Federici: sobre o feminismo e os comuns

Por Silvia Federici
Tradução Inês Castilho
Outras Palavras

 

A reprodução precede a produção social.
Toque as mulheres, toque a rocha [1]
(Peter Linebaugh)

 

Pelo menos desde que os Zapatistas tomaram a praça central de San Cristobal de las Casas, em 31 de dezembro de 1993, para protestar contra a legislação que dissolvia as terras comunais [ejidos] no México, o conceito de “Comuns” vem ganhando popularidade.[2] Há razões importantes pelas quais essa ideia aparentemente arcaica veio para o centro da discussão política nos movimentos sociais contemporâneos.

Destacam-se em particular duas delas. De um lado está o declínio do modelo estatal de revolução que durante décadas consumiu os esforços dos movimentos radicais para construir uma alternativa ao capitalismo. De outro, a defesa contra “antigos e novos cercamentos” tornou visível o mundo das propriedades e relações comunais que muitos acreditavam estar extintas ou não eram valorizadas até ser ameaçadas de privatização.[3] Ironicamente, esses cercamentos demonstraram que não só as terras comunais não desapareceram, como também novas formas de cooperação social estão sendo constantemente produzidas, inclusive em esferas da vida em que antes não existia nada, como por exemplo a Internet. A ideia cumpre a função ideológica de um conceito unificador que configura a sociedade cooperativa que muitos estão se esforçando para criar. Contudo, permanecem na interpretação desse conceito ambiguidades e diferenças significativas que precisamos esclarecer, se quisermos que o princípio dos Comuns se traduza num projeto político coerente.[4]

O que, por exemplo, constitui um Comum? Temos bens comuns de terra, água, ar, bens comuns digitais; nossos direitos adquiridos, como por exemplo as pensões sociais e da seguridade, são frequentemente descritos como Comuns, assim como as línguas, as bibliotecas e os produtos coletivos das culturas passadas. Serão porém todos esses Comuns equivalentes, do ponto de vista do potencial político? Serão compatíveis? E como podemos ter certeza de que eles não projetam uma unidade ainda a ser construída? Finalmente, deveríamos falar de “Comuns”, no plural, ou de “o Comum”, como propõem que façamos os marxistas autonomistas , sendo que em sua visão esse conceito designa as relações sociais características da forma dominante de produção na era pós-fordista?

Com essas questões em mente, olho neste ensaio para a política dos Comuns a partir de uma perspectiva feminista, sendo que “feminista” refere-se a um ponto de vista moldado pela luta contra a discriminação sexual e sobre o trabalho reprodutivo – o qual, parafraseando o comentário acima, de Linebaugh, é a rocha sobre a qual a sociedade é construída e pelo qual todo modelo de organização social deve ser testado. Essa intervenção é necessária, a meu ver, para definir melhor essa política e esclarecer as condições sob as quais o princípio do Comum/Comuns pode tornar-se o fundamento de um programa anticapitalista. Uma tarefa tornada especialmente importante por duas preocupações.

A primeira é que desde pelo menos o início dos anos 1990 a linguagem dos Comuns foi apropriada pelo Banco Mundial, por exemplo, e colocada a serviço da privatização. A pretexto de proteger a biodiversidade e conservar os bens comuns globais, o Banco transformou florestas tropicais em reservas ecológicas, expulsou as populações que delas tiravam seu sustento havia séculos, ao mesmo tempo assegurando o acesso àqueles que podem pagar, pelo ecoturismo por exemplo.[5] O Banco Mundial não está sozinho nessa adaptação da ideia dos Comuns aos interesses do mercado. Respondendo a diferentes motivações, a revalorização dos Comuns tornou-se tendência entre economistas mainstream e planejadores capitalistas; veja a crescente literatura acadêmica sobre o tema e seus cognatos: capital social, economias da dádiva, altruísmo.

A ampliação do formato de mercadoria a todas as esquinas da usina social promovida pelo neoliberalismo é o limite ideal para os ideólogos capitalistas, mas é um projeto não somente irrealizável como também indesejável, do ponto de vista da reprodução a longo prazo do sistema capitalista. A acumulação capitalista é estruturalmente dependente da livre apropriação de enormes quantidades de trabalho e de recursos, que devem aparecer para o mercado como externalidades – tais como o trabalho doméstico não remunerado que as mulheres prestaram, e no qual os empregadores se basearam para a reprodução da força de trabalho. Não é por acaso, portanto, que muito antes do colapso de Wall Street, vários economistas e teóricos sociais alertaram ser prejudicial ao bom funcionamento do mercado a mercantilização de todas as esferas da vida, uma vez que – continua o argumento – também os mercados dependem da existência de relações não monetárias tais como a confiança, a credibilidade e a generosidade.[6] Ou seja, o capital está aprendendo com as virtudes do bem comum.

Temos de ser muito cuidadosos, portanto, para não embarcar no discurso dos Comuns de modo a permitir que uma classe capitalista em crise reviva, posando de guardiã ambiental do planeta.

Uma segunda preocupação é a questão não respondida de como os Comuns podem tornar-se o fundamento de uma economia não capitalista. Do trabalho de Peter Linebaugh, especialmente The Magna Carta Manifesto (2008), aprendemos que os Comuns foram o fio que ligou a história da luta de classes até nossos tempos, e de fato a luta pelos Comuns está por todo lado.

Os pescadores do Maine [USA] estão lutando para preservar o acesso às suas pescarias, sob ataque de frotas corporativas; moradores de Appalachia [Virginia, USA] estão se organizando para salvar suas montanhas, ameaçadas pela exploração mineira; movimentos software livre e open source estão se opondo à mercantilização do conhecimento e abrindo novos espaços para a comunicação e a cooperação. Temos também as muitas atividades invisíveis comunitárias que as pessoas estão criando na América do Norte, descritas por Chris Carlsson em seu Nowtopia (2007). Como mostra Carlsson, muita criatividade é investida na produção de “Comuns virtuais” e formas de sociabilidade que prosperam por baixo do radar da economia monetária/ de mercado.

A mais importante foi a criação de hortas urbanas, que se espalharam por todo o país graças principalmente à iniciativa de comunidades imigrantes da África, Caribe ou Sul dos Estados Unidos. Sua importância não pode ser superestimada. As hortas urbanas abriram caminho para um processo de “rurbanização” que é indispensável, se desejamos retomar controle sobre nossa produção de alimentos, regenerar nosso ambiente e prover nossa subsistência. As hortas são muito mais que uma fonte de segurança alimentar. São centros de sociabilidade, produção de conhecimento e troca cultural e intergeracional.[7] [….]

A característica mais importante das hortas urbanas é que elas produzem para o consumo da vizinhança, e não com propósito comercial. Isso as distingue de outros Comuns reprodutivos, que ou produzem para o mercado, como as peixarias da “Costa da Lagosta” do Maine [8], ou são comprados no mercado, como os fundos imobiliários que preservam espaços abertos. O problema, contudo, é que as hortas urbanas mantiveram-se como iniciativas populares espontâneas e tem havido poucas tentativas dos movimentos, nos EUA, para expandir sua presença e fazer do acesso à terra um terreno chave de luta…

 

AS MULHERES E OS COMUNS

De maneira mais geral, a esquerda não colocou a questão de como reunir os muitos bens comuns que estão sendo defendidos, desenvolvidos e são objeto de luta, para que possam formar um todo coeso e fornecer a base para um novo modo de produção. É nesse contexto que uma perspectiva feminista dos Comuns é importante, porque ela começa com a consciência de que, como sujeitos principais do trabalho reprodutivo, historicamente e em nosso tempo, mais do que os homens as mulheres dependeram do acesso a recursos naturais comunitários, foram mais penalizadas por sua privatização e estiveram mais comprometidas com sua defesa.

Como escrevi em Calibã e a Bruxa (Elefante, 2017),  na primeira fase do desenvolvimento capitalista as mulheres estavam na vanguarda da luta contra o cercamento da terra, tanto na Inglaterra como no “Novo Mundo”, e eram defensoras ferrenhas das culturas comunais que a colonização europeia tentava destruir. No Peru, quando os conquistadores espanhóis assumiram o controle de suas cidades, as mulheres refugiaram-se no alto das montanhas e ali recriaram formas de vida coletiva que sobrevivem até os dias de hoje. Não surpreende que os séculos 16 e 17 tenham assistido ao mais violento ataque às mulheres da história mundial: a perseguição de mulheres como bruxas. Hoje, diante de um novo processo de Acumulação Primitiva, as mulheres são a principal força social que se interpõe no caminho da completa comercialização da natureza, apoiando o uso não capitalista da terra e uma agricultura voltada à subsistência.

