A vitória de Bolsonaro é um alerta à esquerda latino-americana

Por Alberto Acosta e Eduardo Gudynas

 

A América Latina ainda está assimilando a vitória de Jair Bolsonaro e a derrota do Partido dos Trabalhadores nas últimas eleições brasileiras. Mas é preciso analisar urgentemente o que ocorreu no país, sem recorrer a análises simplistas e privilegiando um olhar latino-americano que busque compreender as conquências do episódio para as esquerdas da região: uma tarefa urgente, ainda mais quando muitos creem na inevitabilidade do retorno das direitas ao poder.

Não acreditamos nisso. Pelo contrário, vemos que esta crise pode semear uma nova esquerda latino-americana que não repita os erros da “onda progressista”, voltando a apresentar-se como uma alternativa de mudança. Em outras palavras, apostamos que as esquerdas podem evitar a chegada de outros Bolsonaros nos países vizinhos. Para isso, porém, é preciso fazer um diagnóstico rigoroso sobre o que houve no Brasil.

Direita sem dissimulação e progressismo que dissimula

Bolsonaro e seus apoiadores expressam uma ultradireita que não dissimula nem esconde suas posições: veiculam um discurso homofóbico, atacam indígenas e negros, ironizam com o fuzilamento de militantes de esquerda, defendem a tortura e a ditadura. Mas não estão sozinhos. O racismo e o autoritarismo são respaldados por amplos setores da população brasileira, e os contrapesos da cidadania e da política se mostraram insuficientes em detê-los. Isso revela uma sociedade muito mais conservadora do que supunha a retórica petista.

Uma das velhas propostas do PT era democratizar a sociedade brasileira, incrementando a institucionalidade política. Uma vez no governo, porém, o desempenho foi muito limitado, pois agravou a dispersão partidária; usou-se de subornos entre legisladores (recordemos o primeiro governo Lula com o mensalão); persistiu-se no verticalismo partidário; e paulatinamente se debilitou a participação cidadã. Esses e outros fatores talvez expliquem as limitações de um “triunfalismo facilista” ante uma sociedade brasileira que não era tão esquerdista como parecia.

É evidente que uma renovação das esquerdas deve aprender com essa dinâmica e que não pode renunciar à democratização da sociedade e de suas próprias estruturas. Deixar de fazê-lo facilita o surgimento de oportunistas. As estruturas políticas de esquerda devem, de uma vez por todas, tornar-se dignas representações de suas bases — e não meros trampolins usados por indivíduos com claros traços caudilhistas.

O “medo de perder a próxima eleição” tem definido atuação dos partidos de esquerda. Na Argentina, o sucessor designado do kirchnerismo perdeu a eleição para o novo conservadorismo de Mauricio Macri justamente por fazer algo parecido ao que agora ocorreu com o PT: rejeitar os chamados de mudança, se fechar e se imobilizar em um núcleo duro. Esse mesmo temor é evidente hoje no governo de Evo Morales, na Bolívia, e parece chegar à Frente Amplia no Uruguai.

Desenvolvimento nada novo, e sim senil

O caso brasileiro confirma a grande importância das estratégias de desenvolvimento — chave para diferenciar “progressismo” e “esquerda”. O caminho seguido pelo governo Lula, o “neodesenvolvimentismo”, baseou-se nas exportações primárias e na captação de investimento estrangeiro, afastando-se de muitas reivindicações da esquerda. Isso demonstra que progressismo e esquerda são duas correntes políticas diferentes.

Com efeito, durante os anos do PT, o Brasil se tornou o maior extrativista mineral e agropecuário do continente. Isso só é possível quando se aceita uma inserção subordinada no comércio global e uma ação limitada do Estado — justamente o contrário das aspirações da esquerda.

As limitações dessas estratégias foram disfarçadas pelos vultosos excedentes financeiros possibilidados pelos altos preços das commodities. Além da assistência social, alvo de intensa propaganda, a bonança se concentrou no consumismo popular, nos subsídios e assistências empresariais e no apoio a algumas grandes corporações (as chamadas “campeãs nacionais”).

