Debate marca relançamento de 
Corumbiara, caso enterrado

O que já era ruim ficou muito pior. E ainda vai piorar.

Há dois anos, quando lançamos Corumbiara, caso enterrado, sabíamos que a situação de violência no campo brasileiro não estava resolvida. Muitas pessoas continuavam sendo assassinadas, o poder de resposta do Estado era baixo e enviesado, a bancada ruralista dava as cartas em Brasília. Mas não imaginávamos que grandes chacinas voltassem a ocorrer. Tampouco imaginássemos que haveria um golpe de Estado no Brasil do século 21. Subestimamos nossa capacidade de produzir barbárie.

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Aqui estamos, com 51 mortes no campo apenas nos seis primeiros meses de 2017, a caminho do recorde neste século. E agora? A recente chacina de Pau d’Arco, no Pará, nos remonta ao Brasil dos anos 1990, marcado pelos massacres de Corumbiara e de Eldorado do Carajás. Naquele momento, pelo menos, havia um governo com alguma legitimidade, e que podia ser cobrado por setores da população porque mantinha laços com o mundo real. Agora, não.

O Ministério da Justiça virou uma banca de advocacia do presidente golpista, alçado ao poder pela força ruralista e financista e lá mantido às custas de muita negociata à luz do dia. Não há um mísero setor da sociedade com interlocução com o governo, a menos que a gente considere que o mercado financeiro é a sociedade.

Nessa angústia, decidimos nos juntar ao De Olho nos Ruralistas na próxima segunda-feira em São Paulo para reunir uma turma de peso em busca de discutir as origens do problemas e suas possíveis soluções. E também para relançar Corumbiara, caso enterrado, de João Peres. O livro esgotou-se no começo deste ano, mas seu ciclo ainda não estava cumprido: a obra precisa continuar circulando para ampliar o debate sobre como o Brasil do presente é o Brasil do passado.

Nesses dois anos vertiginosos, o trabalho ganhou o segundo lugar no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, em 2015, e foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2016. As láureas são importantes, claro, mas o mais importante para nós é a grande rede de solidariedade que se formou para discutir o tema e fazer com que o trabalho chegasse aos cantinhos de Rondônia, palco da tragédia de 1995.

Olha só o pessoal que vai debater a violência no campo:

Alceu Castilho, coordenador do De Olho nos Ruralistas e autor de Partido da terra.
Kátia Brasil, Amazônia Real (por Skype, direto de Manaus).
Carolina Motoki, Repórter Brasil.
Padre Antônio Naves, Comissão Pastoral da Terra.
Josineide Costa Sousa, Movimento dos Pequenos Agricultores.

Mediação:

João Peres, autor de Corumbiara, caso enterrado.

 

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Serviço:
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Debate: Os crimes no campo explodem novamente. E agora?
Data: 31 de julho de 2017
Horário: 19h
Local: Ateliê do Gervásio
Rua Conselheiro Ramalho, 945
Bixiga, São Paulo-SP
Entrada franca!

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Corumbiara, caso enterrado é recebido na ECA-USP com debate sobre jornalismo independente

O livro-reportagem Corumbiara, caso enterrado foi apresentado na noite de ontem, 3 de setembro, a estudantes de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Foi o último evento realizado em São Paulo antes da sequência de debates e lançamentos em Rondônia, palco do conflito agrário conhecido como “massacre de Corumbiara”, cuja história e desdobramentos são destrinchados pela obra de maneira inédita. O périplo se inicia na próxima quinta-feira, 10 de setembro, em Colorado do Oeste.

O autor João Peres foi à ECA-USP a convite dos professores Dennis Oliveira e Luciano Maluly. Cerca de trinta estudantes participaram do debate, formulando perguntas principalmente sobre as dificuldades de produção de Corumbiara, caso enterrado – o que rendeu uma longa discussão sobre os desafios do jornalismo e de publicações independentes, além de reflexões sobre a importância de abordar, em profundidade, episódios mal explicados da história recente do país amplamente ignorados pelos meios de comunicação.