São mulheres as agricultoras de subsistência do mundo. Na África, elas produzem 80% da comida consumida pelo povo, a despeito das tentativas feitas pelo Banco Mundial e outras agências para convencê-las a diversificar suas atividades com culturas comerciais. Na década de 1990, em face do aumento dos preços dos alimentos, em muitos municípios africanos elas se apropriaram de terrenos públicos e plantaram milho, feijão, mandioca ao longo das estradas, em parques, ao longo de estradas de ferro, transformando a paisagem urbana de cidades africanas e rompendo no processo com a separação entre o rural e o urbano.[9] Na Índia, nas Filipinas e por toda a América Latina as mulheres plantaram árvores em florestas degradadas, deram-se as mãos para expulsar madeireiros, fizeram bloqueios contra operações de mineração e construção de barragens, e lideraram a revolta contra a privatização da água.[10]

O outro lado da luta das mulheres para ter acesso direto aos meios de reprodução tem sido a formação, em todo o Terceiro Mundo, do Camboja ao Senegal, de associações de crédito que funcionam como Comuns financeiros (Podlashuc 2009). Nomeados de diferentes maneiras, os tontines (como são chamados em partes da África) são sistemas bancários autônomos e autogeridos, criados por mulheres que oferecem dinheiro a indivíduos ou grupos que não têm acesso a bancos, trabalhando puramente na base da confiança. Nisso, eles são completamente diferentes dos sistemas de microcrédito promovidos pelo Banco Mundial, que funcionam em base de policiamento mútuo e vergonha, chegando ao extremo na Nigéria, por exemplo, de postar em locais públicos fotos das mulheres que não conseguem pagar os empréstimos, de tal forma que algumas foram levadas ao suicídio.[11]

As mulheres também lideraram o esforço para coletivizar o trabalho reprodutivo, tanto como meio de economizar o custo de reprodução como para proteger umas às outras da pobreza, violência do Estado e violência de homens individuais. Um exemplo notável é o das comunidades de panelas (as panelas comuns) que as mulheres criaram no Chile e Peru, nos anos 1980, quando, devido à forte inflação, não conseguiam mais fazer as compras sozinhas (Fisher 1993; Andreas 1985). Como a recuperação de terras, ou a formação de tontines, essas práticas são a expressão de um mundo onde os laços comunitários ainda são fortes. Mas seria um erro considerá-las algo pré-político, “natural” ou simples produto da “tradição”. Após repetidas fases da colonização, a natureza e os costumes não mais existem, em nenhuma parte do mundo, exceto onde as pessoas lutaram para preservá-los e reinventá-los. Como observou Leo Podlashuc, o senso de comunidade das mulheres das classes populares leva hoje à produção de uma nova realidade, forma uma identidade coletiva, constitui um contrapoder em casa e na comunidade, e abre um processo de autovalorização e autodeterminação com o qual há muito a aprender.

A primeira lição dessas lutas é que a “comunização” dos meios materiais de reprodução é o mecanismo principal pelo qual são criados interesse coletivo e laços mútuos. É também a frente da resistência a uma vida de escravidão, e condição para a construção de espaços autônomos que minam por dentro as garras do capitalismo sobre as nossas vidas. Sem dúvida as experiências que descrevi são modelos que não podem ser transplantados. Para nós, na América do Norte, a recuperação e comunização dos meios de reprodução devem, necessariamente, assumir formas diferentes. Mas também aqui, pela partilha de nossos recursos e a reapropriação da riqueza que produzimos, podemos começar a desconectar nossa reprodução do fluxo de mercadorias que, por meio do mercado global, é responsável pela expropriação de milhões em todo o mundo. Podemos começar a libertar nosso modo de vida, não somente do mercado global como também da máquina de guerra e do sistema carcerário de que depende, agora, a economia dos EUA. Não por último, podemos avançar além da solidariedade abstrata que tantas vezes caracteriza as relações no movimento, e que limita nosso compromisso, nossa capacidade de resiliência e os riscos que estamos dispostos a assumir.

Num país em que a propriedade privada é defendida pelo maior arsenal de armamentos do mundo, e onde três séculos de escravidão produziram profundas divisões no corpo social, a recriação do Comum/dos Comuns aparece como uma tarefa formidável, que só poderia ser alcançada por um processo de experimentação a longo prazo, construindo coalizões e reparações. Mas, embora esse trabalho pareça agora mais difícil do que passar através do olho de uma agulha, ele é também a única possibilidade que temos de ampliar o espaço de nossa autonomia e nos recusar a aceitar que nossa reprodução ocorra às expensas de outros cidadãos e bens comuns do mundo.

 

RECONSTRUÇÕES FEMINISTAS

O que essa tarefa envolve é expresso de forma poderosa por Maria Mies quando ela aponta que a produção dos Comuns requer, primeiro, uma profunda transformação em nossa vida cotidiana, de modo a recombinar aquilo que foi separado, no capitalismo, pela divisão social de trabalho. Pois o distanciamento entre a produção e a reprodução e consumo leva-nos a ignorar as condições sob as quais aquilo que comemos, vestimos ou fazemos nosso trabalho foi produzido; seu custo social e ambiental; e o destino da população sobre a qual despejamos o lixo que produzimos (Mies 1999). Em outras palavras, precisamos superar o estado de irresponsabilidade quanto às consequências de nossas ações, que resulta do modo destrutivo pelo qual a divisão social do trabalho é organizada no capitalismo; com ela, a produção de nossas vidas torna-se, inevitavelmente, uma produção de morte para outros. Como observa Mies, a globalização piorou essa crise, ao aumentar as distâncias entre o que é produzido e o que é consumido, e em consequência intensificar – a despeito da aparência de uma crescente interconectividade global – nossa cegueira ao sangue presente na comida que comemos, no petróleo que usamos, nas roupas que usamos e nos computadores com que nos comunicamos.

É superando esse estado de esquecimento que devemos começar a reconstrução dos Comuns, ensina a perspectiva feminista. Nenhum Comum é possível sem nos recusarmos a basear no sofrimento de outros nossas vidas e nossa reprodução, sem nos recusarmos a nos ver separadas deles. De fato, se comunizar tem algum significado, ele deve ser a produção de nós mesmos como sujeitos comuns. É como devemos entender o slogan “não há Comuns sem comunidade”. Mas “comunidade” entendida não como uma realidade, um agrupamento de pessoas unidas por interesses exclusivos que as separam de outras, como as comunidades formadas com base na religião ou na etnia; mas sim como uma qualidade de relacionamentos, um princípio de cooperação e responsabilidade de uns para com outros e com a terra, as florestas, os mares, os animais.

Certamente a conquista de tal comunidade, assim como a coletivização de nosso trabalho cotidiano de reprodução, só podem significar um começo. Elas não substituem campanhas mais amplas antiprivatização e a recuperação de nossos bens comuns. Mas são parte essencial de nossa educação para um governo coletivo e nosso reconhecimento da história como um projeto coletivo, o qual talvez seja a principal vítima da era neoliberal do capitalismo.

Nesse sentido, devemos também incluir em nossa agenda política a comunalização do trabalho doméstico, revivendo aquela rica tradição feminista que, nos EUA, estende-se desde os experimentos socialistas utópicos de meados do século XIX até as tentativas que as “feministas materialistas” fizeram, do século XIX até o início do século XX, para reorganizar e socializar o trabalho doméstico, e desse modo a casa e a vizinhança, por meio da gestão doméstica coletiva – tentativas que continuaram até a década de 1920, quando o Red Scare acabou com elas (Hayden, 1981 e 1986). Essas práticas e, mais importante, a capacidade das feministas do passado de olhar para o trabalho reprodutivo como uma esfera importante da atividade humana — não para ser negada, mas para ser revolucionada — devem ser revisitadas e revalorizadas.

Uma razão crucial para criar formas coletivas de vida é que a reprodução de seres humanos é o trabalho mais intensivo em mão-de-obra do planeta e, em grande parte, irredutível à mecanização. Não podemos mecanizar as creches, os cuidados com os doentes ou o trabalho psicológico necessário para reintegrar nosso equilíbrio físico e emocional. A despeito dos esforços que os industriais futuristas estão fazendo, não podemos robotizar os cuidados, a não ser com um custo terrível para as pessoas envolvidas. Ninguém aceitará enfermeiros-robôs como cuidadores, especialmente para as crianças e os doentes. A responsabilidade compartilhada e o trabalho cooperativo, prestados não às custas da saúde dos provedores, são a única garantia de um atendimento adequado. Durante séculos, a reprodução de seres humanos tem sido um processo coletivo. Tem sido o trabalho de famílias extensivas e comunidades nas quais as pessoas podiam confiar, especialmente em bairros proletários, mesmo quando viviam sozinhas, de modo que a velhice não era acompanhada da solidão desoladora e da dependência vivida por tantos de nossos idosos. É somente com o advento do capitalismo que a reprodução foi completamente privatizada, um processo que agora é levado a um grau que destrói nossas vidas. Essa tendência deve ser revertida e o tempo presente é propício para tal projeto.

Como a crise capitalista destrói os elementos básicos da reprodução para milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos, a reconstrução de nossa vida cotidiana é não só uma possibilidade como uma necessidade. Como as greves, as crises sociais/econômicas quebram a disciplina do trabalho assalariado, obrigando-nos a novas formas de sociabilidade. Foi o que ocorreu na Grande Depressão, quando se produziu um movimento de andarilhos que transformou os trens de carga em seus bens comuns, e buscou liberdade na mobilidade e no nomadismo (Caffentzis 2006). Nos cruzamentos das linhas férreas, eles organizavam campos de sem-tetos, pré-figurações, com as regras de autogovernança e solidariedade, do mundo comunista em que muitos dos andarilhos acreditavam (Anderson 1998, Depastino 2003 e Caffentzis 2006).

