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no espelho do terror

No espelho escuro da pandemia

Por Gabriel Ferreira Zacarias
Publicado originalmente em Cult

A sociedade que suprime a distância geográfica
recolhe internamente a distância, enquanto distância espetacular.
— Guy Debord, A sociedade do espetáculo, §167

Conversando com um amigo que mora em Bergamo — cidade no Norte da Itália onde estudei e que é hoje uma das mais afetadas pela epidemia do Coronavirus —, este me descreveu a situação como “um episódio infinito de Black mirror”. Com efeito, é difícil afastar a sensação de que estamos vivendo uma distopia, como essas representadas nas tantas séries do gênero. Black mirror, a mais famosa delas, carrega não à toa o termo “espelho” em seu título.

Seus episódios não representam um mundo distante — tempos longínquos, galáxias remotas, universos paralelos — mas simplesmente algo como um futuro próximo de datação incerta. Ao mesmo tempo estranhos e familiares, seus enredos se baseiam em recrudescimentos de tendências já presentes no quotidiano que vivemos. Talvez, o que passamos nesse momento possa ser compreendido da mesma forma. O descarrilho da normalidade parece anunciar um futuro próximo (já iniciado) ao mesmo tempo estranho e familiar. Podemos aprender algo sobre o mundo em que vivemos com esse “episódio infinito”?

Os momentos de crise ou excepcionais podem servir ao menos para compreendermos melhor, e criticamente, nossa normalidade habitual. Propus alhures que nos mirássemos no “espelho do terror”, como forma de melhor compreender a sociedade do capitalismo tardio que ensejara as novas formas de terrorismo. De maneira análoga, creio que caiba refletir sobre aquilo que encontramos de nosso presente na imagem que está se formando no espelho escuro da pandemia.

Há certamente muito a se pensar em diferentes planos — com relação à organização política, à reprodução econômica, à relação com a natureza ou os usos da ciência. Aqui, quero problematizar apenas uma questão: a ideia de “distanciamento social”, rapidamente aceita como norma, com a progressiva interdição dos encontros e a conformação de uma vida quotidiana em confinamento ao redor do globo. A situação pandêmica repousa sobre uma contradição que precisa ser sublinhada. A rápida expansão da doença resulta dos fluxos globais que unificaram as populações em escala planetária.

Do estado de pandemia nasce um paradoxo único de uma população global unificada em um mesmo estado de confinamento. Há, em suma, um isolamento concreto dos indivíduos em um mundo que está inteiramente conectado. Esse paradoxo não é um paradoxo exclusivo da pandemia, mas sim um paradoxo que a pandemia levou a seu extremo, tornando-o visível. Na verdade, a dialética entre separação e unificação (do separado) está na base do desenvolvimento do capitalismo ocidental que unificou o globo.

Guy Debord já havia notado essa contradição estruturante quando procurou compreender a fase “espetacular” do capitalismo, que se anunciava em meados do século passado. Aquilo que chamou de sociedade do espetáculo era uma forma de sociedade baseada no princípio da separação. O que foi comumente descrito como uma sociedade da comunicação de massa podia ser entendida inversamente como uma sociedade na qual a faculdade de comunicar era massivamente perdida.

A comunicação, em sentido forte, era o apanágio da vida comunitária, uma linguagem comum ensejada por uma vivência em comum. O que acontecia nas sociedades do capitalismo avançado era precisamente o contrário. A expansão no espaço — grandes cidades, subúrbios afastados, circulação econômica global — e a racionalização do trabalho, com a hiperespecialização das tarefas individuais, significaram o afastamento concreto entre as pessoas e a perda de entendimentos comuns, fator ainda acrescido pelo monopólio estatal sobre a organização da vida coletiva.

A perda progressiva da comunidade e de suas formas de comunicação eram, portanto, a pré-condição para o surgimento dos meios de comunicação de massa — os quais eram o contrário de meios de comunicação, uma vez que assentes no crescente isolamento real. A imagem de milhões de espectadores prostrados diante de aparelhos de televisão, que apenas consomem os mesmos conteúdos, mas em nada se comunicam, permanecia como figuração clara do fato de que, como escreveu Debord, “o espetáculo reúne o separado, mas apenas enquanto separado” (§29).

