Um livro fundamental sobre amor livre, respeito e cuidado

“Muita gente sonha em viver em abundância de amor, sexo e amizade”, escrevem Janet W. Hardy e Dossie Easton na primeira linha de Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas, cuja pré-venda com desconto e frete grátis começa neste dia dos namorados no site da Editora Elefante. O livro tem projeto gráfico de Luciana Facchini e ilustrações de Ariádine Menezes.

O crescente interesse em formatos não convencionais de compartilhar uma vida e ser feliz com alguém (ou alguéns) — e a escassez de referências para além de fóruns de internet — fez com que corrêssemos atrás de bons livros sobre o tema. E encontramos. Ética do amor livre tem sido muito lido e debatido em alguns países mundo afora. E, mais importante: sem a pretensão de esgotar o assunto, a obra tem contribuído para a compreensão do que é e pode ser o amor livre na vida real, para além de preconceitos ou romantizações.

“Alguns acreditam que é impossível ter uma vida assim, se contentam com menos do que gostariam e acabam de certa forma se sentindo solitários e insatisfeitos. Outras pessoas tentam alcançar seus sonhos, mas pressões sociais externas ou seus próprios sentimentos acabam por interromper essa busca”, ponderam as autoras. “No entanto, algumas poucas pessoas persistem e descobrem que amar, ter intimidade e fazer sexo abertamente com muita gente não só é possível como também pode ser recompensador de um jeito que jamais podiam imaginar.”

Janet W. Hardy e Dossie Easton partiram de suas experiências pessoais como adeptas de relações monogâmicas para construir o livro. Como explica uma reportagem da revista Rolling Stone, a ideia de escrever Ética do amor livrepartiu da constatação de que tinham vidas sexuais radicalmente diferentes dos padrões afetivos bombardeados pelo senso comum da televisão — o que, muitas vezes, acarreta frustração e infelicidade. Por isso, se juntaram para colocar no papel suas vivências de mais de quarenta anos como pessoas “promíscuas” — palavra cujo sentido querem disputar.

“Na maior parte do mundo, ‘promíscua’ é uma palavra altamente ofensiva para descrever uma mulher cuja sexualidade é voraz, indiscriminada e infame. É interessante notar que os termos análogos, ‘garanhão’ ou ‘pegador’, usados para descrever homens altamente sexuais, são em geral usados para indicar aprovação e inveja”, comparam as autoras. “Se questionamos a respeito da moral de um homem, provavelmente escutaremos sobre a sua honestidade, lealdade, integridade e princípios elevados. Se perguntamos sobre a moral de uma mulher, é mais provável recebermos informações sobre sua vida sexual. Para nós, isso é um problema.”

De acordo com Janet e Dossie, muito sofrimento poderia ser evitado se, durante a fase de namoro, os casais discutissem a monogamia como uma opção, em vez de assumi-la como padrão — “assim como conversam sobre ter ou não filhos, seguir uma ou duas profissões, ou qualquer outra questão importante que requer uma decisão antes de se prosseguir com o possível compromisso de longo prazo”, escrevem as autoras em um artigo no The New York Times, publicado em 2012. “Monogamia não é uma escolha quando você está proibido de optar por qualquer outro caminho.”

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FICHA TÉCNICA

Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas
Autoras: Janet W. Hardy & Dossie Easton
Tradução: Christiane M. T. Kokubo
Ilustrações: Ariádine Menezes
Capa & projeto gráfico: Luciana Facchini
Edição: Tadeu Breda
Preparação: Paula Carvalho
Lançamento: agosto de 2019
Páginas: ~ 400
Dimensões: 15 x 23 cm

Ética do amor livre: por dentro da crescente aceitação do poliamor

Por Anna Fitzpatrick
Tradução Christiane M. T. Kokubo

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Em 1994, a educadora sexual Janet W. Hardy ficou de cama por um mês com uma bela gripe que viria a se transformar em bronquite. Ela se lembra de estar zapeando pelos canais de tevê, meio dopada após ter tomado um caminhão de remédio, quando se deparou com o filme Proposta indecente.

Na trama, o casal David (Woody Harrelson) e Diana (Demi Moore) enfrenta um dilema moral ao ser abordado pelo bilionário John (Robert Redford), que lhes oferece um milhão de dólares em troca de passar uma noite com Diana. Hardy, hoje com 62 anos, saíra de um casamento havia uma década, e desde então não mantinha relações monogâmicas. Ao ver a cena em que o casal hesita sobre a oferta do bilionário, perguntou-se se estava delirando de febre.

“Eu pensei: o que está acontecendo aqui?”, relata à Rolling Stone durante entrevista em sua casa, no Oregon. “Um milhão de dólares e Robert Redford, e eles encaram isso como um problema? Não fazia sentido para mim. Foi então que realmente entendi como eu havia me distanciado da ética sexual dominante.”

Hardy conversou então com a psicoterapeuta Dossie Easton, sua amiga, e propôs que trabalhassem juntas em um livro sobre a não monogamia. A dupla já havia escrito conjuntamente dois livros sobre práticas sexuais não convencionais que não tiveram muita circulação. Tanto Easton como Hardy se identificam como pessoas queer e poliamorosas. Por isso, queriam reivindicar e ressignificar a palavra “promíscua” (slut) [que dá título à edição original do livro, Ethical slut, algo como “ética da promiscuidade”, em tradução livre].

Easton e Hardy combinaram suas experiências próprias de sexo casual e casamentos abertos, disfrutando de orgias e lutando contra o ciúme. E, em 1997, publicaram Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas [que agora chega ao Brasil graças à Editora Elefante] pela editora independente de Janet, Greenery Press. Em vinte anos, o livro venderia duzentas mil cópias.