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“Foi uma conversa muito produtiva. Os estudantes demonstraram bastante interesse em debater o livro e, para além dele, os desafios frente ao jornalismo neste momento complicado”, explica João Peres, ressaltando que as empresas de comunicação passam por uma de suas maiores crises, com demissões em massa, redução de circulação e perda de relevância. O autor sublinhou ainda a importância de trocar experiências com a universidade – e com a ECA, em particular, onde se gradou e onde nasceu a Editora Elefante.

“O diálogo com o mundo acadêmico é sempre muito importante. Até agora, temos visto que está nas faculdades um dos públicos que mais teve interesse pelo livro”, afirmou, ao citar que a série de debates e lançamentos em Rondônia só será possível graças ao engajamento da comunidade universitária local. “No caso da ECA, pela ligação afetiva, havia a expectativa de saber qual seria o grau de envolvimento dos alunos com um tema que, a princípio, nos parece tão distante. O resultado da conversa foi surpreendente nesse sentido porque várias das perguntas demonstraram uma vontade grande de saber mais.”

Onde comprar Corumbiara, caso enterrado

Corumbiara, caso enterrado está à venda pela internet e também em livrarias e espaços culturais. Na última semana, fechamos acordo com a Blooks, que tem lojas no Rio de Janeiro e em São Paulo. O trabalho está disponível também na Loja do Livro, em Porto Velho, capital do estado em que ocorreu a história narrada em nosso livro-reportagem. Perto do local das doze mortes registrada na fazenda Santa Elina, no chamado ‘massacre de Corumbiara’, Vilhena foi a primeira a receber exemplares.

Em Manaus, ao lado do Teatro Amazonas, a charmosa Banca do Largo também oferece esta leitura fundamental sobre o Brasil contemporâneo. Em São Paulo, a Livraria do Espaço, no antigo Espaço Unibanco da Rua Augusta, atual Espaço Itaú, encarregou-se de levar adiante este trabalho.

Continuamos em contato com outros espaços interessados em receber o livro-reportagem. Buscamos sempre garantir o equilíbrio entre os anseios de quem vende, a necessidade de garantir o pagamento das investimentos feitos pela Editora Elefante, que não tem fins lucrativos, e o oferecimento de um preço acessível ao leitor. Se tiver interesse em oferecer Corumbiara, caso enterrado na sua cidade, entre em contato pelo editoraelefante@gmail.com.

Se não está em nenhuma dessas cidades, não há motivo para se preocupar: as vendas continuam pela internet. Pode encomendar seu exemplar em nossa página ou com nossos parceiros do Outros Livros. O preço (R$ 37) é o mesmo para qualquer parte do Brasil, com frete fixo.

Onde comprar

Porto Velho

Loja do Livro
Rua Rogerio Weber, 1987
Centro
(69) 3211.5262

Vilhena

Banca do Zoio
Av. Capitão Castro, 3770
Centro
(69) 3322.6112

Manaus

Banca do Largo
Largo São Sebastião, ao lado do Teatro Amazonas
(92) 3234.8856

São Paulo

Livraria do Espaço
Espaço Itaú de Cinema na Rua Augusta
(11) 3141-2610

Shopping Frei Caneca
Rua Frei Caneca, nº 569 – 3º Piso
(11) 3259-2291

Brasília

Livraria do Chiquinho
Campus UnB entrada Norte, CEUBinho
(61) 3307-3254

Rio de Janeiro

Blooks Livraria
Praia de Botafogo, 316
(21) 2237-7974

Corumbiara, caso enterrado
será debatido e lançado em Rondônia

O autor de Corumbiara, caso enterrado, João Peres, e o coordenador editorial da Editora Elefante, Tadeu Breda, vão a Rondônia em setembro para lançar e debater o livro-reportagem. Ao longo de quinze dias, o trabalho sobre o chamado “massacre de Corumbiara” será discutido com estudantes, professores, assentados, representantes de movimentos sociais e com o público em geral.

A visita ao estado onde se passou o caso, há vinte anos, será possível graças aos esforços de grupos do Instituto Federal de Rondônia (Ifro) e da Universidade Federal de Rondônia (Unir). A agenda de compromissos ainda está sendo fechada e será tornada pública em breve, aqui, no saite da Editora Elefante, e em espaços públicos das cidades nas quais os eventos serão realizados.

