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Poderá o coronavírus ‘salvar’ o planeta?

Por Ashish Kothari, Arturo Escobar, Ariel Salleh, Federico Demaria & Alberto Acosta
Publicado originalmente em openDemocracy

A pandemia de covid-19 está afetando todos nós, especialmente aqueles que não podem se refugiar em casa até que o pior já tenha passado. Mas, além das medidas humanitárias e sanitárias que devem ser urgentemente destinadas às pessoas afetadas pela doença, o coronavírus também oferece uma chance de corrigir erros históricos: a exploração predatória de nosso planeta e das sociedades marginalizadas — ou seja, a parcela da população que mais sofrerá com essa pandemia.

Esse surto viral é um sinal de que, ao depredar a natureza para além de todos os limites, a cultura globalizadora dominante está ferindo de morte a capacidade da Terra de sustentar vida e nossos meios de subsistência. Quando microrganismos se liberam de seus hospedeiros animais, isso significa que eles devem se prender a outros corpos para sobreviver. Os seres humanos fazem parte da natureza — e tudo está conectado a todo o resto.

A pandemia atual é apenas um aspecto da crise planetária criada pelo homem, conhecida como Antropoceno; outros aspectos se exemplificam pelas mudanças climáticas descontroladas e pela perda de biodiversidade — e todas estão conectadas. A covid-19 nos confronta com uma crise civilizacional tão imediata e tão severa que a única estratégia real será aquela que possa alcançar e curar a rede da vida.

O filósofo nigeriano Bayo Akomolafe comenta que a complexidade da situação humana hoje quase desafia nossa capacidade de pensar. Essa crise golpeia nossa ilusória confiança nas noções modernas de história, progresso, humanidade, conhecimento, tempo, secularismo, e nossa tendência de tomar a própria vida como algo garantido. Também deve nos alertar contra respostas que nos afastem dos direitos democráticos e humanos, como acontece em nome do controle do vírus em muitos países, pois essas respostas apenas reduzem ainda mais a capacidade dos cidadãos de lidar com a crise.

A pandemia de coronavírus significa que uma civilização que está morrendo, mas também revela a existência de um “pluriverso” de outros mundos. Toda crise é uma oportunidade, como dizem. A questão principal é como refazer nossa economia e nossa política de uma maneira que respeite os limites ecológicos e funcione para toda a humanidade — não apenas para uma parcela privilegiada. A resposta deve ir além de superficiais correções gerenciais e tecnológicas, promovendo profundas transformações sistêmicas que acabem com as injustiças estruturais, a insustentabilidade e a falta de perspectivas. Precisamos de uma mudança dramática que aponte para uma democracia genuína, que confie na sabedoria e nas práticas milenares de comunidades e coletivos.

Desafiamos o antigo modo eurocêntrico de existência, baseado na separação dos seres humanos de outras entidades naturais — nós contra eles, mente versus corpo, secular versus espiritual. Ao negar a interdependência essencial de tudo na Terra, esse modo dualista de ser e pensar simplesmente serviu para consolidar o domínio do poder masculino sobre o cuidado feminino, que afirma a vida. E abriu caminho para a economia mais objetificante e prejudicial que a humanidade já viu, hoje consagrada em uma (des)ordem capitalista neoliberal global fortemente militarizada.

A pandemia está propiciando novas lições. A globalização econômica não trouxe prosperidade universal, mas devastação ecológica, ruptura social e desigualdade. Então, agora, em todos os continentes, vemos pensadores e ativistas decidindo substituir o regime capitalista pela recomunalização, lutando pela autossuficiência, acolhendo refugiados, como aconteceu na Grécia. Contra os termos ditados pela Organização Mundial do Comércio (OMC) e pelas empresas multinacionais, a produção em escala humana permite que as pessoas projetem seus próprios meios de vida e protejam o habitat.

A relocalização pode até reverter o fluxo desesperado da migração rural para as cidades, onde a densidade populacional espalha doenças como o coronavírus com extrema facilidade. Isso é apenas um sonho? Não. Ao redor do mundo vemos milhares de iniciativas culturalmente diversas para alimentos, energia, água e outras formas de soberania da comunal. Essas soluções localizadas devolvem significado, identidade, dignidade e suficiência às pessoas que foram alienadas por um século de “progresso”, sob o poder centralizado das empresas e do Estado.

A revolução originada nas comunidades marca uma mudança: da economia precária de derivativos e do mercado de ações, para uma economia real de produzir bens necessários, dar e compartilhar “serviços”. Trata-se de uma visão de regiões autônomas e bioculturais, definidas por relações sociais e ecológicas tangíveis, e tornando tangível o argumento de que a ajuda mútua e a proteção do ecossistema local são mais eficazes para lidar com crises e pandemias do que medidas estatistas centralizadas. Ao contrário da privatização neoliberal, aqui terra e água, ideias e conhecimento são honrados como bens comuns. Esse futuro implica decrescimento, respeito aos limites naturais, redução e redistribuição justa de materiais e energia no planeta.

Atualmente, em todo o mundo há um renascimento da democracia radical, frequentemente liderada por mulheres ou jovens, cujas energias destinadas à manutenção da vida se combinam com movimentos sociais para a libertação de espécies, gêneros, castas e classes oprimidas. Nosso livro Pluriverso: dicionário do pós-desenvolvimento [a ser lançado pela Elefante em 2020] reúne uma infinidade de alternativas transformadoras, como as ideias indígenas de harmonia com a Terra no Bem Viver e no ubuntu; novas noções emergentes de contextos pós-industriais, como ecofeminismo e decrescimento; redes práticas para agroecologia e software livre; e dezenas de outros.

O livro oferece um nítido contraste entre mudanças estruturais profundas e “soluções reformistas” que assumem um único mundo globalizado pré-codificado pelos valores ocidentais e mobilizado pela lógica fútil do crescimento. O que surge é uma linguagem viva para a riqueza e a diversidade dos conhecimentos e práticas das pessoas em sintonia com o bem-estar planetário. Este léxico está construindo uma “tapeçaria global de alternativas”; oferece um espaço colaborativo para ativistas que unem iniciativas transformadoras em todo o mundo; torna-se um novo horizonte para o ser e o fazer.

A pandemia de coronavírus encerra um universo de falsas promessas. O pluriverso anuncia uma nova esperança para uma democracia radical que inclua toda a vida: “um mundo onde cabem muitos mundos”.

No espelho escuro da pandemia

Por Gabriel Ferreira Zacarias
Publicado originalmente em Cult

A sociedade que suprime a distância geográfica
recolhe internamente a distância, enquanto distância espetacular.
— Guy Debord, A sociedade do espetáculo, §167

Conversando com um amigo que mora em Bergamo — cidade no Norte da Itália onde estudei e que é hoje uma das mais afetadas pela epidemia do Coronavirus —, este me descreveu a situação como “um episódio infinito de Black mirror”. Com efeito, é difícil afastar a sensação de que estamos vivendo uma distopia, como essas representadas nas tantas séries do gênero. Black mirror, a mais famosa delas, carrega não à toa o termo “espelho” em seu título.

Seus episódios não representam um mundo distante — tempos longínquos, galáxias remotas, universos paralelos — mas simplesmente algo como um futuro próximo de datação incerta. Ao mesmo tempo estranhos e familiares, seus enredos se baseiam em recrudescimentos de tendências já presentes no quotidiano que vivemos. Talvez, o que passamos nesse momento possa ser compreendido da mesma forma. O descarrilho da normalidade parece anunciar um futuro próximo (já iniciado) ao mesmo tempo estranho e familiar. Podemos aprender algo sobre o mundo em que vivemos com esse “episódio infinito”?

Os momentos de crise ou excepcionais podem servir ao menos para compreendermos melhor, e criticamente, nossa normalidade habitual. Propus alhures que nos mirássemos no “espelho do terror”, como forma de melhor compreender a sociedade do capitalismo tardio que ensejara as novas formas de terrorismo. De maneira análoga, creio que caiba refletir sobre aquilo que encontramos de nosso presente na imagem que está se formando no espelho escuro da pandemia.

Há certamente muito a se pensar em diferentes planos — com relação à organização política, à reprodução econômica, à relação com a natureza ou os usos da ciência. Aqui, quero problematizar apenas uma questão: a ideia de “distanciamento social”, rapidamente aceita como norma, com a progressiva interdição dos encontros e a conformação de uma vida quotidiana em confinamento ao redor do globo. A situação pandêmica repousa sobre uma contradição que precisa ser sublinhada. A rápida expansão da doença resulta dos fluxos globais que unificaram as populações em escala planetária.

Do estado de pandemia nasce um paradoxo único de uma população global unificada em um mesmo estado de confinamento. Há, em suma, um isolamento concreto dos indivíduos em um mundo que está inteiramente conectado. Esse paradoxo não é um paradoxo exclusivo da pandemia, mas sim um paradoxo que a pandemia levou a seu extremo, tornando-o visível. Na verdade, a dialética entre separação e unificação (do separado) está na base do desenvolvimento do capitalismo ocidental que unificou o globo.

Guy Debord já havia notado essa contradição estruturante quando procurou compreender a fase “espetacular” do capitalismo, que se anunciava em meados do século passado. Aquilo que chamou de sociedade do espetáculo era uma forma de sociedade baseada no princípio da separação. O que foi comumente descrito como uma sociedade da comunicação de massa podia ser entendida inversamente como uma sociedade na qual a faculdade de comunicar era massivamente perdida.

A comunicação, em sentido forte, era o apanágio da vida comunitária, uma linguagem comum ensejada por uma vivência em comum. O que acontecia nas sociedades do capitalismo avançado era precisamente o contrário. A expansão no espaço — grandes cidades, subúrbios afastados, circulação econômica global — e a racionalização do trabalho, com a hiperespecialização das tarefas individuais, significaram o afastamento concreto entre as pessoas e a perda de entendimentos comuns, fator ainda acrescido pelo monopólio estatal sobre a organização da vida coletiva.

A perda progressiva da comunidade e de suas formas de comunicação eram, portanto, a pré-condição para o surgimento dos meios de comunicação de massa — os quais eram o contrário de meios de comunicação, uma vez que assentes no crescente isolamento real. A imagem de milhões de espectadores prostrados diante de aparelhos de televisão, que apenas consomem os mesmos conteúdos, mas em nada se comunicam, permanecia como figuração clara do fato de que, como escreveu Debord, “o espetáculo reúne o separado, mas apenas enquanto separado” (§29).

Para muitos, porém, essa figuração e a crítica que a acompanha teriam se tornado obsoletas no mundo atual, com o advento da internet e suas derivações. Em vez de espectadores prostrados passivamente diante de aparelhos televisivos, teríamos hoje espectadores ativos, trocando mensagens, produzindo e difundindo conteúdos. Mas a verdade é que nada nos últimos cinquenta anos colocou em questão a separação fundante que subjaz ao próprio avanço das tecnologias de comunicação. Bastaria como exemplo a cena tão corriqueira de uma mesa de restaurante no qual cada indivíduo olha para seu próprio telefone em vez de conversar. O separado é reunido como separado até no mesmo espaço físico.

O que nos foi subtraído agora, em meio à crise pandêmica, foi essa possibilidade de coabitar o espaço físico. Nas condições atuais, a interdição dos encontros e a obrigação do isolamento parecem mais fáceis de se impor à população global do que seria provavelmente uma interdição ou uma pane da internet e das redes sociais. Ironicamente, o “distanciamento social” é agora evocado como a grande salvação de uma sociedade que sempre esteve fundada no distanciamento.

O único lugar de encontro que existe na sociedade produtora de mercadorias é, na verdade, o mercado — é para lá que as mercadorias levam pelas mãos seus produtores e consumidores, e é por conta delas que os homens se encontram. É o tolhimento desses encontros, agora sendo interditados, que tanto espanta — o fechamento dos espaços de trabalho e de consumo.

Mas o capitalismo, que era uma relação social mediada por coisas, desdobrou-se em espetáculo, em relação social mediada por imagens. E já é possível estar nos espaços sem estar neles; é possível trabalhar (até certo ponto) e consumir (sem limites) sem a necessidade de sair de casa. A grande promessa reiterada pela publicidade de ter o mundo à mão graças a um simples toque na tela — tudo pode ser comprado e entregue em sua casa — não foi sempre a promessa de um confinamento voluntário?

Nesse sentido, o estado de exceção da pandemia parece ter realizado, ao menos em parte, o sonho do capitalismo. Se o episódio distópico que vivemos se revelasse mesmo um “episódio infinito”, não seria difícil imaginar uma população inteiramente acostumada às relações virtuais, ao confinamento regado a delivery e Netflix. As viagens seriam interditadas e restritas aos fluxos de mercadorias, agora frutos de um setor produtivo majoritariamente automatizado.

