Silvia Federici dialoga com pensadoras e militantes em São Paulo

A Editora Elefante levará a historiadora feminista Silvia Federici ao Auditório Simón Bolívar do Memorial da América Latina em 24 de setembro para a grande conferência de lançamento de seu livro O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. Na ocasião, a autora de Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva dialogará com três destacadas pensadoras e militantes brasileiras: Sabrina Fernandes, Mariléa de Almeida e Jera Guarani. A entrada é gratuita e sujeita à lotação da plateia, que comporta mil pessoas. Haverá tradução simultânea.

Nascida em Parma, na Itália, em 1952, Silvia Federici é uma das maiores historiadoras do nosso tempo. É professora emérita da Universidade Hofstra, em Nova York, nos Estados Unidos, onde vive desde 1967, e onde ajudou a fundar o International Feminist Collective, participou da Wages for Housework Campaign e contribuiu com o Midnight Notes Collective. Durante os anos 1980, foi professora na Universidade de Port Harcourt, na Nigéria, onde acompanhou a organização feminista Women in Nigeria e contribuiu para a criação do Committee for Academic Freedom in Africa.

O livro mais conhecido de Silvia Federici, Calibã e a bruxa, publicado pela Editora Elefante em julho de 2017, chegou ao Brasil graças ao trabalho das mulheres do Coletivo Sycorax, que tiveram a iniciativa de verter a obra ao português. O grupo também é responsável pela tradução de O ponto zero da revolução, lançado em 2019, e traduzirá ainda mais um livro da autora, Re-enchanting the World: Feminism and the Politics of the Commons [Reencantar o mundo: feminismo e a política dos comuns], com lançamento previsto para 2020, também pela Editora Elefante.

Desde que foi lançado, Calibã e a bruxa vem conquistando dezenas de milhares de leitores e leitoras no país. A exaustiva pesquisa de Silvia Federici sobre a campanha de terrorismo contra as mulheres disfarçada de “caça às bruxas” durante a transição do feudalismo para o capitalismo na Europa, com repercussões nas Américas, oferece uma inovadora compreensão sobre o papel essencial das mulheres — e de seu trabalho doméstico gratuito — para o desenvolvimento do sistema vigente. A obra já vendeu mais de vinte mil exemplares, e o PDF pode ser baixado livremente na internet.

No Memorial da América Latina, Silvia Federici debaterá suas ideias sobre a história e a atualidade das mulheres com Sabrina Fernandes, autora do canal Tese Onze, no YouTube, e do livro Sintomas mórbidos: a encruzilhada da esquerda brasileira (Autonomia Literária, 2019); Mariléa de Almeida, doutora em história pela Universidade de Campinas e assessora da mandata da deputada estadual Erica Malunguinho; e Jera Guarani, liderança indígena guarani mbya de São Paulo, povo que recentemente realizou uma série de retomadas de terras nas zonas norte e sul da cidade. O diálogo começa às 19h, com entrada gratuita por ordem de chegada.

A Editora Elefante é uma iniciativa surgida em São Paulo de maneira totalmente independente de amarras financeiras, partidárias ou institucionais, com a missão de publicar livros que talvez não tenham grande interesse comercial, mas cuja importância política, social e cultural é inquestionável. Infelizmente, não conseguimos apoio suficiente para a realização do evento no Memorial da América Latina — o que complicou nossas humildes finanças.

Ainda assim, não quisemos cobrar entrada. Por isso, estaremos comercializando nossos livros com desconto durante o evento, e esperamos assim recuperar os recursos investidos para a realização da conferência — acreditem, não foi pouco dinheiro. Se você puder, por favor, colabore conosco comprando nossas publicações. Se já você já tem os livros da Silvia Federici ou outros títulos de nosso catálogo, tente comprar exemplares para dar de presente. Acreditamos que independência não existe sem interdependência. E temos orgulho de ser imensamente interdependentes de nossos leitores e leitoras.

SILVIA FEDERICI EM SÃO PAULO
Diálogo com Sabrina Fernandes, Mariléa de Almeida e Jera Guarani
Facebook: https://www.facebook.com/events/386386228745409/

Terça-feira, 24 de setembro, às 19h
Auditório Simón Bolívar do Memorial da América Latina
Av. Áureo Soares de Moura Andrade, 664, São Paulo-SP
<-> Metrô Barra Funda

Abertura do auditório e início da distribuição de senhas: 17h
Abertura da plateia: 18h
Comercialização de livros
Tradução simultânea
Sessão de autógrafos
Comidas vegetarianas da Govinda
Entrada gratuita

Um livro para abrir a cabeça — e as relações

Por Christiane Kokubo

“O movimento do poliamor contemporâneo é impulsionado pelo feminismo e pelas mulheres. Se não estivermos no jogo, não vai acontecer”, afirma Janet W. Hardy, uma das autoras de Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas, que a Editora Elefante lança em setembro.

Janet — que é escritora, editora e professora na cidade de Eugene, no Oregon, nos Estados Unidos — conversou com a tradutora de Ética do amor livre, Christiane Kokubo, sobre questões surgidas a partir da leitura da obra e de reações surgidas quando divulgamos a pré-venda do livro no Brasil.

O resultado é a entrevista abaixo.

Até agora, quinze países compraram os direitos de tradução de Ética do amor livre. Como é a sensação de ver o livro traduzido para tantas línguas?

Nós nunca imaginamos o sucesso desse livro. Dossie e eu já havíamos escrito um par de livros para pessoas interessadas em BDSM (“bondage [prática de amarrar ou restringir de alguma forma os movimentos do parceiro], disciplina, dominação e submissão, sadismo e masoquismo”), e pensamos que seria mais um livro de nicho para pessoas como nós. Acabou que as vendas decolaram, muitas cópias foram vendidas e ele vem sendo traduzido para várias línguas diferentes. Quer dizer, estamos muito felizes, mas [rindo] certamente não previmos tudo isso quando o escrevemos.

Vocês já foram procuradas por pessoas de outros países que querem contar sobre seus relacionamentos?

Sim, eu recebo mensagens com bastante frequência no Facebook de pessoas que leram alguma tradução do livro. Na maioria das vezes, são pessoas que se sentiam solitárias até lerem o livro, e que depois passaram a se sentir bastante gratas por termos possibilitado um diálogo sobre suas crenças de relacionamento. Quando se sentiam isoladas porque outras pessoas não entendiam seus valores, acharam um livro! Um livro que podia ajudá-las, o que é maravilhoso. Quando há um livro, os outros não podem dizer que você é estranho, único, ou que ninguém faz isso, porque obviamente existem pessoas que fazem isso, há pessoas que escreveram um livro a respeito.

Há algo que vocês publicaram na primeira edição do livro que mudou, ou a respeito do qual vocês mudaram de opinião, que foi removido da edição mais recente?

A grande mudança das duas primeiras edições para a terceira é a percepção de que fizemos muitas generalizações baseadas em gênero e usamos muita linguagem sobre gênero que não era mais o que acreditávamos. Então, para a terceira edição, tivemos que pensar o que realmente queríamos dizer sobre gênero e como fazê-lo. Acrescentamos também um capítulo inteiro sobre consentimento e a cultura de consentimento, porque essa é uma mudança muito importante na estrutura que sustenta o poliamor: há muito mais atenção a isso, o que é ótimo. Nós também queríamos falar um pouco mais sobre poliamor entre pessoas não brancas, que obviamente não nos cabia escrever porque somos extremamente brancas, então pedimos a amigos ativistas em um grupo chamado “Black & Poly” que contribuíssem.