O primeiro uso da palavra poliamor é creditado pelas autoras à sacerdotisa pagã Morning Glory Ravenheart Zell, em 1990. Embora diferentes formas de não monogamia tenham se apresentado em várias culturas por milênios, na cultura ocidental do início da década de 1990 a prática ainda era vista como uma alternativa um tanto radical. Hoje, o poliamor está menos ligado a uma subcultura ou identidade específica. Nas duas décadas desde que a primeira edição de Ética do amor livre foi publicada, o poliamor se expandiu para um estilo de vida que, se não pode ser considerado mainstream, é muito mais aceito e compreendido. De acordo com um artigo de 2014 da revista Psychology Today, pelo menos 9,8 milhões de norte-americanos estão em algum tipo de relação não monogâmica.

“Vinte anos atrás, eu costumava receber ligações de produtores de programas o tempo todo, que pediam: ‘Você pode me indicar uma família poli que não seja composta por hippies velhos ou nerds?’”, conta Janet Hardy, rindo. “Hoje em dia, vejo jovens profissionais em minhas palestras. É muito diferente.”

Heather, 35 anos, trabalha com saúde mental e vive com o marido e dois filhos em Toronto, no Canadá. (Seu nome foi mudado para proteger sua privacidade.) O casal começou a namorar quando tinham dezessete anos, logo depois da publicação da primeira edição do Ética do amor livre. Na época, os dois adolescentes canadenses ainda não tinham uma linguagem para descrever o tipo de relação que queriam. 

“Era uma época pré-internet, pré-tudo isso. Seguíamos nosso instinto”, diz ela. “Eu não conhecia a palavra poliamor. Não sabia que havia tanta gente com relacionamentos eticamente não monogâmicos.” Os modelos de relacionamentos de longo prazo aos quais tinham acesso, como o de seus pais ou dos pais dos amigos, eram monogâmicos, mas não pareciam felizes. Tudo o que ela e o namorado sabiam era que gostavam muito um do outro e não sentiam necessidade de serem exclusivos.

“Conversamos e percebemos: ‘Eu não ligo se você flerta com outras pessoas'”, diz ela sobre o início do relacionamento. “Na verdade, é ótimo. Eu adoro esse lado seu.” Heather e o namorado eram ambos extrovertidos e sociáveis, e flertar com outras pessoas parecia natural. Ela, que se identifica como queer, gostava de poder continuar a explorar sua sexualidade com outras mulheres. Aos dezenove anos, resolveram morar juntos. O namorado começou a namorar uma mulher com quem ele trabalhava em um restaurante, e quando Heather a conheceu em uma festa de Natal, percebeu que também se sentia atraída por ela. Os três deram início a um relacionamento em trio que durou pouco menos de um ano. O livro Ética do amor livre descreve esse modelo de relação como uma tríade, mas, na época, nem Heather nem seus parceiros sabiam disso.

“Essa foi uma das nossas primeiras experiências, que não foi casual nem única”, diz ela. “Nós três tínhamos certeza de que estávamos inventando a roda.”

Pouco a pouco, a cultura que a rodeava começou a correr atrás do atraso — o que ela credita à vida em uma cidade progressista como Toronto e à capacidade da internet de “trazer pessoas para fora do mainstream”. Ela finalmente leu Ética do amor livre aos trinta anos, num momento em que o que define como sua própria comunidade de pessoas poli, excêntricas, queer e sensacionais já se encontrava bastante desenvolvida.

Assim como Heather, as autoras Hardy e Easton também tiveram que descobrir seus próprios modelos de relacionamento ideal à medida que viviam. Easton, hoje com 73 anos, estava saindo de um relacionamento traumático durante o verão do amor em 1969 quando decidiu que a única maneira de viver que lhe restava era “sendo uma promíscua. Eu me prometi nunca mais ser monogâmica”, conta. A ideia de um estilo de vida em comunidade a atraía, então partiu com sua filha recém-nascida e encontrou uma casa em um grupo queer de San Francisco. Daí, juntou-se a um grupo chamado Organização Sexual de San Francisco e, em 1973, deu sua primeira palestra sobre o desprendimento de ciúme.

Hardy, 62 anos, estava casada havia treze anos quando, em 1988, percebeu que a monogamia não mais lhe apetecia. Seu casamento terminou na mesma época. Alguns anos depois, em 1992, ela conheceu Easton através de um grupo de BDSM em San Francisco chamado Sociedade de Janus. Easton estava ministrando uma aula chamada “Brincadeira com bastões de Psique a Soma”, e Hardy se ofereceu para ajudá-la a demonstrar. Dois anos depois, a dupla fez uma apresentação sobre sadomasoquismo em Big Sur em um evento Mensa, associação que reúne pessoas de alto QI. (“Quem podia imaginar?”, indaga Hardy.)

“Dossie foi embora para casa porque era algo tão hétero que ela não podia aguentar”, diz Hardy. Mais tarde, uma amiga lhe contou uma conversa ouvida no congresso, em que diziam: “Você ficou sabendo da oficina de sadomasoquismo? As duas mulheres falaram sobre coisas que tinham feito juntas, e um de seus namorados estava bem ali na sala!”. Extravagâncias não surpreendiam o público Mensa, mas a não monogamia ainda chocava em 1994.