A luta do espetáculo para destruir a rua, o encontro e os espaços de diálogo — apenas da comunicação pode nascer uma alternativa à pseudocomunicação espetacular — estaria finalmente vencida. O espaço real pertenceria agora apenas às mercadorias; os seres humanos, confinados, refugiando-se na virtualidade. A circulação humana, “subproduto da circulação das mercadorias”, seria agora dispensável, em um mundo inteiramente entregue às “mercadorias e suas paixões” (A Sociedade do espetáculo, §168 e §66)

Isso é apenas um esforço imaginativo — um cenário, ainda, pouco provável, embora seja fácil antecipar um futuro com um acréscimo significativo no controle sobre os fluxos globais e a circulação de pessoas com base em argumentos sanitários, seguindo-se uma normalização de parte das medidas atuais de exceção (como vimos acontecer com relação ao terrorismo desde os ataques de 11 de setembro de 2001).

De toda forma, é sempre temerário fazer prognósticos em meio a tantas incertezas. Mas o momento requer reflexões e o que podemos fazer de melhor é pensar sobre aquilo que já conhecemos. Aquilo que talvez sintamos como menos problemático neste momento é o que talvez mais precise ser problematizado. Resta esperar que o distanciamento social se converta em distanciamento (Verfremdung) no sentido de Brecht — ruptura com a representação autonomizada da sociedade do espetáculo e suas ilusões (entre elas, a maior de todas: a da economia capitalista, reprodução insensata e incessante de valor abstrato em detrimento da vida).

Um distanciamento, portanto, dessa forma de sociedade: oportunidade necessária de repensar, criticamente, as separações que a fundam, e os limites profundos da vida quotidiana que o capitalismo tardio nos impõe.


Gabriel Zacarias é professor de história da arte na Unicamp e atualmente é pesquisador visitante da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. É autor de No espelho do terror: jihad e espetáculo (Elefante, 2018).

Frete compartilhado da Elefante

Depois de cinco anos de frete grátis em nossa loja on-line, a partir de 23 de maio de 2020 começaremos a compartilhar com os clientes o valor de envio de nossos livros. Isso se deve ao aumento dos custos operacionais que tivemos nos últimos meses — inclusive com os envios — e sobretudo aos efeitos da pandemia de coronavírus, que fez com que os Correios interrompessem a modalidade de remessa de livros como “impresso módico”, que utilizávamos. Assim, ficou muito pesado, para nós, continuar arcando integralmente com o frete. Ao contrário do que costuma ocorrer, porém, não cobraremos de nossos leitores o valor total da postagem: iremos dividi-lo com você. O preço médio cobrado pelo frete é de R$ 10 por livro. Por isso, iremos adicionar uma taxinha de R$ 5 a cada pedido realizado pelo site — a cada pedido, não a cada livro. Assim, quem comprar um único exemplar estará dividindo meio a meio o frete conosco, aproximadamente; e quem comprar mais de um exemplar pagará relativamente um valor reduzido de frete. Quanto mais exemplares você pedir em sua encomenda, menor o custo do envio. Claro que os valores são aproximados, porque os títulos têm pesos diferentes e, portanto, taxas diferentes de postagem. Mas a ideia é a mesma: cobrar um valor subsidiado de frete, quase simbólico, para as compras em nossa loja on-line. Esperamos, com isso, aprimorar a qualidade de nossos envios. Torcemos pela compreensão de vocês. Continuem conosco, em manada.

Desmatamento da Amazônia também destrói a economia

Por Bertha Maakaroun
Estado de Minas

A floresta amazônica, as etnias e a biodiversidade estão sob ataque de grileiros. E isso, apesar de o desmatamento não ser premissa para o crescimento econômico da Amazônia: a expansão da agricultura brasileira deixou de ser intensiva em terra para ser cada vez mais intensiva em tecnologia. Para além da produção da soja, – cuja cadeia de valor ligada à produção na Amazônia está engajada no compromisso de traders globais para a não aquisição do produto originado em áreas recentemente desmatadas – também o crescimento econômico e o bem-estar das populações amazônidas não dependem do desmatamento. Ao contrário, onde mais se desmata é onde menos a economia cresce e onde é maior a distância entre os indicadores de desenvolvimento do país e os da Amazônia. 

A conclusão é de Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), autor de Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza. Na última quarta-feira, ele lançou o livro no projeto Sempre um Papo, em BH. Com base em um conjunto de dados empíricos, Ricardo Abramovay demonstra, em sua obra, a importância das unidades de conservação e das populações que nelas vivem: além dos serviços ecossistêmicos que prestam, têm potencial subaproveitado de geração de riqueza e de bem-estar presente nas práticas econômicas desses povos tradicionais.

“O Brasil tem na economia da floresta em pé, ou seja, na economia do conhecimento, da biodiversidade, enorme potencial para assumir relevância global. Além dos produtos da biodiversidade, existe potencial grande nas moléculas da biodiversidade. Hoje, a indústria farmacêutica no Brasil é de genéricos e, no entanto, aqui temos a ‘Biblioteca de Alexandria’ da biodiversidade e não se tem leitores”, afirma ele. 

Abramovay considera o avanço do desmatamento na Amazônia desastroso não apenas para a perspectiva econômica, mas também para a própria democracia brasileira: em vez dos laços de confiança que poderiam emergir como resultado da exploração sustentável da floresta em pé, o atual modelo de ocupação da Amazônia fortalece a criminalidade e dissemina a insegurança por toda a região, com a ação da grilagem que invade as terras devolutas, áreas de conservação e áreas indígenas, desmatando com fins patrimoniais. Segundo o pesquisador, a sinalização do governo federal de que o Brasil teria exagerado na demarcação de terras indígenas e unidades de conservação agravou o quadro. 

“Isso foi uma espécie de senha, de sinal dado pelo atual governo, para que atores criminosos passassem a invadir terras e atacar as populações indígenas”, diz ele. Confira a entrevista exclusiva de Abramovay ao Estado de Minas.

O que o motivou a escrever o livro?

Em função da precaríssima informação que em geral a sociedade brasileira tem sobre a Amazônia, particularmente as pessoas ligadas aos organismos de tomada de decisão, como o Judiciário. Há muito preconceito contra a Amazônia. O principal deles traduz-se na errônea ideia de que a condição básica para que a miséria seja combatida na Amazônia seja aprofundar o modelo de crescimento econômico que hoje vigora na região. Um modelo apoiado no avanço da pecuária e no avanço do desmatamento para a produção de grãos, principalmente soja, e na mineração. Procurei mostrar que esse modelo de desenvolvimento econômico tem dado resultados insatisfatórios: se de fato tal modelo fosse aceitável para lutar contra a pobreza e a miséria, a Amazônia não estaria hoje situada no topo da linha de miséria do Brasil. O crescimento econômico e o bem-estar das populações que vivem na Amazônia não dependem do desmatamento. Ao contrário, onde mais se desmata é onde menos a economia cresce e onde é maior a distância entre os indicadores de desenvolvimento do país e os da Amazônia. Quando autoridades dizem que é importante ampliar a produção agropecuária na Amazônia, se isso significar promover esse tipo de desmatamento, trata-se de operação que envolve atores e procedimentos que não vão resultar em desenvolvimento, mas em destruição e criminalidade.

O que os indicadores sociais nos dizem sobre o padrão de crescimento da Amazonas ao longo das últimas décadas?

Vivem na Amazônia 25 milhões de pessoas e a sua taxa de crescimento demográfico é bem superior à do país como um todo. Mas o padrão de crescimento da Amazônia nas últimas décadas desestimulou o fortalecimento da economia regional, não elevou o padrão de vida da população e trouxe danos ambientais que comprometem a própria produção agropecuária. A Amazônia tem os piores indicadores do Brasil. Em 98,5% dos municípios do estado, as condições de vida são piores que as de outras regiões do Brasil. E quando falo de indicadores, não são apenas os ligados à renda monetária. O saneamento é precário, a oferta de água para a população é precária, a oferta de energia para a população é pre- cária. Isso se torna fator da violência criminosa.

Qual é a evolução do desmatamento na Amazônia?

Entre 2004 e 2012, o Brasil foi o país que deu isoladamente a maior contribuição contra as mudanças climáticas do mundo. Isso é reconhecido pelas Nações Unidas. Entre 2004 e 2012, graças às políticas públicas de repressão, o Brasil reduziu o seu desmatamento de 27,7 mil quilômetros quadrados (km2) para 4,4 mil km2, ganhando grande reconhecimento internacional. Mas teve esse quadro revertido a partir de 2012. Entre 2015 e 2016, o desmatamento aumentou 50% em relação a 2014. É verdade que, em 2017, o desmatamento caiu 16% em relação a 2016. Mas, ainda assim, o Brasil desmatou na Amazônia, só em 2017, nada menos que 6.624km2, segundo dados do Observatório do Clima. E agora, mais recentemente, tivemos a elevação do desmatamento para algo próximo a 10 mil km2. É menor do que foi 2004, mas uma trajetória de ascensão preocupante. Tanto mais preocupante porque 90% desse desmatamento é ilegal.

Que papel desempenha a grilagem no desmatamento?

O desmatamento é uma atividade profissional e muito cara. É gente que tem dinheiro, contrata pessoas miseráveis, frequentemente em situação de trabalho escravo, para fazer esse trabalho absurdo. É um desmatamento profundamente irracional: em média, dois terços da área desmatada na Amazônia estão voltados para a pecuária de baixíssima qualidade ou estão abandonados. O grileiro entra em terras devolutas – hoje existem entre 70 milhões e 80 milhões de hectares de áreas devolutas, que pertencem à nação e não poderiam ser ocupadas – e depois que invade, derruba, desmata e ocupa com pastagem de baixíssima produtividade, na expectativa de que a área seja legalizada. Isso se agravou no atual governo federal, porque com o discurso do Executivo de que o Brasil teria exagerado na demarcação de terras indígenas e unidades de conservação, foi uma espécie de senha, de sinal para que atores criminosos passassem a invadir terras, o que antes não era feito. Pois antes, face à invasão de território indígena ou de unidade de conservação, a expectativa de legalização era muito baixa. Neste momento, o que está acontecendo em territórios indígenas é as- sustador.

Além do risco de genocídio, há também o etnocídio, ou seja, o extermínio de culturas. Mas se depender da visão de mundo de quem ocupa o Planalto, o Brasil perderá a sua diversidade cultural. O Brasil é um país que fala mais de 150 línguas. Isso é patrimônio, não só a cultura espiritual, mas também a cultura material dos povos indígenas, que é fundamental para o desenvolvimento tecnológico. Os indígenas conhecem muito melhor a floresta do que os cientistas. A união de esforços entre cientistas e indígenas está constituindo uma tecnologia para reflorestamento muito mais importante, como se verifica com a atuação da ONG Rede de Sementes do Xingu.

Em seu livro, o senhor aborda a economia do conhecimento da natureza ou a economia “da floresta em pé”. Poderia desenvolver essa ideia?

O Brasil, nos últimos 40 anos, perdeu o bonde da inovação tecnológica na área industrial. Passou por desindustrialização gigantesca, e não vamos recuperar isso porque perdemos as condições de acompanhar o progresso tecnológico. A única área que temos condições de nos tornar relevantes é na economia do conhecimento, da biodiversidade. Além dos produtos da biodiversidade, existe potencial grande nas moléculas da biodiversidade. Hoje, a indústria farmacêutica no Brasil é de genéricos, e no entanto, o lugar em que há a Biblioteca de Alexandria da biodiversidade não se tem leitores. Destruir a floresta é destruir potencial de inovação tecnológica e geração de renda extraordinário. Agora, a boa notícia é que está se formando uma espécie de consenso, uma coalizão em torno da economia da floresta em pé.

Políticos, governadores dos estados da Amazônia, estão se dando conta de que o modelo atual de crescimento é tiro no pé, vai agravar problemas sociais. Já estão falando e tentando tomar iniciativas no sentido da biodiversidade. No meio empresarial, há também empresas tomando decisões nesse sentido. Além disso, há iniciativas para valorizar o empreendedorismo na Amazônia: jovens investidores interessados em valorizar produtos na floresta. O ativismo é elemento importante por duas características: os ativistas são ao mesmo tempo pesquisadores, que publicam nas melhores revistas internacionais. Em segundo lugar, esses ativistas agem para favorecer negócios da sustentabilidade. Estão lá com empresas que se proponham a compreender o valor da biodiversidade e queriam estabelecer na região uma economia da floresta em pé. São elementos que estão se articulando agora e no fundo são a base de uma virada na Amazônia, para quando tudo isso ficar claro para o conjunto da sociedade brasileira. Importante dizer, contudo, que tudo isso é tímido enquanto a sinalização do governo federal for compactuar com a violência e a criminalidade na Amazônia.

