A descoberta de que pessoas atrás das grades
também são… pessoas

Por Bruna Escaleira
Revista Azmina

 

O muro de concreto que separa a prisão do resto da cidade nem é tão alto. Mas as barreiras físicas e simbólicas que vão surgindo no caminho de Natalia até seu local de trabalho impõem uma separação irrevogável entre o fora e o dentro da prisão. “Um lugar que existe não em prol dos que lá estão, mas em prol dos que lá não se encontram”. Um espaço de constante vigilância, “guardando quem não pode sair, como histórias que tivessem de permanecer caladas, abafadas pelas portas todas”.

Funcionária do Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário (CHSP) desde 2012, a psiquiatra paulistana enfrentou um longo processo de adaptação e percepção de uma realidade tão diferente da sua. A chave para lidar com aquela estrutura dura, incômoda e suas regras absurdas, no entanto, não estava nas fechaduras das inúmeras portas e grades do sistema prisional. Estava nas pessoas:

“Amenizado o receio inicial de que eu pudesse ser agredida fisicamente, desrespeitada sexualmente, ter minha vida imediatamente ou fora dali ameaçada, compreendo agora, passados quatro anos, haver vivido naquele começo um certo encantamento com a prisão, por mais absurdo que isso soe. Depois de perceber que meus medos não se configuravam como perigos constantes e iminentes, houve espaço para este sentimento aparentemente deslocado, que consistia na descoberta óbvia e simples, mas grande, de que aquelas pessoas eram pessoas.” (Desterros, p. 25)

Com o objetivo de compor sua dissertação de mestrado em Psicologia Clínica na USP, Natalia começou a escrever relatos sobre seus atendimentos e a colher depoimentos de detentas e detentos internados no CHSP. Porém, assim como a linguagem da “rua” (como quem está dentro da prisão chama tudo e todos que estão fora) não é suficiente para interpretar as nuances das gírias e códigos que circulam por entre as grades, o relato médico parecia não conseguir abarcar todas as dimensões humanas daquelas histórias. Foi assim que o olhar sensível de Natalia transbordou e se tornou literatura.

Desterros: histórias de um hospital-prisão mistura as percepções da autora a histórias de pessoas muito diversas, exceto pelo fato de estarem ou terem passado por um período de encarceramento. Uma série de relatos curtos intercala-se ao desenvolvimento mais longo de uma história em especial: a da angolana Donamingo. Vítima de um esquema de tráfico internacional de drogas, ela deixou a África para vender sapatos no Brasil e descobriu-se presa em uma terra tão distante da sua ao mesmo tempo em que se descobria grávida do segundo filho.

“Sentada diante de mim, na lanchonete de uma galeria no centro de São Paulo, Donamingo rememora seus últimos dias em Luanda tentando emprestar a eles a tristeza que lhes caberia se soubesse o que estava por vir.

Mas não consegue.

É capaz, no máximo, de se surpreender com a ingenuidade de quem não temia nada, e a alegria que relembra é o avesso opaco da tristeza atual, uma sem acesso à outra. Dois mundos incomunicáveis, feitos de passado e futuro que não se encontram, e no entanto ela estava ali, na minha frente, personificação do impossível.” (Desterros, p. 29)

Em uma edição tão criativa e cuidadosa quanto a escrita de Natalia, com as costuras da encadernação à mostra, a independente Editora Elefante nos presenteia com mais um título extremamente pertinente e necessário para o entendimento da realidade em que vivemos — quem assina a capa, aliás, é a designer Karen Ka, que já falou conosco sobre seu projeto Lambe Buceta. Fique agora com algumas palavras da própria autora em nossa entrevista:

AzMina: O que te motivou a escrever o livro?