Amber (nome fictício) nasceu na mesma época da reunião Mensa, e hoje trabalha com justiça social sem fins lucrativos no Brooklyn, em Nova York. Aos 23 anos, ela é um pouco mais velha que a primeira edição de Ética do amor livre. Seu vocabulário é confortavelmente recheado de termos que Hardy, Easton e Heather levaram anos para começar a usar. Ela prefere o termo “poliamor” a “relacionamento aberto”, porque o último implica uma hierarquia para as pessoas que ela namora, e ela não tem um parceiro primário. Os parceiros com quem tem sexo mas não namora são chamados de “paramores”, enquanto “metamores” são amigas com quem ela divide um parceiro romântico. “Sou sortuda porque a maioria das minhas metamores e eu nos damos bem”, diz ela. “Aprendi uma lição recentemente que você nem sempre vai gostar da sua metamor, e tudo bem.” Gostar da metamor pode levar à “compersão”, que a Ética do amor livredescreve como “o sentimento de alegria que surge ao ver seu parceiro sexualmente feliz com outra pessoa”.

Seu irmão de dezoito anos, que se identifica como queer, também se identifica como poli, e Amber já conversou a respeito com seus pais. “Eu disse a eles da seguinte maneira: ‘Sim, eu estou namorando essa pessoa, e aquela pessoa, e aquela outra’. Contei para a minha mãe e sua primeira preocupação foi: ‘Mas, e se você diz o nome errado durante o sexo?”

Embora Amber só tenha passado a se identificar como poliamorosa há alguns anos — ela tinha dezenove anos quando perguntou ao namorado se eles poderiam abrir o relacionamento –, ela fala com a confiança e a autoridade de alguém que teve permissão para experimentar sua sexualidade à vontade durante toda a vida adulta. Amber enfatiza a necessidade de comunicação em todos os relacionamentos, particularmente quando se trata de ferir sentimentos.

“Tenho certeza de que você está querendo me fazer a grande pergunta sobre ciúme”, ela me diz. “É claro que pessoas poliamorosas sentem ciúme, com a diferença de que vemos isso como uma emoção a ser reconhecida, discutida e trabalhada.” O ciúme geralmente vem da insegurança e do medo, ela diz, resumindo uma grande parte de Ética do amor livre, e pode exigir “auto-reflexão e metacognição” para ser trabalhado. Participante ativa de grupos poli, kink e queer de Nova York, ela frequenta vários eventos por semana, incluindo festas BDSM e de swing. Pergunto se todos os seus parceiros fazem parte da mesma comunidade, e ela ri. “Sim, gostem ou não”, diz. “Mesmo quando você rompe com um parceiro, você ainda segue envolvida com os outros que orbitam ao redor.” Há pouca separação entre vida sexual e vida social. Amber não vê problema nisso, e por que deveria? A palavra “promíscua” não tem mais as mesmas conotações de quando Hardy e Easton tinham 23 anos.

Conforme o poliamor é tratado menos como uma novidade e mais como um modelo de relacionamento válido, começamos a vê-lo representado nos programas de entretenimento. Na série Unicornland, de oito episódios, Annie (Laura Ramadei) está tentando explorar sua sexualidade após o fim do casamento. Ela faz isso “unicorneando” – termo dado a mulheres que se juntam a casais na cama para trios. Cada episódio de três a sete minutos apresenta Annie a um novo casal: casados ​​heterossexuais, lésbicas, excêntricos e de longo prazo que procuram apimentar sua vida sexual. O programa mostra um subconjunto muito específico de poliamor, mas, ao fazê-lo, consegue explorar grande parte da riqueza e complexidade das relações modernas que são ignoradas na maioria das mídias tradicionais.

“Eu sempre estive em relacionamentos longos, e eles sempre tiveram como objetivo o casamento e a longa duração”, diz a criadora do programa, Lucy Gillespie, 32. Como Annie, Gillespie se casou jovem, aos 26 anos, e se separou do marido cerca de quatro meses mais tarde. “Parte da razão pela qual me divorciei foi que eu não sabia como me comunicar em meus relacionamentos e sentia que minhas necessidades eram secundárias em relação às do meu parceiro”, diz ela. “Então, percebi que não precisava fazer isso comigo mesma.” Depois do divórcio, ela fez “uma espécie de passeio pelas opções de relacionamento” e envolveu-se na cena fetichista de Nova York. “No geral, é um mundo cheio de pessoas muito interessantes e muito conscientes, que estão criando, sustentando e mantendo relações poliamorosas éticas que funcionam muito bem.”

Gillespie leu Ética do amor livre há dois anos e começou a escrever Unicornland seis meses depois. A ideia de unicornear a atraía como um dispositivo narrativo, porque a evolução de sua própria sexualidade parecia um processo mental interno. “Na experiência de Annie, ela é realmente capaz de experimentar os relacionamentos de outras pessoas e ver como elas funcionam internamente”, diz Gillespie. “Senti que os casais eram a melhor maneira de Annie experimentar todas essas diferentes facetas do poliamor.” Os oito episódios levam os espectadores a um curso intensivo de muitos dos problemas que os casais poliamorosos enfrentam, como ciúme ou limites do que é ou não permitido. No episódio seis, Kim (Ali Rose Dachis) sai do banheiro e pega Samara (Diana Oh) e Annie se beijando na cama. “Temos regras”, diz ela. “Sem beijo de língua nos encontros casuais.” É uma fala simples que mostra quanto trabalho exige criar e manter um relacionamento saudável, sem o drama de Proposta indecente.

“Temos programas de TV que são especificamente sobre poli”, diz Hardy, ao responder se a situação melhorou desde o filme estrelado por Demi Moore. Ela cita um episódio de Crazy Ex-Girfriend em que a protagonista Rebecca Bunch se encontra apaixonada por dois homens e não consegue decidir por um deles. “Ela entrevista uma poli tríade para descobrir como lidar e descobre que está, na verdade, sendo uma pessoa com limites muito ruins.” Pergunto a Hardy se ela consegue pensar em outros exemplos de poliamor. Ela menciona o não tão recente filme de 2001, Bandits, e Big Love, um drama da HBO sobre polígamos mórmons. Os exemplos não são lá muito abundantes, mas o sucesso crítico de shows como Unicornland e Broad City (em que o personagem de Ilana Glazer namora Hannibal Buress durante as três primeiras temporadas do programa, enquanto continua a fazer sexo com outras pessoas) indica que o público jovem está pronto e aberto para mais.