O desejo feminista quer transformar tudo

Foram as greves feministas ao redor do mundo ali em março de 2017 que motivaram Verónica Gago a escrever seu mais recente clamor contra o sórdido avanço conservador e neoliberal. Atravessada pelo calor das manifestações e pela mobilização das mulheres latino-americanas, essa intelectual militante argentina, membro do coletivo NiUnaMenos, reflete sobre o feminismo que brota no “Sul do mundo”, ganha força no continente e, à medida que rompe os limites entre os nossos países, forja um internacionalismo outro, não aquele das fronteiras do mapa geopolítico, mas sim o mediado pela força nossa, delas, juntas.

Então parecia propício que o livro pudesse se chamar A potência feminista, mas o título insistia em ter uma vírgula. A efervescência das palavras de ordem, as imagens da marea verde rodando o planeta, as meninas, mulheres e senhoras tomando Buenos Aires, Santiago, o Rio de Janeiro… Verónica Gago também quer saber quem matou Marielle Franco. Quer combater o que chama de tripla contraofensiva — militar, financeira e religiosa — contra o feminismo. Quer relacionar o cotidiano com a conjuntura política, o debate sobre a pobreza com o sistema bancário, a educação pública com a violência sexual.

Então, cabia uma vírgula: A potência feminista, ou o desejo de transformar tudo.

Corta para os dias atuais, março de 2020. Um novo parlamento foi eleito na Argentina em outubro último, e agora há uma imensa expectativa pela discussão — mais uma — de um projeto de lei pela legalização do aborto enviado pelo governo do presidente Alberto Fernández. Em 2018, uma matéria semelhante passou pelo Congresso, foi aprovada pelos deputados, mas parou no Senado. “Sabemos que será lei, a questão é quando”, afirma a escritora Dolores Reyes, autora de Cometierra, um romance cuja protagonista convive com a sombra dos feminicídios na Argentina.

Se “estar na rua é uma aposta política”, como escreveu a jornalista Estefania Pozzo, o 8 de março mais uma vez sintetizou as fichas na mesa. Sob o coro de “a América Latina será toda feminista”, as principais cidades do continente fizeram do simbólico Dia Internacional da Mulher um grande grito local não só pelos já conhecidos direitos ligados à igualdade de gênero, mas também contra o crescente número de feminicídios, contra os incessantes casos de assédio e abuso, e contra o autoritarismo machista que inspira os líderes locais.

Em Santiago do Chile, em tempos de grandes atos contra o presidente Sebastián Piñera, centenas de milhares de mulheres marcharam para denunciar a violência sexual que aponta que, sim, há Um estuprador em seu caminho, como diz a música (aqui, um relato sobre a jornada de protestos chilena no Brasil de Fato); no México, não só o final de semana foi de atos nas ruas como a segunda-feira, 9 de março, foi de greve feminina — o #UnDíaSinNosotras é uma resposta aos tantos e tão escandalosos casos de feminicídio ocorridos no país que faz fronteira com os Estados Unidos.

No Brasil, as manifestações populares alcançaram pelo menos setenta cidades e atacaram o presidente Jair Bolsonaro, que acaba de ser processado por uma jornalista após tê-la dirigido ofensas de cunho sexual. “Marielle presente! O assassino dela é amigo do presidente” foi outra consigna de protesto ouvida nas ruas, revelando a associação entre violência machista e violência de Estado. Na segunda, dia 9, mulheres do MST ocuparam o Ministério da Agricultura, em Brasília. Aqui um resumo dos protestos no Brasil, pela Folha; e aqui uma abordagem latino-americana, pelo El País.

Foi um grande domingo, tal qual o 8 de março de três anos atrás, aquele que motivou Verónica Gago a escrever o seu mais novo livro — uma obra que amarra conceitualmente tudo isso que está acontecendo agora em nossos países, diante de nossos olhos, ou devido às nossas lutas e resistências diárias. É a potência feminista em erupção. Parafraseando um grafite das paredes da Universidade Católica do Chile, que serve de epígrafe ao capítulo final: “Os Chicago boys tremem, o movimento feminista resiste”. Avante! É preciso transformar tudo, absolutamente tudo.

2019, te amo e te odeio

Queridos leitores e leitoras,

Este foi definitivamente o melhor ano da história da Editora Elefante, e lamentamos muito que meses tão bons para nossos livros, com tanto trabalho e tantos lançamentos, tenham sido, simultaneamente, tão ruins para os trabalhadores brasileiros. Por isso, não sabemos se amamos ou odiamos 2019. Talvez nutramos ambos os sentimentos pelo ano que passou. Ou nenhum.

O que estamos vivendo na política, na cultura, na economia — enfim, em nossa sociedade como um todo — é tão brutal, violento, insólito e entristecedor que vamos nos abster de tecer comentários mais demorados sobre a realidade que atravessa o país. A internet está cheia de boas e péssimas análises. Diante da barbárie que se alastra, fizemos uma escolha decidida pelos livros. E publicá-los foi basicamente a que nos dedicamos em 2019. Com força e como nunca.

O ano começou com a notícia de que um trecho de Calibã e a bruxa virou questão da Fuvest, vestibular da USP. No finalzinho de 2019, mais duas provas de seleção universitária citariam nossos livros: o Enem, que escolhe os novos estudantes das federais, trouxe um parágrafo de O Bem Viver, e a Vunesp, da Unesp, destacou o ensaio No espelho do terror.

Não que gostemos de vestibulares — sempre acreditamos se tratar de um funil injusto —, mas o fato de avaliadores estarem incluindo nossos livros nessas provas significa que há professores atentos ao que estamos publicando, o que acaba fazendo com que muitos estudantes também despertem para os temas que queremos difundir. E isso nos enche de orgulho e esperança.

Nem bem voltamos do recesso, em janeiro, uma barragem de rejeitos da mineradora Vale rompeu em Brumadinho, matando cerca de trezentas pessoas. Mais de duzentos corpos foram encontrados, mas outros noventa simplesmente desapareceram. Os danos humanos e ambientais são irreparáveis, e aconteceram na esteira da tragédia de Mariana, ocorrida em 2015.

É um absurdo, um acinte, um ecocídio. Relembramos naquele então, e relembraremos sempre, que nossa coleção de livros sobre pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento explica em detalhes por que tais episódios não podem ser considerados meros acidentes: são, isso sim, consequência óbvia da mineração industrial em grande escalada destinada à exportação.

Em 2019, lançamos novos títulos com essa temática: Alternativas sistêmicas, de Pablo Solón, Qual o valor da natureza?, de Daniel Braga Lourenço, Direitos da Natureza, de Eduardo Gudynas — cujo lançamento teve a participação de Aílton Krenak —, As fronteiras do neoextrativismo na América Latina, de Maristella Svampa, e Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza, de Ricardo Abramovay.

Mas o primeiro livro lançado pelos elefantes em 2019 foi Instruções para um futuro imaterial, de Stefano Quintarelli, que deu continuidade à nossa linha de publicações sobre os desafios políticos, econômicos e sociais trazidos pelas novas tecnologias, e que começou há dois anos com Uberização — livro que, em 2019, ganhou uma nova edição, com novo prefácio do autor.

Depois, veio Olhares negros: raça e representação, de bell hooks. A recepção foi incrível, demonstrando o desejo dos leitores e leitoras brasileiras pela obra da escritora negra estadunidense. O lançamento atraiu muita gente, e o livro foi parar em um videoclipe da cantora Gabz com a participação de Baco Exu do Blues e no musical Pretoperitamar, sobre esse grande artista que foi Itamar Assumpção.

Continuamos lançando bell hooks, com Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra e Anseios: raça, gênero e políticas culturais. Cada livro contou com um prefácio assinado, respectivamente, por Rosane Borges, Mariléa de Almeida e Luciane Ramos-Silva. Elas também promoveram debates e conversas sobre a obra de bell hooks ao longo do ano, em parceria conosco. Trazer esses títulos e essas pessoas para perto da Elefante foi uma das nossas grandes alegrias em 2019.

Contudo, se tivéssemos que eleger o “grande momento” dos últimos doze meses, certamente escolheríamos o lançamento de O ponto zero da revolução no Memorial da América Latina, em São Paulo, em 24 de setembro. Gente, o que foi aquilo? Cerca de 1.200 pessoas lotando o imenso auditório Simón Bolívar para ver e ouvir Silvia Federici. Que coisa mais incrível…

Muita gente também foi atrás de Marion Nestle durante a turnê de lançamento do livro Uma verdade indigesta por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, para escutar sobre como a indústria alimentícia manipula a ciência do que comemos. Foi uma grande honra para nós lançar o livro de uma das vozes mais importantes da nutrição e da alimentação saudável em todo o mundo.

Em maio, descobrimos que a Amazon estava vendendo livros nossos a preços mais baixos do que nós mesmos conseguimos praticar, e escrevemos um texto sobre isso em nossas redes sociais. A postagem circulou bastante, produzindo um debate enriquecedor sobre as práticas da gigante estadunidense em tempos de crise nas grandes redes de livraria do país.

No “dia dos namorados”, abrimos a pré-venda de Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas, de Dossie Easton e Janet W. Hardy, que lançaríamos apenas em novembro. Apesar do atraso, pelo qual nos desculpamos, o livro, além de muito bom, ficou incrível, graças às ilustrações de Ariádine Menezes.

Em julho, mais uma vez, somamos esforços no barco da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), em Paraty. No convés, lançamos dois livros: Sertão, sertões, em diálogo com o autor homenageado pela Flip, Euclides da Cunha; e Makunaimã, uma peça em dois atos sobre a obra de Mário de Andrade, os direitos indígenas e a cultura brasileira.

Makunaimã foi publicado graças a um prêmio do Ministério da Cultura recebido em 31 de dezembro de 2018. Sabendo que a pasta seria extinta pelo novo governo, os servidores correram para garantir que o benefício fosse liberado. Falando em premiações, Raul, de Alexandre De Maio, ficou entre as cinco melhores HQs do ano segundo os jurados do Prêmio Jabuti.

Mulheres Livres veio em agosto, com uma pequena turnê de lançamento em São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro com a presença da autora, Martha A. Ackelsberg, quem debateu sobre a organização que lutou pela emancipação feminina na revolução social que precedeu a Guerra Civil Espanhola, nos anos 1930, e sobre os ensinamentos que elas deixaram para as mulheres de hoje.

Em meio ao avanço do conservadorismo e da extrema direita na América Latina, lançamos uma segunda edição revista e ampliada de Uma história da onda progressista sul-americana (1998-2016), de Fabio Luis Barbosa dos Santos, livro essencial para compreender o momento que vivemos. Também lançamos México e os desafios do progressismo tardio, sobre o país que, na contramão dos vizinhos, foi para a esquerda.

Não imaginávamos que, em outubro, o continente entraria em ebulição, com grandes protestos no Equador, no Chile e na Colômbia, e um golpe de Estado na Bolívia. Como por aqui a mobilização popular contestadora sempre acarreta repressão violenta, assistimos com muito pesar à ação de policiais e membros das forças armadas contra nossos hermanos nas ruas e nos campos.

Muita gente morreu. No Chile, mais de duzentas pessoas foram atingidas por balas de borracha nos olhos, perdendo a visão. Em solidariedade, decidimos distribuir gratuitamente Memória ocular, lançado em 2018. Ainda sobre o tema, publicamos Corpos que sofrem, com artigos que tratam dos efeitos psicossociais da violência — sobretudo quando impingida pelo Estado.

Mas também foi um ano de poesia. Gargalhando vitória nos trouxe vozes e cenas do fluxo da Cracolândia, região do centro de São Paulo que concentra usuários de crack. Em dezembro, com Poemas, do surrealista francês Robert Desnos, nosso último lançamento do ano, chegamos ao quinquagésimo título da história da Elefante. Urrú! Em 2019, no total, foram vinte novos livros.

Por fim, aumentamos nossa coleção Fundo & Forma, de antropologia, com O retorno da terra, sobre a luta dos Tupinambá da Serra do Padeiro, no sul da Bahia, com lançamentos em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Seguro e — claro — na aldeia cujo povo inspirou o livro de Daniela Fernandes Alarcon.

