Silvia Federici se inspira na resistência das mulheres africanas e latino-americanas

Por George Souvlis & Ankica Čakardić
Tradução de Oleg Savitskii & Anna Savitskaia
Em Lavra Palavra

 

Em entrevista concedida em outubro de 2016, a historiadora feminista italiana Silvia Federici, autora de Calibã e a bruxa, fala sobre sua formação política na Itália do pós-guerra e na efervescência dos Estados Unidos nos anos 1960 — sem esquecer de suas passagens pela Nigéria e pela América Latina, onde pôde observar na prática a resistência dos povos contra o avanço do capitalismo sobre a vida comunitária e os recursos naturais.

“A despeito das dificuldades que as pessoas, e as mulheres em particular, enfrentam por causa das políticas extrativistas, da violência sempre presente, praticada por exércitos, paramilitares, narcotraficantes e pela ‘guerra às drogas’, as lutas que as pessoas travam para manter sua autonomia, recriar as formas autônomas e coletivas de reprodução e de autogoverno, nascidas muitas vezes de situações de expropriação total, representam não um modelo, mas uma inspiração que afeta de maneira positiva meu próprio pensamento e prática políticos”, diz Silvia Federici.

Na conversa, a feminista italiana criticou as interpretações marxistas que não consideram o papel que a reconstrução do trabalho reprodutivo desempenhou no desenvolvimento do capitalismo. “[Os marxistas] Perceberam corretamente a separação do campesinato da terra como condição essencial para a existência das relações capitalistas, mas ignoraram a separação entre produção e reprodução, a desvalorização do trabalho reprodutivo, seu confinamento a uma esfera aparentemente não econômica e a consequente desvalorização da posição das mulheres, as quais, com a transição para o capitalismo, estariam destinadas a se tornarem os sujeitos principais desse trabalho.”

Confira alguns trechos da entrevista:

Quais foram suas experiências formativas política e pessoalmente?

A primeira experiência mais formativa da minha vida foi a Segunda Guerra Mundial. Cresci no período do pós-guerra imediato quando as lembranças de uma guerra, que durara anos, somadas às dos anos do fascismo na Itália, ainda estavam vivas. Desde jovem, eu estava ciente de que nascera em um mundo profundamente dividido e facinoroso, que o Estado, longe de nos proteger, poderia ser inimigo, que a vida é extremamente precária, mas, como cantaria mais tarde Joan Baez em uma música, “aqui, a não ser pelo destino, estamos nós”. Era difícil crescer na Itália do pós-guerra e não se politizar. Mesmo ainda pequena, não pude deixar de ser antifascista ao ouvir todas as histórias que meus pais nos contavam.

Além disso, cresci em uma cidade comunista, onde, no Dia do Trabalho, os trabalhadores ostentavam cravos vermelhos nas lapelas e nós acordávamos ao som de “Bella Ciao”, e onde a luta entre comunistas e fascistas prosseguia, com os fascistas tentando periodicamente explodir o monumento aos guerrilheiros e os comunistas atacando em retaliação a sede do Movimento Social Italiano, que todos sabiam ser a continuação do então banido partido fascista. Ao completar 18 anos, me via como radical, visto que à época o modelo da luta era ainda o dos operários de fábrica ou a luta antifascista.

Minha vinda aos Estados Unidos também foi um grande momento decisivo e de formação política. Cheguei no verão de 1967. A universidade de Buffalo, onde eu deveria estudar pelos próximos três anos, era um campus muito ativo, situado na fronteira com o Canadá e o local de passagem para muitos ativistas antiguerra que tentavam escapar do recrutamento. Cheguei em meio a várias mobilizações em apoio ao grupo Buffalo 9, que havia sido preso ao tentar cruzar a fronteira ao lutar contra a armação do FBI contra Martin Sostre, ativista portorriquenho muito respeitado pela comunidade negra.

Logo me juntei aos protestos estudantis e antiguerra. Comecei a trabalhar com Telos e um jornal undergound chamado The Town Crier. Nos Estados Unidos, aprendi sobre o legado da escravidão, do racismo, do imperialismo. Também conheci a “nova esquerda” italiana, o Operaísmo, e os grupos extraparlamentares que se formaram como resultado do movimento de maio de 1968 na França e do Outono Quente na Itália. Eu estava particularmente inspirada pela leitura de Marx feita por Fronti, que afirmava que primeiro vinha a classe operária e depois o capital, querendo com isso dizer que o capital não se desenvolve a partir de sua lógica autônoma, mas em resposta à luta da classe operária, que é o motor primordial da mudança social. Aquilo foi uma grande lição para mim, me ensinou a procurar a luta sempre, as contradições sociais como chaves para compreender a realidade social.

Além disso, o Operaísmo fez uma crítica do materialismo histórico e das políticas dos partidos comunistas. Mas, evidentemente, foi importante conhecer o novo pensamento político italiano nos Estados Unidos, porque, ali, nunca poderia esquecer a história do colonialismo e da escravidão, a história dos não assalariados. Essa história – e, é claro, a minha experiência de ter crescido em uma Itália ainda patriarcal do pós-guerra – moldou a minha abordagem do feminismo que foi mais um momento verdadeiramente revolucionário da minha vida.

