Machismo, abuso sexual, fraudes concorrenciais e roubo de informações estratégicas: a história da Uber está longe de ser bonita. Mas isso não impede a empresa de apontar o dedo contra os governos das cidades onde opera, tachando-os de ineficientes e burocráticos.

“É também a empresa que ensina os motoristas de Miami a como driblar as leis”, escreve o pensador britânico-canadense Tom Slee em Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, que a Editora Elefante lança em 24 de outubro. “Que pediu e cancelou mais de cinco mil corridas de seu principal competidor para prejudicá-lo. É a companhia que se propõe a enganar jornais com um falso comunicado de relações públicas.”

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Podemos continuar nessa pegada: é a empresa que até há pouco era comandada por um CEO conhecido por piadas machistas e por atos explosivos contra funcionários e motoristas (recentemente, e após muita pressão externa, alguns funcionários foram demitidos sob acusação de assédio). É a empresa que tem uma das maiores redes de lobby dos Estados Unidos. Que se valeu de tragédias e nevascas para aumentar as tarifas em sete ou oito vezes. Que é acusada pela Google de roubar dados do programa de carros sem motorista humano. E pela Apple de praticar espionagem ilegal dos dados dos usuários. E pelo governo norte-americano por criar um programa que visa a evitar a regulação, “escondendo” os motoristas.

“Com o tempo, a Uber foi coletando mais e mais dados sobre todos os aspectos das corridas. Esses dados dão à corporação novas oportunidades de controlar o comportamento dos motoristas e de formatar a experiência dos consumidores”, conta Slee em Uberização: a nova onda do trabalho precarizado.

A Uber se anuncia como o trabalho dos sonhos: trabalhe quanto, quando e onde quiser. Mas as histórias reveladas recentemente nos dão outra versão. A empresa usa esses dados para direcionar os motoristas para onde bem deseja e para forçá-los a trabalhar mais e mais (rejeitar uma corrida faz rebaixar a nota e colocar em risco a própria sobrevivência na plataforma).

Recentemente, diante de mais e mais denúncias sobre violência envolvendo motoristas e passageiros, a empresa lançou em seu site no Brasil um texto chamado “Fatos e Dados”, no qual adota muito do discurso descolado e comunitário que permeia o modo de atuação da corporação em nível global. A Uber alega não ser uma companhia de transporte, mas uma mera mediadora entre pessoas que querem se deslocar e pessoas que oferecem o deslocamento. Assim, tenta se proteger do pagamento de direitos trabalhistas, que certamente dificultaria a rápida expansão ao redor do globo.

A Uber diz seguir padrões de regulação até mais rígidos que os exigidos pelas cidades. Quando, no entanto, busca-se impor qualquer tipo de regra à empresa, ela reage como fez recentemente em Maceió: “Seu direito de escolha está em jogo.” A ação consiste em tentar transformar cidadãos comuns em lobistas gratuitos. E em tachar normas básicas, como o registro de carros e motoristas na prefeitura, como “burocracia” que atrapalha motoristas e passageiros.

Para Tom Slee, a breve história da empresa, fundada na virada da década de 2010, é um renovado engodo. “A Economia do Compartilhamento está invocando esses ideais para construir gigantescas fortunas privadas, erodir comunidades reais, encorajar mais formas de consumismo e criar um futuro mais precário e desigual do que nunca.”

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