Vice de Alckmin, Ana Amélia é defensora da indústria do cigarro

Candidata a vice na chapa do presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB-SP), médico de formação, a senadora gaúcha Ana Amélia defende os cultivos de tabaco no Brasil com unhas e dentes. Sempre que tem a oportunidade, a parlamentar ruralista grita pelos “interesses dos produtores” concentrados no Rio Grande do Sul, mesmo que a realidade dos agricultores seja muitas vezes deixada de lado em prol dos benefícios às grandes indústrias do cigarro.

O que Ana Amélia não faz é informar que o PP, seu partido, é a legenda com ligações históricas mais fortes com a indústria fumageira, sendo o destinatário de doações expressivas de dinheiro do tabaco para campanhas eleitorais. Ana Amélia também é conhecida por tentar interferir a favor das empresas em consultas públicas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quando as propostas visam à regulação do setor.

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“Essa evocação da defesa do produtor é problemática. Se a senadora e a ‘bancada do fumo’ defendem exclusivamente o agricultor, por que é a indústria do cigarro quem os financia?”, questionam João Peres e Moriti Neto, autores do livro-reportagem Roucos e sufocados: a indústria do cigarro está viva, e matando, que será lançado pela Editora Elefante no dia 29 de agosto, no Rio de Janeiro, e, em 4 de setembro, na cidade de São Paulo.

A publicação desvenda as ligações ocultas da indústria fumageira com políticos, juízes, ex-ministros do STF, meios de comunicação e entidades de combate ao contrabando, entre outros poderosos. A candidata a vice de Geraldo Alckmin é apenas uma delas. Como Ana Amélia, uma série de figuras públicas tentam, mas mal conseguem esconder para quem trabalham. São vozes roucas que agora podem se instalar no Planalto.

Livro explica por que a indústria do cigarro continua tão poderosa

Maior exportador mundial de tabaco em folha desde os anos 1990, o Brasil enche os pulmões do mundo com nicotina. Mas pouca gente sabe disso. E ainda menos gente conhece o poderio da indústria fumageira no país. Quem acredita que Philip Morris, Souza Cruz e outras gigantes do setor foram feridas de morte com a proibição da publicidade do cigarro não poderia estar mais enganado.

É por isso que estamos publicando o livro Roucos e sufocados: a indústria do cigarro está viva, e matando, de João Peres e Moriti Neto. O livro-reportagem oferece um retrato singular do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, coração da fumicultura nacional, de onde emana o discurso – e o lobby – em defesa do cigarro: tudo muito disfarçado, mas com muita eficácia.

A obra vai a fundo na análise da retórica que mistura os interesses de pequenos produtores rurais em busca da sobrevivência aos de megacorporações interessadas em potencializar seus já enormes lucros. Os autores desvendam como essa retórica é utilizada para frear políticas de controle do tabagismo, entrelaçando políticos, meios de comunicação, sindicatos, organizações que dizem combater o contrabando e até perfis falsos nas redes sociais.

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“A fundamentação argumentativa importa pouco. O que ganha relevância na estratégia da indústria são as frases de efeito, os chavões e a via discursiva que busca o constrangimento dos atores que lhe fazem oposição”, resume Roucos e sufocados. “Apesar de adaptada a uma ideia com ares de modernidade (o conceito de rede), a estratégia é velha: repetir mentiras incansavelmente para que se tornem ‘verdades’ perante uma parcela da sociedade.”

O centro da articulação são as 150 mil famílias rurais responsáveis pelo plantio de tabaco. Elas têm muitos votos, enquanto as empresas têm muito dinheiro. O resultado é a eleição da bancada do fumo, capaz de fazer barulho e pressão nos órgãos municipais, estaduais e federais. Uma história que remete ao começo do século 20, mas que irrompe com força total nas últimas décadas.

As grandes empresas rumaram aos países de média e baixa renda em busca de mercados menos regulados e lucros mais altos. O Brasil ofereceu a acolhida perfeita para essa operação. Parlamentares, prefeitos, ex-ministros, ex-integrantes do STF e ex-secretários da Receita: uma vasta e poderosa rede na defesa disfarçada de um setor que mata metade da própria freguesia.