Não vou falar disso porque meu trabalho fala por si. Em vez disso, falarei sobre o que significou para mim, no início da década de 1980, ter podido passar um tempo lecionando na Nigéria, meu primeiro encontro com a África subsaariana. À época, eu já lera muito sobre o colonialismo, assim como sobre as políticas de desenvolvimento e subdesenvolvimento, mas a Nigéria foi mais um momento de transformação política subjetiva, não porque tenha mudado a minha visão das relações sociais, mas porque revelou toda uma realidade que era imensamente diferente daquela que tinha vivido com base no meu conhecimento adquirido através de livros. Na Nigéria, aprendi sobre relações comunais, sobre a importância contínua da terra, aprendi sobre a maldição que é o petróleo para os países em que é descoberto, e sobre a grande criatividade do povo africano. As aulas que eu conseguira ministrar ali chegaram ao fim com a escalada da “crise da dívida” e das repressões políticas.

Porém, ao voltar aos Estados Unidos, comecei a passar cada vez mais tempo no México, e mais recentemente em outros países da América Latina, também devido à publicação do livro Calibã e a bruxa no México, na Argentina e no Equador, e agora no Brasil. Menciono a América Latina porque, a despeito das dificuldades que as pessoas, e as mulheres em particular, enfrentam por causa das políticas extrativistas, da violência sempre presente, praticada por exércitos, paramilitares, narcotraficantes e pela “guerra às drogas”, as lutas que as pessoas travam para manter sua autonomia, recriar as formas autônomas e coletivas de reprodução e de autogoverno, nascidas muitas vezes de situações de expropriação total, representam não um modelo, mas uma inspiração que afeta de maneira positiva meu próprio pensamento e prática políticos.

Seu trabalho tem muitas semelhanças com o de Paddy Quick, Maria Mies e Wally Seccombe. Todos esses escritores sustentam que, para analisar a opressão às mulheres no capitalismo, vários pontos devem ser levados em consideração: divisão sexual do trabalho; reprodução social; o controle dos corpos das mulheres e do poder reprodutivo; e a influência dinâmica das formas de família. Nesse sentido, você situa explicitamente o seu trabalho dentro da herança teórica do debate sobre o trabalho doméstico, valendo-se do argumento de Dalla Costa e James de que a divisão sexual do trabalho e do trabalho não remunerado desempenha uma função central no processo da acumulação capitalista. Você poderia falar-nos um pouco mais sobre as diferenças entre seus trabalhos? E o que vê como distinção entre os sistemas capitalista e feudal?

Embora todos os autores aos quais vocês se referiram tenham assentado a posição das mulheres na sociedade capitalista no processo de reprodução, há diferenças significativas entre nós. Uma diferença (por exemplo, entre a minha análise de salários para o trabalho doméstico e a de Maria Mies) reside no fato de que nós sempre definimos o trabalho doméstico como uma construção capitalista e, especificamente, como trabalho cujo objetivo social é a reprodução da força laboral.

Salientei muitas vezes que, na realidade, o trabalho doméstico/reprodutivo possui dupla natureza: reproduz a nossa vida e, ao mesmo tempo, espera-se que reproduza a força de trabalho — e, por causa disso, sujeite-se a restrições específicas. Na obra de Mies, você nem sempre encontrará essa distinção. Em sua análise, existe uma continuidade entre trabalho doméstico e reprodução orientada para a subsistência nos assim chamados países “subdesenvolvidos”. Isso é parcialmente verdadeiro. Mas há uma diferença entre trabalho reprodutivo/doméstico em condições nas quais as mulheres têm acesso à terra ou a outras formas de reprodução, como, por exemplo, em muitas comunidades indígenas, e trabalho doméstico que não é remunerado e depende de um salário (principalmente o do homem). No entanto, concordo largamente com Mies e admiro a maneira como ela expandiu o conceito de reprodução para incluir o trabalho agrícola na maior parte do assim chamado terceiro mundo.

A distinção entre o sistema feudal e o sistema capitalista origina-se da expropriação radical a que os trabalhadores estão sujeitos no capitalismo, e de sua separação dos meios de reprodução. Este é o motor do desenvolvimento capitalista, assim como da exploração intensa do trabalho. Como salientei em Calibã e a bruxa, o capitalismo é o primeiro sistema de exploração que vê antes o trabalho do que a terra como a principal forma de riqueza. Por essa razão, desenvolveu toda uma nova política relativa ao disciplinamento do corpo, especialmente do corpo das mulheres, e à gestão da reprodução, começando com a procriação. O capitalismo deve controlar o trabalho de reprodução, visto que ele é um aspecto central do processo de acumulação, de modo que o trabalho reprodutivo funciona antes como a reprodução da força de trabalho, ou seja, nossa capacidade de trabalhar, do que como a reprodução de nossa luta.

Em Calibã e a bruxa você se refere ao artigo de Robert Brenner “As raízes agrárias do capitalismo europeu”. O que você acha do trabalho de Brenner e do trabalho de outros “marxistas políticos”?

Não me lembro agora de todos os argumentos de Brenner e da escola do Marxismo Político. Concordei com seu foco na transformação das relações agrárias na Europa como crucial para o desenvolvimento capitalista, embora a formação de um mercado agrário/fundiário também tenha sido possibilitada pelo fluxo abundante da prata para a Europa após a conquista de vastas regiões da América do Sul. Porém, a crítica que tenho a essa escola é a mesma que tenho à abordagem de Marx: seu desconhecimento do papel que a reconstrução do trabalho reprodutivo desempenhou na “decolagem” capitalista.