Natalia Timerman: Quando comecei a trabalhar como psiquiatra no Centro CHSP, eu tinha acabado de entrar no mestrado com um projeto sobre pacientes borderline. Nas primeiras semanas de trabalho, aquele me pareceu um lugar tão surpreendente e desafiador que mudei todo o projeto. Minha dissertação acabou sendo feita a partir do meu olhar ao hospital penitenciário e da leitura de Hannah Arendt. O resultado, chamado A liberdade segundo sua privação: (im)possibilidades do homem num hospital penitenciário, foi o embrião do livro Desterros.

São tantas as questões que a prisão suscita, e tantas outras as que resultam do encontro entre um hospital e uma prisão, duas instituições em si complexas, que dá mesmo vontade de escrever. Nesses anos no CHSP, já escutei de diversos profissionais que a vivência ali dava um livro. Um só não, vários, assim como as histórias que se passam ali dentro. Tive essa sensação ao terminar o livro: eu poderia seguir escrevendo infinitamente, mas, em algum momento, precisava de um ponto final.

AM: Você já tinha alguma experiência com escrita literária antes dessa obra? Nos conte um pouco da sua relação com a literatura.

NT: Desde cedo gostava de ler e de escrever. Meu sonho de criança era ser escritora e, apesar de meu percurso profissional a princípio não me aproximar da literatura, os livros sempre estiveram por perto e foram um norte e um refúgio. Escrever e ler sempre foram uma forma de me relacionar com o mundo, ao mesmo tempo necessária e prazerosa. Eu tinha cadernos e cadernos preenchidos como diários e escrevia alguns contos; cheguei também a começar um romance. Mas era como se tivesse que, a cada vez, tomar a decisão de escrever, porque isso não cabia no meu dia a dia, e essa decisão não durava.

Eu costumo dizer que dei uma grande volta para chegar até esse lugar de escrita, que passou pela medicina, pela psiquiatria e pela psicologia (e também um pouco pela faculdade de Letras, que cheguei a começar durante o curso de Medicina, mas que não consegui terminar). Hoje vejo que foi uma volta importante até mesmo para a maneira como se dá meu escrever. O Desterros é exemplo disso.

AM: Como se deu a escolha do formato do livro e dos relatos?

NT: Já na dissertação, a descrição do hospital-prisão e os relatos foram feitos a partir do meu olhar e da minha voz, e minha transformação durante os anos de trabalho compõe um elemento importante desse ponto de vista. Mas o mestrado era mais teórico e tinha menos relatos. A história da Donamingo, tão central no livro, era apenas um deles.

Algumas pessoas começaram a me dizer que eu tinha um livro nas mãos; cheguei a mandar a dissertação para algumas editoras, mas nenhuma quis publicá-la como estava. Eu conheci uma das pessoas da Editora Elefante por acaso na mesma época, que leu e sugeriu algumas mudanças, como que eu me aprofundasse na história da Donamingo, tão potente. Essa pessoa disse que eu poderia até inventar: como não era mais um mestrado, não havia mais uma preocupação acadêmica. Eu tentei, mas não gostei do resultado.

Foi quando decidi tentar encontrá-la (o que conto com mais detalhes no livro) para preencher as lacunas do que eu sabia sobre ela. Já não me lembro se a ideia de que a história dela fosse o eixo do livro veio antes ou depois disso: agora, parece tão natural que seja assim que não consigo saber. Depois, o trabalho foi quase de costura, com o precioso olhar de preparação e edição, para fazer com que os relatos seguissem um rumo e que dialogassem com os trechos em que a descrição do hospital e minha reflexão sobressaem.

AM: Quem você espera que seja o leitor de Desterros?

NT: Eu gostaria que o livro fosse lido por quem não tem a menor ideia de como seja a prisão, por quem imagina o mundo detrás das grades segundo os preconceitos do senso comum, como eu mesma via, para que justamente isso seja desconstruído. Acho que olhar pessoas como pessoas é também uma forma de olhar para si, de se rever enquanto dono de um olhar viciado para determinados assuntos.