A edição de vinte anos de Ética do amor livre [que será lançada no Brasil] foi significativamente atualizada e expandida desde sua humilde estreia, incluindo seções sobre pioneiros poli, ativismo negro poli e mudanças de atitude em relação ao poliamor na nova geração. Hardy e Easton reconhecem que os leitores millenials não foram criados no mesmo contexto em que elas cresceram — antes da revolução sexual, quando presevar-se para o casamento era a norma.

A essência do livro, porém, é a mesma de duas décadas atrás. “Uma das coisas radicais sobre Ética do amor livre é que foi escrito de maneia despojada”, diz Easton. “A maioria dos livros anteriores sobre sexo tratam o leitor como alguém que veste um jaleco branco e carrega um estetoscópio no pescoço, ou se colocam como algo escrito sobre o que as outras pessoas estão fazendo.” Ética do amor livre estará nas estantes junto de outros lançamentos recentes, como Action, de Amy Rose Spiegel, e Future Sex, de Emily Witt, dois livros publicados por editoras tradicionais que combinam tom coloquial com a experiência pessoal para desafiar as atitudes convencionais sobre sexo.

Ética do amor livre é um livro muito íntimo para as pessoas, e trabalhamos muito para afirmar as experiências de cada uma”, diz Easton. “Nossos medos e vergonhas nos atrapalham. No livro, as pessoas encontrarão a validação que procuram”.

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Publicado originalmente em Rolling Stone, 16 set. 2017

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Ilustração Ariádine Menezes

Relações abertas podem ser difíceis, mas recompensadoras

Por Dossie Easton & Janet W. Hardy
Tradução Christiane M. T. Kokubo

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Casamentos abertos podem funcionar e já deram certo para milhares de casais ao longo de décadas, se não séculos. No entanto, para manter um casamento aberto, há muito mais coisas envolvidas do que simplesmente a vontade de ter um relacionamento desse tipo. Tais relações requerem compromisso contínuo com a comunicação e apoio mútuo, e quase certamente envolverão alguma jornada pelos vulneráveis territórios de ciúme, insegurança e raiva — mas existe casamento que não passe por eles?

Abrir um relacionamento que tenha começado monogâmico deve ser negociado antes que a abertura ocorra. Os poliamorosos consideram deselegante apresentar o cônjuge ao amante até então secreto com um empolgado: “Querido, acho que devemos abrir nosso relacionamento!”. Visto que uma traição já ocorreu, muitos — talvez a maioria — dos casamentos não sobreviverá a tal revelação. Reverter a situação e conquistar um relacionamento aberto saudável requer percorrer um caminho intenso e doloroso. No entanto, muitos casais sobrevivem e obtêm mais satisfação, crescimento e proximidade após terem passado pelo processo.

A ética de qualquer comportamento sexual depende dos valores, costumes e cultura da comunidade em que está inserido. Pessoas de mente mais aberta ao sexo e cientes do poliamor como uma opção lidam mais facilmente do que quem acredita que a simples vontade de ter um relacionamento aberto demonstra que seu cônjuge já não as ama mais.

Muito sofrimento poderia ser evitado se, durante a fase de namoro, os casais discutissem a monogamia como uma opção, em vez de assumi-la como padrão — assim como conversam sobre ter ou não filhos, seguir uma ou duas profissões, ou qualquer outra questão importante que requer uma decisão antes de se prosseguir com o possível compromisso de longo prazo. Como dizemos no livro Ética do amor livre, “monogamia não é uma escolha quando você está proibido de optar por qualquer outro caminho”.

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Publicado originalmente em The New York Times, 20 jan. 2012.

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Ilustração Ariádine Menezes

Os sertões e os sertanejos muito além do discurso dominante

A partir da obra icônica de Euclides da Cunha e da histórica resistência de Antonio Conselheiro no arraial do Belo Monte, Sertão, sertões: repensando contradições, reconstruindo veredas, organizado por Joana Barros, Gustavo Prieto e Caio Marinho, faz uma leitura a contrapelo da história de Canudos e do imaginário sertanejo, desde a guerra que dizimou aquela população de “jagunços” até os dias atuais, passando pelas disputas territoriais e pelas obras de combate à seca.

Sertão, sertõesna verdade, são dois livros em um. De um lado, traz as fotografias mais marcantes sobre Canudos — não apenas as imagens de Flávio de Barros, que registrou o massacre empreendido pelo Exército em 1897, mas também dos momentos posteriores ao conflito: as reportagens de Pierre Verger, nos anos 1950; a documentação realizada por Claude Santos, Antonio Olavo e Alfredo Villa-Flôr na segunda metade do século XX; e fotos atualíssimas, feitas pelos próprios autores durante suas andanças pelas veredas de Canudos. As imagens são acompanhadas por análises que as localizam e contextualizam simbólica e historicamente como retratos de fases distintas da trajetória social do país.

Virando Sertão, sertões de ponta-cabeça, o leitor encontra um livro de textos que, assim como Os sertões, se divide em três partes. “Partimos do livro de Euclides da Cunha não para lhe render homenagens, mas para, caminhando pelas brechas e ranhuras da história dos vencedores, encontrar os sentidos múltiplos e diversos que constituem a formação social brasileira”, escrevem os organizadores: “um longo processo marcado pelo conflito e pela disputa dos sentidos de pertencimento e de constituição do mundo comum, de regulação do mando privado e das formas de existência social.”