Perceberam corretamente a separação do campesinato da terra como condição essencial para a existência das relações capitalistas, mas ignoraram a separação entre produção e reprodução, a desvalorização do trabalho reprodutivo, seu confinamento a uma esfera aparentemente não econômica e a consequente desvalorização da posição das mulheres, as quais, com a transição para o capitalismo, estariam destinadas a se tornarem os sujeitos principais desse trabalho. Tal como Marx, Brenner e a escola do Marxismo Político ignoram a caça às bruxas dos séculos XVI e XVII em sua análise do impacto do desenvolvimento capitalista sobre as relações agrárias, o que eu acho ser um grande erro.

Você acha possível que o capitalismo pudesse existir sem a apropriação do trabalho doméstico não remunerado das mulheres?

Não acho que isso seja possível, porque o trabalho não remunerado das mulheres, que continua até os dias de hoje, é a condição para a desvalorização da força de trabalho. Sem esse trabalho, a classe capitalista teria de fazer um grande investimento em todas as infraestruturas necessárias para reproduzir a força de trabalho e a sua taxa de acumulação seria seriamente afetada. Há também o lado político da desvalorização e da conseqüente naturalização do trabalho reprodutivo. Ele tem sido a base material para uma hierarquia laboral que divide mulheres e homens, o que permite ao capital controlar a exploração do trabalho feminino de forma mais eficiente por meio do casamento e das relações matrimoniais, inclusive a ideologia do amor romântico, e pacificar os homens dando-lhes uma serviçal sobre quem exercitar o seu poder.

Os últimos anos viram tanto o aumento da imigração para a Europa como o aumento dos partidos de extrema direita. Como nós, de esquerda, podemos enfrentar essa situação terrível?

É impossível expressar, em poucas palavras, a dor e a indignação que sinto ao ver o que os governos e tantas pessoas na Europa estão fazendo com os refugiados das guerras que esses mesmos governos financiam. É assustador ver que, ano após ano, quase toda semana, naufragam no Mediterrâneo os barcos que transportam refugiados, provocando a morte de centenas e centenas de pessoas, de tal forma que o Mediterrâneo agora é um grande cemitério, e isso está acontecendo diante dos olhos de todo o mundo, não em campos de concentração escondidos – isso sem falar dos “centros de hospitalidade”, que são cadeias onde essas pessoas são mantidas por tempo indeterminado em condições ignóbeis.

É evidentemente deplorável que a resposta de muitas pessoas, inclusive operários, não seja solidariedade, mas rejeição, perseguição e posturas nacionalistas. É particularmente preocupante, pois, muitas vezes, é uma guerra entre os pobres, visto que aqueles que querem erguer barreiras são as próprias pessoas que lutam para sobreviver, que pensam que podem se proteger não por meio da solidariedade com refugiados, mas mediante a política de exclusão. Eu gostaria, porém, de acrescentar que precisamos saber mais sobre neonazistas que atacam refugiados na Alemanha, por exemplo, já que há evidências de cumplicidade por parte das autoridades e da polícia, a ponto de pensarmos que os neonazistas surgem como instrumentos de controle dos refugiados que podem ser úteis como força de trabalho barata, mas desde que aceitem permanecer no degrau mais baixo da escada social.

Houve, nos últimos anos, um crescimento das formações de esquerda – de Corbyn e Sandres ao Podemos. Você vê alguma esperança nessa evolução, no sentido de transformação social significativa? Como você acha que a esquerda deve se relacionar com o Estado?

Essa não é uma pergunta fácil de responder. […] Vemos que os governos inclinados à esquerda e toda a política progressista tanto na Europa como na América Latina estão em crise. Poucos se mobilizaram no Brasil para exigir a reintegração de Dilma Rousseff no cargo, embora muitos tenham condenado seu impeachment como um movimento fraudulento, quase um golpe. O registro dos governos progressistas é que, na melhor das hipóteses, eles aliviaram algumas formas de pobreza extrema, mas não mudaram os modos de produção, não implementaram as reformas que os movimentos sociais que os levaram ao poder exigiam, não refrearam a violência do exército e da polícia.

Talvez uma narrativa diferente pudesse ser feita a favor do chavismo, visto que era mais respeitoso com o poder do povo, mas ele também se baseou nas políticas extrativistas, fazendo com que o país ficasse dependente dos altos e baixos do mercado global. E o que dizer de Bernie Sanders, que, depois de passar meses explicando por que seus seguidores não deveriam votar em Clinton, depois afirmou que essa seria a única alternativa? Que lição de cinismo!

Não chamo a política dos comuns de “espontaneísta”. Atualmente existem no mundo muitos regimes comunitários que têm centenas de anos de história. E não há muita espontaneidade na defesa dos bens comuns em muitas partes do mundo quando se deve enfrentar a violência de grupos paramilitares, exércitos e guardas de empresas de segurança. Claramente, não deveríamos ser dogmáticos nesses assuntos. Em níveis locais, muitas vezes é possível exercer alguma influência sobre os governos. Mas o que estamos vendo é que os centros, em que decisões são tomadas, se afastam cada vez mais do alcance das pessoas. Também estamos vendo a formação de uma estrutura de poder internacional que substitui de forma constante o poder do Estado-nação, como é o caso da União Europeia.

