Quem é bell hooks?

bell hooks nasceu em 1952 em Hopkinsville, uma cidade rural do estado de Kentucky, no sul dos Estados Unidos. Batizada como Gloria Jean Watkins, adotou o nome pelo qual é conhecida em homenagem à bisavó, Bell Blair Hooks. Formou-se em literatura inglesa na Universidade de Stanford, fez mestrado na Universidade de Wisconsin e doutorado na Universidade da Califórnia. Seus principais estudos estão dirigidos à discussão sobre raça, gênero e classe e às relações sociais opressivas, com ênfase em temas como arte, história, feminismo, educação e mídia de massas. É autora de mais de trinta livros de vários gêneros, como crítica cultural, teoria, memórias, poesia e infantil.

Na infância, estudou em escolas públicas para negros, pois nos Estados Unidos ainda havia escolas que praticavam segregação racial. Na adolescência, quando passou para uma escola integrada, viveu a discriminação de ser minoria numa instituição onde tanto os professores quanto os alunos eram majoritariamente brancos.

De família numerosa — cinco irmãs, um irmão –, pertencente ao que os norte-americanos chamam de classe trabalhadora, bell hooks usou a própria vida, a vizinhança e a escola como fontes dos seus primeiros estudos sobre raça, classe e gênero, sempre buscando nesses três elementos os fatores da perpetuação dos sistemas de opressão e dominação. Seja de brancos contra negros; de homens (mesmo negros) contra mulheres; de ricos contra pobres.

Observadora sagaz da realidade, bell hooks é capaz de escrever palavras que doem como um soco no estômago, mas que são ditas com grande convicção, sinceridade e um estilo inconfundível. Já foi premiada com um The American Book Award, um dos prêmios literários de maior prestígio dos Estados Unidos. Entre as influências da autora, além de Martin Luther King, Malcom X e Eric Fromm, figuram as teorias de educação defendidas pelo brasileiro Paulo Freire.

Foi durante a faculdade que bell hooks começou a escrever seu primeiro livro, Ain’t I A Woman [Eu não sou uma mulher], publicado em 1981. Onze anos depois, o site Publishers Weekly, especialista no ramo de publicação literária, avaliou Ain’t I A Woman como um dos vinte livros mais influentes escritos por mulheres nos vinte anos anteriores.

Assim como outras mulheres negras, hooks apontou que o feminismo mainstream focava em um grupo seleto de mulheres brancas, com ensino superior, de classe média e alta, centradas em ideais românticos de liberdade e igualdade. Ela percebeu que as mulheres negras se encontravam em um dilema: apoiando o movimento feminista, precisavam abdicar das discussões raciais, e lutando pelos direitos civis estavam à mercê do patriarcado que o dominava.

A escritora sofreu uma série de críticas durante a sua carreira, sendo acusada inclusive por outras feministas de não ser “acadêmica o suficiente”. Isso porque hooks não se submetia aos padrões tradicionais da academia, na intenção de tornar o seu trabalho acessível para todos. Daí também seu grande interesse pela educação — sobretudo pela educação das pessoas negras, historicamente privadas da academia.

“Muitas vezes, as feministas brancas agem como se as mulheres negras não soubessem que houve opressão sexista até que elas expressassem o sentimento feminista. Eles acreditam que forneceram às mulheres negras ‘análise’ e ‘o’ programa de liberação”, escreveu bell hooks. “Eles não entendem, nem imaginam, que as mulheres negras, bem como outros grupos de mulheres que vivem diariamente em situações opressivas, muitas vezes se tornam conscientes da política patriarcal de sua experiência vivida à medida que desenvolvem estratégias de resistência — mesmo que isso não seja feito de forma sustentada ou organizada.”

Raça e representação, pelo olhar negro e feminista de bell hooks

Em 2019, a Editora Elefante dá início à publicação dos mais importantes livros de ensaios da pensadora negra feminista norte-americana bell hooks. Começaremos em fevereiro com Olhares negros: raça e representação. “Nenhum outro livro de crítica cultural que eu tenha escrito é tão essencial para a nossa compreensão das ligações entre raça, representação, questões de autodefinição das pessoas negras e a descolonização de todos nós”, diz a autora, de 66 anos.

