Debate marca relançamento de 
Corumbiara, caso enterrado

O que já era ruim ficou muito pior. E ainda vai piorar.

Há dois anos, quando lançamos Corumbiara, caso enterrado, sabíamos que a situação de violência no campo brasileiro não estava resolvida. Muitas pessoas continuavam sendo assassinadas, o poder de resposta do Estado era baixo e enviesado, a bancada ruralista dava as cartas em Brasília. Mas não imaginávamos que grandes chacinas voltassem a ocorrer. Tampouco imaginássemos que haveria um golpe de Estado no Brasil do século 21. Subestimamos nossa capacidade de produzir barbárie.

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Aqui estamos, com 51 mortes no campo apenas nos seis primeiros meses de 2017, a caminho do recorde neste século. E agora? A recente chacina de Pau d’Arco, no Pará, nos remonta ao Brasil dos anos 1990, marcado pelos massacres de Corumbiara e de Eldorado do Carajás. Naquele momento, pelo menos, havia um governo com alguma legitimidade, e que podia ser cobrado por setores da população porque mantinha laços com o mundo real. Agora, não.

O Ministério da Justiça virou uma banca de advocacia do presidente golpista, alçado ao poder pela força ruralista e financista e lá mantido às custas de muita negociata à luz do dia. Não há um mísero setor da sociedade com interlocução com o governo, a menos que a gente considere que o mercado financeiro é a sociedade.

Nessa angústia, decidimos nos juntar ao De Olho nos Ruralistas na próxima segunda-feira em São Paulo para reunir uma turma de peso em busca de discutir as origens do problemas e suas possíveis soluções. E também para relançar Corumbiara, caso enterrado, de João Peres. O livro esgotou-se no começo deste ano, mas seu ciclo ainda não estava cumprido: a obra precisa continuar circulando para ampliar o debate sobre como o Brasil do presente é o Brasil do passado.

Nesses dois anos vertiginosos, o trabalho ganhou o segundo lugar no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, em 2015, e foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2016. As láureas são importantes, claro, mas o mais importante para nós é a grande rede de solidariedade que se formou para discutir o tema e fazer com que o trabalho chegasse aos cantinhos de Rondônia, palco da tragédia de 1995.

Olha só o pessoal que vai debater a violência no campo:

Alceu Castilho, coordenador do De Olho nos Ruralistas e autor de Partido da terra.
Kátia Brasil, Amazônia Real (por Skype, direto de Manaus).
Carolina Motoki, Repórter Brasil.
Padre Antônio Naves, Comissão Pastoral da Terra.
Josineide Costa Sousa, Movimento dos Pequenos Agricultores.

Mediação:

João Peres, autor de Corumbiara, caso enterrado.

 

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Serviço:
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Debate: Os crimes no campo explodem novamente. E agora?
Data: 31 de julho de 2017
Horário: 19h
Local: Ateliê do Gervásio
Rua Conselheiro Ramalho, 945
Bixiga, São Paulo-SP
Entrada franca!

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Quantas vezes o sistema político tem de morrer antes de ser enterrado?

O presidente da República é flagrado em negociações escusas com um empresário que comprou praticamente toda a alta casta governista e opositora de Brasília. O quase-vencedor das eleições de 2014 pede propina a esse mesmo empresário, que nadou de braçadas nos treze anos de governos dos oponentes do quase-vencedor. A lista de promiscuidade entre público e privado é imensa — e só cresce. Quantas vezes o sistema político precisa morrer antes de ser enterrado?

Se há um consenso entre as pessoas sérias de direita e de esquerda no Brasil, esse consenso diz respeito à falência total do sistema representativo. Diante do diagnóstico comum, uns defendem a ditadura como saída, enquanto outros advogam que só uma democracia de fato poderá nos tirar dessa. A primeira corrente já teve sua chance. E sabemos no que deu. Então, que tal tentar a segunda alternativa, que jamais foi testada em nossas judiadas terras?

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De uma hora para outra, os maiores grupos de comunicação do país — que em tempos de instabilidade costumavam agir em coordenação absoluta, como no golpe militar de 1964 e no golpe contra Dilma Rousseff — começam uma briga pública que tem no centro da balança o Palácio do Planalto. Empurram de um lado e de outro para ver quem derruba ou salva Michel Temer. Suas razões permanecem tão obscuras quanto as razões pelas quais o golpista ainda não renunciou.

Parlamentares da extrema-direita sobem às tribunas do Congresso para defender Diretas Já, enquanto o mercado se dá ao despeito de dizer quando Temer cairá e quem ficará em seu lugar. O ministro da Fazenda — que foi alto funcionário da empresa corrupta que agora denuncia deus e o mundo — toma a licença de declarar que continua no cargo, independente de cortarem o pescoço do presidente, em um sinal renovado, límpido e desesperador de que, definitivamente, não somos nós, cidadãos, quem não dá as cartas.

O cenário cada vez mais caótico é marcado pela presença de analistas aos montes. Há um para cada centímetro quadrado de Facebook. Nós, humildemente, admitimos que nada sabemos. E, talvez menos humildemente, nos damos ao direito de achar que quem diz que entende o que está acontecendo é gênio ou está mentindo.