Mas tenho percebido que as pessoas que já se interessam pelo mundo do cárcere têm sido também leitores do Desterros. Num dos eventos de divulgação do livro, tive o prazer e a honra de dividir uma mesa com uma jurista que me apontou para algo que eu não havia enxergado: eu, trabalhando no hospital penitenciário, tenho uma posição muito privilegiada para olhar e dizer o que se passa lá. Para alguém da sociedade civil que queira escrever sobre a prisão, não é tão fácil conseguir o acesso que eu já tinha, e talvez por isso este livro tenha interesse para essas pessoas.

AM: Como você conta no livro, a realidade do sistema prisional brasileiro não é fácil. A escrita te ajuda de alguma forma a lidar com ela?

NT: Certamente. Escrever me ajuda a lidar com a realidade do sistema prisional brasileiro porque é também um meio de reflexão. Escrevendo, à medida em que as narrativas se tecem, consigo criar para mim mesma compreensões que, antes da existência daquelas histórias de forma organizada literariamente, eu não conseguia alcançar. É um alento para mim, e espero que, através de um enxergar humanizador, também para aqueles sobre quem falei.

AM: Você ainda trabalha no CHSP? Pretende seguir carreira lá?

NT: Sim, eu ainda trabalho no CHSP – agora estou de licença-maternidade, mas pretendo voltar quando a licença acabar. É um lugar de muitos desafios e aprendizados.

AM: Pode nos contar um pouco sobre a sua relação com a personagem principal, Donamingo?

NT: Acho que o Desterros é, em alguma medida, também a história dessa relação: uma mulher branca, psiquiatra, que conhece uma mulher negra, presa. O livro é um pouco a história desse abismo. O título Desterros, no plural, remete em primeiro lugar ao fato de Donamingo se encontrar longe da terra dela. Depois, ao fato de que, de alguma forma, todos os presos são desterrados. Finalmente, remete ao desterro em que estamos todos diante da história de alguém sem lugar.

Mas isso só é acessível dentro de cada um, a partir de olhar um outro. O acesso a esse olhar para mim através do outro, devo muito à Donamingo. E também devo a ela tantas outras questões e sentimentos que visitei, por exemplo, quando segurei nos braços o filho dela fora da prisão. Foi inevitável comparar o peso dele ao peso do meu filho, um pouco mais velho. Ela me deu a oportunidade radical de me rever em vários sentidos. Até como psiquiatra: quando fui escrever a história dela, vi que faltavam muitos elementos para a compreender como pessoa. Percebi quão rasa pode ser, quantas lacunas deixa, uma narrativa que busca apenas sintomas.

AM: Os personagens sabem sobre o livro? Algum deles chegou a lê-lo?

NT: Alguns personagens sabem, principalmente aqueles cujos relatos estavam já na dissertação. Para outros tantos, não tive a oportunidade de dizer: saíram do CHSP, ou faleceram, ou eu os havia atendido apenas no ambulatório e não cheguei a encontrar novamente. De toda forma, todos os nomes foram modificados para que a identidade deles fosse preservada. Eu não sei se algum deles leu, exceto pela Donamingo: eu li para ela alguns trechos do livro uma das vezes em que nos encontramos fora da prisão. Foi uma experiência e tanto, vê-la se reconhecer nas minhas palavras. Ela sorria e concordava com a cabeça.

AM: Já tem algum próximo projeto literário?

NT: Enquanto o Desterros estava sendo preparado, eu comecei uma pós-graduação em formação de escritores no Instituto Vera Cruz, que terminei há pouco. Foi muito importante e prazeroso; aprendi e li muito, e consegui abrir espaço para a escrita no meu dia a dia. O trabalho final desse curso é um romance acerca de uma mulher às voltas com o fim de um relacionamento curto, mas que a abalou muito. Um tema bem diferente do Desterros

Uma manada de gente compareceu
ao lançamento de Desterros em SP

Fez um calorão digno de fevereiro. Por um milagre de verão, não choveu. Lotou. Muitos abraços e sorrisos. Gente conversando, se reencontrando, se conhecendo: bem do jeito que a gente gosta. O lançamento de Desterros – histórias de um hospital-prisão, em 14 de fevereiro, não poderia ter sido melhor.

