Quantas vezes o sistema político tem de morrer antes de ser enterrado?

O presidente da República é flagrado em negociações escusas com um empresário que comprou praticamente toda a alta casta governista e opositora de Brasília. O quase-vencedor das eleições de 2014 pede propina a esse mesmo empresário, que nadou de braçadas nos treze anos de governos dos oponentes do quase-vencedor. A lista de promiscuidade entre público e privado é imensa — e só cresce. Quantas vezes o sistema político precisa morrer antes de ser enterrado?

Se há um consenso entre as pessoas sérias de direita e de esquerda no Brasil, esse consenso diz respeito à falência total do sistema representativo. Diante do diagnóstico comum, uns defendem a ditadura como saída, enquanto outros advogam que só uma democracia de fato poderá nos tirar dessa. A primeira corrente já teve sua chance. E sabemos no que deu. Então, que tal tentar a segunda alternativa, que jamais foi testada em nossas judiadas terras?

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De uma hora para outra, os maiores grupos de comunicação do país — que em tempos de instabilidade costumavam agir em coordenação absoluta, como no golpe militar de 1964 e no golpe contra Dilma Rousseff — começam uma briga pública que tem no centro da balança o Palácio do Planalto. Empurram de um lado e de outro para ver quem derruba ou salva Michel Temer. Suas razões permanecem tão obscuras quanto as razões pelas quais o golpista ainda não renunciou.

Parlamentares da extrema-direita sobem às tribunas do Congresso para defender Diretas Já, enquanto o mercado se dá ao despeito de dizer quando Temer cairá e quem ficará em seu lugar. O ministro da Fazenda — que foi alto funcionário da empresa corrupta que agora denuncia deus e o mundo — toma a licença de declarar que continua no cargo, independente de cortarem o pescoço do presidente, em um sinal renovado, límpido e desesperador de que, definitivamente, não somos nós, cidadãos, quem não dá as cartas.

O cenário cada vez mais caótico é marcado pela presença de analistas aos montes. Há um para cada centímetro quadrado de Facebook. Nós, humildemente, admitimos que nada sabemos. E, talvez menos humildemente, nos damos ao direito de achar que quem diz que entende o que está acontecendo é gênio ou está mentindo.

Nem por isso achamos que o caminho é desencanar de tentar entender. E, justamente por isso, na Editora Elefante seguimos na labuta diária para lançar livros que podem não ter grande apelo comercial, mas nos parecem abordar assuntos fundamentais para o exercício da reflexão. Tentamos enxergar para além das estruturas, para além dos fulanos e sicranos que, hoje, estão a protagonizar a encenação do absurdo, mas, amanhã, sairão de cena enquanto a lona do teatro seguirá em pé, acolhendo novos atores capazes de manter o status quo.

livros_elefante_3D_72dpi_5“Com velhas ferramentas não se constrói o novo”, decreta o pensador equatoriano Alberto Acosta, autor de nosso querido O Bem Viver – uma oportunidade para imaginar outros mundos (2016). Nele, o ex-presidente da Assembleia Constituinte do país sul-americano propõe uma ruptura radical com a ideia de desenvolvimento, que dominou o mundo ao longo do século passado, a tudo homogeneizando em nome de um suposto propósito comum de bem-estar.

Acosta enxerga a morte do atual sistema político, que, dominado por interesses financeiros, não consegue qualquer grau de conexão com o mundo real. E, frente a isso, propõe a construção de novos sistemas de mundo, que saibam incorporar o melhor do conhecimento das populações tradicionais e aquilo que as novas ferramentas nos oferecem. “Se a luta é de toda a sociedade, já não há espaço para grupos vanguardistas que assumam uma posição de liderança privilegiada. Tampouco é uma tarefa que se resolve no espaço nacional”, afirma o ex-ministro de Rafael Correa, com quem rompeu ainda nos primeiros anos de governo.

livros_elefante_capa_72dpi_1Correa, aliás, despede-se da presidência equatoriana sob um legado dúbio, marca comum dos integrantes do chamado “ciclo progressista” latino-americano. O governo dele é analisado em nosso primeiro livro, O Equador é verde (2011), de Tadeu Breda. A obra já está esgotada, mas pode ser baixada gratuitamente.

Os governos progressistas são também um eixo central de nosso Descolonizar o Imaginário (2016), uma potente coletânea de textos sobre os maiores pensadores latino-americanos do Bem Viver. É um livro denso, muito necessário para refletir sobre os caminhos que tomamos ao longo do boom do ciclo de commodities, na década passada, e como esses rumos nos desviaram de outros, muito mais promissores, para os quais ainda podemos retornar.