Nem por isso achamos que o caminho é desencanar de tentar entender. E, justamente por isso, na Editora Elefante seguimos na labuta diária para lançar livros que podem não ter grande apelo comercial, mas nos parecem abordar assuntos fundamentais para o exercício da reflexão. Tentamos enxergar para além das estruturas, para além dos fulanos e sicranos que, hoje, estão a protagonizar a encenação do absurdo, mas, amanhã, sairão de cena enquanto a lona do teatro seguirá em pé, acolhendo novos atores capazes de manter o status quo.

livros_elefante_3D_72dpi_5“Com velhas ferramentas não se constrói o novo”, decreta o pensador equatoriano Alberto Acosta, autor de nosso querido O Bem Viver – uma oportunidade para imaginar outros mundos (2016). Nele, o ex-presidente da Assembleia Constituinte do país sul-americano propõe uma ruptura radical com a ideia de desenvolvimento, que dominou o mundo ao longo do século passado, a tudo homogeneizando em nome de um suposto propósito comum de bem-estar.

Acosta enxerga a morte do atual sistema político, que, dominado por interesses financeiros, não consegue qualquer grau de conexão com o mundo real. E, frente a isso, propõe a construção de novos sistemas de mundo, que saibam incorporar o melhor do conhecimento das populações tradicionais e aquilo que as novas ferramentas nos oferecem. “Se a luta é de toda a sociedade, já não há espaço para grupos vanguardistas que assumam uma posição de liderança privilegiada. Tampouco é uma tarefa que se resolve no espaço nacional”, afirma o ex-ministro de Rafael Correa, com quem rompeu ainda nos primeiros anos de governo.

livros_elefante_capa_72dpi_1Correa, aliás, despede-se da presidência equatoriana sob um legado dúbio, marca comum dos integrantes do chamado “ciclo progressista” latino-americano. O governo dele é analisado em nosso primeiro livro, O Equador é verde (2011), de Tadeu Breda. A obra já está esgotada, mas pode ser baixada gratuitamente.

Os governos progressistas são também um eixo central de nosso Descolonizar o Imaginário (2016), uma potente coletânea de textos sobre os maiores pensadores latino-americanos do Bem Viver. É um livro denso, muito necessário para refletir sobre os caminhos que tomamos ao longo do boom do ciclo de commodities, na década passada, e como esses rumos nos desviaram de outros, muito mais promissores, para os quais ainda podemos retornar.

“É necessário, e também urgente, empreender uma alternativa pós-extrativista”, escreve o uruguaio Eduardo Gudynas, pesquisador no Centro Latino-Americano de Ecologia Social e um dos autores que marcam presença. “Os países que primeiro começarem a discutir essas questões estarão melhor preparados para lidar com um futuro próximo que certamente será pós-extrativista.”

livros_elefante_capa_72dpi_7Olhando para o caso brasileiro, vemos, de novo, como o atual sistema político é incapaz de nos representar. Não há nenhuma voz expressiva, entre os homens que controlam o poder, que pense em um novo ciclo. Pelo contrário, o extrativismo e a depredação dele consequente, que já eram marcas dos governos petistas, ganharam impulso ainda maior sob Temer. Se há uma vantagem no governo golpista, é a de haver deixado de lado certas encenações. As coisas estão sendo feitas por uma elite que quer lucrar ainda mais. E ponto. Muitos já não se dão ao engodo de usar o povo para dar vazão a certos absurdos, ainda que outros sigam a se valer de um discurso tão falso quanto o Congresso que habitam.

Nesse sentido, entre as poucas certezas a que nos damos direito está a de que não é seguindo o PT que vamos sair dessa. Certos líderes petistas caíram como luva no papel de opositores: fazem discursos em altos brados, dizem-se de esquerda, declamam a revolução em verso e prosa, e chegam até a vestir cocares em plena Esplanada, ignorando que há poucos meses mandavam atropelar os direitos indígenas para defender os direitos das megaempreiteiras. Mas, enquanto a encenação pública se desenrola, noticia-se, por exemplo, que nos bastidores Lula negocia pacto com FHC para uma eleição indireta que poderia levar ao comando da República Nelson Jobim, ex-ministro de ambos os governos e sujeito que chegou a se gabar de ter adulterado artigos da Constituição.

alem do pt nova 3D“Vista em perspectiva de longa duração, a transformação do PT em braço esquerdo do partido da ordem será integrada como mais um capítulo da contrarrevolução permanente, que caracteriza a história brasileira contemporânea”, escreve Fabio Luis Barbosa dos Santos, autor de Além do PT (2016). O professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo analisa o governo petista sob a égide do ciclo progressista latino-americano, e conclui que, a exemplo de outros, os mandatos de Lula e Dilma tiveram como saldo uma profunda desmobilização popular que acaba por ditar as dificuldades de rearticulação da esquerda em meio a uma conjuntura terrível. Valendo-se dos versos de Emicida, ele diz que é preciso deixar o conforto do telhado petista para aventurar-se a ver as estrelas e descobrir o que há de promissor no céu.