Peça seu exemplar

Mais de duzentas pessoas lotaram o casarão do Bixiga para prestigiar o livro de estreia da psiquiatra Natalia Timerman, que tem o projeto gráfico de Bianca Oliveira, a capa de Karen Ka e a edição cuidadosa de João Peres — um belo time. Confira as fotos de Lucas Bonolo e Bianca Oliveira. Os sorrisos também são obra das iguarias do Biyou’Z Restaurante Afro, principalmente da caipirinha de gengibre.

Os paquidermes aqui muito têm a agradecer. Desterros é nosso décimo-primeiro título — e tivemos nosso décimo-primeiro lançamento maravilhoso: cem por cento de aproveitamento no quesito “livros que vêm ao mundo cheios de alegria”. Se depender de vocês, tenho certeza de que continuará assim.

Em breve lançaremos Desterros no Rio de Janeiro — deixa o carnaval passar. Em março, o livro estará nas livrarias. E agora já está na lojinha virtual da Editora Elefante, com frete grátis para tooooodo o Brasil.

“Aquilo que acontece atrás das grades diz respeito a todo mundo”

Passados apenas alguns dias dos massacres ocorridos em presídios Brasil afora, sobretudo no Norte e Nordeste, voltamos a tapar os olhos para o que acontece atrás das grades. Pouco importa que tenhamos uma população carcerária crescente, em péssimas condições de vida, com pessoas muitas vezes presas sem acusação formal. Após algumas declarações oficiais, é melhor continuar a fingir que nada disso existe. Até que, de novo, daqui um tempo, sem que tenhamos feito nada para impedir, o tema novamente venha à tona.

“A cadeia é um lugar que me faz pensar muito sobre as possibilidades dos homens”, diz Natalia Timerman, autora do livro Desterros: histórias de um hospital-prisão, que será lançado pela Editora Elefante no próximo dia 14 de fevereiro, em São Paulo. Em entrevista à apresentadora Marilu Cabañas, na Rádio Brasil Atual, a autora falou sobre os principais pontos de seu trabalho, escrito ao longo da vivência de cinco anos como psiquiatra no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário de São Paulo.

“Se esse livro tem alguma importância, talvez seja a de dizer para as pessoas que aquilo que acontece atrás das grades diz respeito a todo mundo. São pessoas que estão vivendo tudo aquilo. Não dá para deixar os presos lá dentro e acabou”, lamenta. “Tem esse estigma de que todo mundo que está preso é bandido, psicopata. E não é assim. São pessoas que têm histórias para contar. Se a prisão faz alguma coisa para elas, é torná-las piores do que eram.”

Nas páginas de Desterros, Natalia lança seu olhar atento e sensível a quem está do lado de dentro, mas também para dentro de si — e para dentro de nós. Sim, é preciso incomodar-se com a leitura de Desterros. A história central é emblemática por si, e ganha ainda mais força diante das reflexões provocadas pelas tragédias recentes.

Donamingo, uma angolana presa em São Paulo por atuar uma vez no transporte de drogas, é uma desterrada. A filha e o marido ficam do outro lado do Atlântico, enquanto por aqui ela vai descobrindo as agruras de viver na cadeia sem ter nada a oferecer em troca de comida, roupas, algum conforto. É uma típica personagem do sistema prisional brasileiro.

Ao longo do livro, nascido do mestrado em Psicologia Clínica na USP, Natalia costura outras histórias, sempre abraçadas ao absurdo, ao surreal que insiste em ser realidade. E oferece suas reflexões sobre o horror e o belo de trabalhar na cadeia, sobre o nascer e o morrer de ideias pré-concebidas, sobre a inutilidade de se manter alguém preso e a dificuldade em encontrar o que se considera por justiça.