Publicado originalmente em 1992, Olhares negros foi relançado nos Estados Unidos em 2015, e agora finalmente chega ao Brasil. “É um livro que eu desejaria de todo o coração que já não fosse relevante”, continua bell hooks. “Se fosse assim, uma significativa revolução de valores teria acontecido em nossa sociedade, e então não seríamos mais bombardeados por imagens profundamente negativas do que é ser negro: imagens que atacam a psique de todos.”

A edição brasileira de Olhares negros foi traduzida por Stephanie Borges e conta com o prefácio de Rosane Borges, jornalista, pós-doutorada em ciências da comunicação, professora e colaboradora de grupos de pesquisa sobre estética e vanguarda e teorias e práticas feministas na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A publicação contou com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.

“Não há como negar que Olhares negros é um livro que nasce clássico, desafiando as políticas de visibilidade e as noções de representação, levando em conta o que significou e o que significa o processo de colonização e dominação nos países marcados pela pior tragédia da humanidade: a escravidão transatlântica”, explica Rosane Borges, no texto que abre o livro.

“Em Olhares negros, bell hooks reafirma sua vocação de intelectual negra feminista que, de onde vê e intervém no mundo, oferece ferramentas teóricas e práticas para reescrever a história dos dominados”, continua. “Tal reescrita não terá êxito se não implodir as formas de organização do olhar que esculpiram as pessoas negras e os símbolos da negritude como objetos que se prestam à espoliação e ao consumo.”

Ainda no primeiro semestre, a Editora Elefante lança mais dois livros de ensaios de bell hooks. Talking Back: Thinking Feminist, Thinking Black (cujo título em português ainda não definimos) sai em março. Yearning: Race, Gender, and Cultural Politics (também sem título definido em português, ainda) será apresentado ao público em maio. Acreditamos, assim, dar uma grande contribuição aos debates sobre racismo e feminismo do país.

 

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Olhares negros: raça e representação
Autora: bell hooks
Capa & projeto gráfico: Leticia Quintilhano
Tradução: Stephanie Borges
Prefácio: Rosane Borges
Edição: Tadeu Breda
Direção de arte: Bianca Oliveira
Preparação: Natalia Engler
Revisão técnica: Rosane Borges
Revisão: Daniela Uemura
Apoio: Fundação Rosa Luxemburgo
Lançamento: fevereiro 2019
Páginas: 356
ISBN: 978-85-93115-21-9
Dimensões: 14 x 21 cm

Entenda por que nem Mariana nem Brumadinho foram acidentes

Não bastou Mariana. Pouco mais de três anos depois, a mesma gigantesca mineradora permite que mais uma de suas barragens se rompa em Minas Gerais, provocando um tsunami de lama tóxica que varreu a região de Brumadinho, matou um rio e assassinou moradores, trabalhadores e turistas.

Se, em novembro de 2015, os brasileiros lamentaram a destruição do Rio Doce, com reflexos no litoral do Espírito Santo, agora quem recebeu milhões de metros cúbicos de rejeitos foi o Paraopeba, que deságua no São Francisco — que, por sua vez, como dizia a canção “Riacho do Navio”, de Luiz Gonzaga, “vai bater no meio do mar”. E assim a sujeira se alastra, potencializando o dano.

A destruição ambiental é irreparável, tal como as perdas humanas. Aliás, nas palavras do desavergonhado presidente da Vale, Fábio Schvartsman, que já deveria estar preso, desta vez “a tragédia humana deve ser maior”. Em Mariana, a enxurrada de terra, água e minérios levou consigo a vida de dezenove pessoas. Agora, as vítimas podem ser mais de trezentas.

Neste momento as autoridades somam 58 mortos e 305 desaparecidos. E, felizmente — ao contrário do que previu o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Partido Novo, quando disse que as equipes de busca iriam “resgatar somente corpos” —, os bombeiros já retiraram 192 pessoas com vida do lamaçal. É uma tragédia humana e ambiental de enormes dimensões — mas que, em hipótese alguma, pode ser encarada como um acidente. Primeiro porque há tempos governantes e empresários vêm lutando pela “flexibilização” dos licenciamentos — e acabamos de eleger um presidente com este discurso.

Depois porque a Vale vai alegar — como já está alegando — que uma empresa certificadora alemã havia atestado em setembro de 2018 que a barragem era segura. É verdade: trata-se da TÜV SÜD, como mostra a Deutsche Welle. Mas quem já leu o livro Empresas alemãs no Brasil: o 7 x 1 na economia, de Christian Russau, publicado pela Editora Elefante e pela Autonomia Literária em setembro de 2017, sabe como se dão as relações econômicas entre ambos os países — inclusive quando se trata de seguros e resseguros de grandes obras.