O que você teria a dizer para quem gostaria de ter um relacionamento aberto, mas tem medo ou receio?

Dê um passo de cada vez. No livro falamos bastante sobre abrir um relacionamento existente, e a recomendação é encontrar o passo-a-passo que pareça mais fácil. Uma das sugestões é ler juntos anúncios pessoais e conversar sobre o que atrai ou não, mas sem partir para a ação, porque antes disso há muito o que conversar. Algo assim funciona para dar início à conversa e abordar quais são suas necessidades, seus desejos. Depois, precisam entender que provavelmente haverá momentos em que vocês não se sentirão bem depois de terem feito algo. Todo mundo comete erros, sabe? Dossie e eu temos mais de cinquenta anos combinados de experiência praticando poli e ainda cometemos erros. Você vai errar. Se você começa com essa consciência e sabe que precisará descobrir o que fazer a respeito: será que precisa mudar o acordo para que não se repita?, ou será que algo aconteceu e você aprendeu uma habilidade nova e quer continuar tentando da mesma maneira? Ambas as decisões, e qualquer outra no meio do caminho, podem funcionar.

Há uma parte do livro em que vocês falam que “uma vez que o assunto é apresentado ao parceiro, não é possível escondê-lo de volta na gaveta”.

Não vai funcionar dizer: “Você não achou que eu estava falando sério, não é? Eu só estava brincando”. Espero que todos que pensem em abrir o relacionamento estejam em um tipo de relação em que possam dizer: “Eu simplesmente gostaria de tentar, conversar, ver qual pode ser o lado positivo e o negativo. Podemos tomar uma decisão juntos, mas não podemos tomar nenhuma decisão se não conversamos”.

Então a coisa mais importante é dialogar.

Sim.

E quando o casal tenta abrir, um gosta e o outro não, como lidar?

Falamos sobre isso também. É quase certo que em qualquer relacionamento que tenha sido aberto, um parceiro vai querer avançar mais rápido e o outro se sentirá mais cauteloso. É a simples realidade. Uma sugestão é fazer acordos que pareçam um pouco desafiadores, mas aceitáveis, para o parceiro mais conservador, e um pouco restritivos, mas aceitáveis, para o parceiro mais adiantado. Se vocês dois estão se sentindo um pouco desconfortáveis, mas conseguem lidar, então estão no lugar certo. E ninguém além de vocês pode dizer quais são seus limites. Pode ser um encontro com alguém com o entendimento de que não será romântico ou sexual, pode ser o sinal verde para fazer tudo o que quiser, exceto a única coisa que vocês dois fazem juntos, ou qualquer acordo entre esses dois extremos. O que você quase certamente descobrirá é que algumas das coisas que você antecipava serem difíceis não serão um problema, e outras que você nem cogitava acabam sendo um desafio. Quando um relacionamento de longo prazo, ao que tudo indica, funciona razoavelmente bem e você quer mudar as coisas, é muito importante durante a fase inicial entender que não estamos falando de regras, mas de acordos. Cultive o hábito de checar e revisar os acordos regularmente, provavelmente mais frequentemente no começo, quando vocês estão tentando descobrir o que querem exatamente e, à medida que se sentem mais confortáveis, com menos frequência.

O que fazer quando a minha cabeça é amor livre, mas meu coração é monogâmico? Como encontrar o equilíbrio?

Vale a pena aprender maneiras de cuidar de si mesmo quando você está se sentindo infeliz ou com ciúme. Assim, você fortalece o músculo que ajuda a passar por sentimentos difíceis. Todo mundo tem sentimentos ruins, que podem se manifestar como ciúme, raiva, sofrimento ou de qualquer outra maneira, mas uma das habilidades que nós esperamos dos adultos é que não descontem em outra pessoa. Você sente, mas não age de maneira que prejudique ninguém. É assim com o ciúme. Meu amor teve um encontro ontem à noite, estou com ciúme, o que preciso fazer a respeito? Reconhecer, com certeza. Um exercício que às vezes dou nas aulas é pedir que as pessoas escrevam uma carta para o ciúme, pode até ser uma carta de agradecimento, por entender que o ciúme está tentando te proteger. E pergunte-se: “Isso faz sentido, é realista?”. Possivelmente não, e se for o caso você consegue se libertar dele. A princípio, pode ser extremamente difícil sobreviver a uma crise de ciúme, mas melhora com a prática. Quando você começar a sentir ciúme, entre em um processo de autocuidado. Ninguém poderá dizer o que funciona para você, se é um banho quente, dirigir ao cinema, ir à academia e malhar até cansar, qualquer coisa que ajude a superar o pior da tempestade. Da próxima vez, não será tão ruim.

Quando o lançamento do livro em português foi anunciado, algumas pessoas disseram que seria apenas uma outra maneira de opressão masculina sobre as mulheres.

Nós já ouvimos muito isso. Minha sugestão é que as pessoas olhem os livros escritos sobre poliamor. Dos mais de trinta títulos disponíveis em inglês, talvez três tenham sido escritos por homens. O movimento do poliamor contemporâneo é impulsionado pelo feminismo e pelas mulheres. Se não estivermos no jogo, não vai acontecer. Acredito que as pessoas tenham receio de que os homens estejam pressionando suas parceiras a serem poli quando elas não querem. Isso certamente acontece, mas as pessoas que pressionam nem sempre são homens. Acontece do parceiro A querer ser poli e o parceiro B, não. Mas não é mais provável que sejam homens ou mulheres, gays e héteros — é apenas do jeito que é. Algumas pessoas ouvem falar sobre poli e se identificam; outras, não.

No livro, vocês falam que há muitas pessoas que já estão em uma relação aberta, mas sem o conhecimento do parceiro.

Sim, essa é a parte amorosa, mas não a parte ética.

Você acha que as mulheres, quando querem ter outros parceiros, tendem a querer falar mais a respeito do que os homens?

Acredito que não. Há pessoas que realmente se apegam ao segredo, é um estímulo sexual se safar de algo sem que todos saibam. Se o segredo excita, pode ser complicado trabalhar essa questão. Minha sugestão é encontrar uma maneira de representar o segredo, mas, além disso, não há muito a ser feito, exceto tentar encontrar concessões que funcionem para ambas as pessoas. Uma amiga, por exemplo, passou por algo assim. Seu ex-marido era viciado em segredos. Eles se separaram porque ele a traiu, e depois de se casar com outra pessoa, começou a traí-la com a minha amiga, sua antiga esposa. Ele estava seriamente obcecado pelos segredos. Pela minha experiência, não é mais ou menos provável que seja um homem ou uma mulher.

Você diria que existem desequilíbrios de gênero em um relacionamento aberto?

