presidente-executivo da Uber, Travis Kalanick, conhecido pelo perfil agressivo. Em 2015, a Apple descobriu que a empresa estava se apropriando ilegalmente dos dados de usuários que já haviam apagado o aplicativo de seus celulares, o que viola as normas de privacidade da fabricante do iPhone.

“Em seu seu esforço para fazer da Uber o serviço de carros dominante no mercado mundial, Kalanick desrespeitou muitas regras e normas abertamente”, anota o repórter Mike Issac, “e só deixou de fazê-lo quando apanhado em flagrante ou encurralado. Ele violou regras de transportes e de segurança no trânsito, tentou solapar concorrentes estabelecidos e explorou lacunas e áreas cinzentas na legislação a fim de ganhar vantagem contra concorrentes.”

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Todas essas questões são alvo da reflexão de Trebor Scholz, autor de nosso livro Cooperativismo de Plataforma: contestando a economia do compartilhamento corporativa. Scholz, que é artista e professor de cultura e mídia digital da The New School, em Nova York, mostra como Uber e Airbnb, os líderes daquilo que se convencionou chamar de “economia do compartilhamento”, construíram suas reputações sobre uma série de violações e artifícios.

Para ele, as duas companhias fazem precarizar de maneira definitiva a vida dos trabalhadores, desprovidos de direitos e responsáveis pelas próprias ferramentas de trabalho, submetidos a condições estressantes e a uma instabilidade que tem no poder de classificação do consumidor sua face mais cruel.

Mas não se trata apenas de uma questão individual. Como mostra a reportagem do jornal norte-americano, a Uber, hoje avaliada em US$ 70 bilhões, tenta derrubar qualquer obstáculo que apareça pelo caminho, incluindo leis há muito tempo estabelecidas. O livro lançado pela Editora Elefante em parceria com a Autonomia Literária e a Fundação Rosa Luxemburgo acrescenta que a empresa manipula consumidores e motoristas. Assistimos a isso recentemente no Brasil, com a mobilização de motoristas contra a aprovação de uma nova regulamentação desse tipo de serviço pelo Congresso Nacional.

“Seu modus operandi segue um padrão. Primeiro, empresas como Uber violam várias leis – leis antidiscriminação, por exemplo – para então conquistar uma base crescente de consumidorxs, que demandam mudanças jurídicas”, escreve Trebor. “A Airbnb gastou mais de 8 milhões de dólares em lobby em São Francisco quando residentes votaram a favor de regular a operação da empresa. A Uber gasta mais dinheiro com lobistas do que a Walmart. De forma significativa, tanto Uber quanto Airbnb estão usando seus aplicativos como plataformas políticas que podem ser usadas para ativar clientes para opor qualquer esforço regulatório contra eles.”

A reportagem do The New York Times acrescenta mais caroços a esse angu. Mostra, por exemplo, que a Uber tentou sabotar seu principal concorrente internacional, o Lyft. Para desestimular os motoristas a trabalharem também para o Lyft, o presidente da empresa forçava os funcionários a fazer muitos pedidos pelo Lyft e em seguida cancelá-los, de modo a transmitir a ideia de que não valia a pena manter o aplicativo.

Internamente, retrata o jornal, a Uber promove um ambiente nada amigável. A agressividade é valorizada por Kalanick, que teria engavetado casos claros de assédio para proteger funcionários que apresentam bons resultados em termos de lucro. “Crescimento acima de tudo” é o lema do presidente da corporação. “Crescimento por cima de todos nós” talvez fosse um mote mais sincero, a julgar pelas novas revelações.

Um livro-manifesto para frear
as grandes corporações da internet

O advogado Rafael Zanatta considera que apenas com uma atuação concertada será possível frear o avanço das grandes corporações da internet. Em entrevista a Oscar D’Ambrosio, da Rádio Unesp, o pesquisador em direitos digitais e telecomunicações no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) comentou sobre o lançamento de Cooperativismo de Plataforma: contestando a economia do compartilhamento corporativa.