No entanto, para alguns como Bertha “Boxcar” Thompson [12], este era predominantemente um mundo masculino, uma fraternidade de homens, insustentável a longo prazo. Assim que a crise econômica e a guerra chegaram ao fim, os andarilhos foram domesticados pelos dois grandes motores de fixação da força de trabalho: a família e a casa. Consciente da ameaça de recomposição da classe trabalhadora durante a Depressão, o capital americano destacou-se na aplicação do princípio que caracterizou a organização da vida econômica: cooperação no local de produção, separação e atomização no local de reprodução. A moradia familiar atomizada, serializada, fornecida por Levittown e acrescida de seu apêndice umbilical, o carro, não apenas sedimentou o trabalhador como pôs fim aos tipos de bem comum de trabalhadores autônomos que os campos de andarilhos haviam representado (Hayden, 1986). Hoje, quando milhões de casas e carros de norte-americanos estão sendo tomados, quando execuções hipotecárias, despejos e a perda maciça de empregos estão novamente derrubando os pilares da disciplina capitalista do trabalho, novas bases comuns estão tomando forma, como as cidades de tendas que se alastram de costa a costa. Desta vez, contudo, são as mulheres que devem construir os novos bens comuns, para que não permaneçam espaços transitórios mas tornem-se a base de novas formas de reprodução social.

Na casa está o oikos sobre o qual a economia é construída, de modo que são as mulheres, trabalhadoras domésticas e prisioneiras da casa, historicamente, que têm de tomar a iniciativa para recuperar a casa como centro de uma vida coletiva, atravessada por múltiplas pessoas e formas de cooperação, proporcionando segurança sem isolamento e fixação, permitindo compartilhamento e circulação de bens da comunidade e, acima de tudo, fornecendo a base para formas coletivas de reprodução. Como sugerido, podemos nos inspirar nos programas das feministas materialistas do século XIX, que acreditavam ser o lar um importante “componente espacial da opressão das mulheres” e organizavam cozinhas comunitárias, lares cooperativos que convocavam ao ‘controle da reprodução’ pelos trabalhadores (Hayden 1981).

Esses objetivos são cruciais no presente. Romper o isolamento da vida no lar não é só precondição para dar conta de nossas necessidades mais básicas e aumentar nosso poder em relação aos empregadores e ao estado. Como nos lembrou Massimo De Angelis, é também uma proteção contra o desastre ecológico. Pois não pode haver dúvidas sobre as consequências destrutivas da multiplicação “não-econômica” de bens reprodutivos e habitações fechadas que hoje chamamos de nossas casas, dissipando o calor na atmosfera durante o inverno, expondo-nos ao calor absoluto no verão (De Angelis 2007). E mais importante, não podemos construir uma sociedade alternativa e um forte movimento que se auto-reproduza se não redefinirmos nossa reprodução de maneira mais cooperativa, colocando um ponto final na separação entre o pessoal e o político, e entre o ativismo político e a reprodução da vida cotidiana.

Resta esclarecer se, ao atribuir às mulheres essa tarefa de reprodução comum/coletivizada, não se está cedendo a uma concepção naturalista de feminilidade. Compreensivelmente, muitas feministas veem essa possibilidade como um destino pior que a morte. Está profundamente esculpido em nossa consciência coletiva que as mulheres foram designadas como bens comuns dos homens, uma fonte natural de riqueza e serviços a ser apropriados por eles tão livremente quanto os capitalistas se apropriaram das riquezas da natureza. Mas, parafraseando Dolores Hayden, a reorganização do trabalho reprodutivo e, portanto, a reorganização da habitação e do espaço público, não é uma questão de identidade; é uma questão de trabalho e, podemos acrescentar, uma questão de poder e segurança (Hayden 1986).

Lembro aqui a experiência das mulheres do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), do Brasil, que após suas comunidades conquistarem o direito ao assentamento nas terras que ocuparam, insistiram que as casas fossem construídas constituindo um único complexo, de modo a poderem continuar fazendo comunitariamente as tarefas domésticas – lavando juntas, cozinhando juntas, como haviam feito no decorrer da luta – e juntas estar prontas a dar apoio umas às outras quando abusadas pelos homens. Argumentar que as mulheres devem assumir a liderança na coletivização do trabalho reprodutivo e da habitação não é naturalizar o trabalho doméstico como vocação feminina. É recusar-se a olvidar as experiências coletivas, o conhecimento e as lutas que as mulheres acumularam com relação ao trabalho reprodutivo, cuja história tem sido parte essencial de nossa resistência ao capitalismo. Reconectar-se com essa história é um passo crucial para as mulheres e os homens de hoje, tanto para desfazer a arquitetura de gênero de nossas vidas quanto para reconstruir nossas casas e vidas como bens comuns.

 

REFERÊNCIAS

• Andreas, Carol. 1985. When Women Rebel: The Rise of Popular Feminism in Peru. Westport, CT. Lawrence Hill & Company.
• Anderson, Nels. 1998. On Hobos and Homelessness. Chicago, IL. University of Chicago Press.
• Carlsson, Chris. 2008. Nowtopia. Oakland, CA. AK Press.
• Caffentzis, George. 2004. “Globalization, The Crisis of Neoliberalism and the Question of the Commons.” Paper presented to the First Conference of the Global Justice Center. San Migel d’Allende, Mexico, July 2004.
• —————. “Three Temporal Dimensions of Class Struggle.” Paper presented at ISA Annual meeting held in San Diego, CA (March 2006).
• De Angelis, Massimo. 2007. The Beginning of History: Value Struggles and Global Capital. London, UK. Pluto Press.
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• DePastino, Todd. 2003. Citizen Hobo. Chicago, IL. University of Chicago Press.
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NOTAS

[1] Linebaugh, Peter. 2008. The Magna Carta Manifesto: Liberty and Commons for All. Berkeley, CA. University of California Press.
[2] Uma fonte chave sobre a política dos comuns e seus fundamentos teóricos é o jornal eletrônico baseado no Reio Unido The Commoner,que entra no seu 14º ano de publicação. Veja também o ensaio de Gustavo Esteva neste livro.
[3] Um caso em questão é a luta que está ocorrendo em muitas comunidades no Maine contra a apropriação de Nestlé das águas do Maine para engarrafar a Primavera da Polônia. O roubo da Nestlé tornou as pessoas conscientes da importância vital destas águas e dos aquíferos de apoio e reconstituiu-as verdadeiramente como uma informação comum (Food and Water Watch Fact Sheet, Julho de 2009). A Food and Water Watch é uma organização sem fins lucrativos que se auto-descreve e trabalha para garantir água limpa e alimentos seguros nos Estados Unidos e no mundo todo.
[4] Um excelente site para os atuais debates sobre os bens comuns é a recém-publicada edição da revista Turbulence, do Reino Unido, “Idéias para o Movimento” (ver edição de 5 de dezembro de 2009), disponível em http://turbulence.org.uk
[5] Para mais informações sobre este assunto, consulte o importante artigo “Quem paga pelo Protocolo de Kyoto?”, por Ana Isla, na qual a autora descreve como a conservação da biodiversidade forneceu ao Banco Mundial e outras agências internacionais o pretexto para deixar no solo florestas tropicais, que representam “sumidouros de carbono” e “geradores de oxigênio”. Em Salleh. 2009
[6] Bollier, David. 2002. Silent Theft: The Private Plunder of Our Common Wealth. New York and London: Routledge. 36–39.
[7] Um trabalho importante sobre hortas urbanas é o livro de Bill Weinberg e Peter Lamborn Wilson, eds. 1999. Avant Gardening: Ecological Struggle in the City & the World. Brooklyn, NY: Autonomedia. Veja também o ensaio de Christa Müller nesse livro.
[8] A pesca comum no Maine está ameaçada atualmente com uma nova politica de privatização justificada em nome da preservação e ironicamente chamada de catch shares. Esse sistema já é usado no Canadá e no Alasca, onde governos locais definem limites de quantidade de peixes que podem ser pescados determinando cotas individuais na base da quantidade de peixes que os barcos pescavam no passado. Esse sistema mostrou-se desastroso para pequenos pescadores independentes, que logo foram forçados a vender sua cota para os grandes concorrentes. Os protestos contra sua implementação estão aumentando nas comunidades de pescadores do Maine. Veja “Cash Shares or Share-Croppers?” Fishermen’s Voice, Vol. 14, No.12, Dezembro de 2009.
[9] Donald B. Freeman, “Survival Strategy or Business Training Ground? The Significance of Urban Agriculture For the Advancement of Women in African Cities.” African Studies Review, 36(3) (December 1993): 1-22. Also, Federici 2008.
[10] Shiva 1989, 1991:102–117, 274.
[11] Devo essa informação a Ousseina Alidou, diretor do Center for African Studies da Rutgers University (NJ).
[12] Boxcar Bertha (1972) é a adaptação feita por Martin Scorsese de Ben Reitman’s Sister of the Road, “a autobiografia ficcionalizada da radical e efêmera Bertha Thompson.” (Wikipedia) See Reitman, Ben. 2002. Dr. Sister of the Road: The Autobiography of Boxcar Bertha. Oakland, CA. AK Press.