Em 2019 nós aqui na Elefante trabalhamos como se houvesse amanhã: porque haverá, e será melhor. Nem sabemos direito como conseguimos fazer tanta coisa com uma equipe tão minúscula. Mas sabemos por que conseguimos: porque vocês estão conosco. Nossa independência editorial só é possível com a interdependência que temos de vocês, nossos leitores e leitoras.

Cada pré-venda que vocês apoiam, cada foto de nossos livros que vocês compartilham, cada vez que recomendam nossos títulos aos amigos, enfim, cada gesto de cada um de vocês possibilita que continuemos caminhando.

E assim pretendemos seguir 2020 adentro: lado a lado com vocês, contra a barbárie que se instala no país e no mundo, publicando livros que ajudem a pensar e a construir alternativas que possibilitem vivermos em paz e igualdade.

Bom descanso para todos e todas vocês. Ano que vem tem mais.

Vamos juntos, em manada.

Dos elefantes,

Porque desmatamento não traz desenvolvimento

Ricardo Abramovay
Entrevista a Maria Chiaretti, da Ubu

Qual foi a origem do projeto que resultou em Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza?

Sete organizações não governamentais, quase todas elas ameaçadas pela situação em que o Brasil se encontra hoje, me encomendaram um trabalho sobre o desmatamento na Amazônia com a seguinte pergunta central: “Para a Amazônia se desenvolver e para que haja especificamente crescimento econômico na região é necessário que haja desmatamento?”.

Para responder a essa pergunta, eu organizei o raciocínio em cinco tópicos que são os cinco capítulos do livro e que, de certa forma, procuram combater cinco preconceitos que existem na sociedade brasileira com relação à Amazônia.

1) “Tudo bem, eu gosto da floresta, só que nós precisamos cuidar de quem está aí hoje, é preciso pensar no presente e, por isso, é preciso desmatar.” Esta afirmação é uma falácia. Uma das fundamentações empíricas para dizer isso é que, no período em que o Brasil mais reduziu o desmatamento — o Brasil foi o país que individualmente mais contribui para a luta contra as mudanças climáticas entre 2004 e 2012 —, a produção de soja e de carne cresceu. Além disso, o desmatamento tem levado sistematicamente a terras improdutivas ou a uma pecuária de baixíssima produtividade. Então esse vínculo entre desmatamento e crescimento de emprego e de renda está errado.

2) “Se você suprimir o desmatamento você vai sacrificar as pessoas que trabalham no desmatamento e isso custaria caro. Interromper o desmatamento seria algo muito custoso.” Isso também não é verdade. Há inúmeros estudos mostrando que o tipo de trabalho que é feito para o desmatamento é na maior parte das vezes um trabalho ilegal, frequentemente trabalho escravo, de baixíssima qualidade. O que o Brasil perderia com geração de renda com o fim do desmatamento seria irrisório.

3) “O Brasil tem área protegida demais”. Metade da Amazônia é composta por áreas protegidas: unidades de conservação, reservas extrativistas ou territórios indígenas. Mas justamente até aqui — com o governo atual isso mudou — essas áreas protegidas eram as áreas de menor desmatamento. O que era um trunfo para o Brasil. Como a Amazônia é um território de interesse global, a melhor forma de evitar o desmatamento é sinalizar aos atores privados que, se eles invadirem, [as áreas] não serão legalizadas. E a Constituição proíbe a legalização de terras em unidades de conservação.

4) Este quarto ponto não é um preconceito, está mais para um alerta: essas áreas protegidas estão sendo muito agredidas. Já estavam sendo e agora, com o governo atual, isso adquiriu proporções realmente assustadoras. Além das terras indígenas, das unidades de conservação e das reservas extrativistas, você tem uma longa área, correspondente a oitenta milhões de hectares (duas vezes o estado de São Paulo) que não tem demarcação nenhuma. É uma terra pública, mas que não está demarcada. Por isso, há quem defenda que a legalização da propriedade deve ser autodeclaratória. Ou seja, você invade uma terra que não é sua, você declara que a terra é sua e você passa a obter a legalização. O governo está tentando transformar algo que era ilegal em legal. Essas terras estão sendo invadidas sistematicamente e não é que elas estejam sendo invadidas para a constituição de atividades econômicas regulares, saudáveis. Estão sendo invadidas para garimpo clandestino, extração ilegal de madeira, criação de gado visando fins exclusivamente patrimoniais e assim por diante.

5) “Só o Brasil preserva as suas florestas.” É algo que a gente ouve tanto falar que acaba acreditando. Esse capítulo parte uma ideia elementar que é a seguinte: quando um país sai de uma situação de pobreza em direção a mais riqueza e desenvolvimento, a tendência é que a sociedade passe a valorizar as áreas florestadas e passe a forçar políticas de preservação. Isso aconteceu nos Estados Unidos, em toda a Europa, no Japão. Essa conversa de que só nós temos uma legislação florestal rígida é uma mentira. E de tanto ser repetida, as pessoas acabam acreditando.

Basicamente, o livro é isso, com uma ideia adicional que eu não chego a desenvolver porque ainda é incipiente: existem alternativas para o uso sustentável da floresta em pé. E essas alternativas estão tanto nas cadeias do valor de uso da biodiversidade: pequi, mel, açaí — que já é uma cadeia de valor importante — borracha, como em moléculas existentes nessa gigantesca biblioteca que é a própria biodiversidade da floresta e que nós não conhecemos.

Como nós somos detentores da maior biodiversidade do planeta, o desafio é o de como iremos transformar essa biodiversidade em base para os produtos farmacêuticos que serão os responsáveis pelo enfrentamento das principais doenças do século XXI. E a má notícia é que nós vivemos o paradoxo de um país em que a indústria farmacêutica de alta qualidade foi embora e ficou só a produção de genérico, ao mesmo tempo que somos o país que detém a maior biodiversidade do planeta.

Como convencer a opinião pública de que o crescimento econômico da Amazônia não depende do desmatamento?

Embora a força da barbárie, da selvageria e do primitivismo na Amazônia ainda seja muito grande, você tem sinais emitidos tanto por atores locais quanto por atores nacionais e internacionais que acabam chegando aos ouvidos da opinião pública. Por exemplo, a reação do Helder Barbalho — governador do Pará — foi surpreendente. A declaração que ele deu logo antes de soltarem os meninos em Alter do Chão. Ele deu uma declaração indignada com a prisão dos meninos e, nesta declaração, Barbalho ressalta a importância do ativismo.

Este é outro ponto que eu também sublinho no livro: nós não teremos uma economia da floresta em pé e uma bioeconomia se não tivermos um ativismo muito forte. Uma característica importante do ativismo da Amazônia é que ele é voltado para o conhecimento da Amazônia. Os quadros das principais ONGs que atuam na Amazônia hoje — Imazon, ISA, Iban, Imaflora — publicam em revistas científicas de qualidade.

Quando você pensa em um ativista, você pensa naquela pessoa que fica no terreno, na linha de frente. As ONGs estão na linha de frente, mas elas têm um investimento em publicação em revistas internacionais muito forte, porque uma das premissas fundamentais para a economia da floresta em pé está exatamente justamente na junção entre as populações tradicionais — indígenas e ribeirinhas —, cientistas que atuam na Amazônia (você tem uma comunidade científica apesar da precariedade na região), empresas que estão tentando atuar do ponto de vista do desenvolvimento sustentável lá, e algumas agências governamentais que estão tentando fazer um trabalho diferente do trabalho preconizado pelo governo federal.

Os governadores do Pará, do Amapá, do Amazonas, do Maranhão têm tido boas posições. Para responder a sua pergunta, essa percepção vai mudar por uma convergência de forças díspares, mas que têm em comum a constatação do quanto o modelo de crescimento econômico (eu não estou falando de desenvolvimento em geral, estou falando especificamente de crescimento) da Amazônia até aqui não dá nem um futuro para os atores locais e nem para o Brasil, evidentemente. A minha impressão é a de que está crescendo a quantidade de atores locais que está se dando conta disso.

Como foi possível publicar esta rápida resposta ao crescimento desenfreado do desmatamento na Amazônia?

Durante a leitura você vê que não há nenhuma pesquisa original minha no livro. Foi possível escrever esta rápida resposta porque a pesquisa em torno deste assunto amadureceu muito nos últimos anos. Se você se voltar para origem das pesquisas que eu cito, algumas são originárias de ONGs que estão lá. Nós temos uma pesquisa amadurecida e é por isso que esta pesquisa tem tido uma repercussão internacional tão forte. Por exemplo, Jeffrey Sachs está articulando uma espécie de Painel Intergovernamental de sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Amazônia junto com o Carlos Nobre, e a principal fonte de referência para isso é a pesquisa brasileira. A pesquisa nos outros países amazônicos não é tão desenvolvida quando comparada à nossa pesquisa biológica, ecológica e climatológica na Amazônia hoje.

Este livro tenta fazer a passagem do debate acadêmico para um texto de divulgação científica para o grande público. É simples para você fazer esta passagem?

Acho que há duas dimensões: algumas vezes têm pessoas que conseguem levar adiante essas duas dimensões. A primeira delas, que do ponto de vista da academia é a mais importante e tem que ser assim, é a publicação científica de altíssima qualidade, que muitas vezes, eu diria na maior parte das vezes, é absolutamente inacessível não só para o grande público, como para você e pra mim. Você pegar as cinco revistas de economia mais importantes, eu não sou capaz de ler e compreender os artigos publicados. A menos que eu fosse um economista superespecializado. Por que isso é importante? Porque o conhecimento científico tem técnicas.

Em cada área, em cada comunidade científica, o conhecimento vai se aprofundando de uma maneira cada vez mais especializada e de certa forma, hermética. E não tem como isso ser diferente. Se isso é assim na economia, o é também nas ciências da vida e da terra com mais forte razão. Os bons pesquisadores das boas universidade publicam em revistas altamente especializadas. Mas eu acho que é fundamental, e eu sinto que a sensibilidade da academia está crescendo, que você consiga perceber quais são as perguntas do público e quais são as contribuições que a ciência tem para ajudar a responder às perguntas que a sociedade se faz.

E é muito interessante perceber a quantidade imensa de autores que publicam em revistas científicas, mas que ao mesmo tempo são colunistas de jornal e publicam livros. Algo interessante que está acontecendo, sobretudo na área socioambiental, é a presença cada vez mais importante das ciências do homem e da sociedade nos grandes relatórios internacionais sobre mudanças climáticas e poluição atmosférica, por exemplo. Quarenta anos atrás os primeiros relatórios socioambientais globais eram puramente ambientais e vinham apenas das ciências da terra e da natureza, dos físicos, dos químicos, dos biólogos.

Hoje sociólogos, antropólogos, economistas, demógrafos têm uma participação imensa nesses relatórios, o que é um grande progresso do ponto de vista internacional. Essas disciplinas — que os atuais ocupantes das cadeiras do Ministério da Educação dizem ser inúteis — são hoje cada vez mais valorizadas no mundo. Eu acho que nós temos um movimento forte e uma tentativa de diálogo de diversas pessoas e instituições da comunidade científica com a sociedade, e mesmo tomadas de posição fortes. Você pega uma pessoa como o Carlos Nobre, por exemplo, ele é um pesquisador que está nas duas frentes. Assim como vários pesquisadores da Embrapa. Esse tema das mudanças climáticas obrigou a quem estava fazendo pesquisa de laboratório a vincular sua pesquisa à demanda social, o que é muito interessante. Eu vejo isso como um ponto positivo.

Flip, Bishop, o Brasil que temos e o que queremos

Por Tadeu Breda

Estou envergonhado. A Polícia Militar provocou a morte de nove jovens durante mais uma repressão a bailes funk, desta vez em Paraisópolis, na periferia de São Paulo, em 1o de dezembro de 2019. Vinte dias antes, em 10 de novembro, outra operação do tipo, em Guaianases, distrito da zona leste paulistana, resultou na explosão do olho esquerdo de uma adolescente de dezesseis anos, atingida por uma bala de borracha.

Mortos e feridos pelas mãos — ou graças à omissão — do Estado se multiplicam nas florestas, nos campos e nas periferias do país. As terras indígenas estão sob ameaça de se transformarem em pequenas “serras peladas”. Manchas de óleo contaminam o litoral do Nordeste. A Amazônia bate recordes de desmatamento. Barragens de mineração estouram em Minas Gerais, destruindo rios, modos de existência e centenas de vidas. Fundamentalistas religiosos avançam aceleradamente sobre a política, impondo suas crenças à população. As instituições os projetos educacionais e culturais padecem sob a batuta de novos “gestores”.