Além de nossa indignação, o que podemos fazer é lembrar que há alguns anos estamos publicando livros que demonstram a inviabilidade de projetos extrativistas. Movidos pela ideologia do progresso — uma das maiores falácias do século XX —, os projetos de mineração, petróleo, hidrelétricas e agronegócio concentram renda e empobrecem comunidades inteiras enquanto destroem a natureza em nome de um desenvolvimento que nunca chega. Nem jamais chegará.

O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos (2016), de Alberto Acosta; Descolonizar o imaginário: debates sobre pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento (2016), de vários autores; e Pós-extrativismo e decrescimento: saídas do labirinto capitalista (2018), de Alberto Acosta e Ulrich Brand, ajudam a compreender a necessidade de mudar radicalmente nossa visão sobre economia e nossas noções de riqueza e desenvolvimento.

Em 2019, traremos mais títulos para reforçar argumentos nesse sentido. Potosí, el origen: genealogía de la minería contemporánea, de Horacio Machado Aráoz, já está sendo traduzido ao português, assim como dois livros da pensadora argentina Maristella Svampa e do uruguaio Eduardo Gudynas, que criticam ferrenhamente o extrativismo a que estamos presos desde a Colônia. Os lançamentos estão previstos para o segundo semestre.

 

O pós-extrativismo e o decrescimento atacam o cerne do capitalismo. Para Acosta e Brand, o freio à exploração maciça dos recursos naturais na periferia do sistema deve aliar-se a uma reversão — não apenas a uma interrupção — do crescimento nos países centrais do capitalismo. “Estas discussões se nutrem da imperiosa necessidade de promover uma vida harmoniosa entre os seres humanos e entre os seres humanos e a Natureza. Este é, definitivamente, um grande desafio para a Humanidade — e implica ter em mente uma mudança de eras.” Eis uma tarefa extremamente complexa e repleta de percalços, que os autores — renomados intelectuais críticos — não deixam de apontar. A começar pelo próprio nome: haveria maneira mais eficaz de expor as visões de mundo propostas pelo pós-extrativismo e pelo decrescimento? Seria melhor falar em Bem Viver, mas a saída do labirinto capitalista não é apenas uma questão terminológica. Por isso, o debate não se encerra em nomenclaturas.

Vivemos uma crise global e múltipla de enormes proporções – política, social, econômica, ecológica, ideológica e ética. O crime ecossocial no Vale do Rio Doce, em novembro de 2015, perpetrado por mineradoras transnacionais com a cumplicidade e omissão de instâncias estatais nacionais e regionais, numa aliança típica dos nossos tempos, tornou-se a advertência mais dramática da podridão do sistema capitalista predador que determina nossas vidas. O Bem Viver é um conceito aberto, de origem latino-americana, que se está constituindo em um aporte genuíno ao debate da esquerda mundial do século 21. Ao mesmo tempo, dentro da esquerda neoclássica que, no Brasil, continua dominando o discurso daqueles e daquelas que estão aspirando a construir uma sociedade nova, social e ecológica, até anticapitalista, as resistências aos paradigmas pós-desenvolvimentistas como o Bem Viver ou o decrescimento continuam sendo consideráveis.

A promessa de desenvolvimento sempre exerceu uma espécie de fascínio à esquerda e à direita do espectro político. Ao mesmo tempo que anunciava bem-estar e qualidade de vida, reduzia todos os aspectos da existência humana – e a diversidade cultural dos povos – aos parâmetros estabelecidos pelo mercado e pelo consumo. Descolonizar o imaginário propõe um debate sobre o desenvolvimento em uma perspectiva ampla e diversa. Seus treze ensaios apresentam uma reflexão crítica ao modelo de integração subordinada da América Latina no mercado global neoliberal – que não foi abandonado após a ascensão dos governos progressistas. Mais do que isso, os textos fomentam, assim, um diálogo urgente sobre a necessidade de construir um horizonte renovado para superar as contingências típicas do Estado patriarcal, colonial e classista.