Colocando em questão a fortuna crítica sobre Os sertões e o próprio sentido de sertão, a primeira parte — “No chão dos sertões e suas veredas” — se inaugura com uma carta do grande crítico Antonio Candido escrita em 2001, em que relaciona a resistência de Canudos à luta contemporânea pela reforma agrária, e segue com quatro artigos sobre a disputa de narrativas sobre a história de Canudos e sobre o que é “sertão”, “sertanejo” e “Nordeste” — tema que continua atual, uma vez que a região e seus habitantes continuam a ser considerados por certa elite econômica como sinônimo de atraso.

“A terra dos homens” se dedica aos aspectos físicos do sertão. O primeiro texto é assinado pelo renomado geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber, que nos leva a conhecer o domínio das caatingas. Outros dois artigos nos oferecem elementos para compreender e criticar os discursos dominantes sobre o combate à seca — fenômeno típico e cíclico do semiárido nordestino —, demonstrando, com análises climáticas e ambientas, que, diante da inevitabilidade do fenômeno, a saída talvez seja aprender a “conviver com a seca”, quando ela ocorre, garantindo direitos e oferecendo condições de vida digna aos sertanejos.

Na última parte, “O homem em luta”, o livro se debruça sobre as disputas políticas, trabalhistas e territoriais que permeiam os sertões — e, mais precisamente, a região de Canudos — na atualidade. Aqui, encontramos textos sobre a organização dos trabalhadores rurais no Submédio São Francisco; a atuação do Judiciário como “mediador” dos conflitos agrários, sobretudo no que diz respeito às comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto; a existência, ainda hoje, de “seguidores” de Antonio Conselheiro, que se empenham em reescrever a história de Canudos sob o prisma de quem resistiu; e as contradições do acesso à água, que, devido a açudes e transposições, finalmente chegou à região — mas não para todos.

Após resistir às investidas do Exército sob as ordens da então nascente República, Canudos foi destruída duas vezes: primeiro com ferro e fogo, pelas mãos dos militares que executaram os conselheiristas e queimaram o arraial; depois, passados sessenta anos, durante a ditadura, pela inundação das águas do Açude Cocorobó. O reiterado apagamento histórico, porém, jamais conseguiu silenciar a história dos vencidos. É esta que, como a ponta da igreja de Canudos em épocas de seca, reemerge nas páginas de Sertão, sertões, reforçando a necessidade de repensar as contradições e reconstruir as veredas tortuosas da formação política e social brasileira.

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LANÇAMENTO

Barco da Flipei (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes)
Festa Literária Internacional de Paraty
10 a 14 de julho

Amazon destrói

Por Tadeu Breda, editor


Nesta semana nos deparamos com um exemplo prático de como a Amazon destrói livrarias utilizando-se de seu gigantesco poder financeiro. Não fornecemos diretamente para a Amazon. Ela consegue títulos da Editora Elefante através de distribuidoras com as quais trabalhamos, e que fornecem para livrarias de todo o país — inclusive para a Amazon.

Os preços que a Amazon pratica, porém, são inviáveis para qualquer um, até mesmo para nós, que produzimos o livro e fazemos a venda direta, sem passar por intermediários. Ainda assim, ela comercializa Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, cujo preço de capa é R$ 60, por R$ 43,80 e Olhares negros, de bell hooks, que custa R$ 50, por R$ 36,50.

Mesmo as livrarias on-line que vendem mais barato usando a plataforma da Amazon não conseguem chegar a tal patamar. Como estamos dos dois lados do balcão, sabemos que ninguém consegue sustentar-se vendendo livros com tamanho “desconto” (que não é desconto, é dumping, e alguns países vêm tomando medidas contra essa prática). Fica claro, assim, que a Amazon — ao contrário das pequenas livrarias — não se mantém com a venda de livros.


O que eles fazem, sobretudo nos casos de livros de boa vendagem, como Calibã e a bruxa e Olhares negros, é atrair compradores com preços obscenos, desbancar a concorrência que nem em seus maiores sonhos conseguiria igualar tais preços, e usar os dados dos clientes para, com seus robôs e algoritmos de última geração, continuar bombardeando e vendendo de tudo — inclusive mais livros —, até que um dia não haja mais concorrência e eles possam aumentar os preços tranquilamente, potencializando seus lucros.

Sabemos que os livros não são baratos no Brasil. Mas, sobretudo no caso de editoras independentes, e certamente no caso da Editora Elefante, não se trata abuso: fazemos as contas aqui com a corda no pescoço para que o livro saia de nossos depósitos com o valor mais baixo possível, em uma cadeia que vai distribuir renda entre todos os nossos colaboradores — e entre os pequenos livreiros e seus colaboradores.

Se você compra pela Amazon, estará enriquecendo ainda mais Jeff Bezos e aumentando sua fortuna, estimada em noventa bilhões de dólares: um homem que tem tanto dinheiro que agora quer conquistar o espaço — enquanto isso, muitos de seus trabalhadores não conseguem pagar as contas.

Nós aqui temos asco de tamanha concentração de riqueza. E apostamos pela humanidade. Comprando diretamente em nosso site e em pequenas livrarias, você estará lidando com seres humanos como você, com suas virtudes e seus defeitos. A escolha é sua. Já fizemos a nossa.

O que é e como funciona a pré-venda da Elefante?

Comprar livros em pré-venda, direto no site da Elefante, nos ajuda a continuar vivos — e lançando os títulos que você gosta. Isso porque os gastos iniciais de publicação de um livro são muito altos (e ainda maiores quando se trata de uma tradução), e editoras minúsculas, como a nossa, têm imensas dificuldades em absorvê-los. Com o apoio de vocês, porém, a gente consegue.