Faz mais de seiscentos dias que Marielle Franco foi executada em pleno centro do Rio, e ainda não sabemos ao certo quem puxou o gatilho nem quem são os mandantes. A violência e a injustiça são generalizadas, insultantes, revoltantes — e eu aqui escrevendo sobre a indicação da escritora estadunidense Elizabeth Bishop como autora homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2020.

Sinto uma vergonha tremenda, monstruosa, quase paralisante. Mas, ainda assim, quero escrever, porque os responsáveis por isso não demonstraram qualquer sinal de vergonha ou arrependimento pela indicação. Menos ainda parecem entender ou se incomodar com a íntima relação existente entre a louvação de uma artista apoiadora do golpe militar com as mais recentes cenas da tragédia nacional, tão marcada pela truculência.

Em uma carta ao amigo Robert Lowell, Bishop, no calor dos acontecimentos, descreveu o golpe de 1964 como “uma revolução rápida e bonita”. Aceite-se o “rápida” como uma verdade factual: o episódio final da deposição de João Goulart pela caserna rebelada realmente ocorreu com grande agilidade. Já o “bonita”, aplicado a 1964, remete a certo gosto estético muito em voga, hoje, nas mais altas rodas do poder em Brasília.

Tal posicionamento político não deve desmerecer a produção de Elizabeth Bishop, uma importante poeta do século XX, detentora do Pulitzer de poesia de 1956, nem das relevantes traduções de escritores brasileiros que ela verteu ao inglês, como Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, nem das antologias que organizou, contribuindo com a difusão da literatura nacional para além de nossas fronteiras.

Contudo, na cultura como na política, timing é tudo. É inaceitável que o principal evento literário do país homenageie uma autora que apoiou o “rápido e bonito” golpe de 1964 quando temos um presidente da República que reivindica constantemente este mesmo golpe e o regime militar que o sucedeu, a censura, a tortura, a perseguição, a prisão e o desaparecimento de opositores, não apenas no Brasil, mas em todo o Cone Sul.

Quando até mesmo políticos conservadores, como Sebastián Piñera, responsável pelas mortes e olhos destruídos pela repressão violenta aos protestos no Chile em outubro e novembro de 2019, tiveram que marcar publicamente algumas diferenças com Bolsonaro devido a suas declarações simpáticas a notórios ditadores homicidas do quilate de Augusto Pinochet.

O fascismo que se espraia pelo Brasil merece, no mínimo, uma condenação firme. E exige ações contrárias contundentes. Mas a Flip mostra-se alheia à realidade que se desenrola, cruel, para além do centro histórico de Paraty — ou mesmo ao que acontece entre suas belas igrejinhas coloniais.

Em 2019, o fascismo adentrou as ruas de pedra deste patrimônio histórico, cultural e arquitetônico, quando um pequeno grupo de bolsonaristas enraivecidos tentou impedir com uma potente aparelhagem de som (tocando o hino nacional ao ritmo de funk, ali obviamente não reprimido pelas autoridades) um debate com o jornalista estadunidense Glenn Greenwald no barco da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), que acontecia do outro lado do rio Perequê-Açu.

Rojões foram lançados diretamente contra os debatedores, felizmente sem atingir ninguém. Tudo porque Glenn, vencedor do Pulitzer de jornalismo de 2014, havia revelado o conluio de procuradores e juízes da Lava Jato — entre eles, o atual ministro da Justiça, Sergio Moro — para fraudar o devido processo legal e condenar Lula, retirando-o das eleições de 2018.

Na ocasião, o diretor e a curadora da Flip — os mesmos que agora escolheram Bishop — lavaram as mãos, mesmo tendo a balbúrdia bolsonarista atrapalhado também a programação oficial. Questionados, na semana seguinte, durante um pequeno debate em São Paulo, justificaram a própria inação dizendo que, em anos anteriores, também indígenas e quilombolas haviam feito livremente manifestações durante o evento.

(Aqui nem é preciso mencionar o abissal desequilíbrio de legitimidade entre o grupelho verde-amarelo e os povos originários e as comunidades tradicionais do litoral sul fluminense; tampouco será necessário lembrar que, se índios e negros baixassem pelo centro de Paraty com escandalosos alto-falantes, disparando fogos de artifício contra seus adversários políticos, seriam prontamente impedidos pela polícia.)

É o mesmo falso pluralismo com que argumentam agora os defensores da indicação de Bishop, minimizando seu apoio ao golpe de 1964 e lembrando que Jorge Amado, homenageado em 2006, era stalinista, ou que Nelson Rodrigues, nome escolhido em 2007, era simpático ao regime dos generais.

São cortinas de fumaça, pois desconsideram o momento. Em 2006, não havia, como não há, nenhum espectro do comunismo rondando o Brasil, nem se estava instalando em algum rincão isolado desta terra qualquer espécie de gulag tropical; em 2007, nem os mais pessimistas desconfiavam de um retorno do militarismo ao poder, ainda menos por vias eleitorais.

A realidade atual é completamente diferente — e deprimente. E é isso o que mais importa, agora. Temos um presidente envolvido com as milícias cariocas, fã de um suposto guru auto-exiliado nos Estados Unidos, apologista das armas de fogo, fundador de um novo partido de extrema direita que ostenta orgulhosamente um brasão desenhado com balas de fuzil, adepto das fake news e das correntes mentirosas do WhatsApp, e subserviente ao baluarte do atraso Donald Trump.

No Rio de Janeiro, temos um governador que manda helicópteros da polícia disparar contra comunidades, que festeja o assassinato de criminosos (desde que sejam negros e favelados) e que diz publicamente que os policiais devem “atirar na cabecinha”. O Exército está nas ruas, matando trabalhadores com oitenta tiros ao “confundi-los” com bandidos. Crianças têm a vida abreviada por balas de fuzil compradas com dinheiro público.

A lista de barbaridades é tremenda, e o nexo simbólico e material entre o que estamos vivendo agora e o que vivemos em 1964, mais que explícito, é intencional: um projeto. Recorde-se o “poema-manifesto” declamado ao vivo, em cadeia nacional de televisão, pelo então deputado federal Jair Bolsonaro ao votar a favor do impeachment de Dilma Rousseff, há apenas três anos:

Perderam em meia-quatro, perderam agora em 2016.
Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve [sic].
Contra o comunismo, pela nossa liberdade.
Contra o Foro de São Paulo.
Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff.
Pelo Exército de Caxias.
Pelas nossas Forças Armadas.
Pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos.
O meu voto é sim.

Não se pode pretender separar a vida e a obra do autor ou relevar manifestações tão importantes em sua trajetória pessoal, ainda mais quando, como na Flip, se homenageia o autor em sua plenitude, e não uma ou mais de suas obras ou características literárias específicas. Todo artista está imerso em seu lugar e em seu tempo, e obrigatoriamente, pela ação ou pela omissão, dialoga com os acontecimentos de sua época.

Elizabeth Bishop estava devidamente instalada no seio da elite carioca, de onde assistia aos desdobramentos políticos nacionais, e, privada ou publicamente, externou suas escolhas naquele momento. Talvez não soubesse o que viria depois do golpe. Porém, simultaneamente aos fatos, havia muita gente alertando sobre todos os perigos daquela aventura.

Hoje também. Desde 2013, pelo menos, grilos-falantes antecipam em textos, áudios e vídeos o fascismo que já chegou e se aprofunda mais e mais. Impossível alegar ignorância, naquele então ou agora, ainda mais sendo assim tão culto e inteligente, como o são esses escritores, curadores e diretores de grandes eventos literários, formados nas melhores escolas.

Se o objetivo da Flip foi criar polêmica e promover discussões sobre arte e política (que é sempre válida e necessária) evidenciando uma personalidade tão complexa como Bishop — primeira estrangeira homenageada pelo evento, lésbica, um tanto quanto colonialista, amiga de Carlos Lacerda —, é triste pensar que o fizeram escolhendo justamente alguém que defendeu o golpe de 1964. Destacar um autor ou autora que tivesse se oposto à quartelada, ainda que com contradições, marcaria ao menos uma posição contra a barbárie que se arrasta e se alastra.

Mas talvez a direção e a curadoria da Flip queiram se manter “imparciais”, como se imparcialidade existisse e, mesmo que existisse, como se fosse possível manter a neutralidade diante do que estamos vivendo todos os dias no Brasil. Somos muitos os que aguardamos um pronunciamento claro sobre seus objetivos e pretensões.

Olhe por onde se olhe, entretanto, a escolha de Elizabeth Bishop como grande nome da Flip em 2020 é injustificável. Ou só pode ser justificada pelo “lugar no mundo” ocupado pela elite cultural que habita os ambientes mais requintados ou descolados da zona oeste paulistana, da zona sul carioca ou de ambos, com passagens frequentes pelos mais hypados centros culturais estadunidenses e europeus.

É gente muito fina e elegante, que, por mais que possa assumir eventualmente posições progressistas e defender a descriminalização da maconha e do aborto e os direitos LGBTQ, no fundo, naqueles momentos de intimidade mais inconfessáveis, talvez dê graças a Deus que um movimento militar apoiado pelos Estados Unidos tenha impedido a realização das reformas de base propostas por Jango nos anos 1960.

Afinal, quando não tiveram que lidar com a perda traumática de familiares durante o regime, a ação dos generais acabou permitindo a seus pais e avós manterem as propriedades e as riquezas das quais eles, como herdeiros, agora desfrutam e se beneficiam: um status que lhes permite estar exatamente onde estão, dentro de uma minúscula patota de renda concentrada que se retroalimenta continuamente, hegemonizando a cultura brasileira sem sequer ter de fazer o mínimo esforço de olhar para a desgraça que se amontoa ao redor.

Tadeu Breda é coautor de Memória ocular: cenas de um Estado que cega (Elefante, 2018), autor de O Equador é verde: Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento (Elefante, 2011) e editor da Editora Elefante.

No centro da revolta latino-americana, o feminismo anticapitalista

Por Verónica Gago
Entrevista a Roxana Sandá*

Uma raiva de séculos envolve a América Latina e ressoa com amargura. O movimento de mulheres, lésbicas, trans e travestis levanta-se contra a caça feroz desencadeada após o golpe de Estado na Bolívia [em 10 de novembro de 2019] e faz frente ao aparato repressivo no Chile. São milhares de corpos acendendo fogos de rebelião para desafiar as fobias racistas e de classe, as fobias colonialistas e dominantes que cospem sobre quem luta por uma alternativa de poder feminista, antipatriarcal, antiextrativista e descolonizante. Os jovens enfrentam o maquinismo neoliberal para que não continue empobrecendo suas famílias. Enquanto escrevo este texto, a resistência já dura semanas. “A História é nossa e o futuro também”, declaram grafites pintados na urgência.

Por um momento, os olhos da cientista política, professora e militante feminista argentina Verónica Gago, autora de A razão neoliberal, se umedecem. Pensa nos rios de sangue que estão correndo, mas também na sequência de lutas que estão rompendo os limites de um poder de morte. O livro que ela acaba de apresentar na Argentina, La potencia feminista: el deseo de cambiarlo todo [lançado pela Tinta Limón, e que em 2020 ganhará uma edição brasileira pela Editora Elefante], é uma caixa de ferramentas para ser usada contra a ofensiva neoliberal e conservadora, mas também uma investigação tramada ao calor das assembleias, das mobilizações, das greves internacionais do 8 de março, que conecta as violência econômicas, financeiras, políticas, institucionais, coloniais e sociais.

Um feminicídio a cada 29 horas na Argentina [um a cada oito horas, no Brasil] obriga a sair do binarismo vítima/algoz e a atravessar os conflitos enfiando transversalidade na “tremor simultâneo das camas, das casas e dos territórios” de que fala a Verónica Gago, sem deixar nada de fora, porque as lutas feministas atravessam tudo. Uma advertência: nesta entrevista, ler a consigna #NiUnaMenos [NemUmaAMenos] implica reconceitualizar as violências machistas e politizá-las, para reconhecer seu horror e desarmá-lo, a ponto de converter em migalhas a retórica da vitimização. Mas quando nos assaltem as letras de #NosMueveElDeseo [NosMoveODesejo], esta aventura em chave plurinacional, estaremos diante da capacidade experimental, desejante, massiva e radical com que se constrói uma proposta revolucionária: o desejo de mudar tudo.

Eis a entrevista:

A que se refere “a potência feminista”?