“Esse livro é quase um panfleto, um manifesto. Contesta a ideia de que devemos nos acostumar com grandes corporações, como Google e Airbnb”, afirmou Rafael, que foi o tradutor do livro para o português. “O cooperativismo de plataforma retoma os conceitos básicos de cooperativismo: participação econômica, gestão democrática, distribuição de lucros entre os participantes. E implementa um modelo de cooperativa nessas grandes plataformas tecnológicas.”

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O livro do norte-americano Trebor Scholz busca disseminar esse conceito, mostrando que é possível e necessário escapar à oligopolização do setor de serviços oferecidos via internet. O trabalho foi trazido ao Brasil graças à iniciativa de Rafael, que se juntou à Editora Elefante, à Autonomia Literária e à Fundação Rosa Luxemburgo para garantir que as ideias pudessem circular por aqui.

Scholz é escritor, artista e professor de cultura e mídia digital da The New School, de Nova ​Y​or​k, e alerta que é preciso começar de imediato a construir saídas. Uber e Airbnb são as faces mais claras da apropriação da economia do compartilhamento por grandes corporações. Todas elas têm uma história em comum: uma plataforma na internet que recebe enormes investimentos do capital de risco via Vale do Silício, nos Estados Unidos, e passa a competir em setores tradicionais da economia com um discurso de modernização e sentimento comunitário.

“A gente tem que trabalhar em conjunto como sociedade para evitar que essas empresas predatórias continuem avançando de forma desregulada”, resume Rafael, que critica uma agenda de precarização de direitos e falta de transparência. Motoristas do Uber, por exemplo, podem ser descredenciados a qualquer momento, não contam com direitos trabalhistas e são responsáveis pela manutenção do próprio veículo. “O cooperativismo garante voz e poder para quem é um cooperado. O cooperado tem direitos assegurados e tem voz na empresa.”

Rafael entende o ceticismo em torno da criação de alternativas, mas avalia que a união de esforços entre cooperados e programadores é o caminho para viabilizar o surgimento de saídas. Scholz, o autor de Cooperativismo de plataforma, diz que um passo fundamental é ir ao cerne dos aplicativos que hoje representam precarizam: apropriar-se daquilo que têm de bom em termos de ideias para em seguida garantir a criação de iniciativas permeadas por democracia interna e garantia de direitos.

Motoristas do Uber protestam contra a votação de projeto que regulamenta serviço

Os apps de trabalho e a precarização

Por Lilian Milena
Jornal GGN

Apesar da grande diversidade de aplicativos à disposição do consumidor, esse é um mercado praticamente oligopolizado na atualidade. A prova disso está no seu aparelho de celular onde, muito provavelmente, os apps que você utiliza receberam investimentos da Google, Amazon ou Microsoft. Esse pequeno e forte grupo também está por trás do capital investido nos aplicativos de prestação de serviços mais acessados no mundo, como Uber e Airbnb. O alerta é do professor de cultura e mídia digital da The New School, de Nova York, Trebor Scholz, autor de Cooperativismo de Plataforma: contestando a economia do compartilhamento corporativa, que acaba de chegar ao Brasil pelas editoras Autonomia Literária e Elefante e a Fundação Rosa Luxemburgo.

Scholz participou, conectado de Nova York, da coletiva realizada em São Paulo, no lançamento do seu livro para o português, destacando que a expansão desse modelo de economia do compartilhamento (sharing economics), ou economia sob demanda, ocorreu a partir de 2008, em meio à crise financeira mundial, como uma opção promissora por dois motivos: “Essas plataformas de intermediação provem grandes benefícios para você enquanto usuário. São fáceis de usar, você não tem muito trabalho e pode, ao mesmo tempo, consumir e ser um prestador, alguém que oferece esse tipo de serviço e ganha algum dinheiro com essas plataformas”.