Enquanto não nos rearticulamos, assistimos ao avanço do autoritarismo sobre nossas vidas. Indígenas e antropólogos indiciados em uma CPI da Funai dominada por ruralistas que são réus em ações diversas. As Forças Armadas sendo chamadas a ocupar a Esplanada dos Ministérios para acudir um presidente bambo. Um novo massacre de trabalhadores rurais, impensável até há pouco tempo, levando-nos a 26 mortes em conflitos no campo em menos de cinco meses completos e passando a impressão de superaremos o sinistro recorde obtido em 2016, com 61 assassinatos. Tudo isso em menos de uma semana.

2013 não acabou. O significado e os destinos das Jornadas de Junho estão em aberto. Certo é que, de lá para cá, diante de um poder público titubeante ou aplausivo, polícias e milícias sentiram-se cada vez mais encorajadas a agir. O caso do fotógrafo Sérgio Silva, atingido no olho por uma bala de borracha em meio às manifestações daquele ano, parece pouco, frente à desgraça que a cada dia se renova e se incrementa. Mas é, em verdade, uma oportunidade de reflexão profunda sobre um caso individual que toma proporção coletiva nas páginas de Memória Ocular (2016).

livros_elefante_3D_72dpi_3Também entre o passado mal-resolvido e o futuro repetivivo, Corumbiara, caso enterrado (2015) fala sobre a morte de camponeses e policiais durante uma reintegração de posse no sul de Rondônia, em 1995. Passando o caso a limpo, o autor, João Peres, alerta que os pilares que levaram à tragédia não foram removidos, o que poderia nos levar a novos episódios sangrentos. Como, de fato, nos levaram. E continuam levando: enquanto Temer periga cair em Brasília e João Doria demole prédios com gente dentro na região de São Paulo conhecida como Cracolândia, uma reintegração de posse no Pará vitima dez agricultores sem-terra. Até quando a história se repetirá contra nós?

Corumbiara, caso enterrado está entre os finalistas do Prêmio Jabuti

Na noite de 24 de novembro, nosso Elefante vai descer a Brigadeiro, pomposo que só, no seu passo lento e folgado, como bem entender, para chegar à cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti no Auditório do Ibirapuera. Avisa o novo prefeito João Trabalhador que, até lá, é melhor não privatizar o parque, porque a gente vai passar sem pagar pedágio. Bem, isso se tivermos um pouquinho mais de sorte.

Sim, amigas e amigos! Corumbiara, caso enterrado, livro-reportagem de João Peres e Gerardo Lazzari, está entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti na categoria Reportagem e Documentário. A premiação já vai na sua 58ª edição e é, sem dúvida, uma das mais importantes do cenário literário brasileiro. Os vencedores serão conhecidos em 11 de novembro. No ano passado, nosso Elefantinho cruzou os pampas para receber o segundo lugar do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, promovido pela Ordem dos Advogados do Brasil seção Rio Grande do Sul e pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos.

Nenhum dos nossos livros é lançado pensando nos prêmios. Mas, quando eles vêm, a gente não se queixa, não. Vamos em frente. Ainda mais neste ano-treta. Não é qualquer nota falar sobre latifúndio, ditadura e violação de direitos humanos no Brasil do presidente Fora Temer Golpista. A propósito, ao lançar o livro-reportagem sobre o massacre de Corumbiara, em julho de 2015, fomos chatos ao ressaltar a importância do episódio ocorrido na localidade de Corumbiara, há vinte anos, como uma mostra de que não temos uma democracia consolidada.

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É claro que não imaginávamos que a desgraceira política pudesse chegar tão longe. Mas aí está ela, a cada dia, mostrando que estamos muito longe do horizonte que queremos. E isso só faz reforçar o sentido de trabalhos como o da Editora Elefante. Neste ano, chegaremos a onze títulos. É bastante para quem conta apenas com os trocados do bolso para fazer virar a bagaça. E temos orgulho de ver que nossos livros, por mais diferentes que sejam nas temáticas, têm uma linha em comum: remar contra a corrente, fazer da teimosia uma regra, trazer à tona os assuntos mais cabeludos.

Vamos torcer para que o Elefante ganhe um amigo Jabuti, claro. Mas o verdadeiro prêmio recebido por Corumbiara, caso enterrado foi a acolhida que tivemos em Vilhena, na casa do Newton Pandolpho e de sua família; em Colorado do Oeste, onde o Marcel Eméric Araújo lotou o auditório do IFRO (que, por sinal, foi ocupado pelos secundaristas em luta) pra receber nossa publicação; em Rolim de Moura, onde Carlos Trubiliano nos abriu as portas da UNIR; em Ji-Paraná e Ariquemes, graças às articulações das irmãs Renata e Juliana Nóbrega; e em Porto Velho, e aí é quando faltam palavras para agradecer a todo o apoio que tivemos da Laura Massunari.