Já há lançamentos e debates programados em Vilhena, Colorado do Oeste, Rolim de Moura, Ji-Paraná e Porto Velho. Ainda estamos conversando sobre a possibilidade de organizar encontros em outras cidades. Por isso, se tiver interesse em nos ajudar na organização e na divulgação de eventos, entre em contato pelo e-mail editoraelefante@gmail.com. Além do livro-reportagem, estão previstas discussões sobre os desafios e a importância de se manter uma editora independente no Brasil.

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Para nós, voltar a Rondônia com Corumbiara, caso enterrado debaixo do braço é um imenso prazer. Estamos ansiosos e felizes por poder debater este trabalho com a população que melhor conhece os fatos ocorridos em 9 de agosto de 1995 na fazenda Santa Elina, no Cone Sul rondoniense. Durante operação de reintegração de posse, doze pessoas morreram – nove sem-terra, dois policiais militares e um rapaz não identificado. Na passagem pelo estado, esperamos ouvir sugestões sobre como melhorar este trabalho, que tem nos surpreendido com o interesse que despertou pelo resgate de um episódio esquecido da história do Brasil.

Após lançamento em Brasília, Corumbiara, caso enterrado será debatido na USP

Corumbiara, caso enterrado cumpriu mais uma importante etapa: o lançamento em Brasília, na última terça-feira, 18 de agosto, foi o terceiro neste primeiro mês de vida do livro-reportagem que conta a história do chamado “massacre de Corumbiara”. O Balaio Café, na Asa Norte, recebeu pessoas de diferentes áreas de atuação interessadas em saber mais sobre o conflito agrário ocorrido há vinte anos no sul de Rondônia.

Exatamente 30 dias depois do evento de lançamento em São Paulo, já se pode dizer que o trabalho tem cumprido um papel importante no resgate histórico de um capítulo esquecido do Brasil pós-ditadura. Enquanto a maior parte da imprensa decidiu ignorar o “aniversário” de duas décadas do caso, no último 9 de agosto, o livro-reportagem foi um instrumento importante para quem não quis deixar a data passar em branco. Leitores de todo o país têm enviado mensagens de apreço por Corumbiara, caso enterrado, enaltecendo a tentativa de mostrar a complexidade das diferentes versões sobre o caso.

Em julho de 1995, famílias sem-terra ocuparam um pedaço da fazenda Santa Elina, de 18 mil hectares, localizada entre Corumbiara e Chupinguaia, em Rondônia. Durante operação de reintegração de posse iniciada na madrugada de 9 de agosto, doze pessoas morreram – nove posseiros, dois policiais e uma pessoa não identificada. Cinco anos mais tarde, foram condenados três PMs e dois líderes da ocupação. O resumo desta história em um parágrafo é insuficiente. Por entendermos que é preciso ir muito mais a fundo, lançamos Corumbiara, caso enterrado.

Agora, vamos à próxima etapa. O livro será debatido no dia 3 de setembro, às 19h30, na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Os professores Dennis de Oliveira e Luciano Maluly, do Departamento de Jornalismo e Editoração, reunirão os alunos para uma conversa com o autor, João Peres, e com o coordenador editorial da Editora Elefante, Tadeu Breda. O evento é aberto ao público. Esperamos vocês!

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Corumbiara, caso enterrado será lançado em Brasília

O livro-reportagem sobre o chamado ‘massacre de Corumbiara’ chega à capital federal na próxima semana. O Balaio Café, na Asa Norte, famoso por organizar eventos que apresentam importantes questões do país, receberá o autor de Corumbiara, caso enterrado, João Peres, no próximo dia 18, a partir de 20h. Este é o terceiro evento organizado para divulgar o caso ocorrido há exatos vinte anos, em 9 de agosto de 1995 – antes, São Paulo e Osasco tiveram noites de encontros e debates.