Mas existe também o lado oculto, que ganhou o nome de Uberização do trabalho, como explicou ao GGN o tradutor do livro, Rafael Zanatta, que também é pesquisador na área de tecnologias digitais: “Uberização é um conceito usado para designar esse tipo de economia, no qual você tem pares oferecendo um serviço ou um produto, uma relação de troca, mas, no meio, você tem um intermediário extraindo valor dessas partes e não estabelecendo uma relação de trabalho formal com elas”. Os donos das plataformas detêm, em média, 25% a 30% do valor dos serviços prestados, sem um contrato que assegure direitos trabalhistas.

Outros dois pontos negativos levantados por Scholz é a transformação desses serviços em verdadeiras commodities e, ainda, a invasão da privacidade em nível massivo dos usuários que, para baixar esses apps, são obrigados a aceitar contratos que têm, como contrapartida, o acesso dos seus dados pessoais. Por isso, o pesquisador chama de “ilegal” a metodologia dessas plataformas que acabam tornando o Direito nulo: “Nenhuma delas respeita relações pré-existentes dos setores onde prestam serviços”, ressalta.

Apesar do cenário que aponta para um horizonte de menos direitos e garantias, Scholz traz no seu trabalho exemplos de cooperativas de plataformas digitais que deram certo. Como a Open Group Cooperativa, de Nova York, formada por trabalhadoras de limpeza e cuidado com crianças, eliminando completamente o modelo de intermediação entre prestadores de serviço e clientes. Além de maior retorno financeiro, as trabalhadoras têm voz decisiva na empresa.

Scholz também destaca a experiência da Green Táxi Cooperative, na cidade de Denver, capital do Colorado, Estados Unidos, onde motoristas imigrantes formaram a empresa, com o apoio do sindicato, para fazer frente ao Uber, atendendo hoje 37% dos usuários locais. Outra experiência é da Stocksy, uma cooperativa canadense de fotógrafos e artistas de imagem que já faturou 7 bilhões de dólares e reune cerca de mil profissionais.

E por que elas deram certo?

Segundo o pesquisador para a cooperativa dar certo os empreendedores precisam estabelecer o valor correto dos serviços para o mercado onde o trabalho será implementado. “A Stocksy é um bom exemplo, pensado por pessoas que já tinham experiência naquele mercado, sabiam exatamente qual era a demanda e qual a proposição de valor”.

Ele também afirmou que, diferente das grandes corporações, as cooperativas dispõem seus dados organizacionais na internet, de forma aberta e democrática, salientando ainda que dificilmente as experiências avançaram em precarização. Muito pelo contrário, o modelo dessas organizações é mais transparente e democrático, e aumenta o poder de ganho dos trabalhadores pela inexistência do intermediário.

Por fim, Trebor Scholz destacou que não encontrou exemplos da cultura misógina entre as cooperativas, tipo de violência “muito presente nas Startups do Vale do Silício, que colocam a mulher em situação de submissão plena”, concluiu.

O pesquisador da The New School reuniu ao todo 160 experiências de várias partes do mundo, e que podem ser acessadas pelo site Plataform.coop, convidando os brasileiros a compartilharem exemplos, independente da área de atuação.

Programadores, ativistas e trabalhadores

O GGN perguntou ao pesquisador Rafael Zanatta se as experiências de cooperativismo de plataforma teriam algo em comum, que pudesse ser estruturada para replicar esses modelos nas regiões em desenvolvimento e a resposta foi positiva, ao lembrar de outro case bem-sucedido, de uma cooperativa de limpeza estabelecida em Boston, Estados Unidos.

“O diferencial é que existia um projeto na Universidade do MIT tentando identificar experiências de cooperativas, e quando eles identificam que essas mulheres estavam se organizando, eles ofereceram programadores de graça. Então, tinha uma união ali de programadores, ativistas e trabalhadores. Nas várias experiências que a gente mapeou, sempre tem essa união: tem trabalhadores, tem o ativista [geralmente de universidades] e tem o programador. Acho que o que falta no Brasil é juntar esses três grupos. Esses grupos estão muito isolados. Se a gente tiver mais diálogo a fazer com que as pessoas conversem, a gente pode tentar florescer esses mercados de cooperativa de plataforma aqui no Brasil. É isso que está faltando”.