Isso explica por que o “neodesenvolvimentismo” recebeu o apoio tanto dos trabalhadores — que desfrutavam de créditos acessíveis — como pela elite empresarial — que conseguia dinheiro estatal para se internacionalizar. Por razões muito distintas, Lula era aplaudido tanto nas favelas como no Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Essa situação começou a se desvanecer com a queda de preços das matérias-primas, revelando que os subsídios mensais, como o Bolsa Família, são importantes, mas não tiram de fato as pessoas da pobreza. A concentração de riqueza persistiu, e parte do financiamento às corporações se perdeu em redes de corrupção. Não se transformaram as essências das estratégias de desenvolvimento.

Aprofundou-se a dependência de matérias-primas, agora redirecionadas sobretudo ao mercado chinês, fazendo com que o Brasil tivesse a pior balança comercial física do continente. Produziu-se desindustrialização e fragilidade econômica e financeira. Esse “neodesenvolvimentismo” progressista é tão velho como nossas próprias colônias — época em que se iniciou o extrativismo.

Não se quis entender que tais estratégias obrigavam o uso de certos instrumentos econômicos e políticos contrários às políticas e aos valores da esquerda. Os progressismos nos países vizinhos seguem o mesmo caminho, alimentando crises políticas que não conseguem resolver pela esquerda, ao passo que se retomam velhas receitas, como o endividamento, os controles sobre a mobilização cidadã ou flexibilização das leis ambientais e trabalhistas para atrair investidores. Como resultado, preparou-se o terreno para uma restauração conservadora.

Ruralidades conservadoras

O desenvolvimentismo senil requer o velho autoritarismo, e por isso diferentes setores, como o ruralismo ultraconservador, festejam o discurso de Bolsonaro contra indígenas, camponeses e sem-terra. Bolsonaro conta com o apoio da bancada ruralista, setor que já havia chegado ao anterior governo, quando Dilma colocou uma de suas líderes — Kátia Abreu — no Ministério da Agricultura. Esse exemplo deve alertar a esquerda, pois diferentes atores conservadores e ultraconservadores aproveitam-se dos progressismos para se associarem a tais governos.

Além do mais, os progressismos não garantiram a reforma agrária nem transformaram a essência do desenvolvimento agropecuário. Recordemos que, sob o primeiro governo de Lula, se difundiu a soja transgênica no Brasil, e um similar processo de sojização ocorreu no Uruguai, iniciado com José Mujica. Os progressismos não conseguiram explorar alternativas para o mundo rural, insistindo no simplismo dos monocultivos de exportação, sustentação de empresários do campo e, quando há dinheiro, distribuição de assistência financeira a pequenos e médios produtores.

As esquerdas devem inovar em uma nova ruralidade, abordando a sério tanto a posse como os usos da terra, além do papel dos provedores de alimentos não só para o comércio global, mas, sobretudo, para o próprio país.

Pobreza e justiça

O PT aproveitou diferentes circunstâncias e conseguiu reduzir a pobreza. Também aumentou o valor do salário mínimo, a formalização do emprego e o atendimento de saúde — o que deve ser aplaudido. Mas muito desse esforço reforçou a mercantilização da sociedade e da natureza. A bancarização e o crédito explodiram: o crédito privado subiu de 22% do PIB em 2001 para 60% em 2017. O consumismo se confundiu com melhoras na qualidade de vida.

O progressismo esqueceu da meta da esquerda de desmercantilizar a vida como reação ao neoliberalismo do século passado. A ideia de justiça se reduziu a enfatizar alguns instrumentos de redistribuição econômica, enquanto os direitos cidadãos seguiam frágeis.

A esquerda latino-americana não pode se fazer de distraída ante o fato de que o Brasil está na liderança no número de assassinatos de ecologistas no mundo (57 mortes em 2017, segundo a Global Witness) e a violência urbana não retrocedeu. As esquerdas não deveriam se enredar em reducionismos. A justiça social é muito mais que a redistribuição, assim como a qualidade de vida é muito mais que crescimento econômico.

Há futuros possíveis

O PT, assim como outras expressões progressistas latino-americanas, não só ignorou advertências sobre este “neodesenvolvimentismo” primarizado, mas ativamente combateu os debates e ensaios de alternativas ao desenvolvimento. Diferentes atores, tanto nacionais como estrangeiros, aplaudiam de forma complacente, sem escutar vozes de alerta, com o pretexto perverso de não “fazer o jogo da direita”.

Apesar de tudo, no Brasil e no resto do continente há múltiplas resistências e alternativas que se constroem cotidianamente. Elas oferecem inspirações para uma recuperação da esquerda, a partir da crítica ao desenvolvimentismo, dos ensaios para abandonar a dependência extrativista ou da salvaguarda dos direitos civis e cidadãos. Aqui estão os insumos para a construção de uma nova esquerda, comprometida com os horizontes emancipatórios.

