O caso da China: um salto rumo ao Capitaloceno
A Elefante está lançando Capitaloceno: uma história radical da crise climática, de Francisco Serratos (tradução de Reginaldo Pujol Filho). Segue abaixo o início de um capítulo sobre a China, já na reta final do livro. Outros trechos já publicados em nosso blog: aqui e aqui.
1949–1976 | A China adentra o Capitaloceno
A história ambiental da China é muito diferente da russa ou da soviética por várias razões atreladas a seu próprio desenvolvimento como império e depois como país, à sua relação comercial com o resto do mundo e às filosofias tradicionais que embasam a relação dos chineses com a natureza. É prudente começar com uma breve explicação sobre este último ponto, já que serve de prólogo para entender o que mudou com a chegada de Mao Tsé-Tung ao poder. Segundo Judith Shapiro, existem três escolas filosóficas tradicionais que determinam historicamente a postura dos chineses diante da natureza: a filosofia taoista diz que os humanos devem se adaptar às disposições naturais, viver em harmonia e de acordo com os meios que a natureza oferece; o budismo prega uma reverência a todos os entes vivos do planeta e um uso moderado e desinteressado dos recursos naturais; e o confucionismo defende uma utilização e um controle da natureza com certas reservas, sempre e quando a humanidade se beneficiar disso. A tradição confuciana, diz Shapiro (2001, p. 7), é a que mais impacto teve na história da China, pois deu forma a grandes projetos de infraestrutura, reorganização do território e empresas comerciais. O comunismo — a quarta filosofia — romperia de maneira abrupta, violenta e irracional com essas três tradições: tratou-se, literalmente, de uma declaração de guerra contra a natureza. Um resumo das diferenças entre as filosofias clássicas e o comunismo maoista está em dois ditos populares. A China tradicional é representada na frase tian rén hé yi, que poderia ser traduzida como “harmonia entre os céus e a humanidade”, ou seja, que o humano é parte integral da natureza. Esse dito foi trocado na era Mao por rén dìng shèng tian, cujo significado é “o homem pode conquistar a natureza”. Por fim, na China contemporânea, aberta ao capital estrangeiro e convertida na chaminé da indústria mundial, tais refrãos foram radicalmente substituídos por yi qiè xiàng qián kàn, que significa “ponha o dinheiro acima de tudo” ou “veja o dinheiro em tudo” (Shapiro, 2001, p. 10).
Convém frisar que a história ambiental da China é obviamente mais complexa do que esses ditados, pois quase sempre é filtrada por um comunismo que, embora tenha causado danos irreparáveis a alguns ecossistemas, é descrito como uma força exterior que irrompeu em um país cuja relação com anatureza era harmônica, espiritual ou estável. Como Pomeranz demonstrou em A grande divergência, seu clássico estudo sobre as semelhanças entre as economias europeia e chinesa antes da Revolução Industrial, ambas tinham correspondências e contavam com indústrias robustas a seu modo, uma população vibrante e uma ecologia que, antes de chegar a um ponto crítico de desgaste, permitiu o enriquecimento. Para Pomeranz, em muitos setores, a China era superior à Europa. Foi apenas depois da adoção do carvão — juntamente com os recursos extraídos da América e o uso de mão de obra escravizada — que a Europa, especificamente o Reino Unido, com suas ricas minas de carvão, tomou a frente e superou a China (Pomeranz, 2000, p. 183 [2013]). Porém, antes dessa vantagem energética, o país asiático, sendo o principal fornecedor de mercadorias consumidas pelos europeus ricos — entre as quais o chá e a seda —, submeteu várias de suas regiões, como o Delta do Rio Yangtzé, a uma exploração exagerada. Mark Elvin chega a essa mesma conclusão em sua monumental história ambiental da China: até 1800, os chineses haviam degradado muito mais seus principais ecossistemas de subsistência e comércio do que os europeus. Desse modo, parece que a história econômica e ecológica do gigante asiático é uma longue durée com um imenso arco, na qual o comunismo, como um parêntese, pretende ser a pior de suas etapas. Vejamos por quê.
Sob a égide da conquista da natureza, o maoismo realizou empreendimentos faraônicos de infraestrutura desde sua vitória em 1949 até 1976, ano da morte do “Grande Timoneiro”. E isso perdura até hoje. Da mesma maneira que na União Soviética, esses empreendimentos foram organizados em programas ou planos, sendo o Grande Salto Adiante o de maior transcendência devido a seu impacto ambiental e humano. O espírito que movia o Grande Salto, afirma Shapiro, eram a urgência e a velocidade para empreender campanhas de caráter variados, entre as quais o aumento deliberado da população, a construção de represas, a eliminação de certas espécies consideradas como pragas — a famosa Campanha das Quatro Pragas contra ratos, mosquitos, moscas e pardais —, o plantio de árvores não nativas, como espécies produtoras de látex, o desmatamento de montanhas visando a agricultura e uma industrialização desenfreada. Cada uma dessas campanhas foi planejada e executada de acordo com as ideias e experiências de Mao, cuja formação se deu em um contexto estritamente militar. Nesse sentido, a conquista da natureza, em poucas palavras, significa lançar uma guerra contra a natureza. O voluntarismo revolucionário, assim pensavam Mao e seus “experts vermelhos”, inevitavelmente superaria qualquer obstáculo ambiental: as montanhas se dobrariam, os rios seriam domesticados, as pragas, eliminadas, e a população, como um exército, triunfaria e se elevaria diante de qualquer muro natural.