Por causa da constante interferência do FMI e do Banco Mundial nas políticas públicas, especialmente, mas não exclusivamente, nas do “terceiro mundo”, estamos vendo a proliferação de Acordos de Livre Comércio como o TTP ou TTIP (felizmente ainda não assinados) – que estabelecem o controle direto da economia global pelo capital, de modo que nenhuma decisão pode ser tomada em nível econômico sem ser antes aprovada pelas grandes corporações e eliminar totalmente a soberania nacional. Sob essas condições, como ser otimista em relação à instalação de governos de esquerda/radicais?

Uma onda de mudanças varreu a América Latina na virada do século XXI, derrubando os governos neoliberais. Cruciais nisso foram os novos movimentos sociais que emergiram exigindo tanto direitos sócio-políticos como econômicos. Isso, no entanto, provocou tensões entre partidos dominantes e movimentos sociais. Você acredita que essas tensões podem ser resolvidas de forma que possam promover os interesses das classes trabalhadoras da América Latina?

Eu visitei o Equador em abril de 2016 e tive muitos encontros com grupos ambientalistas e de mulheres e seus relatos foram unânimes. As pessoas estão indagando: por que a esquerda europeia e americana fala de Rafael Correa como se ele fosse um radical quando suas políticas estão em conformidade com o neoliberalismo? Dado que Correa, mais do que seus antecessores, está promovendo agora ataques contra as terras indígenas e demonstra, em suas políticas do dia a dia, um completo desprezo pelas mulheres? Levado ao poder por um movimento dos povos indígenas, Correa introduziu na constituição do país o princípio de que a natureza também tem direitos e, de início, parecia determinado a não explorar seus recursos petrolíferos, mas acabou mudando de ideia e atualmente está promovendo investimentos estrangeiros e a perfuração de poços de petróleo no parque de Yasuni.

Não admira que, repetidamente, ele entra em confronto com as mesmas populações indígenas que uma vez o apoiaram, e o seu governo é amplamente condenado como desdenhoso dos movimentos desde baixo, autoritário e apoiador do poder corporativo. Evo Morales também fala de Pachamama quando viaja para o exterior, mas segue uma política extrativista semelhante, a qual, além de destruir terras, florestas, rios, cria uma forma interna de colonialismo. Isso não quer dizer que não há grupos de trabalhadores que possam apoiar suas políticas, já que o extrativismo significa salários para alguns, ainda que ao preço da destruição dos meios de subsistência de muitos, da mesma forma que, em muitas comunidades dos Estados Unidos, trabalhadores jovens apoiam o fracking.

A descoberta de que pessoas atrás das grades
também são… pessoas

Por Bruna Escaleira
Revista Azmina

 

O muro de concreto que separa a prisão do resto da cidade nem é tão alto. Mas as barreiras físicas e simbólicas que vão surgindo no caminho de Natalia até seu local de trabalho impõem uma separação irrevogável entre o fora e o dentro da prisão. “Um lugar que existe não em prol dos que lá estão, mas em prol dos que lá não se encontram”. Um espaço de constante vigilância, “guardando quem não pode sair, como histórias que tivessem de permanecer caladas, abafadas pelas portas todas”.

Funcionária do Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário (CHSP) desde 2012, a psiquiatra paulistana enfrentou um longo processo de adaptação e percepção de uma realidade tão diferente da sua. A chave para lidar com aquela estrutura dura, incômoda e suas regras absurdas, no entanto, não estava nas fechaduras das inúmeras portas e grades do sistema prisional. Estava nas pessoas:

“Amenizado o receio inicial de que eu pudesse ser agredida fisicamente, desrespeitada sexualmente, ter minha vida imediatamente ou fora dali ameaçada, compreendo agora, passados quatro anos, haver vivido naquele começo um certo encantamento com a prisão, por mais absurdo que isso soe. Depois de perceber que meus medos não se configuravam como perigos constantes e iminentes, houve espaço para este sentimento aparentemente deslocado, que consistia na descoberta óbvia e simples, mas grande, de que aquelas pessoas eram pessoas.” (Desterros, p. 25)

Com o objetivo de compor sua dissertação de mestrado em Psicologia Clínica na USP, Natalia começou a escrever relatos sobre seus atendimentos e a colher depoimentos de detentas e detentos internados no CHSP. Porém, assim como a linguagem da “rua” (como quem está dentro da prisão chama tudo e todos que estão fora) não é suficiente para interpretar as nuances das gírias e códigos que circulam por entre as grades, o relato médico parecia não conseguir abarcar todas as dimensões humanas daquelas histórias. Foi assim que o olhar sensível de Natalia transbordou e se tornou literatura.

Desterros: histórias de um hospital-prisão mistura as percepções da autora a histórias de pessoas muito diversas, exceto pelo fato de estarem ou terem passado por um período de encarceramento. Uma série de relatos curtos intercala-se ao desenvolvimento mais longo de uma história em especial: a da angolana Donamingo. Vítima de um esquema de tráfico internacional de drogas, ela deixou a África para vender sapatos no Brasil e descobriu-se presa em uma terra tão distante da sua ao mesmo tempo em que se descobria grávida do segundo filho.