Para muitos, porém, essa figuração e a crítica que a acompanha teriam se tornado obsoletas no mundo atual, com o advento da internet e suas derivações. Em vez de espectadores prostrados passivamente diante de aparelhos televisivos, teríamos hoje espectadores ativos, trocando mensagens, produzindo e difundindo conteúdos. Mas a verdade é que nada nos últimos cinquenta anos colocou em questão a separação fundante que subjaz ao próprio avanço das tecnologias de comunicação. Bastaria como exemplo a cena tão corriqueira de uma mesa de restaurante no qual cada indivíduo olha para seu próprio telefone em vez de conversar. O separado é reunido como separado até no mesmo espaço físico.

O que nos foi subtraído agora, em meio à crise pandêmica, foi essa possibilidade de coabitar o espaço físico. Nas condições atuais, a interdição dos encontros e a obrigação do isolamento parecem mais fáceis de se impor à população global do que seria provavelmente uma interdição ou uma pane da internet e das redes sociais. Ironicamente, o “distanciamento social” é agora evocado como a grande salvação de uma sociedade que sempre esteve fundada no distanciamento.

O único lugar de encontro que existe na sociedade produtora de mercadorias é, na verdade, o mercado — é para lá que as mercadorias levam pelas mãos seus produtores e consumidores, e é por conta delas que os homens se encontram. É o tolhimento desses encontros, agora sendo interditados, que tanto espanta — o fechamento dos espaços de trabalho e de consumo.

Mas o capitalismo, que era uma relação social mediada por coisas, desdobrou-se em espetáculo, em relação social mediada por imagens. E já é possível estar nos espaços sem estar neles; é possível trabalhar (até certo ponto) e consumir (sem limites) sem a necessidade de sair de casa. A grande promessa reiterada pela publicidade de ter o mundo à mão graças a um simples toque na tela — tudo pode ser comprado e entregue em sua casa — não foi sempre a promessa de um confinamento voluntário?

Nesse sentido, o estado de exceção da pandemia parece ter realizado, ao menos em parte, o sonho do capitalismo. Se o episódio distópico que vivemos se revelasse mesmo um “episódio infinito”, não seria difícil imaginar uma população inteiramente acostumada às relações virtuais, ao confinamento regado a delivery e Netflix. As viagens seriam interditadas e restritas aos fluxos de mercadorias, agora frutos de um setor produtivo majoritariamente automatizado.

A luta do espetáculo para destruir a rua, o encontro e os espaços de diálogo — apenas da comunicação pode nascer uma alternativa à pseudocomunicação espetacular — estaria finalmente vencida. O espaço real pertenceria agora apenas às mercadorias; os seres humanos, confinados, refugiando-se na virtualidade. A circulação humana, “subproduto da circulação das mercadorias”, seria agora dispensável, em um mundo inteiramente entregue às “mercadorias e suas paixões” (A Sociedade do espetáculo, §168 e §66)

Isso é apenas um esforço imaginativo — um cenário, ainda, pouco provável, embora seja fácil antecipar um futuro com um acréscimo significativo no controle sobre os fluxos globais e a circulação de pessoas com base em argumentos sanitários, seguindo-se uma normalização de parte das medidas atuais de exceção (como vimos acontecer com relação ao terrorismo desde os ataques de 11 de setembro de 2001).

De toda forma, é sempre temerário fazer prognósticos em meio a tantas incertezas. Mas o momento requer reflexões e o que podemos fazer de melhor é pensar sobre aquilo que já conhecemos. Aquilo que talvez sintamos como menos problemático neste momento é o que talvez mais precise ser problematizado. Resta esperar que o distanciamento social se converta em distanciamento (Verfremdung) no sentido de Brecht — ruptura com a representação autonomizada da sociedade do espetáculo e suas ilusões (entre elas, a maior de todas: a da economia capitalista, reprodução insensata e incessante de valor abstrato em detrimento da vida).

Um distanciamento, portanto, dessa forma de sociedade: oportunidade necessária de repensar, criticamente, as separações que a fundam, e os limites profundos da vida quotidiana que o capitalismo tardio nos impõe.


Gabriel Zacarias é professor de história da arte na Unicamp e atualmente é pesquisador visitante da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. É autor de No espelho do terror: jihad e espetáculo (Elefante, 2018).