É uma maneira de denominar a força do processo que os feminismos protagonizaram nos últimos anos e de dar conta de tudo o que abriram, puseram em debate e alvoraçaram: nas relações sociais, nas formas de fazer alianças políticas, nas dinâmicas de rua, nas maneiras de dar conta do sofrimento e no modo de criar lutas transversais. “Potência feminista” quer dizer que experimentamos uma força concreta que desloca e modifica os limites do que acreditamos que podemos e somos capazes de fazer, de transformar e de desejar. E esta potência tem muito a ver com outra das caracterizações em que mais insisto no livro: a conjunção que os feminismos conseguiram entre massividade e radicalidade. Tal conjunção marca uma novidade histórica. Claro que sempre houve grupos, dinâmicas, debates feministas variados, fundamentais, radicais. Mas o fato de tudo isso tomar uma escala de massas e transnacional, como ocorreu nos últimos tempos, revirou a cena. Esta expansividade do feminismo no interior de organizações, espaços e territórios existenciais dos mais diversos faz com que o movimento — que é intergeracional e pluralista — consiga fazer intervenções políticas conjunturais muito fortes, ao mesmo tempo que altera as vidas cotidianas. A simultaneidade do tremor nas camas, ruas, casas, territórios, lugares de trabalho (eles próprios redefinidos pelo feminismo) introduz uma transversalidade materialista, que não deixa nada de fora, nada sem tocar. E uma questão que abraça todos estes planos é como se reconceitualiza, de maneira prática, a partir das instâncias coletivas, as violências domésticas (incluindo as financeiras), institucionais, racistas, trabalhistas. Isso permite um diagnóstico feminista do aumento de violências, um mapeamento e uma caracterização precisa das conflitividades sociais do presente.

E permite conectar os diferentes conflitos

A potência feminista é uma capacidade de conectar lutas bem distintas, a partir de uma preocupação comum. O que está sendo expropriado da riqueza coletiva, de maneira que nos empobrece a vida, nos rouba tempo e explora determinados corpos e territórios de maneira brutal? Nesta chave, começam a ser tecidos os conflitos, as reivindicações e as lutas propostas por coletivos indígenas, trabalhadoras precarizadas, estudantes, trabalhadoras da terra, travestis e trans, aposentadas. E esta, insisto, é a materialidade concreta da transversalidade feminista que se conquistou. Por último, diria que a noção de potência é uma discussão em termos de teoria política: a partir de certa leitura de Espinosa, pode-se dizer que a potência é uma capacidade de fazer, de instituir, de afetar e de criar que se diferencia do poder — este, um grau mínimo de potência. Creio que isso é importante para discutir a infantilização que muitas vezes se tenta fazer do feminismo, como prática ingênua ou microscópica na transformação social.

Por que você propõe a greve feminista como uma espécie de lente para conceitualizar e politizar as violências?

A greve funciona como uma espécie de umbral, de prática de deslocamento diante da violência feminicida. Gera um lugar de enunciação que não aceita apenas a subjetividade das vítimas — a predileta da mídia e de certas instituições. Em vez disso, propõe uma subjetividade que se constitui na luta, no encontro com outres. E a greve expressa um gesto de bloqueio diante do estado de coisas. O chamado à greve permitiu questionar o que chamamos de trabalho; qual é o valor que produzimos; de que maneira as violências machistas relacionam-se com a precarização generalizada. Mas, além disso, a greve como processo político, que começa em 2016, e que segue com a emergência internacional da greve do 8 de Março nestes últimos anos, tem como protagonistas aquelas que realizam os trabalhos historicamente desvalorizados — ou as que foram marginalizadas, por muito tempo, nos sindicatos. Assim, a greve é impulsionada a partir das trabalhadoras sindicalizadas e das trabalhadoras da economia popular, a partir das professoras ad honoren e das estudantes, das jornalistas freelancers e das trabalhadoras estatais precarizadas, das agricultoras e das trabalhadoras migrantes, das que trabalham em casa e das desocupadas. Ela desencadeia, em termos práticos, uma perspectiva feminista que permite ler as formas de trabalho atuais, enxergar todos os trabalhos, que em sua maioria compartilham a condição de precariedade e de superexploração. Ou seja, a perspectiva feminista não apenas ilumina, visibiliza e valoriza o trabalho das mulheres e dos corpos feminizados, mas permite ler, a partir daí, a condição de precarização geral, a fragilização das relações e a necessidade de uma força coletiva para fazer frente a tal nível de saque da vida.

A greve feminista desacata o reconhecimento restrito da greve tradicional a respeito de quem são trabalhadorxs. Lança uma bela consigna: #TrabajadorasSomosTodas [TrabalhadorasSomosTodas]. Ao mesmo tempo, evidencia que, hoje, o próprio “trabalho formal” torna-se cada vez mais intermitente, mais difícil. Mesmo para quem tem o “privilégio” do salário, esta renda já quase não garante a reprodução da vida. Muito foi escrito e pensado sobre o que significa a divisão sexual do trabalho, deste matrimônio indissociável entre patriarcado, colonialismo e capitalismo. Mas a novidade é que a greve feminista atualiza essses debates em termos práticos, em uma perspectiva que abre espaço de insubordinação diante do mandato da “austeridade”, da dívida e da precariedade.

O feminicídio de Lucía Pérez, em 2016, durante o Encontro Nacional de Mulheres de Rosário, na Argentina, foi um luto coletivo e um impulso para a primeira Greve Internacional Feminista.

Produziu-se, então, uma racionalidade de assembleia. E desta assembleia saiu a ideia-força da Primeira Greve de Mulheres, como foi chamada. O que sustento no livro é que as assembleias produzem um modo de inteligência coletiva em três atos: a imaginação de uma ação comum surgida aí mesmo, in situ; a avaliação da força que se tem; e, finalmente, a capacidade prática de realizar uma decisão coletiva. A assembleia é uma máquina de decisão política que instala outra força soberana, que surge ao produzir condições de escuta — cada vez mais escassas em tempos de hipermediatização. O chamado a deixar as redes, a nos encontrarmos corpo a corpo, sempre é um chamado ao trabalhoso ato de estar juntas, e a sustentar os desencontros que aí se produzem, como parte de uma prática de elaboração coletiva. É um exercício histórico do feminismo que, nos últimos anos, vimos ser multiplicado e massificado.

A partir das assembleias e das greves, e a partir dos territórios, o feminismo começou a tecer um novo processo transnacional e plurinacional que não pode ser detido.

O processo de transnacionalização ou internacionalismo feminista é das coisas mais interessantes, porque esta prática está sendo reinventada a partir do movimento feminista. Tem a ver com a capacidade de ressonância que as lutas vão adquirindo, a maneira como se traduzem e materializam os sentidos de uma consigna, de uma bandeira, de um lenço, uma imagem. Quando houve o debate pelo aborto legal, seguro e gratuito, ou a greve feminista, não ocorreu apenas o esquema clássico de solidariedade de umas lutas contra as outras. Ao contrário, o transnacionalismo expressa-se como uma força concreta em cada luta, e um horizonte comum que não achata as diferenças nem as coloca debaixo do tapete para encaixar tudo num mesmo esquema. Esta experiência de não estarmos sós, que sintetiza consignas como “Tocam em uma, tocam em todas!” expressa uma repercussão, uma conexão e uma transversalidade que produz um corpo coletivo, alargado, e que permite coordenar iniciativas muito amplas, ao ponto de produzir o efeito oceânico de maré.

Desde o #NiUnaMenos, formula-se uma frase avançada, quase senha de transformação, que é NosMoveODesejo. O que essa consigna expressa politicamente?

Eu gosto muito desta consigna. Vejo nela muitos desdobramentos, e a tomei como guia no livro. Por um lado, significa para mim que o desejo tem potência cognitiva. Quer dizer que produz conhecimento, percepção, sensibilidade. Dar este status ao desejo implica assumir sua capacidade política de mobilização e de invenção de trajetórias vitais. Algo muito rico do movimento feminista é esta elaboração permanente de consignas, de frases, de slogans que vão tramando um saber coletivo e uma pedagogia feminista, para ir conceituando, nomeando e tramando, compartilhando o que fazemos — o que pode ser sistematizado também como saber. O desejo não é o contrário do possível, como muitas vezes se diz. É o que abre outros possíveis. Nesse sentido, o fato de nos mover implica uma aposta na radicalidade do que significa fazer política feminista. Nela, nenhum aspecto da vida fica fora da política. Tal politização da existência nega a hierarquia entre o espaço que se chama usualmente “político” e o espaço “doméstico”. Romper estas divisões tem a ver com desejar mudar tudo.

Para a ordem conservadora, produzir tais sentidos representa uma ameaça que precisa ser disciplinada, castigada ou destruída, se necessário. Com você caracteriza a guerra no e contra o corpo das mulheres e os corpos feminizados, no cenário atual?

Em sua investigação histórica Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, Silvia Federici explica por que a caça às bruxas é uma cena fundante da guerra contra as mulheres que está oculta na origem do capitalismo. A pergunta que se faz é: por que o capital precisa dar combate às parteiras e aborteiras, às que vivem sós, às artesãs e chefas de associações, e situá-las todas como bruxas — o que significa subjetividades heréticas e subversivas para o sistema. Isso supõe ao mesmo tempo a necessidade de desprestigiar seus conhecimentos, de tirar o poder social de suas atividades e de enclausurar a muitas mulheres no “lar” — termo entendido como serviço doméstico obrigatório e gratuito. Há aqui uma questão: o que se quer encerrar, quando se prende este poder e este conhecimento? É a pergunta que nos volta sobre por quê, em alguns momentos históricos, há certos corpos e certos territórios contra os quais se faz a guerra. O que se quer silenciar, explorar, dominar nestes corpos? É devido ao fato de mulheres, lésbicas, travestis e trans discutirem e confrontarem os modos históricos de subordinação e exploração diferencial destes corpos que a resposta tornou-se cada vez mais violenta? A pergunta da guerra mantém-se atual porque estamos em um momento em que a violência converteu-se na principal força produtiva.

Você fala também que o capital precisa incrementar as violências para sustentar formas de domínio e exploração que estão em crise.

Estão em crise porque há múltiplas lutas que questionam estas formas e as impugnam quando desejam outras coisas e repudiam os modos de vida neoliberais com sua dose insuportável de sofrimento, solidão e austeridade. Por isso, também, a crueldade particular com as gerações mais jovens; a intenção de endividá-las, medicá-las e controlá-las. É preciso entender esta obsessão atual de substituir educação sexual por educação financeira nas escolas. Parecem questões menores, mas são o contrário. Tocam no ponto de como o capital já organiza formas de exploração e extração de valor no futuro; como tenta superar a crise de poder quando corpos e territórios declaram-se em rebeldia, quando dizem que perderam o medo e que estão dispostes a mudar tudo.

Como você caracteriza as violências explícitas desatadas contra a força que os feminismos desencadearam na região?

Como uma contraofensiva militar, financeira e religiosa para tentar “voltar” ao que o capital chama de “normalidade”. Insisto, o retorno a essa “normalidade” é impossível sem ultrapassar um novo umbral de violência nestas três frentes ao mesmo tempo: financeira, através da dívida e do empobrecimento generalizado; militar, como estamos vendo, com repressão descarada; e religiosa, uma vez que os fundamentalistas religiosos estão em uma nova cruzada colonial e racista pelo domínio dos corpos, e o fazem com a Bíblia na mão.

No entanto, as violências ocorrem de diferentes modos com mulheres, lésbicas, trans e travestis, com as garotas das comunidades, com as mulheres migrantes e com suas próprias concepções de reprodução da vida.

A caracterização interseccional das violências e o enfrentamento às violências racistas, patriarcais, coloniais e capitalistas são uma linha vermelha entre os distintos feminismos: feminismo das periferias, transfeminismo, feminismo indígena-comunitário, feminismo negro, feminismo popular e muitos outros. A historicização das violências explicita feridas e opressões diferentes, e refletiu uma dimensão de classe que não é possível ocultar. Situar e especificar o que significa a violência em cada uma das existências diversas é fundamental. Ao mesmo tempo, é necessário compor uma luta comum que não elimine nem banalize estas diferenças históricas. Este plano comum é tecido a partir do que o coletivo Mujeres Creando chamou de “alianças insólitas”, capazes de criar composições com o que se tenta manter em classificações e caixinhas separadas.

Quando os feminismos se fazem fortes, como você diz, colocam no centro do debate os atos de despojo do neoliberalismo.