Zanatta explica que o período áureo dos aplicativos vendidos pelas grandes corporações começou em 2014 e está entrando em declínio, isso porque as pessoas estão se dando conta que o retorno financeiro prometido é ilusório.

“Esse despertar é tardio porque a pessoa percebe isso depois de seis meses, um ano, um ano e meio trabalhando com as plataformas. Então já vi vários motoristas se organizando com seus sindicatos. Em João Pessoa tem um caso, por exemplo, de uma cooperativa que foi formada a partir de um sindicato de motoristas, eles criaram o próprio aplicativo para concorrer”, conta.

Zanatta salienta, entretanto, que a reforma trabalhista aprovada recentemente na Câmara dos Deputados, e em discussão no Senado, facilitando as regras para a terceirização irá trazer impactos negativos para o setor cooperativista, mesmo que indiretamente.

“[A reforma] é um grande problema, porque vamos ter grandes plataformas de intermediação operando no Brasil que não vão ser cooperativas, fomentando um tipo de mercado que é hierarquizado, onde você tem um player, uma empresa que é o intermediador”. Por outro lado, assim como a “uberização”, implementada pelas grandes corporações, a reforma poderá elevar ainda mais a resistência dos trabalhadores e, consequentemente, incentivar a criação de cooperativistas.

A grande questão é como os pequenos grupos de prestação de serviços locais vão conseguir fazer frente à eficiência ofertada pelas grandes corporações, não só em termos de estrutura de serviço, mas também em termos de divulgação. À essa pergunta Zanatta responde que a comunicação entre trabalhadores e clientes locais será a saída, como o caso dos trabalhadores motoristas de João Pessoa, que distribuíram panfletos pela cidade mostrando a perda de receita que eles sofriam por trabalhar com aplicativos como o Uber ou o 99.

Para começar a discutir os impactos de
Uber, Airbnb e outros apps de trabalho…

Por Daniel Santini
Fundação Rosa Luxemburgo

 

No dia da aprovação na Câmara dos Deputados do Projeto de Lei 5.587, de 2016, que determina a base para a regulamentação dos serviços de transporte individual de passageiros por meio de aplicativos digitais no Brasil, a empresa Uber investiu consideravelmente em uma campanha para influenciar a opinião pública e parlamentares. A multinacional é contra qualquer restrição ao lucrativo modelo pelo qual gerencia motoristas para o atendimento das solicitações que recebe via celulares conectados à internet. Nesta quarta-feira, dia 4, a empresa comprou páginas duplas nos principais jornais do país para cobrar dos deputados respeito ao que classifica como “direito de escolha”.

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Apesar de apresentada como uma mera questão de respeito à opção dos consumidores, a decisão do Congresso de estabelecer regras mínimas sobre a intermediação de serviços por meio de aplicativos envolve muitos outros aspectos — incluindo o risco de precarização das condições de trabalho dos profissionais do setor e a consolidação de um modelo econômico marcado pela concentração de dinheiro e poder nas mãos de poucas empresas estrangeiras. Trata-se de uma discussão difícil e que não se limita ao transporte. Pelo contrário. A assim chamada “economia do compartilhamento” corporativa avança com velocidade em diferentes áreas, beneficiada pela falta de regras e pela dificuldade do poder público de acompanhar e legislar sobre novos formatos de negócio.

É justamente na crítica à rápida disseminação de aplicativos de empresas multinacionais e seus impactos que se baseia o livro Cooperativismo de plataforma: Contestando a economia do compartilhamento corporativa, apresentado na noite desta segunda-feira, dia 3 de abril, em São Paulo. O livro, publicado no Brasil pela Fundação Rosa Luxemburgo em parceria com as editoras Autonomia Literária e Elefante, não se limita a fazer um alerta contra as mudanças em curso. O autor, Trebor Scholz, fala com entusiasmo das novas ferramentas digitais e de suas possibilidades, defendendo que a internet pode ser o lugar para uma nova fase do cooperativismo, agora beneficiado por plataformas de solidariedade baseadas em software livre. Conectado de Nova York, onde dá aula de cultura e mídia digital na The New School, ele conversou com uma plateia formada por sindicalistas, desenvolvedores, pesquisadores e curiosos.