A pré-venda trata-se de uma venda antecipada, que acontece quando o livro ainda não está pronto. É uma maneira de adiantar recursos que podemos usar para financiar não apenas as primeiras despesas do título em pré-venda, mas também outros livros importantes, em um ciclo virtuoso que beneficia a todos: inclusive os leitores, que garantem seu exemplar com um belíssimo desconto.

Ao aderir à pré-venda e cooperar com a Elefante, o leitor precisa compreender que haverá uma certa demora na entrega do livro — justamente pelo fato de que ele ainda não existe. Na página da compra, colocamos a informação sobre o início dos envios (normalmente, dentro de um ou dois meses a partir do início da pré-venda). Demora um pouquinho, mas o livro chega — e você dá uma ajuda inestimável à editora. A gente não esquece de ninguém.

Outro ponto importante a ser esclarecido é a mensagem de “pedido concluído” que nosso sistema envia automaticamente quando registramos sua compra. Esse “concluído” não significa que o livro já chegou na sua casa, mas sim que seu nome e endereço foram colocados em nossa planilha, e logo se transformarão em etiquetas, que serão coladas em pacotes, que serão levados aos Correios e entregues no conforto do seu lar no menor tempo possível.

Qualquer dúvida sobre a pré-venda, por favor, não faça contato pelo Instagram nem pelo Facebook, mas pelo leitores.elefante (a) gmail.com. Nós respondemos absolutamente todos os e-mails — todos. Pode demorar 24h ou 48h, mas fique tranquilo porque esclarecemos todas as dúvidas e não deixamos ninguém sem resposta. 

Marion Nestle, sem palavras

“O que foi aquilo?” Marion Nestle levou as mãos ao alto, em sinal de surpresa, ao cruzar a porta do auditório 3 da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília. Por um momento, sentimos um frio na espinha: ela havia odiado tudo aquilo? “Eu nunca fiz um evento de lançamento de livro com tanta gente. Nunca.”

A professora emérita da Universidade de Nova York havia deixado sua cidade 24 horas antes. Ela estava exausta. Mas encontrava forças para mais um autógrafo, mais uma foto, mais um sorriso. O auditório de duzentos lugares ficou repleto para recebê-la, e era possível sentir o entusiasmo das pessoas em ouvir a fala mansa, clara e contundente de Marion.

Dois dias mais tarde, o auditório de 230 lugares da Faculdade de Saúde Pública da USP não foi suficiente. Além de muita gente sentada nos corredores, foi preciso apelar a uma sala extra que transmitiu em simultâneo a fala de Marion. Ela mal pôde acreditar quando chegou e se deparou com uma enorme fila de pessoas ansiosas por ouvi-la.  O mesmo se deu ontem na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 

“Eu publiquei dez livros. Dez. E nunca vi nada parecido”, Marion continuou nos contando, depois de uma aula no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc. Nascida na década de 1930, Marion surpreende pela profunda vitalidade. Sim, ela ficou cansada. Por vezes parecia que ela queria nos amaldiçoar pela agenda pesada. Mas topou tudo e se deu bem em tudo, com extrema clareza de raciocínio. 

O que fica do pequeno tour de Marion Nestle? Primeiro, a vontade de que ela possa retornar mais algumas vezes. Segundo, um livro para circular por aí. Uma verdade indigesta: como a indústria alimentícia manipula a ciência do que comemos vai muito bem, obrigado. 

Terceiro, ideias. Muitas. É aqui que a passagem da professora pelo Brasil encontra nossa infeliz conjuntura. O que são centenas ou milhares de pessoas diante do rolo compressor a que estamos sendo submetidos? São bastante coisa. Esse cenário grotesco não pode durar para sempre. Enquanto durar, debates como os suscitados pela visita de Marion são um ato de resistência.

E de semeadura: estamos tentando, lentamente, criar um amanhã mais promissor. Como já fizemos de outras vezes. Demorou décadas para que o sistema de segurança alimentar e nutricional do Brasil desafogasse em políticas públicas que fizeram do país um modelo global. 

Auditórios de universidades públicas ficaram lotados poucos dias depois de o ministro da Educação declarar que se tratam de ambientes de “balbúrdia”. O evento na Saúde Pública da USP se deu horas depois de outro ministro, o da Saúde, demonstrar a intenção de passar o trator sobre anos de discussão a respeito do melhor modelo de rotulagem de produtos comestíveis ultraprocessados. Em meio a um desmonte das políticas públicas exitosas no combate à fome. 

Mas lá estava Marion, declarando que o Guia Alimentar para a População Brasileira é o melhor do mundo. E mostrando que há muito jogo por jogar.

O que é uma professora diante de um governo? Talvez tenhamos de inverter a pergunta: o que é esse governo diante de uma pessoa que atravessou uma guerra mundial, a Guerra Fria, inúmeros governos reacionários, o machismo no âmbito acadêmico, dossiês corporativos e muito mais para chegar à condição de referência no debate sobre alimentação? Sim, eles têm a caneta e a utilizam sem pudor para produzir violência, desigualdade, dor. Mas é certo que um dia serão passado. 

Marion, não. Nos auditórios repletos havia gente que levará essas ideias adiante. Que formulará novas pesquisas. Que se decidirá a atuar em organizações da sociedade civil ou autonomamente. Que proporá políticas públicas. Que produzirá as mudanças necessárias para encararmos o século 21. Nos últimos meses, estamos todas e todos tentando colocar os tijolinhos que nos levarão a algum desfecho melhor. A passagem da professora pelo Brasil nos deu uma fileira inteira dessa nova parede.    

“Eu não tenho palavras para expressar tudo o que vocês fizeram”, ela disse, ao se despedir. Bom, nós temos. Obrigado, Marion. E até a próxima. 