João Peres, Gerardo Lazzari e Corumbiara, caso enterrado ganharam seu maior troféu quando sensibilizaram e moveram uma maré de solidariedade que envolveu todas essas pessoas — e muitas mais — em torno da necessidade de fazer memória das vítimas, das histórias e das injustiças brasileiras. Com certeza, os maiores louros que poderíamos colher com este trabalho, os colhemos durante o périplo rondoniense. Depois disso, o que mais vier é lucro. E tomara que venha. E se não vier, tubo bem. Seguiremos buscando novos incômodos.

Há um ano, lançávamos ‘Corumbiara, caso enterrado’


Foi bom demais. Vieram novos e velhos amigos, gente que conhecíamos e gente que desconhecíamos, pessoas que confirmaram presença e pessoas que apareceram de surpresa. Há um ano, lançávamos Corumbiara, caso enterrado. O frio na pança logo deu lugar a uma grande alegria por reunir tantas e tantos interessad@s em trocar ideias.

Depois do evento em São Paulo, tivemos lançamentos em Osasco, em Brasília e em várias cidades de Rondônia – várias mesmo, um montão. Quando mandamos para a gráfica o primeiro livro-reportagem sobre o massacre de Corumbiara, ocorrido exatamente vinte anos antes, não imaginávamos mobilizar tanta gente.

Um ano depois, quase todos os mil exemplares do trabalho de João Peres e Gerardo Lazzari já estão circulando por aí. Parece pouco, mas é muito para o mercado editorial brasileiro e, mais ainda, para uma editora independente que recém retomava suas atividades, após quase quatro anos de intervalo desde O Equador é verde, título que marcou nossa estreia.

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Retomamos fôlego e, felizes com o potencial de um trampo assim, de lá para cá colocamos no mundo mais três filhotes: Cabuloso Suco Gástrico, de Breno Ferreira, uma HQ ácida que só; O Bem Viver, do equatoriano Alberto Acosta, concebido em parceria com a Autonomia Literária; e Memória Ocular, um livro-manifesto de Tadeu Breda sobre Sérgio Silva, o fotógrafo atingido no olho por uma bala de borracha durante as jornadas de junho de 2013.

Na época de lançamento de Corumbiara, caso enterrado, a fervura já andava alta nas rodas políticas e sociais da República. E a gente insistia com o velho lugar comum de que não conhecer a história nos leva a repetir nossos erros. Só não imaginávamos que o bagulho ficaria tão louco. Alguém conseguiria lembrar de 10% de tudo que rolou nestes doze meses? Impossível. Só sabemos que andamos vários passos para trás.

E sabemos também que o desaniversário de vinte anos de outro massacre, o de Eldorado do Carajás, no Pará, passou tão batido quanto as duas décadas do massacre de Corumbiara. Pudera: 17 de abril foi a data em que a Câmara dos Deputados realizou a bizonha sessão que culminou na abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Nesse cenário fervilhante, fica difícil olhar para o passado e tentar refletir sobre as zoeiras erradas de nosso mundo. Mas insistimos que essa é uma necessidade muito, muito básica para ser deixada de lado. E continuamos a lançar títulos que tentem, do alto de sua limitação numérica e espacial, contribuir para este propósito. Vem aí Xondaro, uma HQ de autoria de Vitor Flynn, lançada em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, que retrata a luta dos guarani mbya de São Paulo pela demarcação de suas terras.

Esse dia foi trilôko! Editora Elefante recebe primeiro prêmio

O vento minuano não impediu que nosso Elefante atravessasse os pampas para receber sua primeira condecoração. Quem esteve na última quinta-feira, 10 de dezembro, no auditório da OAB gaúcha, em Porto Alegre, jura de pés juntos que nosso paquiderme vestia bombacha. Alguns informes dão conta de que ele até arriscou uns pitos no palheiro do Gaudério, mas, pacifista que é, recusou duelos de facas. Melhor sentar-se em roda e beber um bom chimarrão.

Esse dia foi trilôko! A Editora Elefante recebeu das mãos da secretária-geral adjunta da OAB-RS, Maria Cristina Carrion Vidal de Oliveira, o Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo. Corumbiara, caso enterrado, que lançamos em julho, ficou em segundo lugar na categoria Grandes Reportagens, na companhia de Lucas Castro Figueiredo, vencedor com Lugar nenhum: militares e civis na ocultação dos arquivos da ditadura (Companhia das Letras), e de Renato Antonio Dias Batista, terceiro lugar com O menino que a ditadura matou (RD).

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Na 32ª edição, o prêmio é um dos mais importantes do país nesta seara. É organizado desde os últimos anos da ditadura pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos, que conta com a parceria da OAB e da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio Grande do Sul. A cerimônia foi comandada por Jair Krischke, que manja muito do tema e há décadas denuncia as violações cometidas pelo Estado.

O autor do livro, João Peres, viajou a Porto Alegre no lombo de nosso estimado mascote. No auditório da OAB, ele recordou que o caso de Corumbiara, ocorrido em 1995, é um herdeiro direto do regime autoritário. Foram os militares que garantiram uma insana distribuição de terras na Amazônia, armando a bomba-relógio que há vinte anos estourou, deixando ao menos doze mortos durante reintegração de posse na fazenda Santa Elina, no sul de Rondônia.