A conversa, que durou quase duas horas, foi transmitida pela TV Drone e está disponível na íntegra:

Citando exemplos de sucesso que vão de cooperativas de trabalhadores imigrantes latinos nos Estados Unidos a redes de transporte individual organizadas a partir da articulação de redes de motoristas particulares, Trebor Scholz falou sobre como novas formas de organização podem surgir em contraposição ao modelo empresarial, defendeu sistemas baseados em ferramentas e licenças abertas, e sugeriu a adoção de tecnologias livres. A apresentação contou com a participação do responsável pela tradução da edição para o português, Rafael Zanatta, mestre em Direito pela Universidade de São Paulo e em Direito e Economia Política pela Universidade de Turim, na Itália, e pesquisador em direitos digitais e telecomunicações no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Também participou Rodrigo Souto, Graduado em Ciência da Computação na UFBA, desenvolvedor e integrante da Cooperativa de Trabalho em Tecnologias Livres (Colivre), organização baseada em Salvador, na Bahia. A mediação foi feita pela escritora Ana Rüsche, que, com Daniel Santini, é autora do prefácio da edição brasileira.

Ao introduzir a discussão sobre as novas formas de organização econômica baseadas em tecnologia, Rafael Zanatta lembrou que o próprio termo “economia de compartilhamento” surgiu para designar bases públicas abertas coletivas, tais como a Wikileaks, ou ferramentas de software livre. Ele critica a maneira como o modelo de plataformas baseadas em código proprietário e administradas por poucas empresas multinacionais foi e segue sendo implementado. “Houve uma resignificação por parte de empresas. As coisas aparecem de maneira atropelada, sem o mínimo de discussão”. Como alternativa, o advogado defende que é possível pensar em uma nova era de cooperativismo em redes, algo como uma economia solidária digital.

O público participou bastante com questões sobre pontos teóricos, como as posições críticas da própria pensadora Rosa Luxemburgo sobre cooperativismo, incluindo eventuais limitações de alcance político, algo que o autor menciona no livro, até questões bastante práticas, como o desequilíbrio na concorrência entre transnacionais e pequenos grupos de cooperados na prestação de serviços, inclusive com a defesa de que as subcontratações sem direitos praticada pelas empresas poderiam ser entendidas como dumping social. Representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), presentes no evento, mencionaram que existem demandas de motoristas de Uber por apoio para sindicalização e para garantia de direitos, e manifestaram preocupação em relação ao futuro de diferentes categorias. O aumento da automação e a perspectiva de cada vez mais robôs cumprirem com funções até então realizadas por pessoas também foram temas discutidos.

Como integrante de uma cooperativa de tecnologia baseada em Salvador, Rodrigo Souto defendeu que a própria organização do trabalho neste formato já é uma posição política, assim como a decisão de adotar o software livre, uma premissa fundamental do trabalho do grupo em que está envolvido. Ele entende que, para evitar que as estruturas coletivas já consolidadas acabem cooptadas, é preciso firmar redes de cooperativas, frentes amplas capazes de lutar por mudanças. Citou os desafios e necessidades de atualização da legislação. “Abrir uma cooperativa é mais complicado que abrir uma empresa e, neste formato, há limitações como participar de alguns editais, por exemplo”, menciona. Como parte das alterações necessárias, ele defende que é preciso também considerar mecanismos para dificultar o que chama de “coopergatos”, cooperativas de fachada que são controladas como empresas e servem apenas para fugir de impostos e obrigações trabalhistas.