Brasília ocupa papel importante no episódio narrado no livro-reportagem. Quando doze pessoas morreram durante operação de reintegração de posse na fazenda Santa Elina, em Rondônia, o então governador, Valdir Raupp (PMDB), não foi ao local dos fatos. Preferiu tomar um avião rumo à capital para demover o ministro da Justiça, Nelson Jobim, da ideia de que a Polícia Federal realizasse um inquérito paralelo ao dos órgãos estaduais. Um pedido exitoso, que, porém, desembocou em investigações mais tarde contestadas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Nove anos depois do caso, em 2004, o Superior Tribunal de Justiça manteve decisão do Judiciário de Rondônia. Com isso, esgotaram-se os recursos para os sem-terra Claudemir Gilberto Ramos e Cícero Pereira Leite Neto, condenados pela morte de dois policiais militares. No mesmo ano, chegou ao fim a contestação judicial aberta pelos advogados dos soldados Daniel da Silva Furtado e Airton Ramos de Morais e do capitão Vitório Régis Mena Mendes, todos sentenciados pelo episódio.

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Também na capital, em 2007, sem-terra de diferentes grupos e visões ideológicas acamparam na Esplanada dos Ministérios. Audiência na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República resultou na assinatura de um convênio que liberou R$ 98 mil para a assistência jurídica das famílias de posseiros atingidas pela operação de reintegração. A Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Rondônia (Fetagro) ingressou com ação solicitando indenização para todos os que acamparam na Santa Elina. O pedido acabou rejeitado no final de 2014 pelo Tribunal de Justiça estadual, que avalia que os crimes cometidos pelo Estado já estão prescritos.

O Congresso Nacional também foi palco de debates acirrados sobre os fatos ocorridos em Rondônia. Em 1995, o deputado Nilmário Miranda (PT-MG), fundador da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, foi ao local dos fatos e redigiu um relatório em que alertou para a possibilidade de que o caso resultasse em impunidade. Dezesseis anos mais tarde, o também petista João Paulo Cunha (SP) protocolou o Projeto de Lei 2.000, de 2011, que propõe anistia aos condenados. Aprovado na Comissão de Constituição e Justiça após resistência da bancada ruralista, o texto não chegou a ser apreciado em plenário.

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Lançamento de Corumbiara, caso enterrado em Brasília
Balaio Café CLN 201, Bloco B, Loja 19/31
Telefone: (61) 3327-0732
Data: 18 de agosto, 20h

Corumbiara: Raupp quebra silêncio,
mas não responde a questões-chave

Por João Peres*

O ex-governador de Rondônia, Valdir Raupp (PMDB), finalmente quebrou o silêncio sobre o episódio conhecido como “massacre de Corumbiara”. Em nota enviada ao saite G1, porém, ele se exime de responsabilidade pelas doze mortes ocorridas há exatos vinte anos, durante reintegração de posse na fazenda Santa Elina, no sul do estado, e deixa para a Polícia Militar a culpa pelo fato de a situação haver fugido ao controle.

Raupp não aceitou conceder entrevistas ao portal da Globo. Nos últimos vinte anos, o hoje senador tem evitado ao máximo ter contato com o assunto. Poucas vezes foi à região dos fatos, no Cone Sul rondoniense, e jamais visitou a Santa Elina. Quando o caso estourou, entre a madrugada e a manhã de 9 de agosto de 1995, enviou como seu representante o vice-governador, Aparício de Carvalho, e tomou um avião a Brasília, onde conseguiu demover o ministro da Justiça, Nelson Jobim, da ideia de que a Polícia Federal realizasse um trabalho de investigação paralelo ao dos órgãos estaduais.

Nos últimos três anos, procurei Raupp diversas vezes para uma entrevista. O assessor de imprensa sempre respondeu que seu cliente se reserva o direito de falar apenas sobre questões que lhe sejam favoráveis à imagem. Por isso, Corumbiara, caso enterrado foi impresso sem que se conhecesse sua versão a respeito.

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Agora, talvez por temor às organizações da família Marinho, talvez por estar numa posição de fragilidade política, já que é um dos investigados pela Operação Lava Jato, Raupp quebra o silêncio. Mas de forma incompleta. Não se abriu ao exercício do contraditório, tão importante para o jornalismo e, neste caso, para que se fechem as explicações em torno de um dos piores conflitos agrários do Brasil pós-ditadura. A nota emitida por sua equipe não preenche lacunas fundamentais. Vamos analisá-la parte por parte.