O terror que se aproxima

Por Gabriel Ferreira Zacarias
Publicado originalmente na Revista Cult
26 out. 2018

 

O desprezo de Jair Bolsonaro e sua família pelas instituições republicanas e sua ignóbil admiração, tantas vezes proclamada, pelo abjeto torturador Carlos Ustra, indicam que o risco de um terrorismo de Estado paira novamente como ameaça real sobre a democracia brasileira. Muitos, porém, com grande otimismo ou cegueira, descartam essa ameaça como demasiado remota.

Se aceitarmos essa versão, que aposta na pouca fiabilidade do que diz o personagem bufão, não estaremos livres da ameaça de um terror cotidiano — como demonstram as dezenas de casos de violências contra minorias e opositores políticos registrados desde o primeiro turno da eleição. Gostaria de fazer uma breve reflexão sobre essa questão, com base em análises que fiz do terrorismo na Europa, e que compõem ensaio recentemente publicado.

O terrorismo contemporâneo, tal qual demonstram os casos recentes de ataques terroristas nos países do hemisfério norte, tem se caracterizado por algo que chamei de “terrorismo faça você mesmo”. No estudo que fiz sobre o problema do terrorismo na França, chamou atenção o caráter difuso do novo terrorismo, impulsionado por uma sociedade na qual os elos sociais se estabelecem prioritariamente por mediações virtuais e não mais por formas diretas de relações humanas.

Diferentemente do que ocorria no passado, hoje não é mais necessária a existência de grupos com organizações centralizadas que forneçam as condições materiais e estratégicas para a ação terrorista. As ações podem ser frutos de indivíduos que se identificam imaginariamente com os símbolos e valores de grupos maiores. Assim, parte dos atentados atribuídos ao Estado Islâmico na Europa foram cometidos por indivíduos nascidos no continente e que nunca haviam abandonado seu país de nascença, ou seja, que jamais tinham tido contato direto com a organização no Oriente Médio. Sua relação se dava pelas redes sociais de pró-jihadistas e seus atos eram impulsionados pela certeza de que seriam recompensados pela admiração nessas mesmas redes.

Portanto, a forma atual do terrorismo é justamente a de atos violentos isolados que não são diretamente ordenados pelas lideranças. Tudo que essas lideranças têm de fazer é fornecer um conjunto simbólico que justifique a violência, que a torne socialmente reconhecida, mesmo que no interior de uma coletividade delimitada. No caso do terrorismo islâmico, os valores reivindicados pelo fundamentalismo muçulmano em oposição àquilo que veem como um Ocidente degenerado tornam-se justificativas suficientes para que indivíduos disparem a esmo contra multidões ou joguem veículos sobre transeuntes. Ações que poderíamos nomear simples atos de loucura, e que não deixam de sê-lo, mas que aparecem como dotados de racionalidade para aqueles que se acreditam em uma espécie de “guerra santa”. A linha que separa o ato de loucura do ato de terrorismo tornou-se demasiado tênue, e por consequência tornou-se igualmente tênue a linha que separa o ato isolado do projeto coletivo.

Erich Fromm fazia uma distinção entre patologias e defeitos socialmente moldados, isto é, traços de caráter que não são mais percebidos como patológicos em dadas condições sociais. O que pode parecer como pura loucura em uma coletividade pode ter uma legitimidade em outra, e isso vale sobretudo para as manifestações de violência. O termo amok, que identificava uma prática ritual de violência cega em povos malásios, é usado hoje para designar os casos de violência incompreensíveis para a racionalidade ocidental, casos como o dos chamados “atiradores loucos”, que em explosões de raiva disparam a esmo sobre a multidão. Agora, parte desses atiradores loucos – ou em alguns casos, atropeladores loucos – são simplesmente designados como terroristas. A vazão de sua violência encontrou uma forma simbólica, que é fornecida pelo fundamentalismo, e que, portanto, não é mais descartada como simples loucura.

Se um líder político apregoa o uso livre da violência e nomeia insistentemente grupos que valem menos, está autorizando com falas e ações que indivíduos descarreguem sua raiva sobre esses mesmos grupos. É interessante notar aqui a semelhança que há nos alvos escolhidos pelo fundamentalismo islâmico e pelo fundamentalismo bolsonarista. Em ambos os casos, existe a veiculação de uma moral religiosa que condena a diversidade sexual e que se volta contra os setores progressistas da sociedade.