A renovação das esquerdas deve assumir a crítica e a autocrítica, custe o que custar, para aprender e desaprender certas experiências recentes. Mantêm-se atuais desafios, e se somam novas urgências. A esquerda latino-americana deve avançar em alternativas ao desenvolvimento, deve ser ambientalista, em respeito à natureza, e feminista, para enfrentar o patriarcado; deve persistir no compromisso socialista como superação da iniquidade social, e deve ser descolonial para superar o racismo e a exclusão. Tudo isso exige cada vez mais democracia.

 

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Alberto Acosta
é autor de O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos (Elefante & Autonomia Literária, 2016).

Eduardo Gudynas é mestre em Ecologia Social e pesquisador no Centro Latino-Americano de Ecologia Social (Claes), Montevidéu, Uruguai.

Elefante vs. Amazon

Se você está com a Editora Elefante há mais tempo, certamente já recebeu e-mails explicando como é importante para nós o gesto de pessoas que, como você, compram livros diretamente em nosso saite. Assim driblamos o pedágio das livrarias — sobretudo das grandes redes — e conseguimos valorizar cada um de nossos exemplares, o que possibilita o financiamento de novos títulos sem que leitores e leitoras paguem um centavo a mais por isso.

Com esta nova mensagem, pedimos licença para reforçar o argumento. O jornal duplamente golpista (1964 e 2016, não esqueçamos) Folha de S. Paulo publicou neste domingo, 15 de abril de 2018, em seu caderno “Ilustríssima”, o artigo “Contra a Amazon: razões para não gostar da gigante americana”, em que o escritor catalão Jorge Carrión elenca sete motivos para que não compremos livros neste hipermercado virtual globalizado e globalizante.

O texto reforça — e muito — o entendimento da Editora Elefante sobre a espinhosa questão da venda e distribuição de livros. Não, não somos contra a internet. Óbvio que não, né? Tampouco somos contra o comércio online. E muito menos contra as livrarias, sobretudo as pequenas. Quer prazer mais simples e delicioso do que passear por prateleiras, bater um papo com o livreiro (espécie em extinção), selecionar alguns títulos, pedir um café e demoradamente sentar-se em um sofá para folheá-los, escolhendo então essa boa companhia para dias chuvosos, pesquisas e fomes intelectuais em geral?

Devido à pequenez da Editora Elefante e à nossa incapacidade de entregar livros com a extrema agilidade que a pressa dos dias e das redes impõe a nossas vontades e desejos, temos enfrentado muitas queixas sobre a “demora” dos Correios em entregar os livros que vocês adquirem em nosso saite. Sim, lamentamos muito que essa empresa orgulhosamente pública, que foi um verdadeiro xodó dos brasileiros durante anos, esteja sendo submetida a um processo de sucateamento com vistas à privatização, com prejuízos a seus clientes: tanto aos remetentes (nós) quanto aos destinatários (vocês).

Nossa impossibilidade, minúsculos que somos, de atender imediatamente os pedidos de livros em nosso saite e o recente desleixo dos Correios podem alimentar desejos de encontrar formas mais ágeis de compra e envio. E aqui entra a Amazon, que promete entregar produtos em até uma hora depois da compra em mais de quarenta cidades do mundo — entre elas, Barcelona, de onde escreve Jorge Carrión. Mas, claro, isso tem um preço, um preço humano, que nós não temos condições nem vontade de pagar, nem de incentivar.

“Atualmente os ‘amazonians’ [trabalhadores da Amazon] são auxiliados por robôs Kiva, capazes de levantar 340 kg e de se mover na velocidade de 1,5 m por segundo. Sincronizados com os trabalhadores humanos através de um algoritmo, se ocupam de erguer e movimentar as estantes para facilitar a recolha dos produtos”, explica Carrión. “Uma vez reunidos os produtos que um cliente tenha comprado, outra máquina, chamada Slam, com sua enorme esteira, se encarrega de escaneá-los e embalá-los.”