 

Esse capítulo é uma adaptação de um ensaio originalmente publicado em The Commoner em 4 de janeiro de 2011, disponível aqui

Calibã e a bruxa
pela descriminalização do aborto

Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva
Silvia Federici
De R$ 60 por R$ 50 (frete grátis)

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O livro Calibã e a bruxa está ajudando a embasar o debate sobre a descriminalização do aborto no Brasil. O tema passa por consulta pública no Supremo Tribunal Federal desde sexta-feira, 3 de agosto, em processo denominado Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 442-DF. A mobilização de organizações feministas, jurídicas e de direitos humanos cresce, com vigílias na Praça dos Três Poderes e intensa movimentação nas redes.

A obra de Silvia Federici está fechando fileiras ao lado de uma série de outros argumentos poderosos pela descriminalização do aborto, e chegou até a mais corte do país. A Associação Juízes para a Democracia (AJD), que participa da ação como amicus curiae, ou seja, uma das muitas entidades favoráveis e contrárias que “ajudarão” o STF a tomar uma decisão sobre a matéria, incluiu informações trazidas por Calibã e a bruxa em nota técnica publicada na semana passada.

“É bem de ver que as mulheres se encontram em condição de subalternalizadas desde o cercamento de terras (Federici, 2017) e, para sua emancipação, precisam superar o patriarcado que, partindo de uma avaliação histórica, é uma forma de organização social e familiar centrada na supremacia masculina, tomando como base o modelo da família patriarcal, entendida como aquela em que a autoridade do pai e marido é total.”

A partir dessas conclusões, a AJD defende que “carece de legitimidade social a norma jurídica proibitiva que, ao criminalizar o aborto, viola os direitos fundamentais das mulheres à autodeterminação, à decisão sobre seu planejamento familiar, à sua escolha de projeto individual de vida, à informação, à saúde e até à vida, o que é ainda mais profundo em se tratando das mulheres oriundas das classes menos favorecidas economicamente. Ao criminalizar o aborto, o ordenamento jurídico a um só tempo rompe com a igualdade entre homens e mulheres e aprofunda o abismo social entre as mulheres integrantes das classes dominantes e aquelas descapitalizadas.”

A cartunistas Helô D’Angelo também bebeu nas palavras de Silvia Federici para produzir uma pequena história em quadrinhos em favor da descriminalização. “A proibição do aborto não tem a ver com a preservação da vida. Tem a ver com a necessidade capitalista de ter sempre mais e mais trabalhadores à disposição do sistema”, contextualizou, em sua página no Instagram. “Fiz um breve resumo de um livro incrível, Calibã e a bruxa, que mostra como a caça às bruxas foi essencial para o surgimento do capitalismo: antes desse extermínio em massa, as mulheres tinham certo domínio sobre seus corpos e inclusive praticavam aborto sem punição nem julgamentos do Estado e da Igreja.”

Estamos tremendamente felizes e orgulhosos com o alcance e a importância que o livro vem tendo no país, e com a influência que vem causando sobre o pensamento e a atitude das mulheres brasileiras. Apenas podemos agradecer mais uma vez ao Coletivo Sycorax e à Fundação Rosa Luxemburgo pela parceria que firmamos para a publicação de Calibã e a bruxa. E dizer a vocês que muito em breve teremos o próximo livro de Silvia Federici em português. Aguardem…

Silvia Federici se inspira na resistência das mulheres africanas e latino-americanas

Por George Souvlis & Ankica Čakardić
Tradução de Oleg Savitskii & Anna Savitskaia
Em Lavra Palavra

 

Em entrevista concedida em outubro de 2016, a historiadora feminista italiana Silvia Federici, autora de Calibã e a bruxa, fala sobre sua formação política na Itália do pós-guerra e na efervescência dos Estados Unidos nos anos 1960 — sem esquecer de suas passagens pela Nigéria e pela América Latina, onde pôde observar na prática a resistência dos povos contra o avanço do capitalismo sobre a vida comunitária e os recursos naturais.

“A despeito das dificuldades que as pessoas, e as mulheres em particular, enfrentam por causa das políticas extrativistas, da violência sempre presente, praticada por exércitos, paramilitares, narcotraficantes e pela ‘guerra às drogas’, as lutas que as pessoas travam para manter sua autonomia, recriar as formas autônomas e coletivas de reprodução e de autogoverno, nascidas muitas vezes de situações de expropriação total, representam não um modelo, mas uma inspiração que afeta de maneira positiva meu próprio pensamento e prática políticos”, diz Silvia Federici.

Na conversa, a feminista italiana criticou as interpretações marxistas que não consideram o papel que a reconstrução do trabalho reprodutivo desempenhou no desenvolvimento do capitalismo. “[Os marxistas] Perceberam corretamente a separação do campesinato da terra como condição essencial para a existência das relações capitalistas, mas ignoraram a separação entre produção e reprodução, a desvalorização do trabalho reprodutivo, seu confinamento a uma esfera aparentemente não econômica e a consequente desvalorização da posição das mulheres, as quais, com a transição para o capitalismo, estariam destinadas a se tornarem os sujeitos principais desse trabalho.”

Confira alguns trechos da entrevista:

Quais foram suas experiências formativas política e pessoalmente?

A primeira experiência mais formativa da minha vida foi a Segunda Guerra Mundial. Cresci no período do pós-guerra imediato quando as lembranças de uma guerra, que durara anos, somadas às dos anos do fascismo na Itália, ainda estavam vivas. Desde jovem, eu estava ciente de que nascera em um mundo profundamente dividido e facinoroso, que o Estado, longe de nos proteger, poderia ser inimigo, que a vida é extremamente precária, mas, como cantaria mais tarde Joan Baez em uma música, “aqui, a não ser pelo destino, estamos nós”. Era difícil crescer na Itália do pós-guerra e não se politizar. Mesmo ainda pequena, não pude deixar de ser antifascista ao ouvir todas as histórias que meus pais nos contavam.

Além disso, cresci em uma cidade comunista, onde, no Dia do Trabalho, os trabalhadores ostentavam cravos vermelhos nas lapelas e nós acordávamos ao som de “Bella Ciao”, e onde a luta entre comunistas e fascistas prosseguia, com os fascistas tentando periodicamente explodir o monumento aos guerrilheiros e os comunistas atacando em retaliação a sede do Movimento Social Italiano, que todos sabiam ser a continuação do então banido partido fascista. Ao completar 18 anos, me via como radical, visto que à época o modelo da luta era ainda o dos operários de fábrica ou a luta antifascista.

Minha vinda aos Estados Unidos também foi um grande momento decisivo e de formação política. Cheguei no verão de 1967. A universidade de Buffalo, onde eu deveria estudar pelos próximos três anos, era um campus muito ativo, situado na fronteira com o Canadá e o local de passagem para muitos ativistas antiguerra que tentavam escapar do recrutamento. Cheguei em meio a várias mobilizações em apoio ao grupo Buffalo 9, que havia sido preso ao tentar cruzar a fronteira ao lutar contra a armação do FBI contra Martin Sostre, ativista portorriquenho muito respeitado pela comunidade negra.

Logo me juntei aos protestos estudantis e antiguerra. Comecei a trabalhar com Telos e um jornal undergound chamado The Town Crier. Nos Estados Unidos, aprendi sobre o legado da escravidão, do racismo, do imperialismo. Também conheci a “nova esquerda” italiana, o Operaísmo, e os grupos extraparlamentares que se formaram como resultado do movimento de maio de 1968 na França e do Outono Quente na Itália. Eu estava particularmente inspirada pela leitura de Marx feita por Fronti, que afirmava que primeiro vinha a classe operária e depois o capital, querendo com isso dizer que o capital não se desenvolve a partir de sua lógica autônoma, mas em resposta à luta da classe operária, que é o motor primordial da mudança social. Aquilo foi uma grande lição para mim, me ensinou a procurar a luta sempre, as contradições sociais como chaves para compreender a realidade social.

Além disso, o Operaísmo fez uma crítica do materialismo histórico e das políticas dos partidos comunistas. Mas, evidentemente, foi importante conhecer o novo pensamento político italiano nos Estados Unidos, porque, ali, nunca poderia esquecer a história do colonialismo e da escravidão, a história dos não assalariados. Essa história – e, é claro, a minha experiência de ter crescido em uma Itália ainda patriarcal do pós-guerra – moldou a minha abordagem do feminismo que foi mais um momento verdadeiramente revolucionário da minha vida.