Ideias para impedir que a tecnologia tome conta de nossas vidas

Por Ricardo Abramovay & Rafael A. F. Zanatta
Prefácio à edição brasileira

 

O livro de Stefano Quintarelli é uma vacina contra o desencantamento que tomou conta da crescente dependência dos dispositivos digitais em que a vida social contemporânea está imersa. Os vícios comportamentais que cada um de nós reconhece e trata como contrapartidas inevitáveis dos serviços prestados pelos smartphones, a vigilância a que estamos submetidos não só pelo companheiro inseparável em que se converteu o celular, mas pelas câmeras espalhadas por onde quer que circulemos, a invasão da privacidade e a evidência de que as redes sociais pouco contribuem para tornar a vida política mais inteligente e construtiva, tudo isso desperta o sentimento distópico de que melhor seria se o gênio voltasse para dentro da lâmpada.

Quintarelli está em posição privilegiada para reconhecer a gravidade de todos estes problemas, não só como empreendedor digital pioneiro na Itália, mas como membro de algumas das mais importantes iniciativas de regulação da internet na Itália e na Europa. Ao mesmo tempo, essa experiência, que se consolidou num mandato de deputado em seu país por dois anos, permitiu que ele ocupasse um lugar de destaque num conjunto de propostas voltadas em última análise para que ciência e técnica estejam a serviço da melhoria da vida social — e não de sua degradação.

Nesse sentido, o autor de Instruções para um futuro imaterial não é um acadêmico no sentido clássico, e seu livro não possui o estilo tradicional de citações e reconstrução teórica (são raras as citações a outros intelectuais, como Luciano Floridi, que surge vez ou outra em seu texto). Como empreendedor, ativista e parlamentar, sua linguagem é direta e sua preocupação é pedagógica. Quintarelli quer falar aos “imigrantes digitais” que não compreendem a transição em que estamos inseridos, especialmente aqueles que não compreendem a lógica exponencial dos sistemas computacionais e as possibilidades técnicas inéditas geradas pelo atual desenvolvimento da física e da ciência da computação. A popularização dos assistentes acoplados com sistemas de inteligência artificial, oferecidos hoje por Amazon e Google, são apenas a materialização mais cotidiana desta transformação.

O ponto de partida do livro de Quintarelli está na rejeição da internet como algo virtual, de certa forma, etéreo, falsa impressão corroborada por imagens como a da computação “em nuvem.”  Ele rejeita a ideia de que existe um ciberespaço, em oposição ao espaço real, como se um fosse imaginário e somente o outro, palpável. Ao contrário, a tese básica deste livro é que a revolução digital abre caminho a uma dimensão cuja realidade não poderia ser maior: a dimensão imaterial, fundamental para os indivíduos, para a maneira como se relacionam uns com os outros, e determinante do uso que fazem dos materiais, da energia e dos recursos bióticos de que dependem.

A realidade desta dimensão imaterial vira do avesso a maior parte daquilo que os manuais de economia até hoje ensinam aos estudantes. Se a economia é a ciência que estuda a alocação de recursos escassos entre fins alternativos (daí resultando os preços como sinalizadores da relativa raridade daquilo que os consumidores almejam), é claro que a própria definição de um bem econômico é alterada quando este é quase infinitamente abundante e sua circulação não responde aos limites que nos foram ensinados quando nosso consumo se concentrava no que era palpável e raro. Este livro é uma excelente iniciação às bases microeconômicas da dimensão imaterial da vida social. Parte crescente da vida contemporânea deixa de responder à consagrada definição segundo a qual a economia é a ciência que estuda recursos escassos entre fins alternativos. Na dimensão imaterial, mesmo que custe muito produzir algo, reproduzir e distribuir torna-se virtualmente gratuito.

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Esta propriedade, analisada de forma didática no livro, abre caminho a oportunidades de cooperação social inéditas, que se exprimem na economia do compartilhamento, nas moedas virtuais e na extraordinária abertura de oportunidades a que a revolução digital dá lugar. Quintarelli não acredita no horizonte de destruição massiva de empregos que tão fortemente marca a literatura sobre os padrões contemporâneos de evolução tecnológica. Da mesma forma, ele não crê na perspectiva de total autonomia dos carros sem motorista.

Claro que as ameaças à privacidade e à própria concorrência são sistematicamente denunciadas neste livro. Além disso, a internet das coisas vai multiplicar os riscos de que nossa conexão permanente e os dados que por meio dela produzimos ameace nossa própria dignidade. O livro ressalta também que a internet criou um abismo entre aqueles cujos trabalhos apoiam-se sobre ela, são criativos e geram rendas extraordinárias a seus praticantes, e a situação em que se encontra a massa dos que apenas fazem uso corriqueiro dos dispositivos digitais. O livro mostra que as instituições das sociedades democráticas estão bem pouco preparadas para enfrentar estes desafios. O ritmo das mudanças tecnológicas é exponencial e o tempo da política nem de longe é capaz de acompanhá-lo.