Imaginem vocês nosso estarrecimento ao ficar sabendo disso. Nós, que somos duas pessoas na lida diária, que processamos os pedidos, empacotamos os livros e enviamos e-mails de agradecimento manualmente… “Para a Amazon, não existe diferença substancial entre patinhos de borracha, pacotes de bolachas, cachorrinhos de pelúcia e livros. São mercadorias de classe semelhante. Mas não para nós”, continua Carrión, ecoando nossa visão das coisas. “Para nós, um livro é um livro, é um livro. E a leitura dos livros — atenção e júbilo — é um ritual, o eco do eco do eco do que foi sagrado.”

Não iremos nos estender em citações. Vale a pena ler o artigo todo.

Queremos apenas reiterar a importância de vocês para a Editora Elefante. Cada livro que vocês compram diretamente conosco, ou cada livro nosso que vocês adquirem em pequenas livrarias — nas que estão resistindo ou nas que, contra todos os prognósticos, como as pequenas editoras, estão sendo corajosamente abertas nestes dias de ultraconectividade –, é uma ode à humanidade, às pequenas iniciativas literárias, ao cuidado não apenas com o objeto-livro mas com a ideia-livro. E também desconcentra renda.

Os preços e as condições de entrega da Amazon podem ser tentadores, mas é sempre bom saber o que existe por trás de cada desconto. Megacorporações que roubam seus dados, por exemplo, robotização indiscriminada, ritmos frenéticos de trabalho, empregados estressados. Por trás da Editora Elefante, em compensação, há uma rede de cabeças pensantes, profissionais talentosos, gente esforçada, pessoas imbuídas de uma paixão meio inexplicável por produzir livros bons, bonitos e baratos. E vocês, claro. Porque, sem querer parecer repetitivo, não seríamos nada sem vocês.

Continuem conosco, em manada.

Grande abraço,

Os paquidermes

Livro analisa ‘ciclo progressista’ e aponta caminhos para a esquerda latino-americana

A América Latina atravessa atualmente um período de impasse e turbulência, em parte pela dinâmica interna de seus países, mas também como consequência de sua forma particular de inserção no mercado mundial. Para refletir sobre essas questões, o livro O eclipse do progressismo: a esquerda latino-americana em debate reúne oito artigos de diversos autores, como Alberto Acosta, Edgardo Lander e Pablo Solón, com o objetivo de pensar criticamente a conjuntura que atravessa o continente e seus países, além das perspectivas políticas da região. A publicação será lançada em São Paulo na segunda-feira, 12 de março, às 17h, e em Salvador, durante o Fórum Social Mundial, em 15 de março.

Tais artigos surgiram a partir de apresentações realizadas no seminário “A América Latina hoje: uma avaliação crítica sobre a esquerda e os governos progressistas”, que ocorreu durante o Fórum Social Mundial de 2016, em Montreal, e que teve continuidade em Porto Alegre, durante o Fórum Social das Resistências, em janeiro de 2017.

ENCOMENDE SEU EXEMPLAR

O livro aborda e analisa o ciclo de governos progressistas na região, que chegaram à frente de seus Estados entre 1999 e 2008 a partir das lutas populares anteriores contra as políticas de ajuste fiscal. As economias cresceram e garantiram recursos para importantes políticas distributivas, integrando parcelas da população, antes excluídas, aos mercados de consumo.

“A estratégia aplicada foi, de conjunto, correta e os problemas foram mais localizados ou, ao contrário, tratou-se de uma estratégia equivocada? Quais são os pontos de apoio para as lutas de resistência contra a aplicação de políticas ultraliberais que a direita está tentando aplicar? Quais alternativas propomos? Como combinar as lutas de resistência em curso e a experimentação dessas alternativas?”.

Esses são alguns dos questionamentos que direcionam as análises da publicação. Os autores acreditam que com os efeitos da crise global de 2008, o crescimento do nacionalismo xenófobo e do pensamento conservador, a esquerda latino-americana vive um período de recomposição, em que o balanço da experiência dos governos progressistas ocupa um lugar central.

O evento de lançamento questiona o Fórum Econômico Mundial para a América Latina (WEF), também conhecido como Mini Davos, que será realizado este ano na cidade de São Paulo, entre os dias 13 e 15 de março, e o livro é uma publicação da Editora Elefante, com o apoio da Ação Educativa.

Serviço

Lançamentos do livro O eclipse do progressismo

São Paulo
Data: 12/03, a partir das 17h
Local: Auditório da reitoria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – R. Sena Madureira, 1500, Vila Clementino, São Paulo/SP.

Salvador
Data: 15/03, a partir das 17h
Local: Fórum Social Mundial, Salvador/BA.