“É necessário, e também urgente, empreender uma alternativa pós-extrativista”, escreve o uruguaio Eduardo Gudynas, pesquisador no Centro Latino-Americano de Ecologia Social e um dos autores que marcam presença. “Os países que primeiro começarem a discutir essas questões estarão melhor preparados para lidar com um futuro próximo que certamente será pós-extrativista.”

livros_elefante_capa_72dpi_7Olhando para o caso brasileiro, vemos, de novo, como o atual sistema político é incapaz de nos representar. Não há nenhuma voz expressiva, entre os homens que controlam o poder, que pense em um novo ciclo. Pelo contrário, o extrativismo e a depredação dele consequente, que já eram marcas dos governos petistas, ganharam impulso ainda maior sob Temer. Se há uma vantagem no governo golpista, é a de haver deixado de lado certas encenações. As coisas estão sendo feitas por uma elite que quer lucrar ainda mais. E ponto. Muitos já não se dão ao engodo de usar o povo para dar vazão a certos absurdos, ainda que outros sigam a se valer de um discurso tão falso quanto o Congresso que habitam.

Nesse sentido, entre as poucas certezas a que nos damos direito está a de que não é seguindo o PT que vamos sair dessa. Certos líderes petistas caíram como luva no papel de opositores: fazem discursos em altos brados, dizem-se de esquerda, declamam a revolução em verso e prosa, e chegam até a vestir cocares em plena Esplanada, ignorando que há poucos meses mandavam atropelar os direitos indígenas para defender os direitos das megaempreiteiras. Mas, enquanto a encenação pública se desenrola, noticia-se, por exemplo, que nos bastidores Lula negocia pacto com FHC para uma eleição indireta que poderia levar ao comando da República Nelson Jobim, ex-ministro de ambos os governos e sujeito que chegou a se gabar de ter adulterado artigos da Constituição.

alem do pt nova 3D“Vista em perspectiva de longa duração, a transformação do PT em braço esquerdo do partido da ordem será integrada como mais um capítulo da contrarrevolução permanente, que caracteriza a história brasileira contemporânea”, escreve Fabio Luis Barbosa dos Santos, autor de Além do PT (2016). O professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo analisa o governo petista sob a égide do ciclo progressista latino-americano, e conclui que, a exemplo de outros, os mandatos de Lula e Dilma tiveram como saldo uma profunda desmobilização popular que acaba por ditar as dificuldades de rearticulação da esquerda em meio a uma conjuntura terrível. Valendo-se dos versos de Emicida, ele diz que é preciso deixar o conforto do telhado petista para aventurar-se a ver as estrelas e descobrir o que há de promissor no céu.

Enquanto não nos rearticulamos, assistimos ao avanço do autoritarismo sobre nossas vidas. Indígenas e antropólogos indiciados em uma CPI da Funai dominada por ruralistas que são réus em ações diversas. As Forças Armadas sendo chamadas a ocupar a Esplanada dos Ministérios para acudir um presidente bambo. Um novo massacre de trabalhadores rurais, impensável até há pouco tempo, levando-nos a 26 mortes em conflitos no campo em menos de cinco meses completos e passando a impressão de superaremos o sinistro recorde obtido em 2016, com 61 assassinatos. Tudo isso em menos de uma semana.

2013 não acabou. O significado e os destinos das Jornadas de Junho estão em aberto. Certo é que, de lá para cá, diante de um poder público titubeante ou aplausivo, polícias e milícias sentiram-se cada vez mais encorajadas a agir. O caso do fotógrafo Sérgio Silva, atingido no olho por uma bala de borracha em meio às manifestações daquele ano, parece pouco, frente à desgraça que a cada dia se renova e se incrementa. Mas é, em verdade, uma oportunidade de reflexão profunda sobre um caso individual que toma proporção coletiva nas páginas de Memória Ocular (2016).

livros_elefante_3D_72dpi_3Também entre o passado mal-resolvido e o futuro repetivivo, Corumbiara, caso enterrado (2015) fala sobre a morte de camponeses e policiais durante uma reintegração de posse no sul de Rondônia, em 1995. Passando o caso a limpo, o autor, João Peres, alerta que os pilares que levaram à tragédia não foram removidos, o que poderia nos levar a novos episódios sangrentos. Como, de fato, nos levaram. E continuam levando: enquanto Temer periga cair em Brasília e João Doria demole prédios com gente dentro na região de São Paulo conhecida como Cracolândia, uma reintegração de posse no Pará vitima dez agricultores sem-terra. Até quando a história se repetirá contra nós?