Um ponto fundamental é o caráter antineoliberal que os feminismos expressam hoje. Foram eles que puseram no centro do debate político a questão do extrativismo sobre corpos e territórios: desde o extrativismo de uma multinacional mineira, que desaloja toda uma comunidade em nome do desenvolvimento, até o extrativismo financeiro da dívida, que extrai valor da precariedade. Mas também foram os feminismos que puseram em primeiro plano a questão de o que significam o despojo da infraestrutura pública e a privatização de serviços sociais. Eles são substituídos com trabalho gratuito ou hiperbarato de mulheres, lésbicas, trans e travestis nos territórios — seres que o capital quer transformar em uma espécie de nova classe servil. Foram os feminismos que puseram em questão o que significa uma educação sexista com mandatos de gênero que preparam a juventude para estágios baratos nas empresas. Os feminismos articularam a dimensão de ajuste estrutural das economias com a dimensão de um governo do desejo e da ordem político-sexual que implica ordenar o trabalho e a inclusão social num esquema heteronormativo. Tudo isso permitiu que, em países como os nossos, se tirasse do mapa o feminismo liberal, que só propõe igualdade de condições sob o ideal de nos convertermos em empresárias de nós mesmas.

Estas ações diretas de corpo/território puderam ser vistas com clareza nestes dias, com as assembleias de mulheres e as dissidências no Chile…

O que ocorre no Chile é impactante. As companheiras da Coordenação Feminista 8M vêm numa sequência de iniciativas que remonta pelo menos ao maio feminista de 2018, esta reivindicação conjunta de educação pública e educação não sexista. Vieram em seguida o Encontro das que Lutam e a massividade do 8 de Março deste ano. Há, no último período, um acúmulo da dinâmica feminista que tem muito a ver com a pegada da mobilização atual, sobretudo devido ao lugar que tiveram as e os jovens secundaristas, ao iniciar a desobediência, o pula-catraca, como um gesto de ruptura com a chantagem moral implícita no endividamento familiar para que se eduquem e sejam exitoses em termos de competição. O mesmo vinha fazendo os movimentos que denunciavam a dívida por gastos com saúde. Para resumir, no coração do projeto neoliberal dos Chicago Boys, que é o Chile, implode-se a vida neoliberal graças ao impulso das gerações mais jovens, junto com uma dinâmica projetada pela greve plurinacional feminista. Porque o que vemos na greve dos últimos dias, no Chile, são elementos da greve feminista, que levam em conta a reprodução da vida como um espaço onde hoje o capital acumula o tempo todo. Como a reprodução da vida já não está garantida por rendimentos (sejam salariais ou de outro tipo), a dívida converte-se em uma obrigação, é adquirida compulsoriamente. Por isso, parece-me tão genial este grafite que no Chile alguém escreveu na parede de um banco: “Nos devem uma vida”, dizem, invertendo a questão de quem deve a quem.

A Bolívia arde, e a cada dia o recrudescimento dos setores que tomaram o poder e dos líderes da ultradireita está causando mais repressão e mortes.

É um massacre o que vem ocorrendo desde o golpe de Estado — sem dúvida, racista e fundamentalista. A violência sexual como violência política e a violência da heteronormatividade contra indígenas, mulheres, lésbicas, travestis e trans são o traço que sobressai na Bolívia, e é comum também ao Brasil, ao Chile e ao Equador. A pergunta que surge é: como se desarma o fascismo social e como se desarma a situação de guerra interna que se pretende instalar? Há uma discussão de fundo sobre como o desenvolvimentismo desencadeia dinâmicas neoextrativistas às quais se resiste há anos. E estas resistências têm como protagonistas mulheres que disseram claramente: a conquista neoextrativista e neocolonial dos territórios é contra a reprodução da vida, contra os bens comuns. Não é uma discussão teórica: é um acúmulo de lutas que, com enorme esforço, risco e perseverança, conseguiu instalar tal debate. É um ponto muito forte da discussão latino-americana atual, porque os feminismos estão denunciando o amálgama entre neoliberalismo, extrativismo e colonialidade. Hoje isso está no centro da guerra social. As lutas feministas puseram em palavras e em práticas uma resistência antineoliberal e relançaram o conflito político. Por isso, têm um papel fundamental em combater o fascismo, e estão também no centro do alvo das violências.

(*) Entrevista originalmente publicada em Página 12. Traduzida por Antonio Martins para o Outras Palavras.

Caça às bruxas ajuda a entender aumento de feminicídios, diz Silvia Federici

Por Paula Carvalho
Quatro cinco um

A filósofa e historiadora ítalo-americana Silvia Federici, autora do cultuado ensaio Calibã e a bruxa (Elefante), disse, em entrevista à Quatro cinco um, que estamos testemunhando um novo período de caça às bruxas ao longo dos últimos vinte anos. “Estou muito preocupada que a reação à luta das mulheres por mais autonomia, maior controle sobre nossas próprias vidas, em defesa das matas, das águas, dos campos, contra a mineração e a extração de recursos naturais seja de novo o retorno à caça às bruxas”. Disse que também ficou horroriza ao saber dos protestos contra a presença de Judith Butler em 2017, em que pessoas empunhavam cartazes com os dizeres: “Queimem a bruxa!”.

Dito isso, informou: “Eu não sou bruxa!”. Em seguida, explica a razão de uma negativa tão categórica. “‘É uma coisa boa dizer: ‘Nós somos as descendentes das bruxas’. Porque essas mulheres eram vistas como bruxas. Ao dizer essa frase, estamos reconhecendo que temos que lutar para mudar isso. Temos que lutar para garantir que não sejamos queimadas de novo. Tentaram matar essas mulheres e sufocar essa luta, mas continuamos aqui. Agora dizer que sou uma bruxa… eu não sou uma bruxa. Porque a definição é muito negativa, é a da mulher má. Podemos brincar com a palavra, mas temos que ter muito cuidado para compreender a realidade, pois ela foi muito brutal para muitas mulheres.”

Em Calibã e a bruxa, Federici defende como a caça às bruxas do fim da Idade Média e início da Idade Moderna foi um fenômeno essencial para o desenvolvimento do capitalismo. Esse mesmo fenômeno se repete no momento presente em vários lugares do mundo, como em alguns países africanos, na Índia, partes da Ásia e inclusive no Brasil, onde Fabiane Maria de Jesus foi espancada e morta no em 3 de maio de 2014, no Guarujá, no litoral de São Paulo, ao ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças.

Na visão de Federici, os episódios atuais acompanham a expansão das relações capitalistas para todos os cantos do mundo, marcada pela expropriação de terras e de outros recursos naturais de populações locais. Nesse contexto, as mulheres, por serem o principal foco de resistência a essas mudanças, acabam sendo as principais vítimas da violência acarretada por essas novas relações. Portanto, estudar a caça às bruxas de séculos atrás ajuda a compreender o aumento da violência contra a mulher dos últimos anos.

Federici está no Brasil para participar de uma série de eventos para marcar o lançamento de O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista, também pela Editora Elefante – em que discorre sobre sua participação no movimento Wages for Housework [Salários pelo trabalho doméstico], que defendeu a valorização e a remuneração do trabalho doméstico e reprodutivo feito pelas mulheres nos anos 1970.

Aos 77 anos, Federici disse que está se preparando para a morte e que ajudar as pessoas a morrerem é outra parte importante do trabalho reprodutivo das mulheres: “Temos de dar voz aos mortos”. Nessa entrevista, Federici falou, além da questão da perseguição às bruxas, das possíveis formas de resistir à ascensão do conservadorismo no mundo, de como foi seu encontro com Marielle Franco em 2016 e sua opinião sobre o romance O conto da aia, de Margaret Atwood.

Qual a importância de se entender a caça às bruxas no contexto atual?

Primeiro, estamos testemunhando um novo período de caça às bruxas ao longo dos últimos vinte anos, que acompanha o processo de globalização e das relações capitalistas; as políticas de extração de recursos naturais; os programas de ajuste estrutural; a intervenção de órgãos internacionais, como o Banco Mundial, na política econômica de muitos países que foram colonizados e hoje estão descolonizados.

Vemos isso acontecer na África, na Índia, em partes da Ásia e ouvi falar de alguns casos no México e até no Brasil. No Estados Unidos, estão sendo lançados filmes que mostram bruxas como mulheres com poderes maléficos. Estou muito preocupada que a reação à luta das mulheres por mais autonomia, maior controle sobre nossas próprias vidas, em defesa das matas, das águas, dos campos, contra a mineração e a extração de recursos naturais seja de novo o retorno à caça às bruxas.

As mulheres são um ponto de resistência importante?

Com certeza. Vejo as mulheres como cruciais para isso. E não estou sozinha. As mulheres estão na vanguarda pela luta em defesa da terra e da água, porque são elas que reproduzem a vida das comunidades. Essas atividades fazem aumentar a violência contra a mulher. Nas áreas de mineração, há violência contra as comunidades que estão sendo expropriadas de suas terras.

Isso também se traduz na dinâmica dos homens que trabalham duro, bebem, têm dinheiro e que acabam por se voltar contra as mulheres. A perseguição às bruxas foi apagada da história. Há historiadores que estudam o tema, mas não é algo ensinado nas escolas. Pelo contrário, a bruxa é apresentada como uma personagem imaginária, que foi ridicularizada, como a de uma bruxa voando com um chapéu grande. É obsceno!

Se mais mulheres entendessem o que aconteceu, uma grande mudança realmente viria, porque estamos falando de milhares de mulheres que foram terrivelmente torturadas, acusadas de crimes horríveis. Elas foram queimadas vivas na praça da vila. Hoje, na Europa, é possível ir até os lugares onde as mulheres acusadas de serem bruxas – porque elas não eram bruxas de verdade – foram queimadas. Existe um turismo em torno disso. Há bonecas de bruxas!

Precisamos voltar para o passado e nos perguntar por que houve essa perseguição, como foi útil para formar o capitalismo, qual foi o impacto e as consequências dessa perseguição na posição das mulheres, como mudou a forma como as mulheres eram vistas na sociedade, o que aprendemos com essas perseguições sobre a atualidade. Como voltar para o passado nos ajuda a entender que o aumento da violência contra a mulher hoje está acontecendo no momento em que o capitalismo está ampliando seu poder para todos os cantos do mundo?

E também precisamos entender a caça às bruxas por um princípio de solidariedade para com essas mulheres, não deixando que os crimes do passado sejam ignorados. Há algo muito errado em não trazer para o presente o que aconteceu com essas mulheres. Quem ataca as mulheres hoje financia esquadrões da morte ou deixa impunes aqueles que estão matando mulheres. Essas pessoas são descendentes dos magistrados que condenaram as mulheres a morrerem vivas na fogueira. Não podemos nos calar diante dos crimes do passado, eles têm que estar no presente, temos que ter solidariedade com essas mulheres. Elas foram nossas avós, nossas mães.

De onde surgiu seu interesse em estudar a caça às bruxas?

Venho da Itália, e em italiano strega significa “bruxa”. Vem da palavra latina “stria”, que na Roma clássica era o nome de um pássaro que trazia má sorte. Se você ouvisse esse pássaro lendário, significava que alguém tinha morrido. Na língua, a ideia do pássaro deve ter se combinado à imagem da bruxa que voa. Quando eu era criança, ouvia muito a expressão “é uma strega” para se referir a uma mulher má, ou que fazia coisas consideradas erradas.

Nos anos 1970, comecei a estudar na universidade a história das mulheres no capitalismo e encontrei um pequeno panfleto de Barbara Ehrenreich e Deirdre English chamado “Bruxas encontram esposas e curandeiras”, em que falavam da caça às bruxas no século 16 etc. Eu me dei conta que a caça às bruxas não era uma coisa tão antiga quanto imaginava. Ela aconteceu no mesmo período da acumulação primitiva que Karl Marx fala no volume 1 de O capital, sobre a expropriação dos camponeses das suas terras e da colonização e conquista do México. Percebi que a caça às bruxas acompanhou o desenvolvimento do capitalismo em um mundo onde o feudalismo já estava em crise. Foi quando comecei a estudar o tema e cheguei à conclusão de que é um processo fundamental no desenvolvimento da sociedade capitalista.

Qual a importância do seu pensamento para o contexto brasileiro?

Não acho que esse tipo de história seja só o meu pensamento. Essa história é importante para o movimento feminista do mundo inteiro, pois ainda estão usando a caça às bruxas contra nós. O movimento feminista, dos anos 1970 até hoje, adotou a imagem da bruxa como um símbolo de luta. “Somos as netas de todas as bruxas que vocês não conseguiram queimar”. Acho uma boa ideia: recuperar símbolos desvalorizados pelo capitalismo para torná-los nossos. Mas também me preocupo em não esquecer os fatos históricos, não devemos esquecer que essas mulheres que foram acusadas, presas, torturadas e mortas não tinham poderes sobrenaturais, muitas eram mulheres comuns, camponesas, de comunidades indígenas. É a mulher que está lutando.