Livro propõe tecnologias livres contra a uberização do trabalho e da vida

Em meio aos impactos da aprovação da terceirização n​a​ Câmara dos Deputados, da perspectiva de desmonte da ​Previdência ​Social e do cancelamento de garantias mínimas trabalhistas, tentar compreender e refletir sobre as novas formas de organização do trabalho é fundamental.

Al​​​​ém das ameaças representadas pelas diferentes reformas na pauta conservadora apresentada no Congresso, é preciso considerar também o impacto direto de novas tecnologias nas relações laborais, as mudanças já concretizadas, os limites e possibilidades futuras.

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Neste sentido, as editoras Autonomia Literária e Elefante​ e a Fundação Rosa Luxemburgo convidam para um bate-papo sobre economia do compartilhamento e o fenômeno da uberização das profissões. O debate acontece na próxima segunda-feira, dia 3 de ​abril, no ​Ateliê do Gervásio (Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga,​ ​São Paulo​).

Na ocasião, será lançado o livro ​​Cooperativismo de Plataforma​: Contestando a economia do compartilhamento corporativa​, de Trebor Scholz, com tradução de Rafael Zanatta.

A ideia é discutir não só a multiplicação de aplicativos propriet​á​rios em um novo mercado concentrado por poucas empresas transnacionais, marcado pela concentração econômica, precarização e desregulamentação​ do trabalho​, mas também alternativas possíveis e o potencial do uso de tecnologias livres e plataformas cooperativas como uma alternativa a essa ordem em implementação.

​O livro

​O autor, Trebor Scholz, ​é escritor, artista e professor de cultura e mídia digital da The New School, de Nova ​Y​or​k. O livro foi traduzido por Rafael Zanatta, mestre em Direito pela Universidade de São Paulo e em Direito e Economia Política pela Universidade de Turim, na Itália, pesquisador em direitos digitais e telecomunicações no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (I​dec).

​Durante o lançamento, ambos apresentar​ão​ os principais conceitos do livro, comentando episódios recentes e exemplos concretos​.​ Rafael Zanatta ​estará presente ​no auditório e Trebor​ participará por meio de videoconferência.

Para trazer mais​ ​elementos​ sobre a experiência na construção de modelos alternativos à economia do compartilhamento e um pouco da realidade fora do Eixo Rio-São Paulo, também estar​á​ conectado​ em videoconferência​ Aurélio A. Heckert, desenvolvedor de Software Livre e integrante da Cooperativa de Trabalho em Tecnologias Livres​ (Colivre)​, organização baseada em Salvador, na Bahia.

A mediação da conversa será feita pela escritora Ana Rüsche,​ que, com Daniel Santini, é​ autora do prefácio ​à​ edição brasileira.

A proposta é de refletir sobre as mudanças em curso em diferentes mercados de trabalho e setores. Mais do que se render passivamente às comodidades da economia de compartilhamento​,​​ ou simplesmente criticá-la sem apresentar alternativas,​ é preciso compreender seus impactos e limitações.

Ou, como questiona Trebor Scholz​, autor do livro,​ aceitar que “daqui a trinta anos, quando enfrentaremos o fim das profissões e mais empregos serão ‘uberizados’, podemos muito bem acordar e imaginar por que não protestamos contra essas mudanças. Podemos sentir remorso por não termos buscado alternativas, mas não podemos mudar o que não entendemos”.

 

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COOPERATIVISMO DE PLATAFORMA
Lançamento do livro em bate-papo com Rafael Zanatta, responsável pela tradução e comentários​ ​à edição brasileira, e conexão com Trebor Scholz, o autor, direto de Nova ​Yor​k, e com Aurélio Heckert, desenvolvedor de software livre e integrante da Colivre. Mediação: Ana Rüsche​.​
Data: ​3 de ​abril de 2017, segunda-feira
Horário: a partir das 19h
Local: Ateliê do Gervásio
Endereço: Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bela Vista, São Paulo (SP)
Realização: Autonomia Literária, Elefante Editora e Fundação Rosa Luxemburgo​