“Sentada diante de mim, na lanchonete de uma galeria no centro de São Paulo, Donamingo rememora seus últimos dias em Luanda tentando emprestar a eles a tristeza que lhes caberia se soubesse o que estava por vir.

Mas não consegue.

É capaz, no máximo, de se surpreender com a ingenuidade de quem não temia nada, e a alegria que relembra é o avesso opaco da tristeza atual, uma sem acesso à outra. Dois mundos incomunicáveis, feitos de passado e futuro que não se encontram, e no entanto ela estava ali, na minha frente, personificação do impossível.” (Desterros, p. 29)

Em uma edição tão criativa e cuidadosa quanto a escrita de Natalia, com as costuras da encadernação à mostra, a independente Editora Elefante nos presenteia com mais um título extremamente pertinente e necessário para o entendimento da realidade em que vivemos — quem assina a capa, aliás, é a designer Karen Ka, que já falou conosco sobre seu projeto Lambe Buceta. Fique agora com algumas palavras da própria autora em nossa entrevista:

AzMina: O que te motivou a escrever o livro?

Natalia Timerman: Quando comecei a trabalhar como psiquiatra no Centro CHSP, eu tinha acabado de entrar no mestrado com um projeto sobre pacientes borderline. Nas primeiras semanas de trabalho, aquele me pareceu um lugar tão surpreendente e desafiador que mudei todo o projeto. Minha dissertação acabou sendo feita a partir do meu olhar ao hospital penitenciário e da leitura de Hannah Arendt. O resultado, chamado A liberdade segundo sua privação: (im)possibilidades do homem num hospital penitenciário, foi o embrião do livro Desterros.

São tantas as questões que a prisão suscita, e tantas outras as que resultam do encontro entre um hospital e uma prisão, duas instituições em si complexas, que dá mesmo vontade de escrever. Nesses anos no CHSP, já escutei de diversos profissionais que a vivência ali dava um livro. Um só não, vários, assim como as histórias que se passam ali dentro. Tive essa sensação ao terminar o livro: eu poderia seguir escrevendo infinitamente, mas, em algum momento, precisava de um ponto final.

AM: Você já tinha alguma experiência com escrita literária antes dessa obra? Nos conte um pouco da sua relação com a literatura.

NT: Desde cedo gostava de ler e de escrever. Meu sonho de criança era ser escritora e, apesar de meu percurso profissional a princípio não me aproximar da literatura, os livros sempre estiveram por perto e foram um norte e um refúgio. Escrever e ler sempre foram uma forma de me relacionar com o mundo, ao mesmo tempo necessária e prazerosa. Eu tinha cadernos e cadernos preenchidos como diários e escrevia alguns contos; cheguei também a começar um romance. Mas era como se tivesse que, a cada vez, tomar a decisão de escrever, porque isso não cabia no meu dia a dia, e essa decisão não durava.

Eu costumo dizer que dei uma grande volta para chegar até esse lugar de escrita, que passou pela medicina, pela psiquiatria e pela psicologia (e também um pouco pela faculdade de Letras, que cheguei a começar durante o curso de Medicina, mas que não consegui terminar). Hoje vejo que foi uma volta importante até mesmo para a maneira como se dá meu escrever. O Desterros é exemplo disso.

AM: Como se deu a escolha do formato do livro e dos relatos?

NT: Já na dissertação, a descrição do hospital-prisão e os relatos foram feitos a partir do meu olhar e da minha voz, e minha transformação durante os anos de trabalho compõe um elemento importante desse ponto de vista. Mas o mestrado era mais teórico e tinha menos relatos. A história da Donamingo, tão central no livro, era apenas um deles.

Algumas pessoas começaram a me dizer que eu tinha um livro nas mãos; cheguei a mandar a dissertação para algumas editoras, mas nenhuma quis publicá-la como estava. Eu conheci uma das pessoas da Editora Elefante por acaso na mesma época, que leu e sugeriu algumas mudanças, como que eu me aprofundasse na história da Donamingo, tão potente. Essa pessoa disse que eu poderia até inventar: como não era mais um mestrado, não havia mais uma preocupação acadêmica. Eu tentei, mas não gostei do resultado.

Foi quando decidi tentar encontrá-la (o que conto com mais detalhes no livro) para preencher as lacunas do que eu sabia sobre ela. Já não me lembro se a ideia de que a história dela fosse o eixo do livro veio antes ou depois disso: agora, parece tão natural que seja assim que não consigo saber. Depois, o trabalho foi quase de costura, com o precioso olhar de preparação e edição, para fazer com que os relatos seguissem um rumo e que dialogassem com os trechos em que a descrição do hospital e minha reflexão sobressaem.

AM: Quem você espera que seja o leitor de Desterros?

NT: Eu gostaria que o livro fosse lido por quem não tem a menor ideia de como seja a prisão, por quem imagina o mundo detrás das grades segundo os preconceitos do senso comum, como eu mesma via, para que justamente isso seja desconstruído. Acho que olhar pessoas como pessoas é também uma forma de olhar para si, de se rever enquanto dono de um olhar viciado para determinados assuntos.