A masmorra para Eike!
Ou um debate sério sobre o sistema prisional?

Eike Batista deve ir para a masmorra? Ou todos os presos têm direito a condições dignas? Ou, ainda melhor, temos condições de discutir a sério se a cadeia é o melhor caminho de se fazer justiça?

A recente prisão do ex-bilionário voltou a expor um mundo de pensamentos contraditórios que surge a cada vez que se fala sobre encarceramento. Mesmo pessoas e setores da sociedade considerados “progressistas” vibraram com a ideia de que Eike, investigado no âmbito da Operação Lava Jato, iria para uma cela comum de Bangu 9, submetendo-se, assim, às condições desumanas que diariamente são impostas aos detentos e às detentas brasileiras desprovidas de diploma universitário, fama, dinheiro, bons advogados… e tantas outras coisas.

É por essas e outras que decidimos lançar Desterros: histórias de um hospital-prisão. O livro da psiquiatra Natalia Timerman, que trabalha há cinco anos atendendo presidiários e presidiárias de todo o estado de São Paulo no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário, na zona norte da capital, mostra como o absurdo segue sendo absurdo, mesmo que tenha se tornado banal. O violento segue sendo violento. São nossos olhos – ora surrados, ora sedentos de sangue – que tentam naturalizar o que em verdade é o horror. Não raro há quem queira piorar o que parece impiorável.

desterros_livro_3D_altaA Editora Elefante começa 2017 em sua paquidérmica toada, com paciência, desencavando aquilo que insistem em soterrar. “Se eu considerasse que todos os homens e mulheres presos são apenas criminosos, quase nada sobre eles poderia ser escrito”, escreve Natalia em seu livro de estreia. “Não digo que quase todos não tenham cometido crimes, mas me parece que, na maioria dos casos, esse é um acontecimento de sua história, muito determinante, mas que não os exclui da comunidade dos homens, como faz supor o estigma que recai sobre quem está ou já esteve preso.”

Para além do ineditismo de colocar atrás das grades um sujeito que até outro dia era “o homem mais rico do Brasil”, capa de revistas, rodeado de belas mulheres, exemplo para o mundo dos negócios e case de sucesso para executivos ávidos por dinheiro, o caso de Eike – e sua repercussão – escancara a visão de que a prisão é uma desgraça. Para muitos, porém, é uma desgraça apenas percebida quando quem tem de fazer suas necessidades num buraco e tomar banho num fiapo d’água é um bilionário; quando ele não pode receber visitas antes de cumprir uma imensa burocracia e é forçado a comer a lavagem que alguma empresa faz, recebendo para isso as verbas surgidas de um contrato suspeito.

Tente mentalizar a expressão “cela comum”: cheiro podre, comida de péssima qualidade, ratos, superlotação, dormir sobre o cimento gelado, riscos diversos ao corpo, violência de todos os lados. “Agora ele vai ver o que é bom tosse”, pensaram alguns – muitos. Os jornais informam que Eike divide um espaço de 15 metros quadrados com outros seis presos, o que não chega a ser o pior dos casos em nosso sistema carcerário. Isso não fará com que seja menos corrupto. Nem fará com que a corrupção seja extinta do território nacional.

De fato, nem Eike, nem ninguém deveria ter direito a privilégios. A prisão especial justamente para quem tem infinitas oportunidades na vida é uma dessas excrescências que não deveriam existir. O que tem, sim, de existir são boas condições para o cumprimento de pena para todos e para todas, sem exceções. Não porque os presos sejam dignos de regalias. Mas porque todo ser humano tem o direito de ser tratado como um ser humano. Isso é o básico do básico. Para além disso, precisamos debater se a prisão é a melhor forma que já inventaram para a punição daquilo que uma sociedade considera como crime. E achamos, honestamente, que Desterros coloca algumas contribuições nesse debate, problematizando o cárcere como panaceia.