Não é a regra. Eu conheço pessoas que são poli, mas que estão em um relacionamento com alguém que é monogâmico, uma maneira típica das pessoas lidarem com um parceiro tendo muito mais libido do que o outro. E isso pode funcionar, eu já vi funcionar. Não é um padrão comum, não é fácil, mas para algumas pessoas é o melhor ajuste. Trata-se de um desequilíbrio apenas se alguém sentir que não está atendendo às suas necessidades. Não precisa ser simétrico. Entrevistamos um casal no livro em que um deles gosta de casos de uma noite, e o outro quer relacionamentos de longo prazo. Eles simplesmente combinam as coisas para que cada um deles consiga o que quer, com o entendimento de que não precisa ser igual para ambos os lados. Só tem que ser o que eles precisam para se sentirem bem.

Há uma diferença entre corpo aberto e coração aberto, e diferentes parceiros reagindo ou desejando coisas diferentes.

Sim.

Em uma primeira leitura, pode parecer que abrir um relacionamento não seja um drama, que se trata de algo simples que requer muita comunicação e um coração aberto. Por outro lado, é possível concluir que o livro seja simplista demais, que transmita mais facilidade ao tema do que ele requer.

No livro, há uma história em que Dossie enfrenta um desafio. Na primeira edição, essa história era uma das primeiras a serem apresentadas. O retorno mais consistente que tínhamos dos leitores era que a história era muito raivosa, muito dramática para estar no início, então a colocamos para mais adiante no livro, ao invés de contá-la logo de cara. É ingênuo pensar que nunca haverá drama. É totalmente possível que haja. Humanos são humanos, é o que fazemos [risos]. O que o livro tem a dizer é que é possível sobreviver ao drama. A primeira vez que ele surge, parece o fim do mundo, que vocês nunca mais vão se amar… quem vai ficar com as crianças? E não tem que ser assim. Uma coisa que aprendemos com a cultura monogâmica é que ciúme e traição são determinantes para o fim de um relacionamento, mas eles não precisam ser.

Outra ideia que se escuta é que as pessoas que estão interessadas em abrir o relacionamento estão fazendo isso porque o relacionamento em si não está indo bem. Isso é uma regra?

Na verdade, corrigir os problemas no relacionamento principal antes de considerar a abertura é que é uma regra muito forte. Se você tentar consertar um relacionamento danificado [abrindo-o], é provável que você piore a situação. Eu fui casada por treze anos com o pai dos meus filhos. Acredito que, se esse livro existisse na época, nós provavelmente ainda estaríamos juntos. Os problemas que estávamos tendo — o maior deles era que eu queria um tipo de sexo que ele não queria — não sabíamos como resolver porque não tínhamos nenhuma fonte de orientação. Se houvesse uma comunidade poli e livros a respeito, talvez estivéssemos juntos ainda. Agora, se isso teria sido bom ou não, não há como saber. Nós ainda somos bons amigos. Eu gosto muito dele, sempre gostei, talvez devêssemos ter sido apenas amigos, e não esposos, mas tivemos bons filhos, então é difícil dizer que eu gostaria de não ter feito isso ou aquilo, porque era o que precisávamos na época. Depois, deixou de ser. Passamos por certo drama, mas não muito. Principalmente dado que não tínhamos muita orientação sobre como fazer o que hoje chamamos de separação consciente. Não havia muitos exemplos. Mas nós fizemos mesmo assim, e nos saímos muito bem.

Falando sobre filhos, foi difícil conversar com seus filhos sobre suas escolhas?

Quando meus filhos eram adolescentes, nós não conversávamos abertamente sobre isso com eles. Mas eles sabiam. Eles deduziam. Na verdade, foi mais difícil falar sobre BDSM do que sobre poliamor. Um dos meus amantes daquela época, quando eu ainda morava meio-período com meu parceiro e meus filhos, frequentava muito a minha casa e virou um bom amigo do meu filho mais novo — a ponto deles dividirem uma república anos depois, quando meu filho já era adulto. Quando eu percebi que aquela amizade era importante para o meu filho, encerrei a parte sexual e romântica que tinha com essa pessoa, porque não me sentia confortável. Mas eu sinceramente acredito que as crianças se adaptam melhor a famílias com vários adultos. Passamos a maior parte da nossa história como seres humanos vivendo em famílias extensas, onde sempre havia avós, irmãs, primos e tias para ajudar. Na verdade, meu primeiro casamento foi em uma família assim, onde havia quatro gerações de pessoas vivendo no mesmo bairro, a maioria a menos de dois quilômetros de distância. Era maravilhoso. Algumas das primeiras vezes que tive vontade de viver em grupo surgiram quando eu ainda estava nessa relação extremamente monogâmica e comum, mas com todos esses parentes por perto. Era ótimo. Eu realmente acho que fazer sexo com muita gente é muito bom, sexo com muitas pessoas é divertido. Mas acredito que a razão pela qual estamos vendo um aumento tão grande de poli nos últimos anos é a pressão crescente contra o modelo de famílias nucleares. Pessoas que cresceram em famílias nucleares, cujos pais também cresceram assim, se dão conta de que esse modelo não funciona muito bem. Se duas pessoas cuidam de uma casa, muito provavelmente as duas precisam trabalhar fora para prover para a família. Você não vê muita gente hoje em dia cujo trabalho em tempo integral é manter a casa, particularmente com crianças — isso é um fardo impossível. É ridiculamente difícil para os pais, eu não sei como eles conseguem. Então, nós, que não temos nossos familiares como vizinhos, estamos tentando encontrar uma maneira de nos conectar. Acredito que seja isso o que está acontecendo com poli, mais do que ter abundância de sexo. O que não quer dizer que ter muito sexo não seja legal [risos]. Porém, me parece que o cerne da nossa cultura anseia cultivar novamente um tipo de família estendida, um grupo, uma tribo, escolha o termo que quiser. É por isso que estamos vendo o que estamos vendo.

Você acha que culturas onde existe o contexto de famílias extensas, como é comum em alguns países da América Latina, incluindo o Brasil, seriam mais ou menos abertas ao poliamor?

Não sei, não passei tempo suficiente em países assim para formar uma opinião. Eu sei que isso está acontecendo em muitos países da América Latina, porque converso com tradutores e editores que estão publicando nossos livros em países latino-americanos, então sei que há um movimento em direção ao poliamor. Se isso vai se desenvolver como uma rede de parentesco em países onde já há muito apoio da família, eu não sei.

Observando as mudanças que ocorreram desde que vocês publicaram a primeira edição até hoje, é possível pensar que relações abertas e poliamor serão a cultura dominante no futuro? 

Se nós alcançarmos um mundo no qual poli não seja uma aberração, seja socialmente aceito — o que francamente eu não acredito que viverei para ver, porque tenho 64 anos –, o modelo que vai funcionar para muitas pessoas será o de fases. Haverá momentos na vida em que as pessoas estão muito ocupadas para serem poli — porque efetivamente toma tempo –, então talvez quando você é jovem e está tentando decolar na carreira, ou formar uma família, a monogamia vai funcionar melhor, e então as crianças atingem uma idade em que não precisam de tanta atenção, a carreira está estável, você quer tentar algo interessante e então voltará a ser poli. As pessoas podem mudar mais de uma vez durante a vida, talvez muitas vezes. Depende apenas das suas necessidades e do contexto. Eu não acho que a monogamia deixará de existir como opção. Eu fui monogâmica, não me ajustei bem, mas conheço muitas pessoas para quem é a escolha certa. Um dos acréscimos nessa edição se chama “Um elogio à monogamia”, em que falamos sobre por que ela funciona para algumas pessoas. Não queremos que a monogamia desapareça. Queremos que as pessoas tenham escolhas que não sejam desaprovadas socialmente.