Conheça os autores:

José Correa Leite – paulista, é professor universitário com doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2005) e pós-doutorado pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2015). Foi editor do jornal Em Tempo e organizou, com Isabel Loureiro e Maria Elisa Cevasco, o livro O espírito de Porto Alegre.

Emilio Horacio Taddei – portenho, é professor da Universidade de Buenos Aires, com mestrado e doutorado pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris da Fondation Nationale de Sciences Politiques. Foi coordenador acadêmico da CLACSO (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais) e organizou, com José Seoane, o livro Resistencias mundiales: de Seattle a Porto Alegre.

Giovanna Roa – ativista chilena, comunicadora e colaboradora em projetos culturais e políticos, públicos e privados. Designer e co-diretora do festival feminista Ruidosa. Foi vice-presidente da Federação Estudantil da Universidade Católica em 2010 e diretora criativa em campanhas políticas.

Lilian Celiberti – é professora e feminista uruguaia. Começou sua militância no centro dos professores estudantis e foi prisioneira política da ditadura militar em seu país aos 21 anos. É coordenadora da Cotidiano Mujer e participa da Articulação Feminista Marcosur(AFM), promovendo o desenvolvimento de um campo político feminista a nível regional e mundial.

Alberto Acosta – economista e político equatoriano. Professor da FLACSO – Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais, foi um dos redatores do plano do governo da Aliança PAIS – Pátria Altiva e Soberana. Foi ministro da Energia e Minas e Presidente da Assembleia Nacional Constituinte.

John Cajas Guijarro – economista equatoriano graduado da Escola Politécnica Nacional. Tem mestrado em Economia do Desenvolvimento pela FLACSO – Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais. É professor de Economia Política da Universidade Central do Equador e da Escola Politécnica Nacional do Equador.

Alejandro Bendaña – fundador do Centro de Estudos Internacionais em Manágua, Nicarágua. Possui um Ph.D. em História pela Universidade de Harvard. Autor de vários livros sobre relações internacionais e reconstrução pós-guerra, atuou como consultor do Programa UNESCO de Cultura da Paz

Pablo Solón – diretor da Fundação Solón, o político boliviano é ex-diretor executivo do Focus on the Global South, grupo de pesquisa ativista, e ex-embaixador do Estado Plurinacional da Bolívia nas Nações Unidas (ONU). Lidera o Observatório Boliviano de Mudanças Climáticas e Desenvolvimento.

Edgardo Lander – professor e pesquisador venezuelano do Departamento de Estudos Latino-Americanos da Escola de Sociologia, é consultor da comissão venezuelana que negocia a Área de Livre Comércio das Américas. Trabalha na Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais e é membro do Conselho Editorial da Revista Venezuelana de Economia e Ciências Sociais da Universidade Central da Venezuela.

Quantas vezes o sistema político tem de morrer antes de ser enterrado?

O presidente da República é flagrado em negociações escusas com um empresário que comprou praticamente toda a alta casta governista e opositora de Brasília. O quase-vencedor das eleições de 2014 pede propina a esse mesmo empresário, que nadou de braçadas nos treze anos de governos dos oponentes do quase-vencedor. A lista de promiscuidade entre público e privado é imensa — e só cresce. Quantas vezes o sistema político precisa morrer antes de ser enterrado?

Se há um consenso entre as pessoas sérias de direita e de esquerda no Brasil, esse consenso diz respeito à falência total do sistema representativo. Diante do diagnóstico comum, uns defendem a ditadura como saída, enquanto outros advogam que só uma democracia de fato poderá nos tirar dessa. A primeira corrente já teve sua chance. E sabemos no que deu. Então, que tal tentar a segunda alternativa, que jamais foi testada em nossas judiadas terras?

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De uma hora para outra, os maiores grupos de comunicação do país — que em tempos de instabilidade costumavam agir em coordenação absoluta, como no golpe militar de 1964 e no golpe contra Dilma Rousseff — começam uma briga pública que tem no centro da balança o Palácio do Planalto. Empurram de um lado e de outro para ver quem derruba ou salva Michel Temer. Suas razões permanecem tão obscuras quanto as razões pelas quais o golpista ainda não renunciou.

