Silvia Federici se inspira na resistência das mulheres africanas e latino-americanas

Por George Souvlis & Ankica Čakardić
Tradução de Oleg Savitskii & Anna Savitskaia
Em Lavra Palavra

 

Em entrevista concedida em outubro de 2016, a historiadora feminista italiana Silvia Federici, autora de Calibã e a bruxa, fala sobre sua formação política na Itália do pós-guerra e na efervescência dos Estados Unidos nos anos 1960 — sem esquecer de suas passagens pela Nigéria e pela América Latina, onde pôde observar na prática a resistência dos povos contra o avanço do capitalismo sobre a vida comunitária e os recursos naturais.

“A despeito das dificuldades que as pessoas, e as mulheres em particular, enfrentam por causa das políticas extrativistas, da violência sempre presente, praticada por exércitos, paramilitares, narcotraficantes e pela ‘guerra às drogas’, as lutas que as pessoas travam para manter sua autonomia, recriar as formas autônomas e coletivas de reprodução e de autogoverno, nascidas muitas vezes de situações de expropriação total, representam não um modelo, mas uma inspiração que afeta de maneira positiva meu próprio pensamento e prática políticos”, diz Silvia Federici.

Na conversa, a feminista italiana criticou as interpretações marxistas que não consideram o papel que a reconstrução do trabalho reprodutivo desempenhou no desenvolvimento do capitalismo. “[Os marxistas] Perceberam corretamente a separação do campesinato da terra como condição essencial para a existência das relações capitalistas, mas ignoraram a separação entre produção e reprodução, a desvalorização do trabalho reprodutivo, seu confinamento a uma esfera aparentemente não econômica e a consequente desvalorização da posição das mulheres, as quais, com a transição para o capitalismo, estariam destinadas a se tornarem os sujeitos principais desse trabalho.”

Confira alguns trechos da entrevista:

Quais foram suas experiências formativas política e pessoalmente?

A primeira experiência mais formativa da minha vida foi a Segunda Guerra Mundial. Cresci no período do pós-guerra imediato quando as lembranças de uma guerra, que durara anos, somadas às dos anos do fascismo na Itália, ainda estavam vivas. Desde jovem, eu estava ciente de que nascera em um mundo profundamente dividido e facinoroso, que o Estado, longe de nos proteger, poderia ser inimigo, que a vida é extremamente precária, mas, como cantaria mais tarde Joan Baez em uma música, “aqui, a não ser pelo destino, estamos nós”. Era difícil crescer na Itália do pós-guerra e não se politizar. Mesmo ainda pequena, não pude deixar de ser antifascista ao ouvir todas as histórias que meus pais nos contavam.

Além disso, cresci em uma cidade comunista, onde, no Dia do Trabalho, os trabalhadores ostentavam cravos vermelhos nas lapelas e nós acordávamos ao som de “Bella Ciao”, e onde a luta entre comunistas e fascistas prosseguia, com os fascistas tentando periodicamente explodir o monumento aos guerrilheiros e os comunistas atacando em retaliação a sede do Movimento Social Italiano, que todos sabiam ser a continuação do então banido partido fascista. Ao completar 18 anos, me via como radical, visto que à época o modelo da luta era ainda o dos operários de fábrica ou a luta antifascista.

Minha vinda aos Estados Unidos também foi um grande momento decisivo e de formação política. Cheguei no verão de 1967. A universidade de Buffalo, onde eu deveria estudar pelos próximos três anos, era um campus muito ativo, situado na fronteira com o Canadá e o local de passagem para muitos ativistas antiguerra que tentavam escapar do recrutamento. Cheguei em meio a várias mobilizações em apoio ao grupo Buffalo 9, que havia sido preso ao tentar cruzar a fronteira ao lutar contra a armação do FBI contra Martin Sostre, ativista portorriquenho muito respeitado pela comunidade negra.

Logo me juntei aos protestos estudantis e antiguerra. Comecei a trabalhar com Telos e um jornal undergound chamado The Town Crier. Nos Estados Unidos, aprendi sobre o legado da escravidão, do racismo, do imperialismo. Também conheci a “nova esquerda” italiana, o Operaísmo, e os grupos extraparlamentares que se formaram como resultado do movimento de maio de 1968 na França e do Outono Quente na Itália. Eu estava particularmente inspirada pela leitura de Marx feita por Fronti, que afirmava que primeiro vinha a classe operária e depois o capital, querendo com isso dizer que o capital não se desenvolve a partir de sua lógica autônoma, mas em resposta à luta da classe operária, que é o motor primordial da mudança social. Aquilo foi uma grande lição para mim, me ensinou a procurar a luta sempre, as contradições sociais como chaves para compreender a realidade social.

Além disso, o Operaísmo fez uma crítica do materialismo histórico e das políticas dos partidos comunistas. Mas, evidentemente, foi importante conhecer o novo pensamento político italiano nos Estados Unidos, porque, ali, nunca poderia esquecer a história do colonialismo e da escravidão, a história dos não assalariados. Essa história – e, é claro, a minha experiência de ter crescido em uma Itália ainda patriarcal do pós-guerra – moldou a minha abordagem do feminismo que foi mais um momento verdadeiramente revolucionário da minha vida.

Não vou falar disso porque meu trabalho fala por si. Em vez disso, falarei sobre o que significou para mim, no início da década de 1980, ter podido passar um tempo lecionando na Nigéria, meu primeiro encontro com a África subsaariana. À época, eu já lera muito sobre o colonialismo, assim como sobre as políticas de desenvolvimento e subdesenvolvimento, mas a Nigéria foi mais um momento de transformação política subjetiva, não porque tenha mudado a minha visão das relações sociais, mas porque revelou toda uma realidade que era imensamente diferente daquela que tinha vivido com base no meu conhecimento adquirido através de livros. Na Nigéria, aprendi sobre relações comunais, sobre a importância contínua da terra, aprendi sobre a maldição que é o petróleo para os países em que é descoberto, e sobre a grande criatividade do povo africano. As aulas que eu conseguira ministrar ali chegaram ao fim com a escalada da “crise da dívida” e das repressões políticas.