Quando o objetivo é agir com ética, como saber se estou no meu direito de ter a minha privacidade, de levar minha vida, e como perceber que não se trata disso, mas sim de ser ético com meu parceiro?

Isso depende muito do que foi combinado, dos acordos em seu relacionamento pessoal. Alguns casais querem saber tudo que está sendo feito com outras pessoas, todos os mínimos detalhes; outros não querem saber quase nada, apenas “me diga que você está seguro e se divertindo”. Em alguns casos, uma pessoa quer ouvir tudo e outra não, e dá certo assim. Por isso, é apenas uma questão de negociar o quanto de privacidade você acha que precisa para se sentir livre versus o tanto de informação necessária para se sentir seguro. Alguns relacionamentos de seu parceiro com outras pessoas vão parecer muito assustadores e estressantes, e você vai querer mais informações a respeito, e outros não lhe preocuparão, serão mais fáceis de lidar.

Você gostaria de dizer algo mais aos seus futuros leitores brasileiros?

Eles devem ler todos os nossos livros [risos]. Se você ler o livro, ele abrirá sua cabeça para algumas possibilidades que você talvez não tenha considerado ainda, e ter a mente aberta a novas possibilidades é sempre uma coisa boa, mesmo que você escolha não seguir nenhuma delas.

O que as mulheres libertárias da Guerra Civil Espanhola podem ensinar ao feminismo contemporâneo?

Mulheres Livres conta a história de um grupo de militantes anarquistas que, nos anos 1930, em um contexto de extrema agitação política e social que desembocaria na Guerra Civil Espanhola, decidiu montar uma organização própria, formada apenas por mulheres, para tratar dos assuntos que, acreditavam, deviam ser tratados pelas mulheres — e imediatamente, sem esperar pela autorização de ninguém. Saúde, educação, cuidado dos filhos, amor livre, trabalho doméstico, formação profissional e, é claro, a luta contra o fascismo que tomava conta do país estiveram entre as pautas prioritárias da agrupação Mulheres Livres.

Passando por cima das determinações de federações e confederações que dirigiam o movimento libertário — das quais faziam parte, mas que pretendiam deixar as questões relativas às mulheres para “depois da guerra” —, o grupo defendeu que o processo revolucionário desencadeado pelos trabalhadores em resposta ao levante de Francisco Franco e suas hordas reacionárias, em 1936, deveria promover uma mudança total nas formas de vida dos espanhóis — e isso obviamente incluía transformar a vida das mulheres, que, na Espanha da época, eram vítimas da ignorância, da opressão e do silêncio, na medida em que amargavam o analfabetismo e uma extrema dependência da figura masculina, fosse o pai, o irmão ou o marido.

Por isso, mesmo durante os mais encarniçados enfrentamentos militares — dos quais muitas mulheres participaram, com fuzis em punho — e diante das extremas dificuldades de abastecimento trazidas pelo conflito, as militantes da Mulheres Livres jamais deixaram de difundir suas ideias libertárias em assembleias, reuniões, manifestações, artigos na imprensa popular e publicações próprias, como livros, folhetos, cartilhas e, sobretudo, a revista Mujeres Libres, escrita e editada apenas por mulheres, que teve treze números e apenas deixou de circular com a derrota definitiva das forças republicanas, em 1939.

Em Mulheres Livres, Martha A. Ackelsberg, professora emérita do Smith College, nos Estados Unidos, expõe a formação, os desdobramentos e as dificuldades enfrentadas pela agrupação — uma das experiências de emancipação feminina mais significativas do século XX. As análises e conclusões da autora se baseiam em uma exaustiva pesquisa documental em arquivos espalhados pela Espanha e pela Europa, além de entrevistas realizadas nos anos 1980 com várias militantes da organização — que, como muitos anarquistas, socialistas e liberais da época, se dispersaram pelo mundo para fugir da repressão franquista que se seguiu ao fim da guerra.

O resultado é um livro que explica detalhadamente como esse grupo de mulheres lutou pela revolução libertária na Espanha dos anos 1930, mas não só: Mulheres Livres traz reflexões sobre questões extremamente úteis para os desafios do movimento feminista na atualidade, sobretudo no que diz respeito aos debates entre diferentes visões sobre as origens da desigualdade de gênero e diferentes maneiras de lutar pela emancipação das mulheres — luta que a Federação Mulheres Livres também enfrentou em seu tempo.

Um livro fundamental sobre amor livre, respeito e cuidado

“Muita gente sonha em viver em abundância de amor, sexo e amizade”, escrevem Janet W. Hardy e Dossie Easton na primeira linha de Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas, cuja pré-venda com desconto e frete grátis começa neste dia dos namorados no site da Editora Elefante. O livro tem projeto gráfico de Luciana Facchini e ilustrações de Ariádine Menezes.

O crescente interesse em formatos não convencionais de compartilhar uma vida e ser feliz com alguém (ou alguéns) — e a escassez de referências para além de fóruns de internet — fez com que corrêssemos atrás de bons livros sobre o tema. E encontramos. Ética do amor livre tem sido muito lido e debatido em alguns países mundo afora. E, mais importante: sem a pretensão de esgotar o assunto, a obra tem contribuído para a compreensão do que é e pode ser o amor livre na vida real, para além de preconceitos ou romantizações.

“Alguns acreditam que é impossível ter uma vida assim, se contentam com menos do que gostariam e acabam de certa forma se sentindo solitários e insatisfeitos. Outras pessoas tentam alcançar seus sonhos, mas pressões sociais externas ou seus próprios sentimentos acabam por interromper essa busca”, ponderam as autoras. “No entanto, algumas poucas pessoas persistem e descobrem que amar, ter intimidade e fazer sexo abertamente com muita gente não só é possível como também pode ser recompensador de um jeito que jamais podiam imaginar.”

Janet W. Hardy e Dossie Easton partiram de suas experiências pessoais como adeptas de relações monogâmicas para construir o livro. Como explica uma reportagem da revista Rolling Stone, a ideia de escrever Ética do amor livrepartiu da constatação de que tinham vidas sexuais radicalmente diferentes dos padrões afetivos bombardeados pelo senso comum da televisão — o que, muitas vezes, acarreta frustração e infelicidade. Por isso, se juntaram para colocar no papel suas vivências de mais de quarenta anos como pessoas “promíscuas” — palavra cujo sentido querem disputar.

“Na maior parte do mundo, ‘promíscua’ é uma palavra altamente ofensiva para descrever uma mulher cuja sexualidade é voraz, indiscriminada e infame. É interessante notar que os termos análogos, ‘garanhão’ ou ‘pegador’, usados para descrever homens altamente sexuais, são em geral usados para indicar aprovação e inveja”, comparam as autoras. “Se questionamos a respeito da moral de um homem, provavelmente escutaremos sobre a sua honestidade, lealdade, integridade e princípios elevados. Se perguntamos sobre a moral de uma mulher, é mais provável recebermos informações sobre sua vida sexual. Para nós, isso é um problema.”