Temos a terceira maior população carcerária do mundo. Ultrapassamos a Rússia. Ficamos atrás apenas de Estados Unidos e China. O Ministério da Justiça informa que temos 600 mil presos – e 370 mil vagas. A “solução” encontrada pelo governo golpista e ilegítimo de Michel Temer frente aos massacres ocorridos em janeiro foi liberar verba para construir mais e mais e mais unidades. Para quê? Pedro Abramovay, ex-secretário nacional de Justiça, e Oscar Vilhena, professor de Direito Constitucional da Fundação Getúlio Vargas, escreveram recentemente artigo para a Folha de S. Paulo no qual advogam que penas alternativas são muito mais eficientes se o que se busca é a chamada “ressocialização”.

A grande maioria das pessoas presas – e, sobretudo, das mulheres presas – responde por tráfico de drogas. Desses, novamente a maioria eram réus primários, sem ligação com facções criminosas, usuários “confundidos” com traficantes por uma polícia cujo modo de agir remonta ao século retrasado. “Os presídios servem, sobretudo, para arregimentar criminosos e transformar pessoas que nunca cometeram crime violento em massa de manobra para organizações criminosas altamente violentas”, escrevem Abramovay e Vilhena, repetindo uma cantilena demonstrada por todos os estudos, mas que nenhum governante até hoje dignou-se a implementar.

A julgar pelo ponto de vista evocado por setores da sociedade, o conceito de justiça por trás da prisão é um castigo que se torna tão mais efetivo à medida que se medievaliza: é vingança, e não justiça. Se Eike estivesse em uma cela com colchão individual, comida de boa qualidade, condições de vida minimamente humanas, muitas pessoas ficariam irritadas: “Isso é um hotel”. Um hotel, certamente, não é o caso do Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário, onde a autora do livro Desterros trabalha desde 2012. O espaço é a única unidade para atendimento de saúde dos presidiários e presidiárias de todo o estado de São Paulo.

A partir da percepção dos próprios presos — de histórias que foi acumulando, digerindo, transformando —, Natalia reflete sobre as condições de quem está submetido ao cárcere. As já tradicionais mazelas do sistema penitenciário paulista, como a superlotação, os maus tratos e a ação de facções, estão todas presentes em Desterros. Ao longo do livro, porém, o leitor tem a chance de acompanhar a relação única que cada ser humano, detento ou funcionário, acaba desenvolvendo com o ambiente prisional.

É justamente o oposto do que buscam fazer o Estado e a sociedade, pasteurizando as histórias de todas e todos que cruzam a porta de uma prisão. “A perplexidade em que nos lança o olhar do terrível é algo que meu contar procurou manter quando percebi que minha dificuldade em simbolizar o horror não era minha: pertencia ao próprio horror. O indigesto deve permanecer indigesto”, conclui Natalia.

Sobre a autora

Natalia Timerman é médica psiquiatra pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mestre em psicologia clínica pela Universidade de São Paulo (USP) e psicoterapeuta em formação pela Associação Brasileira de Daseinsanalyse. Desde 2012 atende mulheres e homens no sistema carcerário do estado de São Paulo, quando estes adoecem e passam — ou ficam — no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário. Pós-graduanda em formação de escritores pelo Instituto Vera Cruz, no núcleo de ficção — embora este livro, infelizmente, não seja um livro de ficção.

Ficha técnica

Desterros — histórias de um hospital-prisão
Natalia Timerman
Posfácio: Bruno Zeni
Projeto gráfico: Bianca Oliveira
Capa: Karen Ka
192 páginas
Editora Elefante
Publicação: fevereiro de 2017
ISBN: 978-85-93115-02-8

Lançamento

14 de fevereiro, 19h

Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bela Vista – São Paulo – SP