Porém, ao voltar aos Estados Unidos, comecei a passar cada vez mais tempo no México, e mais recentemente em outros países da América Latina, também devido à publicação do livro Calibã e a bruxa no México, na Argentina e no Equador, e agora no Brasil. Menciono a América Latina porque, a despeito das dificuldades que as pessoas, e as mulheres em particular, enfrentam por causa das políticas extrativistas, da violência sempre presente, praticada por exércitos, paramilitares, narcotraficantes e pela “guerra às drogas”, as lutas que as pessoas travam para manter sua autonomia, recriar as formas autônomas e coletivas de reprodução e de autogoverno, nascidas muitas vezes de situações de expropriação total, representam não um modelo, mas uma inspiração que afeta de maneira positiva meu próprio pensamento e prática políticos.

Seu trabalho tem muitas semelhanças com o de Paddy Quick, Maria Mies e Wally Seccombe. Todos esses escritores sustentam que, para analisar a opressão às mulheres no capitalismo, vários pontos devem ser levados em consideração: divisão sexual do trabalho; reprodução social; o controle dos corpos das mulheres e do poder reprodutivo; e a influência dinâmica das formas de família. Nesse sentido, você situa explicitamente o seu trabalho dentro da herança teórica do debate sobre o trabalho doméstico, valendo-se do argumento de Dalla Costa e James de que a divisão sexual do trabalho e do trabalho não remunerado desempenha uma função central no processo da acumulação capitalista. Você poderia falar-nos um pouco mais sobre as diferenças entre seus trabalhos? E o que vê como distinção entre os sistemas capitalista e feudal?

Embora todos os autores aos quais vocês se referiram tenham assentado a posição das mulheres na sociedade capitalista no processo de reprodução, há diferenças significativas entre nós. Uma diferença (por exemplo, entre a minha análise de salários para o trabalho doméstico e a de Maria Mies) reside no fato de que nós sempre definimos o trabalho doméstico como uma construção capitalista e, especificamente, como trabalho cujo objetivo social é a reprodução da força laboral.

Salientei muitas vezes que, na realidade, o trabalho doméstico/reprodutivo possui dupla natureza: reproduz a nossa vida e, ao mesmo tempo, espera-se que reproduza a força de trabalho — e, por causa disso, sujeite-se a restrições específicas. Na obra de Mies, você nem sempre encontrará essa distinção. Em sua análise, existe uma continuidade entre trabalho doméstico e reprodução orientada para a subsistência nos assim chamados países “subdesenvolvidos”. Isso é parcialmente verdadeiro. Mas há uma diferença entre trabalho reprodutivo/doméstico em condições nas quais as mulheres têm acesso à terra ou a outras formas de reprodução, como, por exemplo, em muitas comunidades indígenas, e trabalho doméstico que não é remunerado e depende de um salário (principalmente o do homem). No entanto, concordo largamente com Mies e admiro a maneira como ela expandiu o conceito de reprodução para incluir o trabalho agrícola na maior parte do assim chamado terceiro mundo.

A distinção entre o sistema feudal e o sistema capitalista origina-se da expropriação radical a que os trabalhadores estão sujeitos no capitalismo, e de sua separação dos meios de reprodução. Este é o motor do desenvolvimento capitalista, assim como da exploração intensa do trabalho. Como salientei em Calibã e a bruxa, o capitalismo é o primeiro sistema de exploração que vê antes o trabalho do que a terra como a principal forma de riqueza. Por essa razão, desenvolveu toda uma nova política relativa ao disciplinamento do corpo, especialmente do corpo das mulheres, e à gestão da reprodução, começando com a procriação. O capitalismo deve controlar o trabalho de reprodução, visto que ele é um aspecto central do processo de acumulação, de modo que o trabalho reprodutivo funciona antes como a reprodução da força de trabalho, ou seja, nossa capacidade de trabalhar, do que como a reprodução de nossa luta.

Em Calibã e a bruxa você se refere ao artigo de Robert Brenner “As raízes agrárias do capitalismo europeu”. O que você acha do trabalho de Brenner e do trabalho de outros “marxistas políticos”?

Não me lembro agora de todos os argumentos de Brenner e da escola do Marxismo Político. Concordei com seu foco na transformação das relações agrárias na Europa como crucial para o desenvolvimento capitalista, embora a formação de um mercado agrário/fundiário também tenha sido possibilitada pelo fluxo abundante da prata para a Europa após a conquista de vastas regiões da América do Sul. Porém, a crítica que tenho a essa escola é a mesma que tenho à abordagem de Marx: seu desconhecimento do papel que a reconstrução do trabalho reprodutivo desempenhou na “decolagem” capitalista.

Perceberam corretamente a separação do campesinato da terra como condição essencial para a existência das relações capitalistas, mas ignoraram a separação entre produção e reprodução, a desvalorização do trabalho reprodutivo, seu confinamento a uma esfera aparentemente não econômica e a consequente desvalorização da posição das mulheres, as quais, com a transição para o capitalismo, estariam destinadas a se tornarem os sujeitos principais desse trabalho. Tal como Marx, Brenner e a escola do Marxismo Político ignoram a caça às bruxas dos séculos XVI e XVII em sua análise do impacto do desenvolvimento capitalista sobre as relações agrárias, o que eu acho ser um grande erro.

Você acha possível que o capitalismo pudesse existir sem a apropriação do trabalho doméstico não remunerado das mulheres?