De acordo com Janet e Dossie, muito sofrimento poderia ser evitado se, durante a fase de namoro, os casais discutissem a monogamia como uma opção, em vez de assumi-la como padrão — “assim como conversam sobre ter ou não filhos, seguir uma ou duas profissões, ou qualquer outra questão importante que requer uma decisão antes de se prosseguir com o possível compromisso de longo prazo”, escrevem as autoras em um artigo no The New York Times, publicado em 2012. “Monogamia não é uma escolha quando você está proibido de optar por qualquer outro caminho.”

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FICHA TÉCNICA

Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas
Autoras: Janet W. Hardy & Dossie Easton
Tradução: Christiane M. T. Kokubo
Ilustrações: Ariádine Menezes
Capa & projeto gráfico: Luciana Facchini
Edição: Tadeu Breda
Preparação: Paula Carvalho
Lançamento: agosto de 2019
Páginas: ~ 400
Dimensões: 15 x 23 cm

Ética do amor livre: por dentro da crescente aceitação do poliamor

Por Anna Fitzpatrick
Tradução Christiane M. T. Kokubo

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Em 1994, a educadora sexual Janet W. Hardy ficou de cama por um mês com uma bela gripe que viria a se transformar em bronquite. Ela se lembra de estar zapeando pelos canais de tevê, meio dopada após ter tomado um caminhão de remédio, quando se deparou com o filme Proposta indecente.

Na trama, o casal David (Woody Harrelson) e Diana (Demi Moore) enfrenta um dilema moral ao ser abordado pelo bilionário John (Robert Redford), que lhes oferece um milhão de dólares em troca de passar uma noite com Diana. Hardy, hoje com 62 anos, saíra de um casamento havia uma década, e desde então não mantinha relações monogâmicas. Ao ver a cena em que o casal hesita sobre a oferta do bilionário, perguntou-se se estava delirando de febre.

“Eu pensei: o que está acontecendo aqui?”, relata à Rolling Stone durante entrevista em sua casa, no Oregon. “Um milhão de dólares e Robert Redford, e eles encaram isso como um problema? Não fazia sentido para mim. Foi então que realmente entendi como eu havia me distanciado da ética sexual dominante.”

Hardy conversou então com a psicoterapeuta Dossie Easton, sua amiga, e propôs que trabalhassem juntas em um livro sobre a não monogamia. A dupla já havia escrito conjuntamente dois livros sobre práticas sexuais não convencionais que não tiveram muita circulação. Tanto Easton como Hardy se identificam como pessoas queer e poliamorosas. Por isso, queriam reivindicar e ressignificar a palavra “promíscua” (slut) [que dá título à edição original do livro, Ethical slut, algo como “ética da promiscuidade”, em tradução livre].

Easton e Hardy combinaram suas experiências próprias de sexo casual e casamentos abertos, disfrutando de orgias e lutando contra o ciúme. E, em 1997, publicaram Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas [que agora chega ao Brasil graças à Editora Elefante] pela editora independente de Janet, Greenery Press. Em vinte anos, o livro venderia duzentas mil cópias.

O primeiro uso da palavra poliamor é creditado pelas autoras à sacerdotisa pagã Morning Glory Ravenheart Zell, em 1990. Embora diferentes formas de não monogamia tenham se apresentado em várias culturas por milênios, na cultura ocidental do início da década de 1990 a prática ainda era vista como uma alternativa um tanto radical. Hoje, o poliamor está menos ligado a uma subcultura ou identidade específica. Nas duas décadas desde que a primeira edição de Ética do amor livre foi publicada, o poliamor se expandiu para um estilo de vida que, se não pode ser considerado mainstream, é muito mais aceito e compreendido. De acordo com um artigo de 2014 da revista Psychology Today, pelo menos 9,8 milhões de norte-americanos estão em algum tipo de relação não monogâmica.

“Vinte anos atrás, eu costumava receber ligações de produtores de programas o tempo todo, que pediam: ‘Você pode me indicar uma família poli que não seja composta por hippies velhos ou nerds?’”, conta Janet Hardy, rindo. “Hoje em dia, vejo jovens profissionais em minhas palestras. É muito diferente.”

Heather, 35 anos, trabalha com saúde mental e vive com o marido e dois filhos em Toronto, no Canadá. (Seu nome foi mudado para proteger sua privacidade.) O casal começou a namorar quando tinham dezessete anos, logo depois da publicação da primeira edição do Ética do amor livre. Na época, os dois adolescentes canadenses ainda não tinham uma linguagem para descrever o tipo de relação que queriam. 

“Era uma época pré-internet, pré-tudo isso. Seguíamos nosso instinto”, diz ela. “Eu não conhecia a palavra poliamor. Não sabia que havia tanta gente com relacionamentos eticamente não monogâmicos.” Os modelos de relacionamentos de longo prazo aos quais tinham acesso, como o de seus pais ou dos pais dos amigos, eram monogâmicos, mas não pareciam felizes. Tudo o que ela e o namorado sabiam era que gostavam muito um do outro e não sentiam necessidade de serem exclusivos.

“Conversamos e percebemos: ‘Eu não ligo se você flerta com outras pessoas'”, diz ela sobre o início do relacionamento. “Na verdade, é ótimo. Eu adoro esse lado seu.” Heather e o namorado eram ambos extrovertidos e sociáveis, e flertar com outras pessoas parecia natural. Ela, que se identifica como queer, gostava de poder continuar a explorar sua sexualidade com outras mulheres. Aos dezenove anos, resolveram morar juntos. O namorado começou a namorar uma mulher com quem ele trabalhava em um restaurante, e quando Heather a conheceu em uma festa de Natal, percebeu que também se sentia atraída por ela. Os três deram início a um relacionamento em trio que durou pouco menos de um ano. O livro Ética do amor livre descreve esse modelo de relação como uma tríade, mas, na época, nem Heather nem seus parceiros sabiam disso.

“Essa foi uma das nossas primeiras experiências, que não foi casual nem única”, diz ela. “Nós três tínhamos certeza de que estávamos inventando a roda.”

Pouco a pouco, a cultura que a rodeava começou a correr atrás do atraso — o que ela credita à vida em uma cidade progressista como Toronto e à capacidade da internet de “trazer pessoas para fora do mainstream”. Ela finalmente leu Ética do amor livre aos trinta anos, num momento em que o que define como sua própria comunidade de pessoas poli, excêntricas, queer e sensacionais já se encontrava bastante desenvolvida.

Assim como Heather, as autoras Hardy e Easton também tiveram que descobrir seus próprios modelos de relacionamento ideal à medida que viviam. Easton, hoje com 73 anos, estava saindo de um relacionamento traumático durante o verão do amor em 1969 quando decidiu que a única maneira de viver que lhe restava era “sendo uma promíscua. Eu me prometi nunca mais ser monogâmica”, conta. A ideia de um estilo de vida em comunidade a atraía, então partiu com sua filha recém-nascida e encontrou uma casa em um grupo queer de San Francisco. Daí, juntou-se a um grupo chamado Organização Sexual de San Francisco e, em 1973, deu sua primeira palestra sobre o desprendimento de ciúme.