Mas tenho percebido que as pessoas que já se interessam pelo mundo do cárcere têm sido também leitores do Desterros. Num dos eventos de divulgação do livro, tive o prazer e a honra de dividir uma mesa com uma jurista que me apontou para algo que eu não havia enxergado: eu, trabalhando no hospital penitenciário, tenho uma posição muito privilegiada para olhar e dizer o que se passa lá. Para alguém da sociedade civil que queira escrever sobre a prisão, não é tão fácil conseguir o acesso que eu já tinha, e talvez por isso este livro tenha interesse para essas pessoas.

AM: Como você conta no livro, a realidade do sistema prisional brasileiro não é fácil. A escrita te ajuda de alguma forma a lidar com ela?

NT: Certamente. Escrever me ajuda a lidar com a realidade do sistema prisional brasileiro porque é também um meio de reflexão. Escrevendo, à medida em que as narrativas se tecem, consigo criar para mim mesma compreensões que, antes da existência daquelas histórias de forma organizada literariamente, eu não conseguia alcançar. É um alento para mim, e espero que, através de um enxergar humanizador, também para aqueles sobre quem falei.

AM: Você ainda trabalha no CHSP? Pretende seguir carreira lá?

NT: Sim, eu ainda trabalho no CHSP – agora estou de licença-maternidade, mas pretendo voltar quando a licença acabar. É um lugar de muitos desafios e aprendizados.

AM: Pode nos contar um pouco sobre a sua relação com a personagem principal, Donamingo?

NT: Acho que o Desterros é, em alguma medida, também a história dessa relação: uma mulher branca, psiquiatra, que conhece uma mulher negra, presa. O livro é um pouco a história desse abismo. O título Desterros, no plural, remete em primeiro lugar ao fato de Donamingo se encontrar longe da terra dela. Depois, ao fato de que, de alguma forma, todos os presos são desterrados. Finalmente, remete ao desterro em que estamos todos diante da história de alguém sem lugar.

Mas isso só é acessível dentro de cada um, a partir de olhar um outro. O acesso a esse olhar para mim através do outro, devo muito à Donamingo. E também devo a ela tantas outras questões e sentimentos que visitei, por exemplo, quando segurei nos braços o filho dela fora da prisão. Foi inevitável comparar o peso dele ao peso do meu filho, um pouco mais velho. Ela me deu a oportunidade radical de me rever em vários sentidos. Até como psiquiatra: quando fui escrever a história dela, vi que faltavam muitos elementos para a compreender como pessoa. Percebi quão rasa pode ser, quantas lacunas deixa, uma narrativa que busca apenas sintomas.

AM: Os personagens sabem sobre o livro? Algum deles chegou a lê-lo?

NT: Alguns personagens sabem, principalmente aqueles cujos relatos estavam já na dissertação. Para outros tantos, não tive a oportunidade de dizer: saíram do CHSP, ou faleceram, ou eu os havia atendido apenas no ambulatório e não cheguei a encontrar novamente. De toda forma, todos os nomes foram modificados para que a identidade deles fosse preservada. Eu não sei se algum deles leu, exceto pela Donamingo: eu li para ela alguns trechos do livro uma das vezes em que nos encontramos fora da prisão. Foi uma experiência e tanto, vê-la se reconhecer nas minhas palavras. Ela sorria e concordava com a cabeça.

AM: Já tem algum próximo projeto literário?

NT: Enquanto o Desterros estava sendo preparado, eu comecei uma pós-graduação em formação de escritores no Instituto Vera Cruz, que terminei há pouco. Foi muito importante e prazeroso; aprendi e li muito, e consegui abrir espaço para a escrita no meu dia a dia. O trabalho final desse curso é um romance acerca de uma mulher às voltas com o fim de um relacionamento curto, mas que a abalou muito. Um tema bem diferente do Desterros

Calibã e a bruxa está no mundo!

Deem uma olhada nas fotos que tiramos do Lançamento de Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, que aconteceu no Centro Cultural Olido no último dia 20 de julho em São Paulo. Já dissemos nas redes sociais por aí que foi incrével, então não vamos repetir que foi incrével, mesmo tendo sido incrével. Sério: muita gente apareceu pra ver e ouvir a Silvia. Umas trezentas pessoas. Incrével. Mas, como prometemos, não vamos ficar escrevendo que foi incrével.

garanta seu exemplar!

Em vez disso, vamos dizer que o caminho até aqui foi looooongo. Começou com o Coletivo Sycorax, que traduziu colaborativamente essa obra importantíssima que é Calibã e a bruxa, e disponibilizou o conteúdo todo na internet em html. Essa versão digital do livro foi lançada em São Paulo com a presença da autora em 2016. Então, a Fundação Rosa Luxemburgo se interessou em apoiar a publicação da versão brasileira. Conexões aqui e ali colocaram a Editora Elefante no rolê, ainda mais depois dos conselhos de Júlia Rabahie sobre a relevância do livro.

Então o trabalho começou: e foi muito trabalho, cruzes. O projeto gráfico ficou a cargo das queridas e talentosíssimas Bianca Oliveira e Karen Ka, cuja parceria mais uma vez fez bonito nos livros da Elefante. Várias reuniões e muitas horas-bunda depois, olhos ardendo na frente do computador pra resolver mil detalhes, mil tretas, vai-vem de provas da gráfica, ajustes, enfim, temos a edição mais linda de nosso catálogo.