O jornalista afirmou que as instituições do pós-ditadura continuaram a dar guarida a violações de direitos humanos, levando a uma apuração inconclusa e a um estranho julgamento ocorrido em 2000 em Porto Velho, com a condenação de três policiais e dois sem-terra. Por fim, ele recordou que este é o primeiro prêmio de uma editora sem fins lucrativos, totalmente independente e bancada na raça, com dependência do carinho e da divulgação de seus leitores.

João recebeu também o primeiro prêmio na categoria Online, ao lado de Thiago Domenici e Moriti Neto, da Agência Página Três. A turma foi agraciada pela série de reportagens Como se absolve um policial, feita para a Agência Pública de Jornalismo Investigativo.

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Já nosso Elefante, como bom respeitador das tradições locais, retirou-se ao final da noite, mateou e deitou-se no chão do galpão para apreciar umas horas de sono antes de empreender o regresso a São Paulo. Lentamente, como sempre, e com a esperança de cruzar os pampas outras vezes para receber novos agrados.

Editora Elefante ganha seu primeiro prêmio!

Chegou a galope, vestindo bombacha e mateando, uma notícia tri legal no apagar das trevas de dois mil e crises. A Editora Elefante conquistou sua primeira honraria! E o mérito é todo do livro-reportagem Corumbiara, caso enterrado, que ficou em segundo lugar na categoria Grandes Reportagens do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, promovido pela seccional gaúcha da Ordem dos Advogados do Brasil, pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos e pela Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio Grande do Sul.

O autor do trabalho junto com o fotógrafo Gerardo Lazzari, o repórter João Peres, ganhou também na categoria Online, ao lado de Thiago Domenici e Moriti Neto, por uma reportagem para a Agência Pública sobre julgamentos de policiais envolvidos em homicídios. Em 2010, João havia recebido menção honrosa na mesma premiação, junto com Virgínia Toledo, por uma série de reportagens para a Rede Brasil Atual e a Revista do Brasil sobre a luta de dom Paulo Evaristo Arns contra a ditadura.

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O Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo está na 32ª edição – sim, os caras começaram a reconhecer trabalhos jornalísticos em defesa da vida e da liberdade ainda durante a ditadura. O coordenador da parada é Jair Krischke, arquivo vivo de violações cometidas pelo regime autoritário, fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos em 1979 e um dos primeiros a alertar para as conexões entre milicos de Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, no que mais tarde se convencionou chamar de Operação Condor.

São justamente sobre a ditadura os outros dois trabalhos premiados na categoria Grandes Reportagens. Lucas Castro Figueiredo ficou com o primeiro lugar pelo livro Lugar nenhum: militares e civis na ocultação dos arquivos da ditadura, publicado pela Companhia das Letras. E Renato Antonio Dias Batista levou a terceira posição por O menino que a ditadura matou, da RD.

Corumbiara, caso enterrado tem um pé no regime dos generais e outro no que costumar definir como democracia. Mostra como os militares criaram condições para que terras públicas da União na Amazônia fossem regaladas a gente rica para que ficasse ainda mais rica. E como os governos do pós-ditadura não mexeram um dedinho sequer para corrigir uma série de distorções.

É este saldo que leva ao episódio que ficou conhecido como massacre de Corumbiara. Em 9 de agosto de 1995 ao menos doze pessoas morreram na fazenda Santa Elina, no sul de Rondônia – nove camponeses, dois policiais militares e um homem não identificado — durante o cumprimento de um mandado de reintegração de posse. Cinco anos mais tarde, dois sem-terra e três PMs foram condenados. Isso é um resumo por certo insuficiente: restam dúvidas, muitas dúvidas, muitas mesmo, e o livro-reportagem lançado pela Editora Elefante em julho deste ano é uma tentativa de começar a saná-las.

Uma tentativa, até agora, bem-sucedida. Em setembro, circulamos por Rondônia de cabo a rabo conversando com estudantes, jornalistas, historiadores, militantes de movimentos sociais e tudo quanto é gente – quase duas mil gentes, para ser mais claro. Para alguns, foi a primeira oportunidade de tomar contato com o episódio mais emblemático do estado. Para outros, foi uma chance de ganhar uma ferramenta com capacidade para ajudar a retirar do esquecimento esta história.

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O prêmio vem, agora, colocar a cereja de um bolo que pode não ser o mais saboroso, nem o mais belo, mas que precisamos comer para que não surjam outros e outros e outros (“um país que não conhece sua história está fadado a repeti-la em seus erros”, dizem os bons conselheiros). A despeito de cunhices, dilmices e alckimices, ou justamente porque existem cunhices, dilmices e alckimices, temos certeza de que devemos continuar a andar na contramão.