Hardy, 62 anos, estava casada havia treze anos quando, em 1988, percebeu que a monogamia não mais lhe apetecia. Seu casamento terminou na mesma época. Alguns anos depois, em 1992, ela conheceu Easton através de um grupo de BDSM em San Francisco chamado Sociedade de Janus. Easton estava ministrando uma aula chamada “Brincadeira com bastões de Psique a Soma”, e Hardy se ofereceu para ajudá-la a demonstrar. Dois anos depois, a dupla fez uma apresentação sobre sadomasoquismo em Big Sur em um evento Mensa, associação que reúne pessoas de alto QI. (“Quem podia imaginar?”, indaga Hardy.)

“Dossie foi embora para casa porque era algo tão hétero que ela não podia aguentar”, diz Hardy. Mais tarde, uma amiga lhe contou uma conversa ouvida no congresso, em que diziam: “Você ficou sabendo da oficina de sadomasoquismo? As duas mulheres falaram sobre coisas que tinham feito juntas, e um de seus namorados estava bem ali na sala!”. Extravagâncias não surpreendiam o público Mensa, mas a não monogamia ainda chocava em 1994.

Amber (nome fictício) nasceu na mesma época da reunião Mensa, e hoje trabalha com justiça social sem fins lucrativos no Brooklyn, em Nova York. Aos 23 anos, ela é um pouco mais velha que a primeira edição de Ética do amor livre. Seu vocabulário é confortavelmente recheado de termos que Hardy, Easton e Heather levaram anos para começar a usar. Ela prefere o termo “poliamor” a “relacionamento aberto”, porque o último implica uma hierarquia para as pessoas que ela namora, e ela não tem um parceiro primário. Os parceiros com quem tem sexo mas não namora são chamados de “paramores”, enquanto “metamores” são amigas com quem ela divide um parceiro romântico. “Sou sortuda porque a maioria das minhas metamores e eu nos damos bem”, diz ela. “Aprendi uma lição recentemente que você nem sempre vai gostar da sua metamor, e tudo bem.” Gostar da metamor pode levar à “compersão”, que a Ética do amor livredescreve como “o sentimento de alegria que surge ao ver seu parceiro sexualmente feliz com outra pessoa”.

Seu irmão de dezoito anos, que se identifica como queer, também se identifica como poli, e Amber já conversou a respeito com seus pais. “Eu disse a eles da seguinte maneira: ‘Sim, eu estou namorando essa pessoa, e aquela pessoa, e aquela outra’. Contei para a minha mãe e sua primeira preocupação foi: ‘Mas, e se você diz o nome errado durante o sexo?”

Embora Amber só tenha passado a se identificar como poliamorosa há alguns anos — ela tinha dezenove anos quando perguntou ao namorado se eles poderiam abrir o relacionamento –, ela fala com a confiança e a autoridade de alguém que teve permissão para experimentar sua sexualidade à vontade durante toda a vida adulta. Amber enfatiza a necessidade de comunicação em todos os relacionamentos, particularmente quando se trata de ferir sentimentos.

“Tenho certeza de que você está querendo me fazer a grande pergunta sobre ciúme”, ela me diz. “É claro que pessoas poliamorosas sentem ciúme, com a diferença de que vemos isso como uma emoção a ser reconhecida, discutida e trabalhada.” O ciúme geralmente vem da insegurança e do medo, ela diz, resumindo uma grande parte de Ética do amor livre, e pode exigir “auto-reflexão e metacognição” para ser trabalhado. Participante ativa de grupos poli, kink e queer de Nova York, ela frequenta vários eventos por semana, incluindo festas BDSM e de swing. Pergunto se todos os seus parceiros fazem parte da mesma comunidade, e ela ri. “Sim, gostem ou não”, diz. “Mesmo quando você rompe com um parceiro, você ainda segue envolvida com os outros que orbitam ao redor.” Há pouca separação entre vida sexual e vida social. Amber não vê problema nisso, e por que deveria? A palavra “promíscua” não tem mais as mesmas conotações de quando Hardy e Easton tinham 23 anos.

Conforme o poliamor é tratado menos como uma novidade e mais como um modelo de relacionamento válido, começamos a vê-lo representado nos programas de entretenimento. Na série Unicornland, de oito episódios, Annie (Laura Ramadei) está tentando explorar sua sexualidade após o fim do casamento. Ela faz isso “unicorneando” – termo dado a mulheres que se juntam a casais na cama para trios. Cada episódio de três a sete minutos apresenta Annie a um novo casal: casados ​​heterossexuais, lésbicas, excêntricos e de longo prazo que procuram apimentar sua vida sexual. O programa mostra um subconjunto muito específico de poliamor, mas, ao fazê-lo, consegue explorar grande parte da riqueza e complexidade das relações modernas que são ignoradas na maioria das mídias tradicionais.

“Eu sempre estive em relacionamentos longos, e eles sempre tiveram como objetivo o casamento e a longa duração”, diz a criadora do programa, Lucy Gillespie, 32. Como Annie, Gillespie se casou jovem, aos 26 anos, e se separou do marido cerca de quatro meses mais tarde. “Parte da razão pela qual me divorciei foi que eu não sabia como me comunicar em meus relacionamentos e sentia que minhas necessidades eram secundárias em relação às do meu parceiro”, diz ela. “Então, percebi que não precisava fazer isso comigo mesma.” Depois do divórcio, ela fez “uma espécie de passeio pelas opções de relacionamento” e envolveu-se na cena fetichista de Nova York. “No geral, é um mundo cheio de pessoas muito interessantes e muito conscientes, que estão criando, sustentando e mantendo relações poliamorosas éticas que funcionam muito bem.”

Gillespie leu Ética do amor livre há dois anos e começou a escrever Unicornland seis meses depois. A ideia de unicornear a atraía como um dispositivo narrativo, porque a evolução de sua própria sexualidade parecia um processo mental interno. “Na experiência de Annie, ela é realmente capaz de experimentar os relacionamentos de outras pessoas e ver como elas funcionam internamente”, diz Gillespie. “Senti que os casais eram a melhor maneira de Annie experimentar todas essas diferentes facetas do poliamor.” Os oito episódios levam os espectadores a um curso intensivo de muitos dos problemas que os casais poliamorosos enfrentam, como ciúme ou limites do que é ou não permitido. No episódio seis, Kim (Ali Rose Dachis) sai do banheiro e pega Samara (Diana Oh) e Annie se beijando na cama. “Temos regras”, diz ela. “Sem beijo de língua nos encontros casuais.” É uma fala simples que mostra quanto trabalho exige criar e manter um relacionamento saudável, sem o drama de Proposta indecente.

“Temos programas de TV que são especificamente sobre poli”, diz Hardy, ao responder se a situação melhorou desde o filme estrelado por Demi Moore. Ela cita um episódio de Crazy Ex-Girfriend em que a protagonista Rebecca Bunch se encontra apaixonada por dois homens e não consegue decidir por um deles. “Ela entrevista uma poli tríade para descobrir como lidar e descobre que está, na verdade, sendo uma pessoa com limites muito ruins.” Pergunto a Hardy se ela consegue pensar em outros exemplos de poliamor. Ela menciona o não tão recente filme de 2001, Bandits, e Big Love, um drama da HBO sobre polígamos mórmons. Os exemplos não são lá muito abundantes, mas o sucesso crítico de shows como Unicornland e Broad City (em que o personagem de Ilana Glazer namora Hannibal Buress durante as três primeiras temporadas do programa, enquanto continua a fazer sexo com outras pessoas) indica que o público jovem está pronto e aberto para mais.