Não vou falar disso porque meu trabalho fala por si. Em vez disso, falarei sobre o que significou para mim, no início da década de 1980, ter podido passar um tempo lecionando na Nigéria, meu primeiro encontro com a África subsaariana. À época, eu já lera muito sobre o colonialismo, assim como sobre as políticas de desenvolvimento e subdesenvolvimento, mas a Nigéria foi mais um momento de transformação política subjetiva, não porque tenha mudado a minha visão das relações sociais, mas porque revelou toda uma realidade que era imensamente diferente daquela que tinha vivido com base no meu conhecimento adquirido através de livros. Na Nigéria, aprendi sobre relações comunais, sobre a importância contínua da terra, aprendi sobre a maldição que é o petróleo para os países em que é descoberto, e sobre a grande criatividade do povo africano. As aulas que eu conseguira ministrar ali chegaram ao fim com a escalada da “crise da dívida” e das repressões políticas.

Porém, ao voltar aos Estados Unidos, comecei a passar cada vez mais tempo no México, e mais recentemente em outros países da América Latina, também devido à publicação do livro Calibã e a bruxa no México, na Argentina e no Equador, e agora no Brasil. Menciono a América Latina porque, a despeito das dificuldades que as pessoas, e as mulheres em particular, enfrentam por causa das políticas extrativistas, da violência sempre presente, praticada por exércitos, paramilitares, narcotraficantes e pela “guerra às drogas”, as lutas que as pessoas travam para manter sua autonomia, recriar as formas autônomas e coletivas de reprodução e de autogoverno, nascidas muitas vezes de situações de expropriação total, representam não um modelo, mas uma inspiração que afeta de maneira positiva meu próprio pensamento e prática políticos.

Seu trabalho tem muitas semelhanças com o de Paddy Quick, Maria Mies e Wally Seccombe. Todos esses escritores sustentam que, para analisar a opressão às mulheres no capitalismo, vários pontos devem ser levados em consideração: divisão sexual do trabalho; reprodução social; o controle dos corpos das mulheres e do poder reprodutivo; e a influência dinâmica das formas de família. Nesse sentido, você situa explicitamente o seu trabalho dentro da herança teórica do debate sobre o trabalho doméstico, valendo-se do argumento de Dalla Costa e James de que a divisão sexual do trabalho e do trabalho não remunerado desempenha uma função central no processo da acumulação capitalista. Você poderia falar-nos um pouco mais sobre as diferenças entre seus trabalhos? E o que vê como distinção entre os sistemas capitalista e feudal?

Embora todos os autores aos quais vocês se referiram tenham assentado a posição das mulheres na sociedade capitalista no processo de reprodução, há diferenças significativas entre nós. Uma diferença (por exemplo, entre a minha análise de salários para o trabalho doméstico e a de Maria Mies) reside no fato de que nós sempre definimos o trabalho doméstico como uma construção capitalista e, especificamente, como trabalho cujo objetivo social é a reprodução da força laboral.

Salientei muitas vezes que, na realidade, o trabalho doméstico/reprodutivo possui dupla natureza: reproduz a nossa vida e, ao mesmo tempo, espera-se que reproduza a força de trabalho — e, por causa disso, sujeite-se a restrições específicas. Na obra de Mies, você nem sempre encontrará essa distinção. Em sua análise, existe uma continuidade entre trabalho doméstico e reprodução orientada para a subsistência nos assim chamados países “subdesenvolvidos”. Isso é parcialmente verdadeiro. Mas há uma diferença entre trabalho reprodutivo/doméstico em condições nas quais as mulheres têm acesso à terra ou a outras formas de reprodução, como, por exemplo, em muitas comunidades indígenas, e trabalho doméstico que não é remunerado e depende de um salário (principalmente o do homem). No entanto, concordo largamente com Mies e admiro a maneira como ela expandiu o conceito de reprodução para incluir o trabalho agrícola na maior parte do assim chamado terceiro mundo.

A distinção entre o sistema feudal e o sistema capitalista origina-se da expropriação radical a que os trabalhadores estão sujeitos no capitalismo, e de sua separação dos meios de reprodução. Este é o motor do desenvolvimento capitalista, assim como da exploração intensa do trabalho. Como salientei em Calibã e a bruxa, o capitalismo é o primeiro sistema de exploração que vê antes o trabalho do que a terra como a principal forma de riqueza. Por essa razão, desenvolveu toda uma nova política relativa ao disciplinamento do corpo, especialmente do corpo das mulheres, e à gestão da reprodução, começando com a procriação. O capitalismo deve controlar o trabalho de reprodução, visto que ele é um aspecto central do processo de acumulação, de modo que o trabalho reprodutivo funciona antes como a reprodução da força de trabalho, ou seja, nossa capacidade de trabalhar, do que como a reprodução de nossa luta.

Em Calibã e a bruxa você se refere ao artigo de Robert Brenner “As raízes agrárias do capitalismo europeu”. O que você acha do trabalho de Brenner e do trabalho de outros “marxistas políticos”?

Não me lembro agora de todos os argumentos de Brenner e da escola do Marxismo Político. Concordei com seu foco na transformação das relações agrárias na Europa como crucial para o desenvolvimento capitalista, embora a formação de um mercado agrário/fundiário também tenha sido possibilitada pelo fluxo abundante da prata para a Europa após a conquista de vastas regiões da América do Sul. Porém, a crítica que tenho a essa escola é a mesma que tenho à abordagem de Marx: seu desconhecimento do papel que a reconstrução do trabalho reprodutivo desempenhou na “decolagem” capitalista.

Perceberam corretamente a separação do campesinato da terra como condição essencial para a existência das relações capitalistas, mas ignoraram a separação entre produção e reprodução, a desvalorização do trabalho reprodutivo, seu confinamento a uma esfera aparentemente não econômica e a consequente desvalorização da posição das mulheres, as quais, com a transição para o capitalismo, estariam destinadas a se tornarem os sujeitos principais desse trabalho. Tal como Marx, Brenner e a escola do Marxismo Político ignoram a caça às bruxas dos séculos XVI e XVII em sua análise do impacto do desenvolvimento capitalista sobre as relações agrárias, o que eu acho ser um grande erro.

Você acha possível que o capitalismo pudesse existir sem a apropriação do trabalho doméstico não remunerado das mulheres?

Não acho que isso seja possível, porque o trabalho não remunerado das mulheres, que continua até os dias de hoje, é a condição para a desvalorização da força de trabalho. Sem esse trabalho, a classe capitalista teria de fazer um grande investimento em todas as infraestruturas necessárias para reproduzir a força de trabalho e a sua taxa de acumulação seria seriamente afetada. Há também o lado político da desvalorização e da conseqüente naturalização do trabalho reprodutivo. Ele tem sido a base material para uma hierarquia laboral que divide mulheres e homens, o que permite ao capital controlar a exploração do trabalho feminino de forma mais eficiente por meio do casamento e das relações matrimoniais, inclusive a ideologia do amor romântico, e pacificar os homens dando-lhes uma serviçal sobre quem exercitar o seu poder.

Os últimos anos viram tanto o aumento da imigração para a Europa como o aumento dos partidos de extrema direita. Como nós, de esquerda, podemos enfrentar essa situação terrível?

É impossível expressar, em poucas palavras, a dor e a indignação que sinto ao ver o que os governos e tantas pessoas na Europa estão fazendo com os refugiados das guerras que esses mesmos governos financiam. É assustador ver que, ano após ano, quase toda semana, naufragam no Mediterrâneo os barcos que transportam refugiados, provocando a morte de centenas e centenas de pessoas, de tal forma que o Mediterrâneo agora é um grande cemitério, e isso está acontecendo diante dos olhos de todo o mundo, não em campos de concentração escondidos – isso sem falar dos “centros de hospitalidade”, que são cadeias onde essas pessoas são mantidas por tempo indeterminado em condições ignóbeis.

É evidentemente deplorável que a resposta de muitas pessoas, inclusive operários, não seja solidariedade, mas rejeição, perseguição e posturas nacionalistas. É particularmente preocupante, pois, muitas vezes, é uma guerra entre os pobres, visto que aqueles que querem erguer barreiras são as próprias pessoas que lutam para sobreviver, que pensam que podem se proteger não por meio da solidariedade com refugiados, mas mediante a política de exclusão. Eu gostaria, porém, de acrescentar que precisamos saber mais sobre neonazistas que atacam refugiados na Alemanha, por exemplo, já que há evidências de cumplicidade por parte das autoridades e da polícia, a ponto de pensarmos que os neonazistas surgem como instrumentos de controle dos refugiados que podem ser úteis como força de trabalho barata, mas desde que aceitem permanecer no degrau mais baixo da escada social.

Houve, nos últimos anos, um crescimento das formações de esquerda – de Corbyn e Sandres ao Podemos. Você vê alguma esperança nessa evolução, no sentido de transformação social significativa? Como você acha que a esquerda deve se relacionar com o Estado?

Essa não é uma pergunta fácil de responder. […] Vemos que os governos inclinados à esquerda e toda a política progressista tanto na Europa como na América Latina estão em crise. Poucos se mobilizaram no Brasil para exigir a reintegração de Dilma Rousseff no cargo, embora muitos tenham condenado seu impeachment como um movimento fraudulento, quase um golpe. O registro dos governos progressistas é que, na melhor das hipóteses, eles aliviaram algumas formas de pobreza extrema, mas não mudaram os modos de produção, não implementaram as reformas que os movimentos sociais que os levaram ao poder exigiam, não refrearam a violência do exército e da polícia.