Não acho que isso seja possível, porque o trabalho não remunerado das mulheres, que continua até os dias de hoje, é a condição para a desvalorização da força de trabalho. Sem esse trabalho, a classe capitalista teria de fazer um grande investimento em todas as infraestruturas necessárias para reproduzir a força de trabalho e a sua taxa de acumulação seria seriamente afetada. Há também o lado político da desvalorização e da conseqüente naturalização do trabalho reprodutivo. Ele tem sido a base material para uma hierarquia laboral que divide mulheres e homens, o que permite ao capital controlar a exploração do trabalho feminino de forma mais eficiente por meio do casamento e das relações matrimoniais, inclusive a ideologia do amor romântico, e pacificar os homens dando-lhes uma serviçal sobre quem exercitar o seu poder.

Os últimos anos viram tanto o aumento da imigração para a Europa como o aumento dos partidos de extrema direita. Como nós, de esquerda, podemos enfrentar essa situação terrível?

É impossível expressar, em poucas palavras, a dor e a indignação que sinto ao ver o que os governos e tantas pessoas na Europa estão fazendo com os refugiados das guerras que esses mesmos governos financiam. É assustador ver que, ano após ano, quase toda semana, naufragam no Mediterrâneo os barcos que transportam refugiados, provocando a morte de centenas e centenas de pessoas, de tal forma que o Mediterrâneo agora é um grande cemitério, e isso está acontecendo diante dos olhos de todo o mundo, não em campos de concentração escondidos – isso sem falar dos “centros de hospitalidade”, que são cadeias onde essas pessoas são mantidas por tempo indeterminado em condições ignóbeis.

É evidentemente deplorável que a resposta de muitas pessoas, inclusive operários, não seja solidariedade, mas rejeição, perseguição e posturas nacionalistas. É particularmente preocupante, pois, muitas vezes, é uma guerra entre os pobres, visto que aqueles que querem erguer barreiras são as próprias pessoas que lutam para sobreviver, que pensam que podem se proteger não por meio da solidariedade com refugiados, mas mediante a política de exclusão. Eu gostaria, porém, de acrescentar que precisamos saber mais sobre neonazistas que atacam refugiados na Alemanha, por exemplo, já que há evidências de cumplicidade por parte das autoridades e da polícia, a ponto de pensarmos que os neonazistas surgem como instrumentos de controle dos refugiados que podem ser úteis como força de trabalho barata, mas desde que aceitem permanecer no degrau mais baixo da escada social.

Houve, nos últimos anos, um crescimento das formações de esquerda – de Corbyn e Sandres ao Podemos. Você vê alguma esperança nessa evolução, no sentido de transformação social significativa? Como você acha que a esquerda deve se relacionar com o Estado?

Essa não é uma pergunta fácil de responder. […] Vemos que os governos inclinados à esquerda e toda a política progressista tanto na Europa como na América Latina estão em crise. Poucos se mobilizaram no Brasil para exigir a reintegração de Dilma Rousseff no cargo, embora muitos tenham condenado seu impeachment como um movimento fraudulento, quase um golpe. O registro dos governos progressistas é que, na melhor das hipóteses, eles aliviaram algumas formas de pobreza extrema, mas não mudaram os modos de produção, não implementaram as reformas que os movimentos sociais que os levaram ao poder exigiam, não refrearam a violência do exército e da polícia.

Talvez uma narrativa diferente pudesse ser feita a favor do chavismo, visto que era mais respeitoso com o poder do povo, mas ele também se baseou nas políticas extrativistas, fazendo com que o país ficasse dependente dos altos e baixos do mercado global. E o que dizer de Bernie Sanders, que, depois de passar meses explicando por que seus seguidores não deveriam votar em Clinton, depois afirmou que essa seria a única alternativa? Que lição de cinismo!

Não chamo a política dos comuns de “espontaneísta”. Atualmente existem no mundo muitos regimes comunitários que têm centenas de anos de história. E não há muita espontaneidade na defesa dos bens comuns em muitas partes do mundo quando se deve enfrentar a violência de grupos paramilitares, exércitos e guardas de empresas de segurança. Claramente, não deveríamos ser dogmáticos nesses assuntos. Em níveis locais, muitas vezes é possível exercer alguma influência sobre os governos. Mas o que estamos vendo é que os centros, em que decisões são tomadas, se afastam cada vez mais do alcance das pessoas. Também estamos vendo a formação de uma estrutura de poder internacional que substitui de forma constante o poder do Estado-nação, como é o caso da União Europeia.

Por causa da constante interferência do FMI e do Banco Mundial nas políticas públicas, especialmente, mas não exclusivamente, nas do “terceiro mundo”, estamos vendo a proliferação de Acordos de Livre Comércio como o TTP ou TTIP (felizmente ainda não assinados) – que estabelecem o controle direto da economia global pelo capital, de modo que nenhuma decisão pode ser tomada em nível econômico sem ser antes aprovada pelas grandes corporações e eliminar totalmente a soberania nacional. Sob essas condições, como ser otimista em relação à instalação de governos de esquerda/radicais?

Uma onda de mudanças varreu a América Latina na virada do século XXI, derrubando os governos neoliberais. Cruciais nisso foram os novos movimentos sociais que emergiram exigindo tanto direitos sócio-políticos como econômicos. Isso, no entanto, provocou tensões entre partidos dominantes e movimentos sociais. Você acredita que essas tensões podem ser resolvidas de forma que possam promover os interesses das classes trabalhadoras da América Latina?

Eu visitei o Equador em abril de 2016 e tive muitos encontros com grupos ambientalistas e de mulheres e seus relatos foram unânimes. As pessoas estão indagando: por que a esquerda europeia e americana fala de Rafael Correa como se ele fosse um radical quando suas políticas estão em conformidade com o neoliberalismo? Dado que Correa, mais do que seus antecessores, está promovendo agora ataques contra as terras indígenas e demonstra, em suas políticas do dia a dia, um completo desprezo pelas mulheres? Levado ao poder por um movimento dos povos indígenas, Correa introduziu na constituição do país o princípio de que a natureza também tem direitos e, de início, parecia determinado a não explorar seus recursos petrolíferos, mas acabou mudando de ideia e atualmente está promovendo investimentos estrangeiros e a perfuração de poços de petróleo no parque de Yasuni.