Quando dos ataques de novembro de 2015 em Paris, muitos se perguntaram por que um de seus alvos foi a região do Canal Saint Martin, frequentada por pessoas tolerantes à diversidade religiosa e comumente defensores da imigração, em vez de se voltar contra alvos associados ao Front National, partido conhecidamente xenófobo e anti-muçulmano. Acontece que tanto os correligionários do Front National quanto os partidários do Estado Islâmico manifestam incompreensão e ressentimento para com sociedades plurais e fundadas na diversidade, e veem como principais inimigos aqueles que lutam pela defesa de uma sociedade plural.

Algo semelhante ocorre hoje no Brasil, onde os meios culturais, artísticos e universitários estão entre os alvos prioritários do ressentimento bolsonarista, um ressentimento fundado em mentiras e desconhecimento, mas também na identificação correta de que esses espaços permanecem bastiões de luta contra qualquer fundamentalismo. Diversas universidades têm sido pichadas com ameaças e suásticas nas últimas semanas. Para ficar apenas no exemplo que me está mais próximo, na biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp, os dizeres associavam nazismo e school shooting, as suásticas sendo acompanhadas da ameaça “vai ter Columbine” (em referência ao histórico massacre escolar de 1999). O autor, já identificado, é mentalmente instável. Mas não deixa de ser relevante que tenha percebido uma articulação possível entre uma simbolização política e um gesto violento codificado e identificado com o ambiente de ensino.

A ausência de controle sobre os correligionários, que Bolsonaro evoca em sua defesa, não o isenta de responsabilidade sobre atos que tornam reais as ameaças contidas em suas falas. Se olharmos para o terrorismo contemporâneo, veremos que a falta de um controle em nada reduz os riscos da violência, a anuência simbólica sendo mais do que suficiente para dar aval ao terror. E lembremos que, caso Bolsonaro seja eleito, esta é apenas a perspectiva otimista.

 

Imagem: Andy Warhol, “Guns”, 1982.

Nós e o terrorismo

Choque de civilizações? Guerra santa? O historiador Gabriel Ferreira Zacarias tem outra interpretação sobre as “novas” modalidades de terrorismo praticadas pelo Estado Islâmico na França, em 2015 e 2016, e que logo repercutiram em outros países: trata-se de um fenômeno da sociedade do espetáculo.

“Foi o caráter profundamente espetacular dos ataques que primeiro me chamou a atenção nestes episódios, e que tentei elucidar”, escreve o autor na introdução de No espelho do terror: jihad e espetáculo, lançamento de outubro da Editora Elefante. Zacarias é professor de História da Arte na Unicamp e vivia na França como pesquisador na ocasião dos atentados em Paris.

Zacarias aponta que as sociedades do capitalismo avançado têm muito mais a ver com os recentes ataques jihadistas do que sugere o histórico intervencionismo político, econômico e militar ocidental no Oriente Médio. “Pretendo buscar uma compreensão de nossa sociedade através do terrorismo.”

No espelho do terror é resultado do olhar de Zacarias sobre a série de episódios inaugurada pelo atentado ao jornal Charlie Hebdo, em Paris, e que teve prosseguimento com a invasão da casa de shows Bataclan, também na capital francesa, antes de se espalharem por outros países do mundo desenvolvido graças à ação de atiradores e veículos desgovernados.

O autor reconhece nestes ataques traços característicos não de uma sociedade outra, perdida nos confins da Ásia ou da África, mas sim daquela em que vivemos: a sociedade do capitalismo avançado. Assim, o terrorismo que vemos e sofremos pode ajudar a compreender o que somos — e o que nos tornamos.

 


 

FICHA TÉCNICA

No espelho do terror: jihad e espetáculo
Autor: Gabriel Ferreira Zacarias
Capa & projeto gráfico: Lívia Takemura
Preparação & edição: Tadeu Breda
Editora Elefante
Lançamento: outubro 2018
Páginas: 64
ISBN: 978-85-93115-17-2
Dimensões: 13,5 x 18 cm