“A situação era tratada como um ato normal de reintegração de posse e que com bastante antecedência, havia encaminhado uma equipe de técnicos do governo do estado para buscar uma solução negociada. Tive a informação que a situação estava sob controle. A ida de técnicos do governo ao local foi uma das medidas para evitar o conflito.”

De fato, Raupp mandou uma equipe de negociadores à ocupação. Seu então secretário-executivo, Édio Antônio de Carvalho, dirigiu-se ao acampamento na Santa Elina em 1º de agosto de 1995, acompanhado por representantes do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e do Instituto de Terras de Rondônia (Iteron), além do deputado estadual Daniel Pereira, hoje vice-governador. A reunião com os líderes dos posseiros terminou com a promessa de que se encontraria uma área para o assentamento provisório das famílias. Foi a primeira e única rodada de conversas.

“Após o conflito, além das medidas para manter a segurança na região afetada pelo conflito, exonerei o então comandante da PM do estado, logo após o lamentável episódio.”

É verdade. O coronel Wellington Luiz de Barros Silva foi exonerado menos de uma semana após o caso. Mas, nesse ínterim, Raupp fez eco às explicações dadas pelo então comandante, que presumiu a inocência dos policiais e a culpa dos sem-terra pelas mortes. O então governador chegou a afirmar que entre os posseiros havia “atiradores de elite”, uma ideia que prevalece até hoje entre os policiais envolvidos no caso.

Além disso, o coronel foi demitido não pelo saldo sangrento da operação, mas pelos excessos retóricos – é um caso de peixe que morreu pela boca. “Taí uma resposta da nossa Polícia Militar para que pessoas não participem mais desses eventos. Os organismos do Estado e da União estão mobilizados para ajudar as pessoas que realmente precisam. Sem dúvida que a invasão deve acabar em nosso país”, afirmou Wellington, então, admitindo que não tinha provas sobre o suposto poder de fogo dos sem-terra.

“Não houve falhas no âmbito do governo do estado. Havia uma negociação em andamento entre as partes envolvidas coordenada por uma comissão governamental. O que ocorreu é que a situação fugiu do controle do aparato policial.”

Verdade: a situação fugiu de controle. Mas quem comanda o aparato policial? Constitucionalmente, o governador. Os sem-terra encaminharam a Raupp, no começo de agosto, uma carta alertando sobre a tensão crescente na Santa Elina e a possibilidade de uma tragédia. O deputado estadual Daniel Pereira também o havia alertado diversas vezes antes do início da operação.

Como Raupp não se abriu ao exercício da entrevista, privatizando uma narrativa pública, permanece sem resposta a grande questão em aberto do caso de Corumbiara: O que ocorreu na noite de 8 de agosto?

Após negociar com os sem-terra, o comandante da reintegração de pose, o então major José Ventura Pereira, disse à imprensa que ainda tentaria mais duas rodadas de conversas antes de proceder ao uso da força para retirar os sem-terra da área. Na madrugada seguinte, porém, deu início ao deslocamento das tropas em direção ao acampamento. A troca de tiros em campo aberto, primeiro, e uma série de abusos cometidos pelos policiais, depois, culminam nas doze mortes.

Raupp recebeu informações naquela noite? Foi ele quem tomou a decisão de que se desse cumprimento ao mandado de reintegração na madrugada seguinte? Ou foi uma medida que coube unicamente à corporação militar? Se a ordem coube ao governador, estaria ele devidamente informado sobre os perigos acarretados pela incursão no acampamento durante a noite? E as pressões dos fazendeiros locais? E a carta que o presidente da Sociedade Rural Brasileira, Roberto Rodrigues, enviara ao governador, pressionando pela expulsão dos ocupantes da Santa Elina?

São questões que só serão respondidas no dia em que o ex-governador, hoje senador, resolver conversar. Não importa que o tema lhe seja prejudicial à imagem: alguém que se mantém há tantos anos com mandatos garantidos pelo voto popular deve explicações à sociedade.