Não admira que, repetidamente, ele entra em confronto com as mesmas populações indígenas que uma vez o apoiaram, e o seu governo é amplamente condenado como desdenhoso dos movimentos desde baixo, autoritário e apoiador do poder corporativo. Evo Morales também fala de Pachamama quando viaja para o exterior, mas segue uma política extrativista semelhante, a qual, além de destruir terras, florestas, rios, cria uma forma interna de colonialismo. Isso não quer dizer que não há grupos de trabalhadores que possam apoiar suas políticas, já que o extrativismo significa salários para alguns, ainda que ao preço da destruição dos meios de subsistência de muitos, da mesma forma que, em muitas comunidades dos Estados Unidos, trabalhadores jovens apoiam o fracking.

Livro analisa ‘ciclo progressista’ e aponta caminhos para a esquerda latino-americana

A América Latina atravessa atualmente um período de impasse e turbulência, em parte pela dinâmica interna de seus países, mas também como consequência de sua forma particular de inserção no mercado mundial. Para refletir sobre essas questões, o livro O eclipse do progressismo: a esquerda latino-americana em debate reúne oito artigos de diversos autores, como Alberto Acosta, Edgardo Lander e Pablo Solón, com o objetivo de pensar criticamente a conjuntura que atravessa o continente e seus países, além das perspectivas políticas da região. A publicação será lançada em São Paulo na segunda-feira, 12 de março, às 17h, e em Salvador, durante o Fórum Social Mundial, em 15 de março.

Tais artigos surgiram a partir de apresentações realizadas no seminário “A América Latina hoje: uma avaliação crítica sobre a esquerda e os governos progressistas”, que ocorreu durante o Fórum Social Mundial de 2016, em Montreal, e que teve continuidade em Porto Alegre, durante o Fórum Social das Resistências, em janeiro de 2017.

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O livro aborda e analisa o ciclo de governos progressistas na região, que chegaram à frente de seus Estados entre 1999 e 2008 a partir das lutas populares anteriores contra as políticas de ajuste fiscal. As economias cresceram e garantiram recursos para importantes políticas distributivas, integrando parcelas da população, antes excluídas, aos mercados de consumo.

“A estratégia aplicada foi, de conjunto, correta e os problemas foram mais localizados ou, ao contrário, tratou-se de uma estratégia equivocada? Quais são os pontos de apoio para as lutas de resistência contra a aplicação de políticas ultraliberais que a direita está tentando aplicar? Quais alternativas propomos? Como combinar as lutas de resistência em curso e a experimentação dessas alternativas?”.

Esses são alguns dos questionamentos que direcionam as análises da publicação. Os autores acreditam que com os efeitos da crise global de 2008, o crescimento do nacionalismo xenófobo e do pensamento conservador, a esquerda latino-americana vive um período de recomposição, em que o balanço da experiência dos governos progressistas ocupa um lugar central.

O evento de lançamento questiona o Fórum Econômico Mundial para a América Latina (WEF), também conhecido como Mini Davos, que será realizado este ano na cidade de São Paulo, entre os dias 13 e 15 de março, e o livro é uma publicação da Editora Elefante, com o apoio da Ação Educativa.

Serviço

Lançamentos do livro O eclipse do progressismo

São Paulo
Data: 12/03, a partir das 17h
Local: Auditório da reitoria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – R. Sena Madureira, 1500, Vila Clementino, São Paulo/SP.

Salvador
Data: 15/03, a partir das 17h
Local: Fórum Social Mundial, Salvador/BA.

Conheça os autores:

José Correa Leite – paulista, é professor universitário com doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2005) e pós-doutorado pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2015). Foi editor do jornal Em Tempo e organizou, com Isabel Loureiro e Maria Elisa Cevasco, o livro O espírito de Porto Alegre.

Emilio Horacio Taddei – portenho, é professor da Universidade de Buenos Aires, com mestrado e doutorado pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris da Fondation Nationale de Sciences Politiques. Foi coordenador acadêmico da CLACSO (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais) e organizou, com José Seoane, o livro Resistencias mundiales: de Seattle a Porto Alegre.

Giovanna Roa – ativista chilena, comunicadora e colaboradora em projetos culturais e políticos, públicos e privados. Designer e co-diretora do festival feminista Ruidosa. Foi vice-presidente da Federação Estudantil da Universidade Católica em 2010 e diretora criativa em campanhas políticas.

Lilian Celiberti – é professora e feminista uruguaia. Começou sua militância no centro dos professores estudantis e foi prisioneira política da ditadura militar em seu país aos 21 anos. É coordenadora da Cotidiano Mujer e participa da Articulação Feminista Marcosur(AFM), promovendo o desenvolvimento de um campo político feminista a nível regional e mundial.

Alberto Acosta – economista e político equatoriano. Professor da FLACSO – Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais, foi um dos redatores do plano do governo da Aliança PAIS – Pátria Altiva e Soberana. Foi ministro da Energia e Minas e Presidente da Assembleia Nacional Constituinte.

John Cajas Guijarro – economista equatoriano graduado da Escola Politécnica Nacional. Tem mestrado em Economia do Desenvolvimento pela FLACSO – Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais. É professor de Economia Política da Universidade Central do Equador e da Escola Politécnica Nacional do Equador.

Alejandro Bendaña – fundador do Centro de Estudos Internacionais em Manágua, Nicarágua. Possui um Ph.D. em História pela Universidade de Harvard. Autor de vários livros sobre relações internacionais e reconstrução pós-guerra, atuou como consultor do Programa UNESCO de Cultura da Paz

Pablo Solón – diretor da Fundação Solón, o político boliviano é ex-diretor executivo do Focus on the Global South, grupo de pesquisa ativista, e ex-embaixador do Estado Plurinacional da Bolívia nas Nações Unidas (ONU). Lidera o Observatório Boliviano de Mudanças Climáticas e Desenvolvimento.