Presente de fim de ano?
Lembre-se dos elefantes

Chegou a hora daquela enxurrada de amigo secreto, festas de fim de ano, Natais e sabe-se lá o que mais. E você conhece vários sangue bão que merecem um belo presente, mas não quer ficar na zoeira tradicional de perfuminho, bijuteria, roupa, livros-que-custam-os-olhos-da-cara. Ou pior: você simplesmente não sabe o que dar…

Seus problemas acabaram: um quadrinho bacana, um livro-reportagem responsa, um material editado com carinho: dá um zói na lojinha virtual da Editora Elefante. É a chance de romper com vários vícios de uma vez só. E, além disso, agradar uma pessoa que você preza e considera.

Ao presentear com livros da Editora Elefante, você fortalece uma iniciativa independente e sem fins lucrativos. De quebra, ainda faz deste um momento culturalmente fértil para quem recebe o agrado. E o que é melhor: sem gastar os tubos, porque sempre buscamos o melhor equilíbrio entre nossos custos e o bolso de quem compra.

Ajudar a enriquecer ainda mais uma livraria que não permite que outras cresçam a seu redor? E uma editora que paga migalhas a seus autores? Bah, para com isso. A Editora Elefante não está e não quer estar nos circuitos comerciais da vida. Nosso rolê tem outra pegada. Acreditamos na proximidade entre pessoas, na criação de laços de afinidade sólidos, sem essa de usar o trabalho dos outros para enriquecer.

Por enquanto, não temos muitas opções, é verdade, já que retomamos atividades de fato neste dois mil e crises (vulgo 2015) que já se prepara para nos deixar, não sem o prenúncio de que amanhã será pior. Mas o que temos é, se nos permite o momento de nos sentirmos a última bolacha do pacote, foda. Confere aê:

 

cabuloso_3Cabuloso Suco Gástrico. Acabamos de lançar os quadrinhos ácidos de Breno Ferreira, rapaz de Limeira que não dá bobeira. Uma seleção com as melhores tirinhas, mais dez inéditas, no primeiro trampo solo de um sujeito que promete – até a Laerte, lenda viva, recomendou.

 

 

ignobil_3Ignóbil. O universo sujo de Dáblio C, um sujeito maluco de São Bernardo, no ABC paulista, só poderia sair das profundezas pelas páginas de uma editora tão biruta quanto. São mais de cem páginas de drogas, álcool, sexo (não se prenda aos padrões heteronormativos do patriarcado) e todo tipo de assunto do universo pra lá de underground.

 

 

corumbiara_3Corumbiara, caso enterrado. Este ano, um caso absurdo completou duas décadas. E fomos dos poucos a não deixar passar em branco o chamado “massacre de Corumbiara”, que ganhou finalmente seu primeiro livro-reportagem. O trabalho do repórter João Peres vai além do resumo óbvio e busca apontar acertos e erros de todos os envolvidos.

 

 

o_equador_e_verde_3 O Equador é verde. Chegou ao fim de 2015 sem um puto no bolso? De boa. A gente entende. Não estamos muito melhor, pra falar a real. Nosso primeiro livro-reportagem, lançado em 2011 e esgotado, pode ser baixado gratuitamente em PDF. Como não temos planos de reimprimi-lo, decidimos colocá-lo à disposição num momento em que o governo de Rafael Correa mostra sinais de esgotamento e inequívoca mudança de rumos.

 

Então, minha amiga, meu amigo, sem mais palavras, convidamos a entrar nessa o quanto antes. Agora, se você tiver de presentear um mala daqueles, que te atazanou o ano todo, pode dar uma autoajuda bem bobinha. Ou apostar que um de nossos livros ajude a clarear um pouco o horizonte do figura.

Baixe gratuitamente
O Equador é verde

Finalmente, disponibilizamos gratuitamente para download O Equador é verde: Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento, de Tadeu Breda, livro-reportagem sobre o primeiro governo do presidente equatoriano. Lançado em maio de 2011, em São Paulo, O Equador é verde foi a primeira publicação da Editora Elefante. Os exemplares demoraram para se esgotar: foram mais de quatro anos. Mas se esgotaram.

 Baixe “O Equador é verde” gratuitamente

Como não temos planos de reimprimi-lo, decidimos colocá-lo à disposição dos leitores e leitoras num momento em que o regime equatoriano mostra sinais de esgotamento e inequívoca mudança de rumos. O momento também é propício porque chega às livrarias brasileiras Equador: Da noite neoliberal à revolução cidadã, livro escrito pelo próprio Rafael Correa e traduzido pelo sociólogo Emir Sader. É uma ótima contribuição da Boitempo Editorial.