Talvez uma narrativa diferente pudesse ser feita a favor do chavismo, visto que era mais respeitoso com o poder do povo, mas ele também se baseou nas políticas extrativistas, fazendo com que o país ficasse dependente dos altos e baixos do mercado global. E o que dizer de Bernie Sanders, que, depois de passar meses explicando por que seus seguidores não deveriam votar em Clinton, depois afirmou que essa seria a única alternativa? Que lição de cinismo!

Não chamo a política dos comuns de “espontaneísta”. Atualmente existem no mundo muitos regimes comunitários que têm centenas de anos de história. E não há muita espontaneidade na defesa dos bens comuns em muitas partes do mundo quando se deve enfrentar a violência de grupos paramilitares, exércitos e guardas de empresas de segurança. Claramente, não deveríamos ser dogmáticos nesses assuntos. Em níveis locais, muitas vezes é possível exercer alguma influência sobre os governos. Mas o que estamos vendo é que os centros, em que decisões são tomadas, se afastam cada vez mais do alcance das pessoas. Também estamos vendo a formação de uma estrutura de poder internacional que substitui de forma constante o poder do Estado-nação, como é o caso da União Europeia.

Por causa da constante interferência do FMI e do Banco Mundial nas políticas públicas, especialmente, mas não exclusivamente, nas do “terceiro mundo”, estamos vendo a proliferação de Acordos de Livre Comércio como o TTP ou TTIP (felizmente ainda não assinados) – que estabelecem o controle direto da economia global pelo capital, de modo que nenhuma decisão pode ser tomada em nível econômico sem ser antes aprovada pelas grandes corporações e eliminar totalmente a soberania nacional. Sob essas condições, como ser otimista em relação à instalação de governos de esquerda/radicais?

Uma onda de mudanças varreu a América Latina na virada do século XXI, derrubando os governos neoliberais. Cruciais nisso foram os novos movimentos sociais que emergiram exigindo tanto direitos sócio-políticos como econômicos. Isso, no entanto, provocou tensões entre partidos dominantes e movimentos sociais. Você acredita que essas tensões podem ser resolvidas de forma que possam promover os interesses das classes trabalhadoras da América Latina?

Eu visitei o Equador em abril de 2016 e tive muitos encontros com grupos ambientalistas e de mulheres e seus relatos foram unânimes. As pessoas estão indagando: por que a esquerda europeia e americana fala de Rafael Correa como se ele fosse um radical quando suas políticas estão em conformidade com o neoliberalismo? Dado que Correa, mais do que seus antecessores, está promovendo agora ataques contra as terras indígenas e demonstra, em suas políticas do dia a dia, um completo desprezo pelas mulheres? Levado ao poder por um movimento dos povos indígenas, Correa introduziu na constituição do país o princípio de que a natureza também tem direitos e, de início, parecia determinado a não explorar seus recursos petrolíferos, mas acabou mudando de ideia e atualmente está promovendo investimentos estrangeiros e a perfuração de poços de petróleo no parque de Yasuni.

Não admira que, repetidamente, ele entra em confronto com as mesmas populações indígenas que uma vez o apoiaram, e o seu governo é amplamente condenado como desdenhoso dos movimentos desde baixo, autoritário e apoiador do poder corporativo. Evo Morales também fala de Pachamama quando viaja para o exterior, mas segue uma política extrativista semelhante, a qual, além de destruir terras, florestas, rios, cria uma forma interna de colonialismo. Isso não quer dizer que não há grupos de trabalhadores que possam apoiar suas políticas, já que o extrativismo significa salários para alguns, ainda que ao preço da destruição dos meios de subsistência de muitos, da mesma forma que, em muitas comunidades dos Estados Unidos, trabalhadores jovens apoiam o fracking.

Elefante vs. Amazon

Se você está com a Editora Elefante há mais tempo, certamente já recebeu e-mails explicando como é importante para nós o gesto de pessoas que, como você, compram livros diretamente em nosso saite. Assim driblamos o pedágio das livrarias — sobretudo das grandes redes — e conseguimos valorizar cada um de nossos exemplares, o que possibilita o financiamento de novos títulos sem que leitores e leitoras paguem um centavo a mais por isso.

Com esta nova mensagem, pedimos licença para reforçar o argumento. O jornal duplamente golpista (1964 e 2016, não esqueçamos) Folha de S. Paulo publicou neste domingo, 15 de abril de 2018, em seu caderno “Ilustríssima”, o artigo “Contra a Amazon: razões para não gostar da gigante americana”, em que o escritor catalão Jorge Carrión elenca sete motivos para que não compremos livros neste hipermercado virtual globalizado e globalizante.

O texto reforça — e muito — o entendimento da Editora Elefante sobre a espinhosa questão da venda e distribuição de livros. Não, não somos contra a internet. Óbvio que não, né? Tampouco somos contra o comércio online. E muito menos contra as livrarias, sobretudo as pequenas. Quer prazer mais simples e delicioso do que passear por prateleiras, bater um papo com o livreiro (espécie em extinção), selecionar alguns títulos, pedir um café e demoradamente sentar-se em um sofá para folheá-los, escolhendo então essa boa companhia para dias chuvosos, pesquisas e fomes intelectuais em geral?

Devido à pequenez da Editora Elefante e à nossa incapacidade de entregar livros com a extrema agilidade que a pressa dos dias e das redes impõe a nossas vontades e desejos, temos enfrentado muitas queixas sobre a “demora” dos Correios em entregar os livros que vocês adquirem em nosso saite. Sim, lamentamos muito que essa empresa orgulhosamente pública, que foi um verdadeiro xodó dos brasileiros durante anos, esteja sendo submetida a um processo de sucateamento com vistas à privatização, com prejuízos a seus clientes: tanto aos remetentes (nós) quanto aos destinatários (vocês).

Nossa impossibilidade, minúsculos que somos, de atender imediatamente os pedidos de livros em nosso saite e o recente desleixo dos Correios podem alimentar desejos de encontrar formas mais ágeis de compra e envio. E aqui entra a Amazon, que promete entregar produtos em até uma hora depois da compra em mais de quarenta cidades do mundo — entre elas, Barcelona, de onde escreve Jorge Carrión. Mas, claro, isso tem um preço, um preço humano, que nós não temos condições nem vontade de pagar, nem de incentivar.

“Atualmente os ‘amazonians’ [trabalhadores da Amazon] são auxiliados por robôs Kiva, capazes de levantar 340 kg e de se mover na velocidade de 1,5 m por segundo. Sincronizados com os trabalhadores humanos através de um algoritmo, se ocupam de erguer e movimentar as estantes para facilitar a recolha dos produtos”, explica Carrión. “Uma vez reunidos os produtos que um cliente tenha comprado, outra máquina, chamada Slam, com sua enorme esteira, se encarrega de escaneá-los e embalá-los.”

Imaginem vocês nosso estarrecimento ao ficar sabendo disso. Nós, que somos duas pessoas na lida diária, que processamos os pedidos, empacotamos os livros e enviamos e-mails de agradecimento manualmente… “Para a Amazon, não existe diferença substancial entre patinhos de borracha, pacotes de bolachas, cachorrinhos de pelúcia e livros. São mercadorias de classe semelhante. Mas não para nós”, continua Carrión, ecoando nossa visão das coisas. “Para nós, um livro é um livro, é um livro. E a leitura dos livros — atenção e júbilo — é um ritual, o eco do eco do eco do que foi sagrado.”

Não iremos nos estender em citações. Vale a pena ler o artigo todo.

Queremos apenas reiterar a importância de vocês para a Editora Elefante. Cada livro que vocês compram diretamente conosco, ou cada livro nosso que vocês adquirem em pequenas livrarias — nas que estão resistindo ou nas que, contra todos os prognósticos, como as pequenas editoras, estão sendo corajosamente abertas nestes dias de ultraconectividade –, é uma ode à humanidade, às pequenas iniciativas literárias, ao cuidado não apenas com o objeto-livro mas com a ideia-livro. E também desconcentra renda.

Os preços e as condições de entrega da Amazon podem ser tentadores, mas é sempre bom saber o que existe por trás de cada desconto. Megacorporações que roubam seus dados, por exemplo, robotização indiscriminada, ritmos frenéticos de trabalho, empregados estressados. Por trás da Editora Elefante, em compensação, há uma rede de cabeças pensantes, profissionais talentosos, gente esforçada, pessoas imbuídas de uma paixão meio inexplicável por produzir livros bons, bonitos e baratos. E vocês, claro. Porque, sem querer parecer repetitivo, não seríamos nada sem vocês.

Continuem conosco, em manada.

Grande abraço,

Os paquidermes

“A caça às bruxas nunca terminou,
e as mulheres nunca deixaram de resistir”

Débora Prado
Agência Patrícia Galvão

A feminista e historiadora italiana Silvia Federici esteve recentemente no Brasil, debatendo as formas particulares de discriminação e exploração das mulheres no capitalismo, as lutas feministas contemporâneas e a construção de novos paradigmas – mais coletivos – de sociedade.