Edgardo Lander – professor e pesquisador venezuelano do Departamento de Estudos Latino-Americanos da Escola de Sociologia, é consultor da comissão venezuelana que negocia a Área de Livre Comércio das Américas. Trabalha na Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais e é membro do Conselho Editorial da Revista Venezuelana de Economia e Ciências Sociais da Universidade Central da Venezuela.

Um olhar ‘equilibrado’ sobre Cuba

Na segunda-feira, 16 de outubro, a Editora Elefante lança seu décimo-sexto título retornando ao tema da América Latina, que marcou o início de suas publicações. Cuba no século XXI: dilemas da revolução, organizado por Fabio Luis Barbosa dos Santos, Joana Salém Vasconcelos e Fabiana Rita Dessoti, traz 22 artigos que procuram responder a perguntas-chave sobre a vida, a política, a economia e a sociedade cubanas, motivos de intensos debates quando se trata da ilha:

Por que a Revolução Cubana não caiu depois da ruína da União Soviética e dos regimes do Leste Europeu? Como a juventude se relaciona com a revolução? Cuba é uma democracia? Há censura na ilha? Os cubanos têm acesso e podem navegar livremente pela internet? Há machismo, homofobia e racismo no úncio país socialista das Américas? O empreendedorismo está crescendo em Cuba? Para onde levará as tentativas de reaproximação com os Estados Unidos? Há desemprego na ilha?

Trata-se de um livro escrito por pesquisadores que simpatizam com as conquistas do movimento liderado por Fidel Castro em 1959, mas que nem por isso fecham os olhos para os problemas do processo. “Este é o melhor texto sobre Cuba ao alcance do leitor brasileiro na virada dos anos 2017-2018”, escreve Frei Betto, no prefácio, “leitura obrigatória para quem, frente a Cuba, reage com equilíbrio, sem o reacionarismo anticomunista dos que veneram o capitalismo nem o esquerdismo infantil e dogmático de quem considera a Revolução Cubana o paraíso na Terra.”

Cuba no século XXI: dilemas da revolução é resultado de uma parceria entre Editora Elefante e o projeto de extensão “Realidade Latino-Americana” da Universidade Federal de São Paulo, que reuniu 33 investigadores de várias universidades brasileiras (Unifesp, USP, Unicamp, Unirio, UFRR e Unila) e de diferentes áreas do conhecimento (Relações Internacionais, História, Economia) em estudos coletivos, leituras e palestras, ocorridas no Memorial da América Latina, em São Paulo, ao longo de 2016. A jornada culminou com uma viagem à ilha em dezembro de 2016, para pesquisas de campo e entrevistas com pesquisadores, movimentos, dirigentes políticos e instituições especializadas.

Os autores formam um grupo politicamente diverso, mas que encontra pontos em comum na defesa do pensamento crítico, no compromisso com a transformação social e na rejeição aos dogmatismos. A partir desta perspectiva, entregam ao leitor um material de formação política e histórica, visando estimular o debate e a reflexão fraterna, em sintonia com quem encontra na experiência cubana um ponto inescapável para o estudo da América Latina. Não pretendem apresentar a Revolução Cubana como “modelo” ou “contra-modelo”, mas sim analisar as lições que sua história pode nos oferecer para o presente e o futuro.

CUBA NO SÉCULO XXI
Organização: Fabio Luis Barbosa dos Santos, Joana Salém & Fabiana Dessotti
Fotos: Matheus Paschoal & Ellen Elsie
Prefácio: Frei Betto
Capa: Ana Carolina Soman
Projeto gráfico: Bianca Oliveira
Editora Elefante
Páginas: 256
Publicação: Outubro de 2017
Dimensões: 13,7 x 21​ cm

LANÇAMENTO
Dia 16/10, às 19h
Debate com Frei Betto
Memorial da América Latina
Auditório da Biblioteca
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664
Barra Funda
São Paulo-SP
Entrada franca

Ideias para superar o PT
e recuperar a autonomia da esquerda

A manobra parlamentar que derrubou Dilma Rousseff em 31 de agosto não se tratou de um impeachment, como dizem seus articuladores dentro e fora do Congresso. Foi um golpe — que, no entanto, não representou uma mudança significativa no sentido do governo e da história brasileira. A ascensão de Michel Temer apenas acelerou e radicalizou políticas conservadoras que já vinham sendo adotadas pelo petismo.

Eis uma das principais ideias defendidas por Fabio Luis Barbosa dos Santos em seu ensaio Além do PT — A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana, que será lançado pela Editora Elefante no início de novembro. “Michel Temer é muito mais destrutivo do ponto de vista social, mas não podemos dizer que ele impôs uma mudança qualitativa aos rumos do Planalto”, argumenta o autor, que é professor de relações internacionais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Osasco.

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Fabio Luis cita o exemplo da Proposta de Emenda à Constituição 241, conhecida como PEC do Teto, que está sendo patrocinada pelo governo Temer no Congresso Nacional. “A PEC 241 é apavorante, porque congela os investimentos sociais por vinte anos, mas tem como antecedente o Projeto de Lei Complementar 257, apresentado por Dilma em março, que já previa gatilhos para conter os gastos com a população”, compara o autor. “O sentido das políticas, portanto, é o mesmo: disciplinar as despesas públicas em função de imperativos financeiros. A diferença é a velocidade e a truculência.”

Diante do discurso petista, que interpreta o golpe como uma mudança forçada de projeto político para o Brasil, Fabio Luis oferece outra interpretação: “O golpe ocorreu porque o PT perdeu o comando da política palaciana. E isso foi consequência do esvaziamento da sua utilidade política e social para as elites do país”, diz. “Para as classes dominantes, o PT perdeu funcionalidade na manutenção da ordem. Seu papel era manter o povo sob controle. Em junho de 2013, ficou claro que o petismo já não era capaz de conter o descontentamento popular. Revelou-se, então, desnecessário para os donos no poder.”