Reforço meu pedido por uma entrevista. O livro já está publicado, mas a história não está fechada. A Editora Elefante e eu nos comprometemos a divulgar na internet um novo capítulo que trate apenas da versão de Raupp sobre os fatos na Santa Elina, a exemplo do que fizemos com sem-terra e policiais.

* João Peres é autor de Corumbiara, caso enterrado

Mídia brasileira ignora
20 anos do ‘massacre de Corumbiara’

capa-corumbiaraUm caso com pelo menos doze mortos é digno de recordação? Depende. Se você é editor de um veículo da mídia, terá de se colocar frente a algumas ponderações. As vítimas eram ricas? No caso, não – então, as chances de publicação caem 50%. Há alguma maneira de dizer que Lula e José Dirceu têm culpa pelo caso? Hum, a gente poderia inventar mais essa, chefe, mas não será fácil – pois então as probabilidades são reduzidas em mais 25%. O caso se passou nos bairros nobres de São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília? Não? Sinto muito, é melhor procurar outro veículo. E terá sorte se encontrar.

As doze pessoas mortas há exatos vinte anos na fazenda Santa Elina, em Corumbiara, não conseguiram preencher os requisitos necessários para que fossem aceitas nas páginas, nos áudios e nos vídeos de boa parte da mídia brasileira. São pobres: dois policiais, um rapaz não identificado e nove sem-terra, entre os quais havia uma criança, Vanessa, assassinada com tiro na barriga. Morreram em Rondônia, estado que não diz nada para gente — e muitos jornalistas. E pertencem a um grupo político capaz de despertar náuseas nos donos e nos principais anunciantes. “Morte de sem-terra? Em Roraima? Qual é?”, terá dito um editor. “É Rondônia, na verdade”, responderia o repórter. “Qual a diferença?”

Ao decidir ignorar o caso conhecido como “massacre de Corumbiara”, os meios de comunicação tradicionais — e também a chamada mídia alternativa — dão mais uma demonstração de descolamento entre a defesa do interesse público e sua realidade pré-fabricada. Algum grande jornal preferiu, neste 9 de agosto, relembrar os 30 anos do lançamento de Rambo II, com Sylvester Stallone matando vietnamitas, a recordar um dos casos mais significativos da transição incompleta do Brasil à democracia.

O curioso é que, à época, veículos de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília enviaram correspondentes aos locais dos fatos. Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e Veja debateram a fundo o tema, em vários momentos dando razão à visão dos sem-terra. Em 1995, cumpriram um papel importante à memória do episódio. Depois de duas décadas, é impensável que tornem a fazê-lo.

As redações estão mais desinformadas e muito menores: toda a memória oral garantida por jornalistas da velha guarda foi perdida pelas levas de demissões dos últimos anos. Estão menos interessadas no Brasil como um todo: o que importa é aquilo que pode ser usado contra um partido, uma figura pública, um grupo. E aprofundaram uma trajetória de preconceito que resulta na escolha do assunto de acordo com a renda do envolvido ou o interesse do anunciante em determinada questão.

Deixa-se passar em cinzentas nuvens um episódio central para discutir o presente. Olhando apenas para a questão agrária, o caso de Corumbiara é rico em desdobramentos. O país não avançou nada em termos de desigualdade rural e ainda há muitas mortes de líderes populares: apenas entre janeiro e junho de 2015, foram 23, nos cálculos da Comissão Pastoral da Terra.

Visto de modo mais amplo, o episódio leva a reflexões sobre a privatização de uma narrativa que deveria ser pública e sobre o desinteresse estatal em trabalhar pela construção da memória. O momento que o país vive, farto em exemplos de como a falta de conhecimento histórico provoca a repetição de erros, mais do que justifica que se recorde esta passagem do Brasil pós-ditadura.

Ao mesmo tempo, a indiferença da mídia tradicional faz crescer a importância de iniciativas como a Editora Elefante, que colocam a relevância social, política e cultural de um tema à frente das possibilidades de lucro. A frenética mudança no cenário da comunicação e do jornalismo nos coloca diante da necessidade de incentivar projetos capazes de contar histórias sem se preocupar em proteger privilégios de uns poucos ou interesses dos mais inconfessáveis.