Para além das contradições evidentes entre o maoismo e as filosofias chinesas tradicionais, a história da China se complexifica se considerarmos que a alteração dos seus ecossistemas remonta a vários séculos antes do surgimento do comunismo. Pode-se dizer que, dentro dessa longue durée, o comunismo foi mais um capítulo da história de um povo — junto com seus grupos minoritários — e seus meios de subsistência do que uma história de ameaça à biosfera, como foi interpretado por importantes historiadores ambientais, entre eles McNeill. Isso não exime nem absolve, em nenhum sentido, o experimento maoista por ter tido como resultado uma das piores tragédias da história da humanidade: a morte, por fome, de milhões e milhões de pessoas. Os números, embora ainda sejam objeto de debate, estão entre 35 milhões e 50 milhões de pessoas em apenas três anos, de 1959 a 1961 (Shapiro, 2001,p. 89). Sem dúvida, as causas da calamidade foram o mau planejamento, a destruição irracional e a realização de projetos insustentáveis, todos derivados de um culto à personalidade de Mao. Mas ele não foi o único responsável. Esses projetos mobilizaram líderes e milhões de pessoas que, por sua vez e por sua conta, se enredaram com infraestruturas babilônicas, mentiras e dados falsos. Neste capítulo, seguindo a cronologia de Shapiro, tentarei explicar alguns dos maiores problemas enfrentados e causados por Mao Tsé-Tung e seu séquito de seguidores incondicionais.
Em 1958, Mao apresentou suas crenças com as seguintes palavras: “‘Faça a alta montanha curvar-se; faça o rio abrir caminho’. É uma excelente frase. Quando exigimos à alta montanha que se curve, ela tem de fazê-lo! Quando exigimos ao rio que ceda o caminho, ele tem de ceder!”. Não há obstáculo para o ser humano, nem sequer o impensável, foi o que Mao respondeu a uma frase de Stálin que dizia que o ser humano não poderia alterar a astronomia, a geologia e os processos naturais: “Essa noção está incorreta”, Mao declarou, “a capacidade do homem de conhecer e mudar a natureza é ilimitada” (apud Shapiro, 2001,p. 68). No que ele concordava com a União Soviética era quanto à necessidade do voluntarismo para demonstrar a superioridade do socialismo frente ao capitalismo para subjugar a natureza. Se os soviéticos tinham como meta provar a supremacia do socialismo sobre a hegemonia estadunidense, os chineses desejavam fazer o mesmo com relação aos britânicos em função das feridas coloniais que a Inglaterra havia aberto na China. Essa ambição se concentrou especialmente na produção do aço. De fato, quando Kruschev visitou a China em 1958 e soube dos números relativos ao aço, sobretudo por causa da carência de uma indústria de transformação, o líder soviético pôs em dúvida a viabilidade da meta chinesa. Mas Mao, em vez de ouvir o soviético, aumentou a expectativa. O Partido Comunista chinês ordenou, então, a instalação de fornos nas comunas e nos bairros urbanos. Cerca de noventa milhões de pessoas puseram mãos à obra para derreter panelas, bicicletas e maçanetas de portas para produzir aço, ainda que de baixa qualidade, para atingir a meta estipulada por Mao. E todos esses fornos demandavam quantidades enormes de energia. Por isso, nas regiões sem acesso ao carvão, o desmatamento disparou: nas províncias de Yunnan e Sichuan, cerca de 10% das florestas foram perdidas em um ano. Em outras como Hunan e Guangdong, calcula-se que entre um terço e metade das árvores foram derrubadas (McNeill & Engelke, 2014,p. 170).
Um dos primeiros problemas enfrentados pelo regime comunista na China, no momento de acelerar a produção, foi a superpopulação. Assim como na União Soviética, que no início fora uma aliada e um modelo a ser seguido pelo regime maoista, a preocupação em torno do excesso populacional e de seu controle era percebida como uma marca das sociedades capitalistas regidas pela ansiedade malthusiana. O malthusianismo era percebido como uma ideia reacionária que simplesmente não tinha espaço no projeto socialista e menos ainda no projeto maoista: a questão populacional não devia representar um problema porque o trabalho e o esforço das pessoas seriam a solução para dar conta da demanda por alimentos. Isso não significa que os líderes comunistas, e muito menos Mao, não estivessem conscientes do crescimento excessivo da população. Estavam. Porém, longe de verem nisso uma preocupação, viam uma oportunidade. Desde o século XVIII até 1850, a população chinesa vinha crescendo a passos largos devido às bem-sucedidas práticas de cultivo de alimentos, à abertura de fronteiras agrícolas e à relativa paz no Império. Nesse período, a população triplicou e seguiu nesse ritmo até a metade do século XX, apesar das mortes provocadas pela seca do final do século XIX e pela guerra de 1894 contra o Japão imperialista (Shapiro, 2001, p. 30). Em 1953, a população havia chegado a mais de 600 milhões de pessoas — incluindo Taiwan e outras localidades. Uma década mais tarde, o número se aproximou dos 700 milhões na China continental. E, em1969, tinha crescido para 800 milhões.
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