No período da caça às bruxas, na Europa, inventaram uma ferramenta de tortura, chamada witches’ bridle [rédea das bruxas], que era colocada na cabeça das mulheres. Se você tentasse falar, sua língua rasgaria. Também foi usada na população escravizada. Isso impedia as mulheres de falar, porque elas não podiam se manifestar, deviam ser submissas. Foi uma legislação introduzida no começo do desenvolvimento da sociedade capitalista para minar o poder das mulheres. A caça às mulheres foi parte de uma redefinição do papel da mulher na sociedade, particularmente a camponesa e a proletária. Devemos saber dessa história, pois nossa situação não é tão diferente.

Você estava falando sobre a apropriação da palavra “bruxa” pelo movimento feminista. É importante não carregá-la como um rótulo vazio mas ter consciência do seu significado histórico.

Sim, a bruxa não é uma figura cool. É uma imagem que podemos recuperar para a luta, não torná-la um mito. Não devemos usar a história das mulheres acusadas de serem bruxas como se fosse uma lenda. Foi uma realidade muito brutal.

Você se considera uma bruxa?

Não! Claro que não! “Bruxa” foi um termo imposto sobre as mulheres pela Igreja, o Estado, os representantes da classe capitalista, os advogados, os magistrados, os demonólogos.

E essa forma de apropriação feita pelo movimento feminista?

É uma coisa boa dizer: ‘Nós somos as descendentes das bruxas”. Porque essas mulheres eram vistas como bruxas. Ao dizer essa frase, estamos reconhecendo que temos que lutar para mudar isso. Temos que lutar para garantir que não sejamos queimadas de novo. Tentaram matar essas mulheres e sufocar essa luta, mas continuamos aqui. Agora dizer que sou uma bruxa… eu não sou uma bruxa. Porque a definição é muito negativa, é a da mulher má. Podemos brincar com a palavra, mas temos que ter muito cuidado para compreender a realidade, pois ela foi muito brutal para muitas mulheres.

E os homens acusados e mortos por bruxaria?

A maioria das pessoas acusadas de bruxaria eram mulheres, mas houve homens. Os intelectuais que escreviam, a Igreja, os magistrados disseram: “A bruxaria é a mulher”. Mesmo assim, houve homens que morreram acusados de bruxaria. Em geral, eram parentes de mulheres perseguidas, ou pessoas que trabalhavam com alguma forma de magia. Algumas vezes, padres. Do fim da Idade Média até o início do século 16, havia várias práticas consideradas mágicas. Inclusive, por exemplo, entre populações indígenas com rituais e danças. Isso foi visto como bruxaria pelos missionários e conquistadores na América Latina.

Como vê a questão da espiritualidade em torno da bruxaria?

Esse é um dos argumentos de Calibã e a bruxa: a caça às bruxas tem muitos alvos e um desses alvos é uma certa concepção de natureza comum em sociedades pré-capitalistas, que viam a natureza como a Pachamama, como um ser vivo, uma anima. Não átomos em movimento, não uma coisa mecânica, como se fosse um grande relógio. Isaac Newton começa a ver a natureza como um grande relógio. Deus dá o primeiro empurrão e depois a natureza passa a funcionar através de leis. Essa outra visão é bem diferente. As árvores, os rios, tudo têm alma. Havia tabus contra a mineração, por exemplo, pois era como colocar uma faca no corpo da sua mãe. A mineração era vista como uma violência contra o corpo da terra, desse ser vivo. Não é possível ter uma economia capitalista se a mineração é vista como um tabu. Foi por isso também que populações indígenas foram exterminadas, porque tinham um modo de vida bem diferente. O mesmo acontece na Europa: na literatura pré-capitalista, existe a ideia de que tudo tinha vida.

Você acha que essas ideias estão voltando no momento atual?

Sim, estamos recuperando uma concepção de natureza que não é mecânica. A ideia de que as árvores se comunicam entre si é um tipo de conhecimento. Comecei a falar disso no meu livro Re-enchanting the World: Feminism and the Politics of the Commons [Reencantar o mundo: feminismo e a política dos comuns, com lançamento no Brasil previsto para 2020, pela Elefante]. É um assunto sobre o qual quero falar mais no meu próximo trabalho. Estou fazendo um outro livro sobre trabalho reprodutivo e depois quero me dedicar mais a esse tema.

O próximo livro que vou publicar agora se chama In Praise of the Dancing Body [Em louvor ao corpo que dança] e fala sobre a relação do corpo e da natureza. O corpo não cresce separado da natureza. Está em interação constante com o ar, os mares, as árvores. Nós fazemos parte da natureza, do mundo animal. Vejo o capitalismo como um processo de cercamento não só da terra, mas do corpo também. É o que nos separa das outras pessoas, dos animais, da natureza e de nós mesmos.

O movimento feminista também foi muito importante porque nos ensinou a estudar nosso próprio corpo, olhar para ele. Mulheres nunca tinham olhado para a própria vagina antes. Elas tinham medo de falar do ciclo menstrual, o mais básico do nosso próprio corpo. Foi um processo de reapropriação do nosso corpo, da integração com a natureza. Os povos indígenas não se separaram da natureza. Alguns grupos têm rituais em que as pessoas incorporam poderes dos animais. Perder isso é muito empobrecedor. Temos tecnologia, mas apresentamos corpos empobrecidos.

Você soube que durante a visita da filósofa Judith Butler ao Brasil, em 2017, ela foi recebida por um grupo protestando contra a presença dela no país com cartazes com a frase “Queime a bruxa!”?

Sim, eu soube e fiquei horrorizada. Fiquei com muito medo. Ela e sua mulher, a cientista política Wendy Brown, foram agredidas no aeroporto. Esses agressores são as pessoas que estão prontas para nos queimar. São essas pessoas que estão queimando mulheres na África.

Como você vê a ascensão do conservadorismo no mundo de hoje?

Vejo como uma reação à luta. Eles precisam nos matar, porque todos sabem que o sistema é injusto. Essa ideia se espalhou. Crianças agora estão nas ruas protestando contra as mudanças climáticas. Elas se deram conta de que esse sistema está acabando com a vida na Terra. Elas sabem que o sistema não é justo com pessoas passando fome, morando nas ruas.

São Paulo é uma espécie de microcosmo do mundo todo, nesse sentido. Que tipo de sociedade é essa? Por isso que precisam dos Bolsonaros. Por isso que precisam nos matar. Talvez por isso o capitalismo esteja em crise, pela quantidade de investimentos que precisam fazer no trabalho de destruição: drones, sistemas de vigilância, esquadrões da morte, narcotráfico, o sistema prisional. Temos que ver essa ascensão como uma reação ao poder conquistado pelo povo.

Como resistir a esse movimento conservador?

É uma pergunta muito boa. Temos que protestar e continuar lutando sem garantias. Nada garante que uma grande catástrofe não vá acontecer. Mas existem duas coisas sobre o modo de organizar essa luta. Primeiro: não acredito que nenhuma luta possa ser completamente uma oposição. A luta tem que ser construtiva, não importa que luta seja. Ela precisa criar novas relações entre as pessoas. É preciso criar novas formas de se relacionar, novas formas de reprodução.

Acredito que o lado construtivo da luta precisa existir, e ela precisa tornar a vida melhor. Até mesmo pequenas melhorias. Se não, as pessoas vão sempre preferir assistir a um jogo de futebol a ir a uma reunião política ou a um protesto. Precisamos ser mais criativos, desenvolver um lado construtivo e trazer melhorias imediatas, porque a vida é terrível.

Segundo, é preciso mudar o modo como a reprodução é organizada, precisa ser mais comunal. Não acho que vamos fortalecer as lutas se continuarmos a viver separadamente. Temos que nos conectar de formas diferentes. É preciso criar novas infraestruturas: no trabalho, em casa, no cuidado com as crianças, na saúde. Elas são importantes para a luta. As relações pessoais são uma forma de resistência.

Como você vê o uso das novas tecnologias no modo de fazer política?

Eu tenho muita resistência a celebrar a tecnologia digital, como muitos fizeram com a Primavera Árabe. Se pensarmos que ela recria um comum, pode ajudar a nos reunir rapidamente na rua. Mas, depois, o que fazemos na rua? Como continuamos na rua? Tem uma certa relação que não pode ser reconstruída tecnologicamente, tem que ser construída entre as pessoas também através dos nossos corpos, das nossas presenças.

Relações tecnológicas são muito abstratas, são sujeitos sem corpos. Não resolvem o problema que precisamos resolver. Por outro lado, temos que ver não só o que pode ser feito com as tecnologias, mas como essas mesmas tecnologias estão sendo produzidas. Precisamos ver o que precisa ser feito para termos um celular, por exemplo.

Quanto sangue tem na produção dos celulares, quantas pessoas foram expropriadas para criar um computador em locais que não conhecemos. Isso tem que entrar na discussão: ao mesmo tempo que criamos comuns, como cooperação e Wikipedia, também destruímos recursos comuns ligados à terra, à água, aos animais.

Como você vê a viabilidade atual da pauta do movimento Wages for Housework, que defendeu a valorização e a remuneração do trabalho doméstico nos anos 1970?

Nós continuamos produzindo riqueza para a sociedade capitalista e não recebemos nada. É uma pauta que continua atual. Milhões de mulheres estão produzindo esse trabalho que beneficia a classe capitalista. O problema continua existindo, todo esse trabalho não remunerado que as mulheres estão fazendo. A classe capitalista não precisa pagar nada. Pelo contrário, agora nós temos que pagar por esses cuidados, tanto de crianças quanto de idosos. Você precisa contratar uma pessoa para cuidar da sua mãe se ela não consegue mais andar. Enquanto isso, eles usam nossos corpos, nosso trabalho, o produto do nosso trabalho e temos que pagar por esse outro trabalho. O problema está aí.

É inaceitável aceitar que apenas o trabalho fora da casa deva ser remunerado, que existam trabalhos que possibilitam a sua sobrevivência e outros não. Fico escandalizada que muitas socialistas feministas aceitam a premissa da desvalorização do trabalho doméstico. Se eu analisar corretamente, eu acho que esse é um trabalho do qual elas também se beneficiam. Muitas delas acabam contratando mulheres imigrantes para cuidar da casa e dos filhos, enquanto vão trabalhar na universidade. Essa é uma hipocrisia que não aceito. Elas dizem que remunerar esse trabalho só fortaleceria o capitalismo. Mas elas não pensam em abrir mão do próprio salário. Se o trabalho doméstico não for feito, o que você vai fazer? Que mulher poderia ir trabalhar fora se não tivesse alguém para fazer todas essas atividades diárias que se repetem dia após dia? Se as mulheres entrassem em greve, quem cuidaria das crianças, da casa? Os rapazes mais jovens?

Muitas das questões que aparecem em O ponto zero da revolução me fizeram lembrar O conto da aia, de Margaret Atwood. Você chegou a ler o livro?

Sim, li há muito tempo. Achei muito interessante, mas não tenho tanto entusiasmo pelo livro como muitos por aí. É interessante porque mostra que os nossos corpos não pertencem a nós mesmos. Isso é muito importante e traz a ideia feminista de que o Estado controla nossos corpos, e toda a questão da reprodução e a violência da reprodução. Nesse sentido, acho muito bom. Tenho algumas reservas com relação à ideia que associa esse tipo de controle com governos muito fascistas, quando esse controle existe tanto em governos abertamente fascistas quanto em governos “democráticos”, pois estes últimos também estão interessados em controlar os corpos das mulheres.

Esta semana foram divulgadas algumas fotos de um encontro que você participou no Brasil, em 2016, junto com Marielle Franco, que foi assassinada em 2018. Você poderia falar alguma coisa sobre esse encontro?

Sim! Claro! Era um encontro com ela e outras mulheres, não lembro das especificidades do encontro, foi há uns anos. Ela estava com outras mulheres que conheci no mesmo dia. Mas eu me lembro dessa mulher linda, cheia e vida e forte, muito forte. Eu fiquei chocada quando soube do assassinato dela. Foi muito doloroso entender o que aconteceu com ela. Tenho orgulho de tê-la conhecido, de ter tido a oportunidade de estar com ela. Venho dizendo que precisamos ter solidariedade não só com os vivos, mas também com os mortos. Para além da grande tristeza que da sua morte, acho que essa é uma possibilidade de garantir que o trabalho que ela fez, seu compromisso, sua luta, sua coragem, sua vida continuem presentes. Com a gente. E que isso seja usado para exigir justiça, que não seja silenciado e esquecido.

É o mesmo espírito que estou falando em relação à caça às bruxas. Essas mulheres ainda não receberam justiça. Um pequeno passo em direção à justiça é não deixar que isso seja esquecido. É o mesmo princípio que temos que ter com essas mulheres que foram tão importantes na nossa luta.