Corumbiara, caso enterrado praticamente se esgotou sem ter um mísero exemplar vendido por uma grande rede de livrarias – dessas que se parecem com cadeias de supermercado e que tratam livros como meros objetos de consumo, manja? Apostamos em uma rede que se move por interesses comuns, e não por pecúnia, dindim, bufunfa. Deu certo. Por isso, esse prêmio é dividido com todos aqueles que, do começo do ano pra cá, apostaram neste projeto. Cederam horas de trabalho para revisões, materiais de divulgação, organização de eventos. Cederam colchões em salas e quartos para que pudéssemos economizar recursos e levar nosso trabalho a mais gente. E, óbvio, com aqueles que cederam horas de lazer para ler com carinho e respeito o que fizemos.

O prêmio só faz reforçar nossa convicção de que é esta a pegada que fará da Editora Elefante uma iniciativa coletiva e cada vez mais forte. Em 2016, ninguém perde por esperar. Estamos preparando mais livros que se opõem a Belos Montes, a corporações treinadas para matar, a corporações treinadas para pilhar o país e tomar o poder. E que propõem tudo ao contrário disso, com um sistema calcado na camaradagem e na reconquista da autonomia humana. Seremos manada.

 Em tempo: a entrega do prêmio será na quinta-feira, 10/12, Dia Internacional dos Direitos Humanos, em Porto Alegre. Auditório da OAB/RS. Rua Washington Luiz, 1.110 – 2º andar

 

Há vinte anos, bispo foi interrogado após denunciar falhas em apuração sobre massacre

Ossos humanos ou de animais? Uma das muitas dúvidas em torno do caso conhecido como “massacre de Corumbiara” segue em aberto, vinte anos depois do episódio ocorrido na fazenda Santa Elina, no sul de Rondônia. À época, o bispo de Guajará-Mirim, dom Geraldo Verdier, teve de responder a um inquérito na Polícia Civil, que queria mais informações sobre os restos retirados da cena do crime.

Ao visitar o local, nos dias seguintes às mortes registradas durante reintegração de posse, dom Geraldo encontrou objetos calcinados que se assemelhavam a ossos. Separou-os em duas amostras. Uma, mais numerosa, foi encaminhada às autoridades rondonienses, que encomendaram uma análise ao Departamento de Medicina Legal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior paulista. E outra, menor, enviada ao perito Michel Durigon, professor da Faculdade de Medicina de Paris.

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“Vi a longa fila do pessoal que estava sendo atendido pelos médicos, constatei evidentemente o massacre. Acompanhei as famílias que queriam enterrar seus filhos e não puderam porque levaram para Vilhena e enterraram lá. Não houve nenhum respeito aos direitos humanos”, recordou o bispo, hoje com 78 anos, em conversa com o jornalista João Peres, autor de Corumbiara, caso enterrado, primeiro livro-reportagem sobre a história, lançado em julho pela Editora Elefante.

Ao deixar o acampamento, há vinte anos, dom Geraldo deu uma entrevista a repórteres locais manifestando espanto pela cena que havia presenciado. “A perícia vai dizer o que é. Se são ossos humanos ou de animais. Um sinal de barbárie total.” O resultado pericial era importante porque o grupo de sem-terras que ocupou a Santa Elina duvidava dos números oficiais de mortes – doze, sendo nove posseiros, dois policiais e um rapaz não identificado.

Os resultados vindos da Unicamp disseram que, das amostras analisadas, todas eram de bois e porcos. Já Durigon assegurou que “duas das amostras examinadas são com toda certeza de origem humana”.

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A cúpula da segurança pública de Rondônia ficou muito irritada pelo fato de existir numa análise paralela à da Unicamp, mas não se comoveu com a informação de que poderia haver um erro grave no trabalho. Em 28 de novembro, o delegado Raimundo Mendes determinou que o bispo fosse interrogado. Uma quinzena antes, dom Geraldo havia escrito uma carta na qual afirmava que sua intenção não fora desmerecer a universidade paulista, de cuja competência não duvidava.

“Por esta razão estou estranhando que em quatro saquinhos contendo a grande maioria das amostras ósseas recolhidas na fazenda Santa Elina se achasse apenas restos de um animal suíno e outro bovino. É muita coincidência o fato de, em apenas nove pedacinhos, eu ter recolhido justamente dois ossos que são de seres humanos e três que podem ser, enquanto não há rastro disso nas amostras muito mais numerosas enviadas à Unicamp”, alfinetou.

Em 30 de novembro, o responsável pelas análises feitas em São Paulo, Fortunato Badan Palhares, escreveu uma carta ao secretário estadual de Segurança Pública de Rondônia, Wanderley Martins Mosini, questionando como era possível que uma amostra não oficial de ossos houvesse saído da fazenda Santa Elina e do país. Ele se queixou de que o caso arranhava a credibilidade de sua universidade.

Em 14 de dezembro, dom Geraldo prestou depoimento à Polícia Civil basicamente com a reiteração do que havia sido dito por escrito. Nem a ideia de puni-lo, nem o pedido por um terceiro exame das ossadas acabariam levados adiante, deixando em aberto mais um capítulo da história. O passar dos anos não foi suficiente para dirimir dúvidas e impor uma versão final dos fatos.