A visita aconteceu entre os dias 16 e 23 de julho, motivada pelo lançamento da versão impressa de seu livro Calibã e a Bruxa – mulheres, corpo e acumulação primitiva, traduzido pelo Coletivo Sycorax e publicado pela Editora Elefante, com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. Em atividades realizadas no centro e também nas periferias de São Paulo e do Rio de Janeiro, Silvia Federici, de 75 anos, fala de sua obra e relaciona a pesquisa histórica que fez para a publicação com os temas atuais da condição das mulheres.

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Silvia Federici define o Calibã e a Bruxa como um livro histórico e ao mesmo tempo político. “Ele foi gerado em um contexto político específico, que tem a ver com meu ativismo nos anos 1960 e com a busca pelas causas das formas específicas de opressão que as mulheres sofrem no capitalismo”, explicou durante uma das atividades em São Paulo, que reuniu dezenas de pessoas no centro da cidade.

Na obra, Silvia se debruça sobre essas formas particulares de discriminação e exploração que atingem as mulheres, fazendo um resgate histórico dos processos que construíram a hierarquização dos trabalhos por meio do salário e a invisibilidade do trabalho reprodutivo, relegado à força como uma tarefa a ser executada exclusivamente por mulheres de forma não remunerada na transição do feudalismo para o capitalismo na Europa.

capa do livro Caliba e a bruxaO resgate da autora evidencia que esses padrões, que colocam a mulher em um lugar subordinado na sociedade, foram construídos artificialmente e com o emprego de violência em larga escala no ao longo de 500 anos de vigência do capitalismo. Por isso, encontram-se hoje em dia bastante naturalizados – de onde emerge a importância da pesquisa histórica e das críticas realizadas pela autora, não só para demonstrar que tais padrões de feminino nada têm de natural, como também para reforçar que podem ser desconstruídos e transformados.

Por isso, nas atividades de que participou, a historiadora Silvia Federici buscou retomar o caminho percorrido em seu livro para debater formas atuais de resistência, lembrando: “a caça às bruxas nunca terminou de fato, mas as as mulheres também nunca deixaram de resistir”.

Violência contra as mulheres no desenvolvimento do capitalismo

Foto da autora e feminista italiana Silvia Federici em Sao PauloA transição para o capitalismo na Europa, explica a autora, foi marcada por um processo altamente violento, que incluiu a colonização dos continentes americano e africano e a escravidão de seus povos. O emprego da violência foi a forma pela qual o novo sistema produtivo e social mudou a forma como os indivíduos se relacionavam com o mundo – desde seus próprios corpos, que deveriam agora se tonar máquinas disciplinadas para o trabalho e passíveis de exploração, até a forma como as pessoas se organizavam, impondo processos de individualização da vida.

O que poucos livros de crítica ao capitalismo contam, porém, é a centralidade da violência contra as mulheres nessa etapa histórica. Para compreender o desenvolvimento do controle do Estado sobre o corpo das mulheres e sobre os processos reprodutivos é fundamental, segundo a autora, retomar o fenômeno da caça às bruxas no século 18.

“Quando você olha quem eram essas mulheres que sofreram acusações fantasiosas, como ‘a de dormir com o diabo’, para serem condenadas a ser queimada viva e compara a posição dessas mulheres com as exigências do desenvolvimento econômico, você compreende este fenômeno”, explica Silvia, resgatando as formas como a violência foi empregada desde a Inquisição para impor a desvalorização do trabalho das mulheres e a separação entre trabalho produtivo e aquele de reprodução da vida e da capacidade das pessoas de trabalharem.

Entre as mulheres resgatadas em sua pesquisa estavam, por exemplo, aquelas que tinham poder social na comunidade – como as curandeiras –, as que exerciam sua sexualidade livremente e aquelas mais envelhecidas e pobres, que viviam de doações da comunidade justamente no momento de instauração de uma nova ética e disciplina social, em que a caridade era mal vista por supostamente minar a capacidade de as pessoas trabalharem.

“Milhares de mulheres foram presas, torturadas e queimadas vivas no exato momento em que o capitalismo está decolando, e isso não está registrado nos livros socialistas – essa é uma enorme omissão”, apontou, realizando um contraponto ao legado marxista.

Demonização das mulheres e colonização

Ao retomar essa história invisibilizada no capitalismo e apagada nas teorias críticas a ele, Silvia Federici evidencia que a perseguição às mulheres na Europa e aquela empregada nas colônias se retroalimentavam e usavam a ‘demonização’ como recurso para ‘legitimar’ as mais extremas violências, violações e formas de exploração. “Essa não é uma história do passado, mas do presente”, ressaltou a feminista italiana, citando as formas de violência contra as mulheres, as pessoas negras, indígenas e que atuam em movimentos de resistência e que estiveram presentes desde esta época aos dias atuais.

No debate sobre seu livro em São Paulo, a atualidade do violento legado colonialista no Brasil foi aprofundada pelas mulheres do Coletivo Sycorax e pela professora do Departamento de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia, Maíra Kubik Mano, convidadas a debater a obra com a autora.

O genocídio da população negra nas periferias e favelas, as violências contra as mulheres e sua expressão fatal nos feminicídios, as medidas de austeridade econômica e social, as mudanças conservadoras na legislação, o fundamentalismo religioso e a perseguição aos que são considerados divergentes são elementos que unem o contexto de transição capitalista da Europa em outros séculos, retrato por Silvia em sua pesquisa, com o momento vivido no Brasil hoje, segundo as debatedoras.

“Toda vez que o poder se vê diante de uma crise importante no capitalismo, ele tem que fortalecer suas fundações”, reagiu Silvia Federici. Apesar do reconhecimento do papel estrutural da violência para frear forças de mudança, a mensagem de resistência foi a que a feminista mais quis ressaltar: “é preciso empregar toda essa violência, porque a força de resistência é permanente e cresce”, destacou Silvia Federici.

Para a feminista italiana, as resistências passam necessariamente pela reorganização do trabalho reprodutivo e pela reconstrução do tecido social a partir de formas mais coletivas e autônomas de organização. “Não existe uma forma ‘ideal’ ou ‘pura’ de resistência. Estamos todos rodeados de estruturas capitalistas. Mas a força da comunidade é necessária para interagir com o público e para resistir”, explicou, reforçando que as mulheres seguirão protagonizando movimentos por transformações necessárias.

Calibã e a bruxa está no mundo!

Deem uma olhada nas fotos que tiramos do Lançamento de Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, que aconteceu no Centro Cultural Olido no último dia 20 de julho em São Paulo. Já dissemos nas redes sociais por aí que foi incrével, então não vamos repetir que foi incrével, mesmo tendo sido incrével. Sério: muita gente apareceu pra ver e ouvir a Silvia. Umas trezentas pessoas. Incrével. Mas, como prometemos, não vamos ficar escrevendo que foi incrével.

garanta seu exemplar!

Em vez disso, vamos dizer que o caminho até aqui foi looooongo. Começou com o Coletivo Sycorax, que traduziu colaborativamente essa obra importantíssima que é Calibã e a bruxa, e disponibilizou o conteúdo todo na internet em html. Essa versão digital do livro foi lançada em São Paulo com a presença da autora em 2016. Então, a Fundação Rosa Luxemburgo se interessou em apoiar a publicação da versão brasileira. Conexões aqui e ali colocaram a Editora Elefante no rolê, ainda mais depois dos conselhos de Júlia Rabahie sobre a relevância do livro.

Então o trabalho começou: e foi muito trabalho, cruzes. O projeto gráfico ficou a cargo das queridas e talentosíssimas Bianca Oliveira e Karen Ka, cuja parceria mais uma vez fez bonito nos livros da Elefante. Várias reuniões e muitas horas-bunda depois, olhos ardendo na frente do computador pra resolver mil detalhes, mil tretas, vai-vem de provas da gráfica, ajustes, enfim, temos a edição mais linda de nosso catálogo.

Eis nosso décimo-terceiro título. Urrú!

O pré-lançamento no Rio de Janeiro, em 16 de julho, também foi porreta demais. Menos gente, mais intimista. O tempo ajudou e o sol deu o tom daquela tarde de domingo na sede da Grande Companhia Brasileira de Mysterios e Novidades, na Gambôa, um bairro carioca permeado pela história da escravidão e da resistência negra. Saca só esse vídeo, feito pela querida Ana Rezende:

Naquela mesma rua se encontra o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), que preserva a memória do Cemitério dos Pretos Novos. “Pretos novos” era como se chamavam os escravos negros aportados no Rio de Janeiro, e que ali permaneciam em “quarentena” antes de entrarem no país. Uma porcentagem significativa dos cativos morria nos primeiros dias, e seus corpos eram enterrados dentro de barracões ou nos arredores.

Enfim… estamos orgulhosos demais do que fizemos com este livro (são muitos elogios, muito apaixonados, inclusive da autora — Silvia, você é um amor de pessoa) e com o que estamos fazendo com nossa pequena casa editorial, ampliando as parcerias e reunindo cada vez mais gente em nossa manada. Só temos a agradecer a confiança e o apoio de vocês.

Neste segundo semestre teremos mais sete lançamentos. E queremos vocês conosco.