Parlamentares da extrema-direita sobem às tribunas do Congresso para defender Diretas Já, enquanto o mercado se dá ao despeito de dizer quando Temer cairá e quem ficará em seu lugar. O ministro da Fazenda — que foi alto funcionário da empresa corrupta que agora denuncia deus e o mundo — toma a licença de declarar que continua no cargo, independente de cortarem o pescoço do presidente, em um sinal renovado, límpido e desesperador de que, definitivamente, não somos nós, cidadãos, quem não dá as cartas.

O cenário cada vez mais caótico é marcado pela presença de analistas aos montes. Há um para cada centímetro quadrado de Facebook. Nós, humildemente, admitimos que nada sabemos. E, talvez menos humildemente, nos damos ao direito de achar que quem diz que entende o que está acontecendo é gênio ou está mentindo.

Nem por isso achamos que o caminho é desencanar de tentar entender. E, justamente por isso, na Editora Elefante seguimos na labuta diária para lançar livros que podem não ter grande apelo comercial, mas nos parecem abordar assuntos fundamentais para o exercício da reflexão. Tentamos enxergar para além das estruturas, para além dos fulanos e sicranos que, hoje, estão a protagonizar a encenação do absurdo, mas, amanhã, sairão de cena enquanto a lona do teatro seguirá em pé, acolhendo novos atores capazes de manter o status quo.

livros_elefante_3D_72dpi_5“Com velhas ferramentas não se constrói o novo”, decreta o pensador equatoriano Alberto Acosta, autor de nosso querido O Bem Viver – uma oportunidade para imaginar outros mundos (2016). Nele, o ex-presidente da Assembleia Constituinte do país sul-americano propõe uma ruptura radical com a ideia de desenvolvimento, que dominou o mundo ao longo do século passado, a tudo homogeneizando em nome de um suposto propósito comum de bem-estar.

Acosta enxerga a morte do atual sistema político, que, dominado por interesses financeiros, não consegue qualquer grau de conexão com o mundo real. E, frente a isso, propõe a construção de novos sistemas de mundo, que saibam incorporar o melhor do conhecimento das populações tradicionais e aquilo que as novas ferramentas nos oferecem. “Se a luta é de toda a sociedade, já não há espaço para grupos vanguardistas que assumam uma posição de liderança privilegiada. Tampouco é uma tarefa que se resolve no espaço nacional”, afirma o ex-ministro de Rafael Correa, com quem rompeu ainda nos primeiros anos de governo.

livros_elefante_capa_72dpi_1Correa, aliás, despede-se da presidência equatoriana sob um legado dúbio, marca comum dos integrantes do chamado “ciclo progressista” latino-americano. O governo dele é analisado em nosso primeiro livro, O Equador é verde (2011), de Tadeu Breda. A obra já está esgotada, mas pode ser baixada gratuitamente.

Os governos progressistas são também um eixo central de nosso Descolonizar o Imaginário (2016), uma potente coletânea de textos sobre os maiores pensadores latino-americanos do Bem Viver. É um livro denso, muito necessário para refletir sobre os caminhos que tomamos ao longo do boom do ciclo de commodities, na década passada, e como esses rumos nos desviaram de outros, muito mais promissores, para os quais ainda podemos retornar.

“É necessário, e também urgente, empreender uma alternativa pós-extrativista”, escreve o uruguaio Eduardo Gudynas, pesquisador no Centro Latino-Americano de Ecologia Social e um dos autores que marcam presença. “Os países que primeiro começarem a discutir essas questões estarão melhor preparados para lidar com um futuro próximo que certamente será pós-extrativista.”

livros_elefante_capa_72dpi_7Olhando para o caso brasileiro, vemos, de novo, como o atual sistema político é incapaz de nos representar. Não há nenhuma voz expressiva, entre os homens que controlam o poder, que pense em um novo ciclo. Pelo contrário, o extrativismo e a depredação dele consequente, que já eram marcas dos governos petistas, ganharam impulso ainda maior sob Temer. Se há uma vantagem no governo golpista, é a de haver deixado de lado certas encenações. As coisas estão sendo feitas por uma elite que quer lucrar ainda mais. E ponto. Muitos já não se dão ao engodo de usar o povo para dar vazão a certos absurdos, ainda que outros sigam a se valer de um discurso tão falso quanto o Congresso que habitam.