Corumbiara, caso enterrado fecha debates de 2015 em faculdade de Jornalismo

Fechando a temporada de debates em 2015, o autor de Corumbiara, caso enterrado, João Peres, compareceu na última sexta-feira ao campus Vergueiro da Uninove, no centro de São Paulo, para bater um papo com os alunos do quarto semestre do curso de Jornalismo. A molecada estava muito interessada em conhecer o caso e os bastidores da apuração, mesmo com o fim de semana batendo à porta e a iminência de um Brasil x Argentina na televisão.

Durante quase duas horas, a turma conversou sobre a importância de fazer o primeiro livro-reportagem sobre o caso de Corumbiara, ocorrido há vinte anos no sul de Rondônia. O jornalista relatou a surpresa sobre a recepção positiva do trabalho no estado, visitado no último mês de setembro para uma turnê de divulgação. “Há muitas lacunas a serem preenchidas pelo jornalismo. É fundamental que as pessoas se identifiquem com o tema que está sendo tratado, que a história tenha relação com a vida delas”, disse João Peres.

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O debate foi fruto de um convite do professor Giuliano Tosin, que elogiou o livro pela maneira como busca retratar a história com fidelidade aos fatos, e não a qualquer dos grupos envolvidos. Os alunos perguntaram sobre os momentos mais tensos no decorrer do processo de apuração, dos motivos que levaram o autor a escolher o tema e das principais descobertas trazidas por Corumbiara, caso enterrado.

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O trabalho, lançado em 20 de julho pela Editora Elefante, foi debatido e apresentado na USP, em Brasília, em Osasco, na Grande São Paulo, e em Rondônia. Depois deste bate-perna, restam uns poucos exemplares a serem vendidos. Eles podem ser encomendados em nossa lojinha virtual ou em alguma das livrarias abaixo.

Porto Velho

Loja do Livro
Rua Rogerio Weber, 1987
Centro
(69) 3211.5262

Vilhena

Banca do Zoio
Av. Capitão Castro, 3770
Centro
(69) 3322.6112

Manaus

Banca do Largo
Largo São Sebastião, ao lado do Teatro Amazonas
(92) 3234.8856

São Paulo

Livraria do Espaço
Espaço Itaú de Cinema na Rua Augusta
(11) 3141-2610

Blooks – Shopping Frei Caneca
Rua Frei Caneca, nº 569 – 3º Piso
(11) 3259-2291

Brasília

Livraria do Chiquinho
Campus UnB entrada Norte, CEUBinho
(61) 3307-3254

Rio de Janeiro

Blooks Livraria
Praia de Botafogo, 316
(21) 2237-7974

Presente de fim de ano?
Lembre-se dos elefantes

Chegou a hora daquela enxurrada de amigo secreto, festas de fim de ano, Natais e sabe-se lá o que mais. E você conhece vários sangue bão que merecem um belo presente, mas não quer ficar na zoeira tradicional de perfuminho, bijuteria, roupa, livros-que-custam-os-olhos-da-cara. Ou pior: você simplesmente não sabe o que dar…

Seus problemas acabaram: um quadrinho bacana, um livro-reportagem responsa, um material editado com carinho: dá um zói na lojinha virtual da Editora Elefante. É a chance de romper com vários vícios de uma vez só. E, além disso, agradar uma pessoa que você preza e considera.

Ao presentear com livros da Editora Elefante, você fortalece uma iniciativa independente e sem fins lucrativos. De quebra, ainda faz deste um momento culturalmente fértil para quem recebe o agrado. E o que é melhor: sem gastar os tubos, porque sempre buscamos o melhor equilíbrio entre nossos custos e o bolso de quem compra.

Ajudar a enriquecer ainda mais uma livraria que não permite que outras cresçam a seu redor? E uma editora que paga migalhas a seus autores? Bah, para com isso. A Editora Elefante não está e não quer estar nos circuitos comerciais da vida. Nosso rolê tem outra pegada. Acreditamos na proximidade entre pessoas, na criação de laços de afinidade sólidos, sem essa de usar o trabalho dos outros para enriquecer.

Por enquanto, não temos muitas opções, é verdade, já que retomamos atividades de fato neste dois mil e crises (vulgo 2015) que já se prepara para nos deixar, não sem o prenúncio de que amanhã será pior. Mas o que temos é, se nos permite o momento de nos sentirmos a última bolacha do pacote, foda. Confere aê:

 

cabuloso_3Cabuloso Suco Gástrico. Acabamos de lançar os quadrinhos ácidos de Breno Ferreira, rapaz de Limeira que não dá bobeira. Uma seleção com as melhores tirinhas, mais dez inéditas, no primeiro trampo solo de um sujeito que promete – até a Laerte, lenda viva, recomendou.

 

 

ignobil_3Ignóbil. O universo sujo de Dáblio C, um sujeito maluco de São Bernardo, no ABC paulista, só poderia sair das profundezas pelas páginas de uma editora tão biruta quanto. São mais de cem páginas de drogas, álcool, sexo (não se prenda aos padrões heteronormativos do patriarcado) e todo tipo de assunto do universo pra lá de underground.