Eis nosso décimo-terceiro título. Urrú!

O pré-lançamento no Rio de Janeiro, em 16 de julho, também foi porreta demais. Menos gente, mais intimista. O tempo ajudou e o sol deu o tom daquela tarde de domingo na sede da Grande Companhia Brasileira de Mysterios e Novidades, na Gambôa, um bairro carioca permeado pela história da escravidão e da resistência negra. Saca só esse vídeo, feito pela querida Ana Rezende:

Naquela mesma rua se encontra o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), que preserva a memória do Cemitério dos Pretos Novos. “Pretos novos” era como se chamavam os escravos negros aportados no Rio de Janeiro, e que ali permaneciam em “quarentena” antes de entrarem no país. Uma porcentagem significativa dos cativos morria nos primeiros dias, e seus corpos eram enterrados dentro de barracões ou nos arredores.

Enfim… estamos orgulhosos demais do que fizemos com este livro (são muitos elogios, muito apaixonados, inclusive da autora — Silvia, você é um amor de pessoa) e com o que estamos fazendo com nossa pequena casa editorial, ampliando as parcerias e reunindo cada vez mais gente em nossa manada. Só temos a agradecer a confiança e o apoio de vocês.

Neste segundo semestre teremos mais sete lançamentos. E queremos vocês conosco.

Continuem com os elefantes =)

‘O feminicídio tem como
objetivo aterrorizar as mulheres’

Por Jessica Zeller
Goethe-Institut

Você acaba de fazer 75 anos. É difícil estabelecer um diálogo com feministas mais jovens?

Muito pelo contrário! A maioria das pessoas que conheço hoje em dia é de ativistas jovens. Acho que isso acontece porque há um novo movimento feminista no mundo todo. É para mim um prazer enorme ter essas mulheres no entorno, pois o mundo está nas mãos delas.

garanta seu exemplar!

Esse novo feminismo é simplesmente mais jovem ou é também diferente daqueles movimentos de mulheres dos anos 1970 e 1980, dos quais você já participou ativamente?

As ativistas naturalmente aprenderam com o tempo. Só para citar um exemplo: naquela época, reivindicávamos um “salário para o trabalho doméstico”. Hoje, ninguém mais tem ilusões a respeito da libertação das mulheres através do trabalho remunerado. Pois a maioria das mulheres, embora trabalhem, têm empregos precários, precisando assumir dois ou três deles para sobreviver. Além disso, as feministas jovens apostam menos nas instituições estatais como motores de mudanças sociais.

Em janeiro de 2017, centenas de milhares de mulheres foram às ruas nos Estados Unidos na Marcha das Mulheres em Washington. Como você vivenciou isso?

Não foram apenas feministas: outros atores sociais também estiveram nas ruas nesse dia, tanto mulheres quanto homens. A ordem de grandeza desse evento tem certamente a ver com o fato de que as pessoas queriam dar vazão à ira contra Donald Trump e seu sexismo. E queriam expressar sua preocupação com o perigo de que o novo governo pudesse reintroduzir uma proibição do aborto.

Ou seja, o que importava nesse dia era defender conquistas e direitos adquiridos?

Além do direito de definir elas próprias o planejamento familiar, as mulheres nos Estados Unidos não têm tantas conquistas assim a serem defendidas. Números recentes mostram até mesmo que a expectativa de vida de mulheres da classe trabalhadora diminuiu. Do ponto de vista estatístico, elas vão morrer cinco anos mais cedo que suas mães. Também com relação a isso existe um mal-estar enorme na sociedade, que foi articulado na Marcha das Mulheres.

Em outras regiões do mundo também têm ocorrido protestos feministas constantes, como por exemplo na América Latina, com o lema “nenhuma a menos”, contra o feminicídio e contra a cultura machista.

Uma mobilização realmente impressionante. Em 2017, a campanha “nenhuma a menos” foi tema do Dia Internacional da Mulher, convocado pelas mulheres na Argentina. Lá, nesse dia, houve uma greve geral feminina. Há pouco tempo encontrei em Nova York três ativistas argentinas que me mostraram um vídeo do seu protesto em Buenos Aires. Isso quase me levou às lágrimas de emoção.

O feminicídio e o combate a ele são um assunto principalmente latino-americano?

Com certeza não. A brutalidade e a frequência desses casos aumenta no mundo todo. Na Índia e em alguns países africanos, percebemos uma verdadeira “caça às bruxas” contra as mulheres. Em regiões do interior do Canadá há assassinatos em série. E a Itália aprovou há alguns anos uma lei contra o feminicídio. Isso é muito sintomático. Na minha infância, na Itália, falava-se sobre um caso desses durante meses, tão extraordinário ele era. Hoje, há no país assassinatos de mulheres quase que diariamente.

Quais são as razões para esse aumento da violência?

O feminicídio está sempre relacionado com o desenvolvimento geral de uma sociedade. A ideia que se esconde por trás dele é intimidar e aterrorizar as mulheres. As razões específicas variam. Na América Latina, por exemplo, ele atinge frequentemente mulheres que vivem em regiões onde há megaprojetos acontecendo ou sendo planejados — projetos que servem à exploração desrespeitosa de matéria-prima. Nos protestos das populações locais, as mulheres estão muitas vezes na linha de frente. Ao matá-las, demonstra-se à comunidade que resistir é inútil.