O autor explica que, instalado em Brasília, o partido exerceu um papel fundamental em “apassivar” sindicatos, organizações e movimentos populares, neutralizando sua autonomia. “O PT se transformou no braço esquerdo do partido da ordem”, atesta o professor da Unifesp. Para isso, contou com a colaboração de parte das lideranças sociais, que aceitaram sujeitar-se a uma relação passiva com o Estado.

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“Não foi exatamente cooptação”, pontua Fabio Luis, criticando análises que eximem movimentos e sindicatos de responsabilidade pela própria submissão. “As gestões petistas colocaram em prática políticas que integraram as organizações populares à gestão pública, mas em papéis subordinados. Criaram espaços de participação inócuos, envolvendo as lideranças em questões burocráticas, como a elaboração de projetos e a execução de programas. Assim, muitos bons quadros sociais acabaram assumindo cargos no governo e negligenciaram o trabalho de base.”

Nesse sentido, explica Fabio Luis, o PT é corresponsável pela crise que o engole. “Não é o único culpado, mas tampouco é uma vítima”, sublinha. “Além de colaborar para o apassivamento das forças populares, o partido tornou-se cúmplice dos setores que, mais tarde, viriam a protagonizar o golpe: a mídia corporativa, que recebeu bilhões de reais em publicidade estatal; os setores financeiros, que experimentaram lucros recordes nas gestões petistas; e o PMDB de Temer, Jucá, Renan e Cunha, que fizeram parte do governo até às vésperas do impeachment.”

Um dos grandes diferenciais do ensaio Além do PT — A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana é justamente recorrer à experiência histórica do pensamento político transformador na América Latina para oferecer uma chave interpretativa para o que aconteceu — e ainda está acontecendo — no país. “Os governos petistas e os presidentes da chamada ‘onda progressista’ latino-americana demonstram a impossibilidade de mudança dentro da ordem”, conclui Fabio Luis.

O professor da Unifesp argumenta que, durante as gestões do PT, o Brasil atuou geopoliticamente para conter a mudança em curso na região — e não para acelerá-la. “O PT foi um freio, e não um indutor, da ‘onda progressista’, porque quis implementar na América do Sul a mesma ‘mágica’ que estava tentando conduzir dentro do país”, explica. “No Brasil, o partido trabalhou para conciliar capital e trabalho. No continente, quis conciliar soberania e imperialismo — contradições em termos.”

Segundo Fabio Luis, os avanços sociais no país sempre estiveram limitados pelos interesses financeiros. “A preocupação do PT era a seguinte: o que é possível fazer pelo povo brasileiro sem mexer com os interesses dos bancos, do agronegócio e da mídia corporativa?”, analisa. “Regionalmente, a pergunta era parecida: como podemos ter mais voz e influência internacional sem nos indispormos com os Estados Unidos?”

O autor compara as situações, começando pelo Brasil. “Aqui, os avanços sociais se expressaram, por exemplo, pelo Bolsa Família, uma política de renda básica recomendada pelo Banco Mundial, e pelos aumentos do salário mínimo atrelados ao crescimento do PIB, submetendo o direito dos trabalhadores a uma espécie de participação nos lucros da economia”, argumenta. “Lembremos que, sim, se criaram novas universidades públicas, mas a inclusão dos jovens no ensino superior se deu sobretudo em instituições privadas com subsídio do Estado.”

A ação dos governos petistas na geopolítica regional também foi marcada pelo pragmatismo extremo, que, de acordo com o autor, restringiu a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) à condição de um fórum de concertação política. “Foi um avanço, mas também foi uma contraposição à Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), uma iniciativa de potencial mais radical que reunia Venezuela e Cuba. Ao conciliar governos opostos, como a Venezuela chavista e a Colômbia de Álvaro Uribe, a eficácia transformadora da Unasul foi mais simbólica do que material — até porque seu esteio material é a IIRSA”, avalia, fazendo referência à Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana. “É um projeto que aprofunda o papel do continente como exportador de matéria-prima. Aliás, o denominador comum de todos os governos da região, progressistas ou não, é o extrativismo.”

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Fabio Luis aponta que as iniciativas regionais realmente pensadas “fora da caixa”, contrariando os grandes interesses internacionais e das elites nacionais — como a rede de televisão continental Telesur, o Banco do Sul, a Alba e as tentativas de criar uma moeda única regional —, foram sistematicamente esvaziadas pelo Brasil. “O papel do país foi puxar o freio em políticas de orientação contra-hegemônica.”

A grande conclusão do autor é que, depois de treze anos de governos petistas, a esquerda brasileira encontra-se em uma “encalacrada”: sua constante identificação com o PT acabou por deslegitimá-la, enquanto as forças conservadoras passaram a gozar de grande influência política e cultural sobre a opinião pública. Por isso, Fabio Luis condena propostas emanadas da própria esquerda que pregam como alternativa a volta de Lula à presidência da República ou uma suposta refundação do PT.

“O partido ainda tem ótimos quadros, é verdade, mas acreditar que eles podem recuperar o PT é como pensar que os padres progressistas podem mudar a Igreja”, compara. “O poder da Igreja está nas estruturas do Vaticano, e o vaticano petista tem seus cardeais e seu papa, que não estão interessados em fazer uma política popular. A relação do PT com os movimentos populares é meramente instrumental, e quem pretende implementar mudanças reais deve deixar de ser instrumento do PT.”

Fabio Luis afirma que é preciso, portanto, libertar a esquerda da aura petista. “É necessário exorcizar o espírito petista que aprisionou a esquerda na última década e, simbolicamente, ‘matar o PT’, assim como na psicanálise o sujeito precisa ‘matar o pai’ para desenvolver sua autonomia”, comenta. “Temos que entender que o futuro da esquerda não passa pelo PT.”

O autor de Além do PT — A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana sugere, portanto, que os movimentos populares restabeleçam como horizonte político o combate à articulação entre dependência e desigualdade que marca a história e o presente do país.