A edição de vinte anos de Ética do amor livre [que será lançada no Brasil] foi significativamente atualizada e expandida desde sua humilde estreia, incluindo seções sobre pioneiros poli, ativismo negro poli e mudanças de atitude em relação ao poliamor na nova geração. Hardy e Easton reconhecem que os leitores millenials não foram criados no mesmo contexto em que elas cresceram — antes da revolução sexual, quando presevar-se para o casamento era a norma.

A essência do livro, porém, é a mesma de duas décadas atrás. “Uma das coisas radicais sobre Ética do amor livre é que foi escrito de maneia despojada”, diz Easton. “A maioria dos livros anteriores sobre sexo tratam o leitor como alguém que veste um jaleco branco e carrega um estetoscópio no pescoço, ou se colocam como algo escrito sobre o que as outras pessoas estão fazendo.” Ética do amor livre estará nas estantes junto de outros lançamentos recentes, como Action, de Amy Rose Spiegel, e Future Sex, de Emily Witt, dois livros publicados por editoras tradicionais que combinam tom coloquial com a experiência pessoal para desafiar as atitudes convencionais sobre sexo.

Ética do amor livre é um livro muito íntimo para as pessoas, e trabalhamos muito para afirmar as experiências de cada uma”, diz Easton. “Nossos medos e vergonhas nos atrapalham. No livro, as pessoas encontrarão a validação que procuram”.

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Publicado originalmente em Rolling Stone, 16 set. 2017

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Ilustração Ariádine Menezes

Relações abertas podem ser difíceis, mas recompensadoras

Por Dossie Easton & Janet W. Hardy
Tradução Christiane M. T. Kokubo

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Casamentos abertos podem funcionar e já deram certo para milhares de casais ao longo de décadas, se não séculos. No entanto, para manter um casamento aberto, há muito mais coisas envolvidas do que simplesmente a vontade de ter um relacionamento desse tipo. Tais relações requerem compromisso contínuo com a comunicação e apoio mútuo, e quase certamente envolverão alguma jornada pelos vulneráveis territórios de ciúme, insegurança e raiva — mas existe casamento que não passe por eles?

Abrir um relacionamento que tenha começado monogâmico deve ser negociado antes que a abertura ocorra. Os poliamorosos consideram deselegante apresentar o cônjuge ao amante até então secreto com um empolgado: “Querido, acho que devemos abrir nosso relacionamento!”. Visto que uma traição já ocorreu, muitos — talvez a maioria — dos casamentos não sobreviverá a tal revelação. Reverter a situação e conquistar um relacionamento aberto saudável requer percorrer um caminho intenso e doloroso. No entanto, muitos casais sobrevivem e obtêm mais satisfação, crescimento e proximidade após terem passado pelo processo.

A ética de qualquer comportamento sexual depende dos valores, costumes e cultura da comunidade em que está inserido. Pessoas de mente mais aberta ao sexo e cientes do poliamor como uma opção lidam mais facilmente do que quem acredita que a simples vontade de ter um relacionamento aberto demonstra que seu cônjuge já não as ama mais.

Muito sofrimento poderia ser evitado se, durante a fase de namoro, os casais discutissem a monogamia como uma opção, em vez de assumi-la como padrão — assim como conversam sobre ter ou não filhos, seguir uma ou duas profissões, ou qualquer outra questão importante que requer uma decisão antes de se prosseguir com o possível compromisso de longo prazo. Como dizemos no livro Ética do amor livre, “monogamia não é uma escolha quando você está proibido de optar por qualquer outro caminho”.

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Publicado originalmente em The New York Times, 20 jan. 2012.

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Ilustração Ariádine Menezes

Os sertões e os sertanejos muito além do discurso dominante

A partir da obra icônica de Euclides da Cunha e da histórica resistência de Antonio Conselheiro no arraial do Belo Monte, Sertão, sertões: repensando contradições, reconstruindo veredas, organizado por Joana Barros, Gustavo Prieto e Caio Marinho, faz uma leitura a contrapelo da história de Canudos e do imaginário sertanejo, desde a guerra que dizimou aquela população de “jagunços” até os dias atuais, passando pelas disputas territoriais e pelas obras de combate à seca.

Sertão, sertõesna verdade, são dois livros em um. De um lado, traz as fotografias mais marcantes sobre Canudos — não apenas as imagens de Flávio de Barros, que registrou o massacre empreendido pelo Exército em 1897, mas também dos momentos posteriores ao conflito: as reportagens de Pierre Verger, nos anos 1950; a documentação realizada por Claude Santos, Antonio Olavo e Alfredo Villa-Flôr na segunda metade do século XX; e fotos atualíssimas, feitas pelos próprios autores durante suas andanças pelas veredas de Canudos. As imagens são acompanhadas por análises que as localizam e contextualizam simbólica e historicamente como retratos de fases distintas da trajetória social do país.

Virando Sertão, sertões de ponta-cabeça, o leitor encontra um livro de textos que, assim como Os sertões, se divide em três partes. “Partimos do livro de Euclides da Cunha não para lhe render homenagens, mas para, caminhando pelas brechas e ranhuras da história dos vencedores, encontrar os sentidos múltiplos e diversos que constituem a formação social brasileira”, escrevem os organizadores: “um longo processo marcado pelo conflito e pela disputa dos sentidos de pertencimento e de constituição do mundo comum, de regulação do mando privado e das formas de existência social.”

Colocando em questão a fortuna crítica sobre Os sertões e o próprio sentido de sertão, a primeira parte — “No chão dos sertões e suas veredas” — se inaugura com uma carta do grande crítico Antonio Candido escrita em 2001, em que relaciona a resistência de Canudos à luta contemporânea pela reforma agrária, e segue com quatro artigos sobre a disputa de narrativas sobre a história de Canudos e sobre o que é “sertão”, “sertanejo” e “Nordeste” — tema que continua atual, uma vez que a região e seus habitantes continuam a ser considerados por certa elite econômica como sinônimo de atraso.

“A terra dos homens” se dedica aos aspectos físicos do sertão. O primeiro texto é assinado pelo renomado geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber, que nos leva a conhecer o domínio das caatingas. Outros dois artigos nos oferecem elementos para compreender e criticar os discursos dominantes sobre o combate à seca — fenômeno típico e cíclico do semiárido nordestino —, demonstrando, com análises climáticas e ambientas, que, diante da inevitabilidade do fenômeno, a saída talvez seja aprender a “conviver com a seca”, quando ela ocorre, garantindo direitos e oferecendo condições de vida digna aos sertanejos.

Na última parte, “O homem em luta”, o livro se debruça sobre as disputas políticas, trabalhistas e territoriais que permeiam os sertões — e, mais precisamente, a região de Canudos — na atualidade. Aqui, encontramos textos sobre a organização dos trabalhadores rurais no Submédio São Francisco; a atuação do Judiciário como “mediador” dos conflitos agrários, sobretudo no que diz respeito às comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto; a existência, ainda hoje, de “seguidores” de Antonio Conselheiro, que se empenham em reescrever a história de Canudos sob o prisma de quem resistiu; e as contradições do acesso à água, que, devido a açudes e transposições, finalmente chegou à região — mas não para todos.