Continuem com os elefantes =)

‘O feminicídio tem como
objetivo aterrorizar as mulheres’

Por Jessica Zeller
Goethe-Institut

Você acaba de fazer 75 anos. É difícil estabelecer um diálogo com feministas mais jovens?

Muito pelo contrário! A maioria das pessoas que conheço hoje em dia é de ativistas jovens. Acho que isso acontece porque há um novo movimento feminista no mundo todo. É para mim um prazer enorme ter essas mulheres no entorno, pois o mundo está nas mãos delas.

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Esse novo feminismo é simplesmente mais jovem ou é também diferente daqueles movimentos de mulheres dos anos 1970 e 1980, dos quais você já participou ativamente?

As ativistas naturalmente aprenderam com o tempo. Só para citar um exemplo: naquela época, reivindicávamos um “salário para o trabalho doméstico”. Hoje, ninguém mais tem ilusões a respeito da libertação das mulheres através do trabalho remunerado. Pois a maioria das mulheres, embora trabalhem, têm empregos precários, precisando assumir dois ou três deles para sobreviver. Além disso, as feministas jovens apostam menos nas instituições estatais como motores de mudanças sociais.

Em janeiro de 2017, centenas de milhares de mulheres foram às ruas nos Estados Unidos na Marcha das Mulheres em Washington. Como você vivenciou isso?

Não foram apenas feministas: outros atores sociais também estiveram nas ruas nesse dia, tanto mulheres quanto homens. A ordem de grandeza desse evento tem certamente a ver com o fato de que as pessoas queriam dar vazão à ira contra Donald Trump e seu sexismo. E queriam expressar sua preocupação com o perigo de que o novo governo pudesse reintroduzir uma proibição do aborto.

Ou seja, o que importava nesse dia era defender conquistas e direitos adquiridos?

Além do direito de definir elas próprias o planejamento familiar, as mulheres nos Estados Unidos não têm tantas conquistas assim a serem defendidas. Números recentes mostram até mesmo que a expectativa de vida de mulheres da classe trabalhadora diminuiu. Do ponto de vista estatístico, elas vão morrer cinco anos mais cedo que suas mães. Também com relação a isso existe um mal-estar enorme na sociedade, que foi articulado na Marcha das Mulheres.

Em outras regiões do mundo também têm ocorrido protestos feministas constantes, como por exemplo na América Latina, com o lema “nenhuma a menos”, contra o feminicídio e contra a cultura machista.

Uma mobilização realmente impressionante. Em 2017, a campanha “nenhuma a menos” foi tema do Dia Internacional da Mulher, convocado pelas mulheres na Argentina. Lá, nesse dia, houve uma greve geral feminina. Há pouco tempo encontrei em Nova York três ativistas argentinas que me mostraram um vídeo do seu protesto em Buenos Aires. Isso quase me levou às lágrimas de emoção.

O feminicídio e o combate a ele são um assunto principalmente latino-americano?

Com certeza não. A brutalidade e a frequência desses casos aumenta no mundo todo. Na Índia e em alguns países africanos, percebemos uma verdadeira “caça às bruxas” contra as mulheres. Em regiões do interior do Canadá há assassinatos em série. E a Itália aprovou há alguns anos uma lei contra o feminicídio. Isso é muito sintomático. Na minha infância, na Itália, falava-se sobre um caso desses durante meses, tão extraordinário ele era. Hoje, há no país assassinatos de mulheres quase que diariamente.

Quais são as razões para esse aumento da violência?

O feminicídio está sempre relacionado com o desenvolvimento geral de uma sociedade. A ideia que se esconde por trás dele é intimidar e aterrorizar as mulheres. As razões específicas variam. Na América Latina, por exemplo, ele atinge frequentemente mulheres que vivem em regiões onde há megaprojetos acontecendo ou sendo planejados — projetos que servem à exploração desrespeitosa de matéria-prima. Nos protestos das populações locais, as mulheres estão muitas vezes na linha de frente. Ao matá-las, demonstra-se à comunidade que resistir é inútil.

Livro aponta opressão da mulher como sustentáculo do capitalismo

A feminista e historiadora italiana Silvia Federici estará no Brasil para as atividades de lançamento do livro Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, traduzido colaborativamente pelo Coletivo Sycorax e publicado pela Editora Elefante com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. A autora, que atualmente leciona na Universidade de Hofstra, em Nova York, participará de bate-papos e palestras no centro e nas periferias de São Paulo e Rio de Janeiro entre os dias 16 e 23 de julho, com entrada franca.

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Silvia é uma das mais importantes teóricas do feminismo na atualidade, e em sua extensa pesquisa analisa, entre outros aspectos, o trabalho assalariado a partir de uma perspectiva de gênero. Nascida em Parma, na Itália, em 1942, vive nos Estados Unidos desde os anos 1960, onde participou ativamente do movimento contra a guerra e ajudou a fundar o Coletivo Feminista Internacional, que impulsionou a Campanha por um Salário para o Trabalho Doméstico. Nos anos 1980, Silvia passou uma temporada na Nigéria, onde lecionou na universidade de Port Harcourt, acompanhou o movimento de mulheres nigeriano e, ao ver de perto os resultados do ajuste estrutural patrocinado pelo Banco Mundial e pelo FMI sobre os estilos de vida comunitários do país, percebeu a atualidade das teses que expõe em Calibã e a bruxa.

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O livro discorre sobre a violência brutal empreendida contra as mulheres durante a transição do feudalismo para o capitalismo na Europa, e sustenta que a “caça às bruxas” relacionou-se diretamente com criação de um novo sistema econômico, forjado na escravidão, na colonização e na exploração e dominação do corpo e dos saberes femininos. O título da obra faz referência a duas personagens shakespearianas — Calibã e sua mãe, Sycorax, uma bruxa — para simbolizar a dimensão sexista e racista que o capital impõe a quem resiste à sua ordem.

Baseada em uma exaustiva pesquisa documental e iconográfica, e em farta bibliografia, Silvia Federici argumenta que o assassinato de centenas de milhares de bruxas foi, juntamente com a submissão dos povos africanos e americanos, um aspecto fundacional do sistema capitalista, uma vez que designou às mulheres o papel de “produtoras de mão de obra”, obrigando-as, pelo terror, a exercer gratuitamente os serviços domésticos necessários para sustentar os maridos e os filhos homens que seriam usados como força de trabalho do sistema nascente.

Nesse sentido, Calibã e a bruxa apresenta um contraponto ao pensamento de Karl Marx sobre a acumulação, afirmando que, em vez de se tratar de um aspecto precursor do capitalismo, a acumulação seria inerente a ele. O livro dialoga ainda com de Michel Foucault, a quem critica duramente por não haver levado em conta em sua História da sexualidade a campanha contra o corpo feminino e o extermínio de centenas de milhares de mulheres na fogueira.

Além de reconhecida produção teórica, Silvia Federici segue vinculada com as lutas feministas contemporâneas e com os desafios impostos pelo capitalismo, que, como podemos atestar diariamente na violência de gênero e nos crescentes índices de encarceramento feminino, por exemplo, continua oprimindo e matando as mulheres, sobretudo na África e na América Latina. A construção de um novo paradigma de sociedade, com base nos “bens comuns” (commons), também integra os temas discutidos por Silvia.

“É preciso criar um tecido social mais forte, capaz de resistir ao que está acontecendo, e também começar a construir novas relações. Começar a implementar novas formas de autogovernar-nos, ter o controle de nossa vida, não apenas nos opormos, mas sim definirmos que tipo de sociedade queremos, como iremos construí-la, o que precisamos de imediato e quais são os objetivos de futuro”, disse Silvia Federici em recente entrevista.

Nesta que será sua segunda visita no Brasil, Silvia Federici irá discutir os principais pontos de seu livro e o protagonismo das mulheres nas lutas sociais, e terá a oportunidade de conhecer e dialogar com as experiências e ações de coletivos e movimentos de mulheres que estão na linha de frente em alguns dos territórios periféricos de São Paulo e Rio de Janeiro.
Confira abaixo a agenda:

RIO DE JANEIRO

Dia 16 de julho – a partir das 11h
Pré-lançamento do livro Calibã e a bruxa e Urgências!
Sede da Cia de Mystérios e Novidades – Rua Pedro Ernesto, 21 – Gamboa

Dia 18 de julho – a partir das 15h
Roda de Conversa e Sarau
Museu da Maré – Av. Guilherme Maxwel, 26 – Maré
SÃO PAULO

Dia 20 de julho – a partir das 18h
Lançamento do libro Calibã e a bruxa
Galeria Olido – Avenida São João, 473 – Centro

Dia 22 de julho – a partir das 14h
Roda de conversa e sarau
Teatro Ventre de Lona – Centro Cultural Arte em Construção
Avenida dos Metalúrgicos, 2.100 – Cidade Tiradentes

Iniciativa
Fundação Rosa Luxemburgo, Goethe Institut, Coletivo Sycorax e Editora Elefante

Parceria RJ
Museu da Maré, CEASM, Instituto PACS

Parceria SP
Pombas Urbanas e Biblioteca Solano Trindade