Nesse sentido, entre as poucas certezas a que nos damos direito está a de que não é seguindo o PT que vamos sair dessa. Certos líderes petistas caíram como luva no papel de opositores: fazem discursos em altos brados, dizem-se de esquerda, declamam a revolução em verso e prosa, e chegam até a vestir cocares em plena Esplanada, ignorando que há poucos meses mandavam atropelar os direitos indígenas para defender os direitos das megaempreiteiras. Mas, enquanto a encenação pública se desenrola, noticia-se, por exemplo, que nos bastidores Lula negocia pacto com FHC para uma eleição indireta que poderia levar ao comando da República Nelson Jobim, ex-ministro de ambos os governos e sujeito que chegou a se gabar de ter adulterado artigos da Constituição.

alem do pt nova 3D“Vista em perspectiva de longa duração, a transformação do PT em braço esquerdo do partido da ordem será integrada como mais um capítulo da contrarrevolução permanente, que caracteriza a história brasileira contemporânea”, escreve Fabio Luis Barbosa dos Santos, autor de Além do PT (2016). O professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo analisa o governo petista sob a égide do ciclo progressista latino-americano, e conclui que, a exemplo de outros, os mandatos de Lula e Dilma tiveram como saldo uma profunda desmobilização popular que acaba por ditar as dificuldades de rearticulação da esquerda em meio a uma conjuntura terrível. Valendo-se dos versos de Emicida, ele diz que é preciso deixar o conforto do telhado petista para aventurar-se a ver as estrelas e descobrir o que há de promissor no céu.

Enquanto não nos rearticulamos, assistimos ao avanço do autoritarismo sobre nossas vidas. Indígenas e antropólogos indiciados em uma CPI da Funai dominada por ruralistas que são réus em ações diversas. As Forças Armadas sendo chamadas a ocupar a Esplanada dos Ministérios para acudir um presidente bambo. Um novo massacre de trabalhadores rurais, impensável até há pouco tempo, levando-nos a 26 mortes em conflitos no campo em menos de cinco meses completos e passando a impressão de superaremos o sinistro recorde obtido em 2016, com 61 assassinatos. Tudo isso em menos de uma semana.

2013 não acabou. O significado e os destinos das Jornadas de Junho estão em aberto. Certo é que, de lá para cá, diante de um poder público titubeante ou aplausivo, polícias e milícias sentiram-se cada vez mais encorajadas a agir. O caso do fotógrafo Sérgio Silva, atingido no olho por uma bala de borracha em meio às manifestações daquele ano, parece pouco, frente à desgraça que a cada dia se renova e se incrementa. Mas é, em verdade, uma oportunidade de reflexão profunda sobre um caso individual que toma proporção coletiva nas páginas de Memória Ocular (2016).

livros_elefante_3D_72dpi_3Também entre o passado mal-resolvido e o futuro repetivivo, Corumbiara, caso enterrado (2015) fala sobre a morte de camponeses e policiais durante uma reintegração de posse no sul de Rondônia, em 1995. Passando o caso a limpo, o autor, João Peres, alerta que os pilares que levaram à tragédia não foram removidos, o que poderia nos levar a novos episódios sangrentos. Como, de fato, nos levaram. E continuam levando: enquanto Temer periga cair em Brasília e João Doria demole prédios com gente dentro na região de São Paulo conhecida como Cracolândia, uma reintegração de posse no Pará vitima dez agricultores sem-terra. Até quando a história se repetirá contra nós?

Novo livro, Descolonizar o imaginário
aprofunda debate sobre Bem Viver

Vocês estão vendo: 2016 está sendo um ano muito movimentado para estes pequenos elefantes. A caminhada está dura e o trabalho, intenso. Mas não temos nada do que reclamar. Na próxima segunda-feira, 22 de agosto, lançaremos nosso sétimo título. Urrú! E a alegria é ainda maior porque Descolonizar o imaginário virá ao mundo graças a mais uma parceria entre Editora Elefante, Autonomia Literária e Fundação Rosa Luxemburgo – instituição que viabilizou o projeto.

Descolonizar o imaginário traz treze artigos que discutem pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento em perspectiva ampla e transversal, passando por temas aparentemente díspares, mas complementares, como direito à cidade, feminismo, colonialidade, Estado, Direitos da Natureza, movimentos indígenas, economia… É uma continuação do debate que trouxemos aos leitores brasileiros com a publicação de O Bem Viver, em janeiro.