Livro aponta opressão da mulher como sustentáculo do capitalismo

A feminista e historiadora italiana Silvia Federici estará no Brasil para as atividades de lançamento do livro Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, traduzido colaborativamente pelo Coletivo Sycorax e publicado pela Editora Elefante com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. A autora, que atualmente leciona na Universidade de Hofstra, em Nova York, participará de bate-papos e palestras no centro e nas periferias de São Paulo e Rio de Janeiro entre os dias 16 e 23 de julho, com entrada franca.

garanta seu exemplar!

Silvia é uma das mais importantes teóricas do feminismo na atualidade, e em sua extensa pesquisa analisa, entre outros aspectos, o trabalho assalariado a partir de uma perspectiva de gênero. Nascida em Parma, na Itália, em 1942, vive nos Estados Unidos desde os anos 1960, onde participou ativamente do movimento contra a guerra e ajudou a fundar o Coletivo Feminista Internacional, que impulsionou a Campanha por um Salário para o Trabalho Doméstico. Nos anos 1980, Silvia passou uma temporada na Nigéria, onde lecionou na universidade de Port Harcourt, acompanhou o movimento de mulheres nigeriano e, ao ver de perto os resultados do ajuste estrutural patrocinado pelo Banco Mundial e pelo FMI sobre os estilos de vida comunitários do país, percebeu a atualidade das teses que expõe em Calibã e a bruxa.

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O livro discorre sobre a violência brutal empreendida contra as mulheres durante a transição do feudalismo para o capitalismo na Europa, e sustenta que a “caça às bruxas” relacionou-se diretamente com criação de um novo sistema econômico, forjado na escravidão, na colonização e na exploração e dominação do corpo e dos saberes femininos. O título da obra faz referência a duas personagens shakespearianas — Calibã e sua mãe, Sycorax, uma bruxa — para simbolizar a dimensão sexista e racista que o capital impõe a quem resiste à sua ordem.

Baseada em uma exaustiva pesquisa documental e iconográfica, e em farta bibliografia, Silvia Federici argumenta que o assassinato de centenas de milhares de bruxas foi, juntamente com a submissão dos povos africanos e americanos, um aspecto fundacional do sistema capitalista, uma vez que designou às mulheres o papel de “produtoras de mão de obra”, obrigando-as, pelo terror, a exercer gratuitamente os serviços domésticos necessários para sustentar os maridos e os filhos homens que seriam usados como força de trabalho do sistema nascente.

Nesse sentido, Calibã e a bruxa apresenta um contraponto ao pensamento de Karl Marx sobre a acumulação, afirmando que, em vez de se tratar de um aspecto precursor do capitalismo, a acumulação seria inerente a ele. O livro dialoga ainda com de Michel Foucault, a quem critica duramente por não haver levado em conta em sua História da sexualidade a campanha contra o corpo feminino e o extermínio de centenas de milhares de mulheres na fogueira.

Além de reconhecida produção teórica, Silvia Federici segue vinculada com as lutas feministas contemporâneas e com os desafios impostos pelo capitalismo, que, como podemos atestar diariamente na violência de gênero e nos crescentes índices de encarceramento feminino, por exemplo, continua oprimindo e matando as mulheres, sobretudo na África e na América Latina. A construção de um novo paradigma de sociedade, com base nos “bens comuns” (commons), também integra os temas discutidos por Silvia.

“É preciso criar um tecido social mais forte, capaz de resistir ao que está acontecendo, e também começar a construir novas relações. Começar a implementar novas formas de autogovernar-nos, ter o controle de nossa vida, não apenas nos opormos, mas sim definirmos que tipo de sociedade queremos, como iremos construí-la, o que precisamos de imediato e quais são os objetivos de futuro”, disse Silvia Federici em recente entrevista.

Nesta que será sua segunda visita no Brasil, Silvia Federici irá discutir os principais pontos de seu livro e o protagonismo das mulheres nas lutas sociais, e terá a oportunidade de conhecer e dialogar com as experiências e ações de coletivos e movimentos de mulheres que estão na linha de frente em alguns dos territórios periféricos de São Paulo e Rio de Janeiro.
Confira abaixo a agenda:

RIO DE JANEIRO

Dia 16 de julho – a partir das 11h
Pré-lançamento do livro Calibã e a bruxa e Urgências!
Sede da Cia de Mystérios e Novidades – Rua Pedro Ernesto, 21 – Gamboa

Dia 18 de julho – a partir das 15h
Roda de Conversa e Sarau
Museu da Maré – Av. Guilherme Maxwel, 26 – Maré
SÃO PAULO

Dia 20 de julho – a partir das 18h
Lançamento do libro Calibã e a bruxa
Galeria Olido – Avenida São João, 473 – Centro

Dia 22 de julho – a partir das 14h
Roda de conversa e sarau
Teatro Ventre de Lona – Centro Cultural Arte em Construção
Avenida dos Metalúrgicos, 2.100 – Cidade Tiradentes

Iniciativa
Fundação Rosa Luxemburgo, Goethe Institut, Coletivo Sycorax e Editora Elefante

Parceria RJ
Museu da Maré, CEASM, Instituto PACS

Parceria SP
Pombas Urbanas e Biblioteca Solano Trindade