Em seus quatro anos de vida, O Equador é verde serviu de ponto de partida para jornalistas, pesquisadores e curiosos que iniciavam estudos sobre o país andino-amazônico e a política latino-americana contemporânea. Foi o primeiro livro em português a analisar em profundidade as medidas do governo Rafael Correa, e um dos pioneiros a lançar algumas luzes sobre conceitos que apareceram na Constituição equatoriana em 2008 e que estão se firmando cada vez mais no pensamento crítico da região, como a Plurinacionalidade, os Direitos da Natureza e o Bom Viver.

A Editora Elefante tem muito orgulho de saber que o livro figura na bibliografia de várias dissertações de mestrado e teses de doutorado pelo país afora. E que tem sido citado em debates, simpósios e discussões sobre a América Latina. Agora, esperamos que o PDF possa fazer com que o livro chegue onde ainda não havia chegado. E que continue sendo alvo de comentários. Vamos em frente.

Demos umas trombadas na Feira Miolo(s) de publicações independentes

Os elefantes aqui estão muito felizes – felizes demais – com nossa primeira participação na Feira Miolo(s). Chegamos cedo à Biblioteca Mario de Andrade, enquanto o centro de São Paulo acordava com uma luz embaçada em que todo aquele concreto fica ainda mais cinza. O frenesi dos feirantes gráficos na frente da biblioteca, descarregando carros e táxis, contrastava com o sossego de uma manhã chuvosa antes dos comércios abrirem suas portas.

Era sábado, 7 de novembro. Nem os botecos mais madrugadores tinham notas miúdas no caixa para ajudar a remediar o desleixo de quem pretende vender livros sem trocado no bolso. Sorte que o japonês da banca era mais esperto que todo mundo e havia se precavido com cédulas de dez em quantidade – e simpático para dividir algumas conosco.

Deu tudo certo. E, no final, quem passeou pelas dezenas de bancas espalhadas pela Mario de Andrade usou e abusou do cartão. Crédito ou débito? Quer sua via? É curioso estar do lado de cá do balcão. E eram muitos balcões: tanta gente que todo mundo dividiu mesa. Cotovelo com cotovelo, perna encolhida. Melhor: assim dá mais contato.

A Editora Elefante levou três dos quatro títulos de seu catálogo: os quadrinhos Ignóbil, de Dáblio C., e Cabuloso Suco Gástrico, de Breno Ferreira; e o livro-reportagem Corumbiara, caso enterrado, de João Peres. O Equador é verde, de Tadeu Breda, só não foi porque já está esgotado. Em compensação, carregamos conosco a primeira publicação dos camaradas da Editora Autonomia Literária: A Origem do Estado Islâmico, de Patrick Cockburn.

No início, estávamos meio tensos em meio a tanta boniteza: a galera capricha bagaray nas artes gráficas. Mas fomos muito bem recebidos – pelos colegas expositores e pelo público. Cada gravura, aquarela, serigrafia, cartaz, fotografia e livro de arte que vimos em cima das mesas ou dependurados em varais serviram de inspiração pra melhorar mais e mais. E os sorrisos silenciosos de quem passava, pegava, folheava, devolvia e seguia seu caminho também serviram de motivação. Isso sem falar, claro, nos que levaram pra casa um pedaço do nosso trampo.

Para além das vendas, que não foram ruins, o barato da Feira Miolo(s) foi saber que existe gente ligada nas mesmas coisas que nós: galera que não quer nem saber e publica meeeeeesmo. Nada de ficar esperando grandes corporações, grana, investimentos. Tem que fazer. Do jeito que dá. E dá cada coisa linda…

“Fazer a própria publicação, ir atrás de modelos gráficos, é uma das maiores libertações que existem. Você coloca aquilo no mundo, mostra pra outras pessoas, vê se aquilo funciona ou não para depois, enfim, ver o que vai fazer com aquilo”, disse, em seu podcast, a escritora Ana Rüsche, para quem a Miolo(s) deveria ter como subtítulo “chega de preguiça”. Concordamos. “Lá tem sete mil ideias maravilhosas de como você pode colocar um texto no papel, papel no papel, uma arte no papel, e é muito inspirador.”

Um puta prazer conhecer e dividir espaço com essa galera: olhar nos olhos, trocar ideia e apreciar o trabalho alheio para além das fotos embaçadas tiradas com celular que circulam pelo Facebook — como essa aí de cima. Tato, minha gente, tato. É importante. Cada vez mais importante.

No final, doamos um exemplar de cada um de nossos títulos à Biblioteca Mario de Andrade. A gente espera que os responsáveis pelo acervo sejam generosos com os elefantes e coloquem todos eles nas prateleiras. Assim, eles poderão chegar a ainda mais gente. Manadas, manadas. Vamos caminhando.