Novo livro de Silvia Federici aborda trabalho doméstico, reprodução e luta feminista

Depois do sucesso estrondoso de Calibã e a bruxa, que nasceu clássico, a Editora Elefante e o Coletivo Sycorax dão continuidade ao projeto de publicar toda a obra da historiadora feminista italiana Silvia Federici no Brasil com o lançamento de O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista.

Escrito entre 1974 e 2012, o livro recolhe quarenta anos de pesquisas e teorizações sobre a natureza do trabalho doméstico, da reprodução social e da luta feminista para construir e reconstruir, nos territórios e coletivamente, alternativas às relações capitalistas e patriarcais que oprimem as mulheres há séculos — uma história que está muito bem contada em Calibã e a bruxa.

 

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O ponto zero da revolução começa com Silvia Federici refletindo sobre sua experiência de militância no Wages for Housework Movement [Movimento para um salário para o trabalho doméstico], nos anos 1970, para depois abordar temas como globalização, trabalho sexual, a política dos “comuns”, cuidado com os mais velhos e o desenvolvimento do trabalho afetivo, entre outros.

“Eu hesitei por algum tempo em publicar um volume de ensaios voltado exclusivamente para a questão da ‘reprodução’, já que me parecia artificialmente abstrato separá-la dos variados temas e lutas aos quais tenho dedicado meu trabalho ao longo de tantos anos”, escreve Silvia Federici, na introdução de O ponto zero da revolução.

“Há, no entanto, uma lógica por trás do conjunto de textos nesta coletânea: a questão da reprodução, compreendida como o complexo de atividades e relações por meio das quais nossa vida e nosso trabalho são reconstituídos diariamente, tem sido o fio condutor dos meus escritos e ativismo político.”

Uma vacina contra a distopia corporativa da internet

Ricardo Abramovay
Professor Sênior do Programa de Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo.

Rafael A. F. Zanatta
Doutorando pelo Programa de Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo.

 

O livro de Stefano Quintarelli é uma vacina contra o desencantamento que tomou conta da crescente dependência dos dispositivos digitais em que a vida social contemporânea está imersa. Os vícios comportamentais que cada um de nós reconhece e trata como contrapartidas inevitáveis dos serviços prestados pelos smartphones, a vigilância a que estamos submetidos não só pelo companheiro inseparável em que se converteu o celular, mas pelas câmeras espalhadas por onde quer que circulemos, a invasão da privacidade e a evidência de que as redes sociais pouco contribuem para tornar a vida política mais inteligente e construtiva, tudo isso desperta o sentimento distópico de que melhor seria se o gênio voltasse para dentro da lâmpada.

Quintarelli está em posição privilegiada para reconhecer a gravidade de todos estes problemas, não só como empreendedor digital pioneiro na Itália, mas como membro de algumas das mais importantes iniciativas de regulação da internet na Itália e na Europa. Ao mesmo tempo, essa experiência, que se consolidou num mandato de deputado em seu país por dois anos, permitiu que ele ocupasse um lugar de destaque num conjunto de propostas voltadas em última análise para que ciência e técnica estejam a serviço da melhoria da vida social — e não de sua degradação.

Nesse sentido, o autor de Instruções para um futuro imaterial não é um acadêmico no sentido clássico, e seu livro não possui o estilo tradicional de citações e reconstrução teórica (são raras as citações a outros intelectuais, como Luciano Floridi, que surge vez ou outra em seu texto). Como empreendedor, ativista e parlamentar, sua linguagem é direta e sua preocupação é pedagógica. Quintarelli quer falar aos “imigrantes digitais” que não compreendem a transição em que estamos inseridos, especialmente aqueles que não compreendem a lógica exponencial dos sistemas computacionais e as possibilidades técnicas inéditas geradas pelo atual desenvolvimento da física e da ciência da computação. A popularização dos assistentes acoplados com sistemas de inteligência artificial, oferecidos hoje por Amazon e Google, são apenas a materialização mais cotidiana desta transformação.

O ponto de partida do livro de Quintarelli está na rejeição da internet como algo virtual, de certa forma, etéreo, falsa impressão corroborada por imagens como a da computação “em nuvem.”  Ele rejeita a ideia de que existe um ciberespaço, em oposição ao espaço real, como se um fosse imaginário e somente o outro, palpável. Ao contrário, a tese básica deste livro é que a revolução digital abre caminho a uma dimensão cuja realidade não poderia ser maior: a dimensão imaterial, fundamental para os indivíduos, para a maneira como se relacionam uns com os outros, e determinante do uso que fazem dos materiais, da energia e dos recursos bióticos de que dependem.

A realidade desta dimensão imaterial vira do avesso a maior parte daquilo que os manuais de economia até hoje ensinam aos estudantes. Se a economia é a ciência que estuda a alocação de recursos escassos entre fins alternativos (daí resultando os preços como sinalizadores da relativa raridade daquilo que os consumidores almejam), é claro que a própria definição de um bem econômico é alterada quando este é quase infinitamente abundante e sua circulação não responde aos limites que nos foram ensinados quando nosso consumo se concentrava no que era palpável e raro. Este livro é uma excelente iniciação às bases microeconômicas da dimensão imaterial da vida social. Parte crescente da vida contemporânea deixa de responder à consagrada definição segundo a qual a economia é a ciência que estuda recursos escassos entre fins alternativos. Na dimensão imaterial, mesmo que custe muito produzir algo, reproduzir e distribuir torna-se virtualmente gratuito.