O silêncio da imprensa brasileira em relação ao “massacre de Corumbiara” só não foi mais ensurdecedor porque lançamos Corumbiara, caso enterrado, um grande trabalho de investigação jornalística do repórter João Peres, com fotos de Gerardo Lazzari. Nos seus primeiros vinte dias de existência, o livro vem cumprindo seu papel: dar a conhecer, da maneira mais ampla possível, a história e os desdobramentos do conflito agrário ocorrido em Rondônia há vinte anos.

Se o massacre, em si, não despertou interesse dos jornais e jornalistas do país, o lançamento de Corumbiara, caso enterrado chamou a atenção de muitas pessoas – e garantiu que vários veículos registrassem, embora lateralmente, essa tragédia brasileira: Pública, Outras Palavras, Fórum, Amazônia Real, Carta Capital, Le Monde Diplomatique, entre outros, dedicaram resenhas e entrevistas à aparição do livro. Na mídia tradicional, CBN e El País abordaram o assunto com competência na semana do lançamento. Além, é claro, da imprensa de Rondônia, que todos os anos recorda o episódio.

O trabalho da Editora Elefante rapidamente se transformou em instrumento para os que desejam abordar o assunto. Foi importante para que muitas pessoas se lembrassem do caso, e para que outras tantas o conhecessem. Já fomos convidados para debates em universidades de Rondônia, São Paulo e Minas Gerais. Vamos, assim, somando uma rede movida por bons interesses, disposta a unir forças contra o esquecimento — e contra as injustiças e desigualdades que provoca Brasil afora.

Estivemos em Osasco para apresentar Corumbiara, caso enterrado

O salão da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Osasco, na Grande São Paulo, recebeu bom público na noite de sábado (1º) para debater os vinte anos do massacre de Corumbiara. O evento, organizado pela CUT São Paulo e pelo Instituto Adelino Ramos, marcou o lançamento de Corumbiara, caso enterrado, livro-reportagem da Editora Elefante que narra de maneira inédita os fatos ocorridos em 9 de agosto de 1995 na fazenda Santa Elina, no sul de Rondônia.

O debate teve a mediação de Valdir Fernandes, o Tafarel, dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, e contou com a presença do deputado federal Valdir Prascideli (PT-SP), do deputado estadual Marcos Martins, da vereadora local Mazé Favarão, de Célia Ramos, do Instituto Adelino Ramos, e de Gilmar Mauro, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Na conversa, o autor de Corumbiara, caso enterrado, João Peres, apresentou um resumo da história ocorrida há vinte anos. Em julho de 1995, famílias sem-terra de todo o Cone Sul de Rondônia ocuparam um pedaço da fazenda Santa Elina, de 18 mil hectares. Durante operação de reintegração de posse iniciada na madrugada de 9 de agosto, doze pessoas morreram – nove posseiros, dois policiais e um homem não identificada. Cinco anos mais tarde, foram condenados três PMs e dois líderes da ocupação.

“Busquei construir essa história sem mitos, sem heróis. Este é um passo importante para que se respeite a inteligência, a autonomia do leitor para decidir o que ocorreu na Santa Elina”, disse o autor. “Os humanos erram, acertam. É preciso retratar a complexidade das relações humanas sem apelar a uma oposição entre bons e maus que não ajuda em nada a refletir sobre o que ocorreu.”

Antes do debate, uma missa foi celebrada pelo padre Bernard Leo Dolan em homenagem às vítimas do conflito. Durante o ato, o deputado Valdir Prascideli comprometeu-se a buscar a aprovação do Projeto de Lei 2.000, de 2011. O texto, de autoria do ex-parlamentar João Paulo Cunha (PT-SP), propõe a anistia dos sem-terra condenados pelo caso – Claudemir Gilberto Ramos, oito anos e meio de prisão, e Cícero Pereira Leite Neto, seis anos e dois meses.