“Quem não questiona essa articulação e prefere posicionar-se no campo do mito do crescimento econômico, como fizeram as gestões petistas, não está interessado na mudança”, adverte, dialogando com as teses do Bem Viver que, inspirado nas tradições indígenas, ganha espaço entre organizações sociais em países como Bolívia e Equador. “O crescimento econômico e o progresso na América Latina estão — e sempre estiveram — assentados sobre a dependência internacional, sobre a superexploração do trabalho e sobre a degradação do meio ambiente. Um projeto de esquerda precisa necessariamente atacar essa realidade.”

Do ponto de vista organizativo, Fabio Luis acredita que as forças de esquerda devem combinar as novas formas de organização e convocação popular, ligadas ao mundo digital; a radicalidade e a criatividade das novas formas de protesto social, com destaque para as estratégias que surgiram em junho de 2013 e também para as táticas adotadas pelos estudantes secundaristas nas ocupações das escolas, em 2015; e as formas clássicas de expressão de poder dos trabalhadores, como o partido e o sindicato.

“Os partidos, porém, não podem ser nem um ponto de partida nem um fim em si mesmo”, avalia. “O partido tem que nascer da luta social. A tarefa do momento, portanto, é fortalecer movimentos e organizações que combinem a luta dentro da ordem com a luta contra a ordem. Haverá repressão? Sem dúvida. Mas a principal lição dos governos petistas é que dentro da ordem não haverá transformação.”

Novo livro, Descolonizar o imaginário
aprofunda debate sobre Bem Viver

Vocês estão vendo: 2016 está sendo um ano muito movimentado para estes pequenos elefantes. A caminhada está dura e o trabalho, intenso. Mas não temos nada do que reclamar. Na próxima segunda-feira, 22 de agosto, lançaremos nosso sétimo título. Urrú! E a alegria é ainda maior porque Descolonizar o imaginário virá ao mundo graças a mais uma parceria entre Editora Elefante, Autonomia Literária e Fundação Rosa Luxemburgo – instituição que viabilizou o projeto.

Descolonizar o imaginário traz treze artigos que discutem pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento em perspectiva ampla e transversal, passando por temas aparentemente díspares, mas complementares, como direito à cidade, feminismo, colonialidade, Estado, Direitos da Natureza, movimentos indígenas, economia… É uma continuação do debate que trouxemos aos leitores brasileiros com a publicação de O Bem Viver, em janeiro.

Descolonizar_teaser_9Com a crise dos governos progressistas – marcada até agora pela derrota do kirchnerismo, pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela decadência do chavismo –, Descolonizar o imaginário procura resgatar as tradições, as histórias e os saberes latino-americanos para discutir alternativas. É uma discussão importantíssima para uma região que assiste, atônita, ao ressurgimento de governos escancaradamente identificados com projetos conservadores e neoliberais, como as administrações de Mauricio Macri, na Argentina, e de Michel Temer, no Brasil.

Os textos lançam hipóteses sobre como e por quê, apesar de resultados inéditos na redução da pobreza e da desigualdade, os presidentes da chamada “esquerda latino-americana” não conseguiram eliminar a miséria ou promover mudanças estruturais em seus países. Segundo os autores, a resposta passa justamente pela promessa falida do desenvolvimento, que aprofundou ainda mais nossa dependência de exportações primárias à medida que patrocinou a espoliação territorial e cultural de povos e comunidades tradicionais nas últimas fronteiras da devastação. Conquistou-se o Estado, mas não o poder. E os governos progressistas, assim como os as ditaduras e as gestões neoliberais a quem tanto haviam criticado em suas trajetórias de ascensão, continuaram erroneamente pela trilha enganosa do progresso.

Descolonizar o imaginário conta com artigos de expoentes do novo pensamento latino-americano, como o equatoriano Alberto Acosta, o uruguaio Eduardo Gudynas, o venezuelano Edgardo Lander e a argentina Maristella Svampa, que há anos se dedicam a teorizar sobre alternativas políticas, econômicas e sociais baseadas em uma relação harmônica entre Humanidade e Natureza. A crítica em relação à instrumentalização da Natureza pelo ser humano também dá o tom dos textos assinados por Camila Moreno, Verena Glass, Felício de Araújo Pontes Júnior e Lucivaldo Vasconcelos Barros, que problematizam, em diferentes abordagens, os impactos negativos da inserção subordinada no mercado internacional, da financeirização das questões ambientais e das violações decorrentes de megaempreendimentos.

Maristella Svampa e Eduardo Gudynas enfatizam a necessidade de construções que extrapolem a noção de desenvolvimento, tão cara a determinados governos da região, inclusive aos progressistas, seja partindo das novas gramáticas de lutas sociais da América Latina, seja relacionando algumas propostas para a transição ao pós-extrativismo a partir do Bem Viver. Esse também é o caso do texto escrito por Margarita Aguinaga, Miriam Lang, Dunia Mokrani e Alejandra Santillana, que assinalam como o feminismo pode contribuir com essa discussão, articulando processos de descolonização e despatriacalização. Mario Rodríguez, por sua vez, situa esse debate no ambiente urbano, propondo a reconfiguração das cidades a partir de outros modelos de viver e conviver.

Klaus Meschkat, Ulrich Brand e Edgardo Lander enfatizam o papel do Estado nos processos de transformação, com especial atenção para os desafios e limites relacionados aos governos progressistas. Nesse sentido, o texto de Alexandra Martínez, Sandra Rátiva, Belén Cevallos e Dunia Mokrani aprofunda a discussão sobre as dificuldades de se transformar as instituições, refletindo em particular sobre as experiências na Bolívia, na Colômbia, no Equador e na Venezuela. Por fim, Horacio Machado Aráoz encerra a coletânea atualizando o debate sobre as alternativas ao desenvolvimento com o recente refluxo das forças políticas progressistas que hegemonizaram o continente na última década.