Esta propriedade, analisada de forma didática no livro, abre caminho a oportunidades de cooperação social inéditas, que se exprimem na economia do compartilhamento, nas moedas virtuais e na extraordinária abertura de oportunidades a que a revolução digital dá lugar. Quintarelli não acredita no horizonte de destruição massiva de empregos que tão fortemente marca a literatura sobre os padrões contemporâneos de evolução tecnológica. Da mesma forma, ele não crê na perspectiva de total autonomia dos carros sem motorista.

Claro que as ameaças à privacidade e à própria concorrência são sistematicamente denunciadas neste livro. Além disso, a internet das coisas vai multiplicar os riscos de que nossa conexão permanente e os dados que por meio dela produzimos ameace nossa própria dignidade. O livro ressalta também que a internet criou um abismo entre aqueles cujos trabalhos apoiam-se sobre ela, são criativos e geram rendas extraordinárias a seus praticantes, e a situação em que se encontra a massa dos que apenas fazem uso corriqueiro dos dispositivos digitais. O livro mostra que as instituições das sociedades democráticas estão bem pouco preparadas para enfrentar estes desafios. O ritmo das mudanças tecnológicas é exponencial e o tempo da política nem de longe é capaz de acompanhá-lo.

Mas em nenhum momento estes riscos são apresentados como fatalidades inerentes à própria tecnologia. A entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados e da Privacidade em maio de 2018 na Europa — e a aprovação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais no Brasil, que se inspira fortemente na legislação europeia — são passos fundamentais para regulamentar a dimensão imaterial da vida social. Quintarelli participou ativamente da elaboração desta lei e este livro pode ser considerado uma reflexão sobre as bases que permitirão que a concorrência, a dignidade das pessoas e o respeito aos valores mais caros da democracia possam se desenvolver na era digital.

Para Quintarelli, não há motivo para pânico ou uma luta “contra as tecnologias”. Há urgência de compreensão do tipo de economia gerada pelas novas tecnologias, seu impacto social e as possibilidades de regulação. De certo modo, o livro retoma uma velha lição de Spinoza: non ridere, non lugere, neque detestare, sed intellegere. Nem rir, nem chorar, nem detestar, mas sim compreender.

Quem é bell hooks?

bell hooks nasceu em 1952 em Hopkinsville, uma cidade rural do estado de Kentucky, no sul dos Estados Unidos. Batizada como Gloria Jean Watkins, adotou o nome pelo qual é conhecida em homenagem à bisavó, Bell Blair Hooks. Formou-se em literatura inglesa na Universidade de Stanford, fez mestrado na Universidade de Wisconsin e doutorado na Universidade da Califórnia. Seus principais estudos estão dirigidos à discussão sobre raça, gênero e classe e às relações sociais opressivas, com ênfase em temas como arte, história, feminismo, educação e mídia de massas. É autora de mais de trinta livros de vários gêneros, como crítica cultural, teoria, memórias, poesia e infantil.

Na infância, estudou em escolas públicas para negros, pois nos Estados Unidos ainda havia escolas que praticavam segregação racial. Na adolescência, quando passou para uma escola integrada, viveu a discriminação de ser minoria numa instituição onde tanto os professores quanto os alunos eram majoritariamente brancos.

De família numerosa — cinco irmãs, um irmão –, pertencente ao que os norte-americanos chamam de classe trabalhadora, bell hooks usou a própria vida, a vizinhança e a escola como fontes dos seus primeiros estudos sobre raça, classe e gênero, sempre buscando nesses três elementos os fatores da perpetuação dos sistemas de opressão e dominação. Seja de brancos contra negros; de homens (mesmo negros) contra mulheres; de ricos contra pobres.

Observadora sagaz da realidade, bell hooks é capaz de escrever palavras que doem como um soco no estômago, mas que são ditas com grande convicção, sinceridade e um estilo inconfundível. Já foi premiada com um The American Book Award, um dos prêmios literários de maior prestígio dos Estados Unidos. Entre as influências da autora, além de Martin Luther King, Malcom X e Eric Fromm, figuram as teorias de educação defendidas pelo brasileiro Paulo Freire.

Foi durante a faculdade que bell hooks começou a escrever seu primeiro livro, Ain’t I A Woman [Eu não sou uma mulher], publicado em 1981. Onze anos depois, o site Publishers Weekly, especialista no ramo de publicação literária, avaliou Ain’t I A Woman como um dos vinte livros mais influentes escritos por mulheres nos vinte anos anteriores.

Assim como outras mulheres negras, hooks apontou que o feminismo mainstream focava em um grupo seleto de mulheres brancas, com ensino superior, de classe média e alta, centradas em ideais românticos de liberdade e igualdade. Ela percebeu que as mulheres negras se encontravam em um dilema: apoiando o movimento feminista, precisavam abdicar das discussões raciais, e lutando pelos direitos civis estavam à mercê do patriarcado que o dominava.

A escritora sofreu uma série de críticas durante a sua carreira, sendo acusada inclusive por outras feministas de não ser “acadêmica o suficiente”. Isso porque hooks não se submetia aos padrões tradicionais da academia, na intenção de tornar o seu trabalho acessível para todos. Daí também seu grande interesse pela educação — sobretudo pela educação das pessoas negras, historicamente privadas da academia.

“Muitas vezes, as feministas brancas agem como se as mulheres negras não soubessem que houve opressão sexista até que elas expressassem o sentimento feminista. Eles acreditam que forneceram às mulheres negras ‘análise’ e ‘o’ programa de liberação”, escreveu bell hooks. “Eles não entendem, nem imaginam, que as mulheres negras, bem como outros grupos de mulheres que vivem diariamente em situações opressivas, muitas vezes se tornam conscientes da política patriarcal de sua experiência vivida à medida que desenvolvem estratégias de resistência — mesmo que isso não seja feito de forma sustentada ou organizada.”