Após resistir às investidas do Exército sob as ordens da então nascente República, Canudos foi destruída duas vezes: primeiro com ferro e fogo, pelas mãos dos militares que executaram os conselheiristas e queimaram o arraial; depois, passados sessenta anos, durante a ditadura, pela inundação das águas do Açude Cocorobó. O reiterado apagamento histórico, porém, jamais conseguiu silenciar a história dos vencidos. É esta que, como a ponta da igreja de Canudos em épocas de seca, reemerge nas páginas de Sertão, sertões, reforçando a necessidade de repensar as contradições e reconstruir as veredas tortuosas da formação política e social brasileira.

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LANÇAMENTO

Barco da Flipei (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes)
Festa Literária Internacional de Paraty
10 a 14 de julho

Amazon destrói

Por Tadeu Breda, editor


Nesta semana nos deparamos com um exemplo prático de como a Amazon destrói livrarias utilizando-se de seu gigantesco poder financeiro. Não fornecemos diretamente para a Amazon. Ela consegue títulos da Editora Elefante através de distribuidoras com as quais trabalhamos, e que fornecem para livrarias de todo o país — inclusive para a Amazon.

Os preços que a Amazon pratica, porém, são inviáveis para qualquer um, até mesmo para nós, que produzimos o livro e fazemos a venda direta, sem passar por intermediários. Ainda assim, ela comercializa Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, cujo preço de capa é R$ 60, por R$ 43,80 e Olhares negros, de bell hooks, que custa R$ 50, por R$ 36,50.

Mesmo as livrarias on-line que vendem mais barato usando a plataforma da Amazon não conseguem chegar a tal patamar. Como estamos dos dois lados do balcão, sabemos que ninguém consegue sustentar-se vendendo livros com tamanho “desconto” (que não é desconto, é dumping, e alguns países vêm tomando medidas contra essa prática). Fica claro, assim, que a Amazon — ao contrário das pequenas livrarias — não se mantém com a venda de livros.


O que eles fazem, sobretudo nos casos de livros de boa vendagem, como Calibã e a bruxa e Olhares negros, é atrair compradores com preços obscenos, desbancar a concorrência que nem em seus maiores sonhos conseguiria igualar tais preços, e usar os dados dos clientes para, com seus robôs e algoritmos de última geração, continuar bombardeando e vendendo de tudo — inclusive mais livros —, até que um dia não haja mais concorrência e eles possam aumentar os preços tranquilamente, potencializando seus lucros.

Sabemos que os livros não são baratos no Brasil. Mas, sobretudo no caso de editoras independentes, e certamente no caso da Editora Elefante, não se trata abuso: fazemos as contas aqui com a corda no pescoço para que o livro saia de nossos depósitos com o valor mais baixo possível, em uma cadeia que vai distribuir renda entre todos os nossos colaboradores — e entre os pequenos livreiros e seus colaboradores.

Se você compra pela Amazon, estará enriquecendo ainda mais Jeff Bezos e aumentando sua fortuna, estimada em noventa bilhões de dólares: um homem que tem tanto dinheiro que agora quer conquistar o espaço — enquanto isso, muitos de seus trabalhadores não conseguem pagar as contas.

Nós aqui temos asco de tamanha concentração de riqueza. E apostamos pela humanidade. Comprando diretamente em nosso site e em pequenas livrarias, você estará lidando com seres humanos como você, com suas virtudes e seus defeitos. A escolha é sua. Já fizemos a nossa.

O que é e como funciona a pré-venda da Elefante?

Comprar livros em pré-venda, direto no site da Elefante, nos ajuda a continuar vivos — e lançando os títulos que você gosta. Isso porque os gastos iniciais de publicação de um livro são muito altos (e ainda maiores quando se trata de uma tradução), e editoras minúsculas, como a nossa, têm imensas dificuldades em absorvê-los. Com o apoio de vocês, porém, a gente consegue.

A pré-venda trata-se de uma venda antecipada, que acontece quando o livro ainda não está pronto. É uma maneira de adiantar recursos que podemos usar para financiar não apenas as primeiras despesas do título em pré-venda, mas também outros livros importantes, em um ciclo virtuoso que beneficia a todos: inclusive os leitores, que garantem seu exemplar com um belíssimo desconto.

Ao aderir à pré-venda e cooperar com a Elefante, o leitor precisa compreender que haverá uma certa demora na entrega do livro — justamente pelo fato de que ele ainda não existe. Na página da compra, colocamos a informação sobre o início dos envios (normalmente, dentro de um ou dois meses a partir do início da pré-venda). Demora um pouquinho, mas o livro chega — e você dá uma ajuda inestimável à editora. A gente não esquece de ninguém.

Outro ponto importante a ser esclarecido é a mensagem de “pedido concluído” que nosso sistema envia automaticamente quando registramos sua compra. Esse “concluído” não significa que o livro já chegou na sua casa, mas sim que seu nome e endereço foram colocados em nossa planilha, e logo se transformarão em etiquetas, que serão coladas em pacotes, que serão levados aos Correios e entregues no conforto do seu lar no menor tempo possível.

Qualquer dúvida sobre a pré-venda, por favor, não faça contato pelo Instagram nem pelo Facebook, mas pelo leitores.elefante (a) gmail.com. Nós respondemos absolutamente todos os e-mails — todos. Pode demorar 24h ou 48h, mas fique tranquilo porque esclarecemos todas as dúvidas e não deixamos ninguém sem resposta. 

Novo livro de Silvia Federici aborda trabalho doméstico, reprodução e luta feminista

Depois do sucesso estrondoso de Calibã e a bruxa, que nasceu clássico, a Editora Elefante e o Coletivo Sycorax dão continuidade ao projeto de publicar toda a obra da historiadora feminista italiana Silvia Federici no Brasil com o lançamento de O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista.

Escrito entre 1974 e 2012, o livro recolhe quarenta anos de pesquisas e teorizações sobre a natureza do trabalho doméstico, da reprodução social e da luta feminista para construir e reconstruir, nos territórios e coletivamente, alternativas às relações capitalistas e patriarcais que oprimem as mulheres há séculos — uma história que está muito bem contada em Calibã e a bruxa.

 

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O ponto zero da revolução começa com Silvia Federici refletindo sobre sua experiência de militância no Wages for Housework Movement [Movimento para um salário para o trabalho doméstico], nos anos 1970, para depois abordar temas como globalização, trabalho sexual, a política dos “comuns”, cuidado com os mais velhos e o desenvolvimento do trabalho afetivo, entre outros.

“Eu hesitei por algum tempo em publicar um volume de ensaios voltado exclusivamente para a questão da ‘reprodução’, já que me parecia artificialmente abstrato separá-la dos variados temas e lutas aos quais tenho dedicado meu trabalho ao longo de tantos anos”, escreve Silvia Federici, na introdução de O ponto zero da revolução.

“Há, no entanto, uma lógica por trás do conjunto de textos nesta coletânea: a questão da reprodução, compreendida como o complexo de atividades e relações por meio das quais nossa vida e nosso trabalho são reconstituídos diariamente, tem sido o fio condutor dos meus escritos e ativismo político.”