Na tramitação pela Casa, o deputado Vieira da Cunha (PDT-RS) acolheu sugestão para que também os policiais fossem incluídos no rol de beneficiados. O projeto chegou a ser aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, mas nunca chegou a ser pautado para votação em plenário. Após passar pelo crivo dos depitados, o texto ainda tem de ser apreciado pelo Senado antes de seguir a sanção presidencial.

Seis motivos para ler Corumbiara, caso enterrado

Lançado recentemente, o livro-reportagem Corumbiara, caso enterrado despertou atenção e interesse em muita gente de Rondônia, São Paulo e várias partes do país. O trabalho de João Peres, com fotos de Gerardo Lazzari, passa a limpo o episódio conhecido como “massacre de Corumbiara”, um conflito agrário que deixou doze mortes, segundo os números oficiais, há vinte anos.

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Os dados gerais são fáceis de conhecer: três policiais e dois sem-terra foram condenados pela tragédia ocorrida durante a reintegração de posse na fazenda Santa Elina, em 9 de agosto de 1995. Mas, é claro, ninguém deve se contentar com informações tão breves. O importante é ir a fundo, entender os detalhes, vasculhar os cantos obscuros deste episódio tão importante – e, como outros, tão esquecido.

Por isso, listamos seis motivos pelos quais você deve ler Corumbiara, caso enterrado:

1. É inédito. Este é o primeiro livro-reportagem sobre o caso. É uma chance única de conhecer a fundo um dos piores conflitos agrários do Brasil pós-ditadura, de maneira sistematizada, com a apresentação das informações centrais e das diferentes versões sobre o que ocorreu em 9 de agosto de 1995 na fazenda Santa Elina, em Corumbiara, Rondônia.

2. Não tem Fla-Flu. Um dos grandes esforços de Corumbiara, caso enterrado é afastar-se da polarização que nos empobrece intelectualmente a cada dia. Logo de início, o livro convida o leitor a deixar para trás os conceitos pré-fabricados que tentam a tudo e a todos enquadrar. A ideia é retratar fielmente as diferentes visões em torno deste episódio, respeitando a autonomia de quem lê para formar a própria opinião.

3. Inquietações. Trazer à tona os incômodos dos acomodados é um dos papeis deste livro. Por que algumas pessoas se recusam a comentar o episódio? A população de Rondônia tem uma nova oportunidade de questionar Valdir Raupp (PMDB), à época governador. O hoje senador tem se negado a falar sobre o caso, que claramente não figura em suas melhores lembranças.

4. Este não é um caso isolado. O debate sobre o caso Corumbiara não diz respeito ao nosso passado. Temos um país que continua sem debater a fundo a questão da reforma agrária, empurrada com a barriga durante sucessivos governos. O Brasil registra muitas mortes em conflitos agrários todos os anos – são pelo menos 328 em uma década – e Rondônia está sempre entre os líderes da desonrosa lista elaborada pela Comissão Pastoral da Terra. O papel da ditadura na situação atual da Amazônia e na distribuição territorial brasileira é outra questão discutida pelo livro.

5. Repercussão. O livro-reportagem foi tema de vários veículos de alcance nacional e de destaque em Rondônia. “No livro ninguém é santo”, escreveu o El País Brasil. O jornalista Mário Magalhães, autor da premiada biografia sobre Carlos Marighella, considera fundamental o trabalho lançado pela Editora Elefante. “Das desgraças de uma nação, poucas são tão nefastas como memória embaçada. Contra a maldição do esquecimento, há uma novidade a comemorar: o livro Corumbiara: Caso Enterrado”, publicou em seu blog. No site da Editora Elefante, é possível ler reportagens, ouvir e assistir a entrevistas.

6. Cultura sem amarras. Ao comprar Corumbiara, caso enterrado, você ajuda a manter uma editora independente e sem fins lucrativos, que se propõe a oferecer livros que talvez não tenham grande interesse comercial, mas cuja importância social, política e cultural é indiscutível. A Editora Elefante é uma iniciativa verdadeiramente livre de amarras econômicas e partidárias, capaz de contar histórias sem se preocupar em proteger privilégios de uns poucos ou interesses dos mais inconfessáveis.