Descolonizar_teaser_9Com a crise dos governos progressistas – marcada até agora pela derrota do kirchnerismo, pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela decadência do chavismo –, Descolonizar o imaginário procura resgatar as tradições, as histórias e os saberes latino-americanos para discutir alternativas. É uma discussão importantíssima para uma região que assiste, atônita, ao ressurgimento de governos escancaradamente identificados com projetos conservadores e neoliberais, como as administrações de Mauricio Macri, na Argentina, e de Michel Temer, no Brasil.

Os textos lançam hipóteses sobre como e por quê, apesar de resultados inéditos na redução da pobreza e da desigualdade, os presidentes da chamada “esquerda latino-americana” não conseguiram eliminar a miséria ou promover mudanças estruturais em seus países. Segundo os autores, a resposta passa justamente pela promessa falida do desenvolvimento, que aprofundou ainda mais nossa dependência de exportações primárias à medida que patrocinou a espoliação territorial e cultural de povos e comunidades tradicionais nas últimas fronteiras da devastação. Conquistou-se o Estado, mas não o poder. E os governos progressistas, assim como os as ditaduras e as gestões neoliberais a quem tanto haviam criticado em suas trajetórias de ascensão, continuaram erroneamente pela trilha enganosa do progresso.

Descolonizar o imaginário conta com artigos de expoentes do novo pensamento latino-americano, como o equatoriano Alberto Acosta, o uruguaio Eduardo Gudynas, o venezuelano Edgardo Lander e a argentina Maristella Svampa, que há anos se dedicam a teorizar sobre alternativas políticas, econômicas e sociais baseadas em uma relação harmônica entre Humanidade e Natureza. A crítica em relação à instrumentalização da Natureza pelo ser humano também dá o tom dos textos assinados por Camila Moreno, Verena Glass, Felício de Araújo Pontes Júnior e Lucivaldo Vasconcelos Barros, que problematizam, em diferentes abordagens, os impactos negativos da inserção subordinada no mercado internacional, da financeirização das questões ambientais e das violações decorrentes de megaempreendimentos.

Maristella Svampa e Eduardo Gudynas enfatizam a necessidade de construções que extrapolem a noção de desenvolvimento, tão cara a determinados governos da região, inclusive aos progressistas, seja partindo das novas gramáticas de lutas sociais da América Latina, seja relacionando algumas propostas para a transição ao pós-extrativismo a partir do Bem Viver. Esse também é o caso do texto escrito por Margarita Aguinaga, Miriam Lang, Dunia Mokrani e Alejandra Santillana, que assinalam como o feminismo pode contribuir com essa discussão, articulando processos de descolonização e despatriacalização. Mario Rodríguez, por sua vez, situa esse debate no ambiente urbano, propondo a reconfiguração das cidades a partir de outros modelos de viver e conviver.

Klaus Meschkat, Ulrich Brand e Edgardo Lander enfatizam o papel do Estado nos processos de transformação, com especial atenção para os desafios e limites relacionados aos governos progressistas. Nesse sentido, o texto de Alexandra Martínez, Sandra Rátiva, Belén Cevallos e Dunia Mokrani aprofunda a discussão sobre as dificuldades de se transformar as instituições, refletindo em particular sobre as experiências na Bolívia, na Colômbia, no Equador e na Venezuela. Por fim, Horacio Machado Aráoz encerra a coletânea atualizando o debate sobre as alternativas ao desenvolvimento com o recente refluxo das forças políticas progressistas que hegemonizaram o continente na última década.

Descolonizar o imaginário pretende, assim, contribuir com o desafio de construir horizontes emancipadores para nosso continente, a partir das necessidades expressas por nossos povos. Os tempos são de urgência: afloram os sinais de falência das propostas políticas que, embora tenham canalizado a esperança da região por algum tempo, resignaram-se a exaurir essa potência caminhando pela linha da menor resistência e pactuando com o poder oligárquico. Pensar “fora da caixa”, reagrupar a energia social do continente, aprofundar nosso horizonte democrático e romper com o modelo primário exportador que nos é imposto desde o sistema colonial certamente são aspectos que constarão de qualquer proposta transformadora para a América Latina — e que está presente no livro.

 


Debate de lançamento
Dia 22 de agosto, às 19h
Debatedoras: Camila Moreno, Dunia Mokrani, Guilherme Mello, Karin Gabbert, Isabel Loureiro e Verena Glass
Mediação: Gerhard Dilger e Jorge Pereira Filho
Auditório da Fundação Rosa Luxemburgo
Rua Ferreira de Araújo, 36, Pinheiros, São Paulo-SP