Descolonizar o imaginário pretende, assim, contribuir com o desafio de construir horizontes emancipadores para nosso continente, a partir das necessidades expressas por nossos povos. Os tempos são de urgência: afloram os sinais de falência das propostas políticas que, embora tenham canalizado a esperança da região por algum tempo, resignaram-se a exaurir essa potência caminhando pela linha da menor resistência e pactuando com o poder oligárquico. Pensar “fora da caixa”, reagrupar a energia social do continente, aprofundar nosso horizonte democrático e romper com o modelo primário exportador que nos é imposto desde o sistema colonial certamente são aspectos que constarão de qualquer proposta transformadora para a América Latina — e que está presente no livro.

 


Debate de lançamento
Dia 22 de agosto, às 19h
Debatedoras: Camila Moreno, Dunia Mokrani, Guilherme Mello, Karin Gabbert, Isabel Loureiro e Verena Glass
Mediação: Gerhard Dilger e Jorge Pereira Filho
Auditório da Fundação Rosa Luxemburgo
Rua Ferreira de Araújo, 36, Pinheiros, São Paulo-SP

Pensador equatoriano lança livro
sobre o Bem Viver no Brasil

No final de janeiro, a Editora Autonomia Literária e a Editora Elefante lançam O Bem Viver – Uma oportunidade para imaginar outros mundos, escrito pelo político e economista equatoriano Alberto Acosta. Graças ao apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, haverá três lançamentos: dia 26 de janeiro, em São Paulo; dia 27 de janeiro, no Rio de Janeiro; e dia 28 de janeiro, em Mariana-MG, palco da maior catástrofe socioambiental da história do país. Todos os eventos contarão com a presença do autor.

Nascido em Quito em 1948, Alberto Acosta é um dos fundadores da Alianza País, partido que chegou à Presidência do Equador em 2007 após a vitória eleitoral de Rafael Correa. Foi ministro de Energia e Minas no primeiro ano de mandato, mas deixou o cargo para dirigir a Assembleia Constituinte que incluiu pela primeira vez em um texto constitucional os conceitos de plurinacionalidade, Direitos da Natureza e Buen Vivir.

Durante o trabalho constituinte, porém, Acosta rompeu com o presidente equatoriano — e seu partido — devido a desvios nos rumos do governo. Em 2013, candidatou-se à Presidência da República por uma coalizão de movimentos políticos, sociais e indígenas denominada Unidad Plurinacional de las Izquierdas. Obteve, porém, escasso apoio popular, acabando em sexto lugar nas eleições.

Lançado originalmente em 2011, no Equador, o livro foi revisado e atualizado para a edição brasileira. Em 264 páginas, Acosta trata de conceituar o Bem Viver, filosofia nascida dos conhecimentos e práticas indígenas sul-americanas. Mas não dá espaço a romantismos. Até porque, argumenta, o Bem Viver não é uma exclusividade ameríndia: encontra correspondências na sabedoria de outros povos e culturas tradicionais ao redor do mundo, como o ubuntu, na África do Sul, e também no pensamento ocidental.

O Bem Viver – Uma oportunidade para imaginar outros mundos propõe a construção de novas realidades políticas, econômicas e sociais a partir de uma ruptura radical com as noções de “progresso” e “desenvolvimento”, que são pautadas pela acumulação de bens e capital, pelo crescimento infinito e pela exploração inclemente dos recursos naturais – o que, como demonstram os climatologistas, está colocando em risco a sobrevivência dos próprios seres humanos sobre a Terra.

Até agora não houve governo à direita ou à esquerda que não perseguisse o progresso e o desenvolvimento propagandeados pelos países centrais do capitalismo – e a grande maioria deles não conseguiu nem conseguirá alcançá-lo. De acordo com Acosta, nem mesmo as experiências socialistas do século 20 se desviaram desse caminho.

Os governos progressistas que no início do século 21 chegaram ao poder em boa parte da América Latina tampouco abandonaram a miragem do desenvolvimento. Pelo contrário, aprofundaram a dependência econômica de recursos naturais, com exportações crescentes de matéria-prima, muitas vezes às custas dos direitos dos povos tradicionais.

É o que tem ocorrido no Brasil, que, após uma série de tragédias sociais diuturnamente registradas nos rincões mais afastados do país e nas periferias das grandes cidades, assistiu em 2015 à pior catástrofe ambiental de sua história: o rompimento de uma barragem da mineradora Samarco, subsidiária da Vale, em Minas Gerais, resultando na morte do Rio Doce. A contaminação não é um acidente, mas uma mera consequência do extrativismo.

Acosta lembra que não é possível enriquecer, como apregoa a retórica desenvolvimentista, depredando o próprio patrimônio natural. E, ao reconhecer os avanços sociais obtidos pelos governos progressistas, explica que apenas repetiram as conhecidas formas de produtivismo e consumismo capitalista, sem promover mudanças estruturais nas esferas política, econômica ou social. Talvez por isso conservadorismo agora avance com força na região – como já aconteceu na Argentina, Paraguai, Chile e Venezuela, e está acontecendo no Brasil.

“Necessitamos outras formas de organização social e práticas políticas”, propõe o autor. “O Bem Viver é parte de uma longa busca de alternativas forjadas no calor das lutas indígenas e populares. São propostas invisibilizadas por muito tempo, que agora convidam a romper com conceitos assumidos como indiscutíveis. São ideias surgidas de grupos marginalizados, excluídos, explorados e até mesmo dizimados.”

Com uma linguagem simples e muitas referências a pensadores consagrados e contemporâneos, Alberto Acosta revisa a história política e econômica para explicar que o Bem Viver não se trata de mais uma alternativa de desenvolvimento – não é mais um “sobrenome” do desenvolvimento, tal qual “desenvolvimento humano”, “desenvolvimento sustentável” ou “etnodesenvolvimento”. É uma alternativa ao desenvolvimento. Uma fuga ao desenvolvimento.

“Mais do que nunca é imprescindível construir modos de vida baseados Direitos Humanos e nos Direitos da Natureza, que não sejam pautados pela acumulação do capital.”