 

 

corumbiara_3Corumbiara, caso enterrado. Este ano, um caso absurdo completou duas décadas. E fomos dos poucos a não deixar passar em branco o chamado “massacre de Corumbiara”, que ganhou finalmente seu primeiro livro-reportagem. O trabalho do repórter João Peres vai além do resumo óbvio e busca apontar acertos e erros de todos os envolvidos.

 

 

o_equador_e_verde_3 O Equador é verde. Chegou ao fim de 2015 sem um puto no bolso? De boa. A gente entende. Não estamos muito melhor, pra falar a real. Nosso primeiro livro-reportagem, lançado em 2011 e esgotado, pode ser baixado gratuitamente em PDF. Como não temos planos de reimprimi-lo, decidimos colocá-lo à disposição num momento em que o governo de Rafael Correa mostra sinais de esgotamento e inequívoca mudança de rumos.

 

Então, minha amiga, meu amigo, sem mais palavras, convidamos a entrar nessa o quanto antes. Agora, se você tiver de presentear um mala daqueles, que te atazanou o ano todo, pode dar uma autoajuda bem bobinha. Ou apostar que um de nossos livros ajude a clarear um pouco o horizonte do figura.

Demos umas trombadas na Feira Miolo(s) de publicações independentes

Os elefantes aqui estão muito felizes – felizes demais – com nossa primeira participação na Feira Miolo(s). Chegamos cedo à Biblioteca Mario de Andrade, enquanto o centro de São Paulo acordava com uma luz embaçada em que todo aquele concreto fica ainda mais cinza. O frenesi dos feirantes gráficos na frente da biblioteca, descarregando carros e táxis, contrastava com o sossego de uma manhã chuvosa antes dos comércios abrirem suas portas.

Era sábado, 7 de novembro. Nem os botecos mais madrugadores tinham notas miúdas no caixa para ajudar a remediar o desleixo de quem pretende vender livros sem trocado no bolso. Sorte que o japonês da banca era mais esperto que todo mundo e havia se precavido com cédulas de dez em quantidade – e simpático para dividir algumas conosco.

Deu tudo certo. E, no final, quem passeou pelas dezenas de bancas espalhadas pela Mario de Andrade usou e abusou do cartão. Crédito ou débito? Quer sua via? É curioso estar do lado de cá do balcão. E eram muitos balcões: tanta gente que todo mundo dividiu mesa. Cotovelo com cotovelo, perna encolhida. Melhor: assim dá mais contato.

A Editora Elefante levou três dos quatro títulos de seu catálogo: os quadrinhos Ignóbil, de Dáblio C., e Cabuloso Suco Gástrico, de Breno Ferreira; e o livro-reportagem Corumbiara, caso enterrado, de João Peres. O Equador é verde, de Tadeu Breda, só não foi porque já está esgotado. Em compensação, carregamos conosco a primeira publicação dos camaradas da Editora Autonomia Literária: A Origem do Estado Islâmico, de Patrick Cockburn.

No início, estávamos meio tensos em meio a tanta boniteza: a galera capricha bagaray nas artes gráficas. Mas fomos muito bem recebidos – pelos colegas expositores e pelo público. Cada gravura, aquarela, serigrafia, cartaz, fotografia e livro de arte que vimos em cima das mesas ou dependurados em varais serviram de inspiração pra melhorar mais e mais. E os sorrisos silenciosos de quem passava, pegava, folheava, devolvia e seguia seu caminho também serviram de motivação. Isso sem falar, claro, nos que levaram pra casa um pedaço do nosso trampo.

Para além das vendas, que não foram ruins, o barato da Feira Miolo(s) foi saber que existe gente ligada nas mesmas coisas que nós: galera que não quer nem saber e publica meeeeeesmo. Nada de ficar esperando grandes corporações, grana, investimentos. Tem que fazer. Do jeito que dá. E dá cada coisa linda…

“Fazer a própria publicação, ir atrás de modelos gráficos, é uma das maiores libertações que existem. Você coloca aquilo no mundo, mostra pra outras pessoas, vê se aquilo funciona ou não para depois, enfim, ver o que vai fazer com aquilo”, disse, em seu podcast, a escritora Ana Rüsche, para quem a Miolo(s) deveria ter como subtítulo “chega de preguiça”. Concordamos. “Lá tem sete mil ideias maravilhosas de como você pode colocar um texto no papel, papel no papel, uma arte no papel, e é muito inspirador.”

Um puta prazer conhecer e dividir espaço com essa galera: olhar nos olhos, trocar ideia e apreciar o trabalho alheio para além das fotos embaçadas tiradas com celular que circulam pelo Facebook — como essa aí de cima. Tato, minha gente, tato. É importante. Cada vez mais importante.

No final, doamos um exemplar de cada um de nossos títulos à Biblioteca Mario de Andrade. A gente espera que os responsáveis pelo acervo sejam generosos com os elefantes e coloquem todos eles nas prateleiras. Assim, eles poderão chegar a ainda mais gente. Manadas, manadas. Vamos caminhando.

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