Mas em nenhum momento estes riscos são apresentados como fatalidades inerentes à própria tecnologia. A entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados e da Privacidade em maio de 2018 na Europa — e a aprovação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais no Brasil, que se inspira fortemente na legislação europeia — são passos fundamentais para regulamentar a dimensão imaterial da vida social. Quintarelli participou ativamente da elaboração desta lei e este livro pode ser considerado uma reflexão sobre as bases que permitirão que a concorrência, a dignidade das pessoas e o respeito aos valores mais caros da democracia possam se desenvolver na era digital.

Para Quintarelli, não há motivo para pânico ou uma luta “contra as tecnologias”. Há urgência de compreensão do tipo de economia gerada pelas novas tecnologias, seu impacto social e as possibilidades de regulação. De certo modo, o livro retoma uma velha lição de Spinoza: non ridere, non lugere, neque detestare, sed intellegere. Nem rir, nem chorar, nem detestar, mas sim compreender.

Progressismo latino-americano desarticulou a esquerda sem enfraquecer a direita

Por Gabriel Britto
Correio da Cidadania

 

A vitória de Jair Bolsonaro representa a afirmação do avanço conservador que, para muitos, colocou uma pá de cal na chamada “onda progressista sul-americana”. No entanto, tal ponto de vista parece não só limitado, mas condescendente. “Dizer que o PT não mudou o país por causa do ‘presidencialismo de coalizão’ é camuflar a densidade dos laços conservadores que sustentaram seus governos”, diz o historiador Fabio Luis Barbosa dos Santos, que acaba de lançar Uma história da onda progressista sul-americana (1998-2016) pela Editora Elefante.

Em linhas gerais, Fabio Luis afirma que os governos “progressistas” só mantiveram suas políticas de contentamento social enquanto puderam formar maiorias parlamentares, pois jamais cortaram privilégios e concessões às elites políticas e econômicas. “Os governos progressistas acreditaram que era possível resolver ou amenizar os problemas de seus países sem atacar suas causas estruturais. A estratégia foi conciliar os interesses dos de cima, que ganharam, como sempre, com pequenas concessões para os de baixo, o que resultou em relativa pacificação social”.

Fabio Luis reconhece o momento de fechamento democrático que se vive atualmente na América do Sul — praticamente uma condição sine qua non do modelo de capitalismo da região —, mas lembra que em diversos países oposições à esquerda ressurgem com força. No entanto, a complexidade do momento histórico não é de simples resposta, como mostra o caso mexicano, onde, em sua visão, a vitória de Andrés Manuel López Obrador não poderá resolver os grandes problemas sociais vividos pelo país — sobretudo no que se refere à violência produzida pela guerra às drogas.

Restará o acirramento das lutas de classes e de setores distintos da sociedade, nas quais o Brasil será um cenário “privilegiado”. “Há uma distância entre o que o governo de Jair Bolsonaro quer e o que conseguirá fazer. O fator mais importante não será o temperamento do presidente, sua base infiel, nem fictícios liberais democráticos, mas a reação popular. A pretensão de enfrentar os problemas do neoliberalismo com mais neoliberalismo certamente os agravará, assim como combater a violência com mais violência a piorará”.

Os dilemas históricos que em algum momento pareciam em vias de superação voltaram com força avassaladora. As incógnitas com que brindaremos o fim deste 2018 não serão menos presentes no ano que entra; estarão por tempo difícil de determinar. Tendo o Brasil como referência, Fabio Luis vaticina: “Será necessário superar o lulismo, que não é um antídoto ao fascismo, mas um entorpecente que dificulta a compreensão do que se passa”.

 

Seu novo livro, Uma história da onda progressista sul-americana, parece uma continuidade de Além do PT: a crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana. É isso mesmo, qual seria o avanço que se faz entre uma e outra obra?

Além do PT nasceu de uma urgência política: entender o impeachment de Dilma. Isso porque a narrativa petista, dizendo que o golpe veio porque o projeto “da direita” perdeu nas urnas, tem como horizonte a restituição da ordem petista. Quis contribuir para dissipar a fumaça da ideologia, analisando os governos petistas para entender o impeachment. Em suma, é um ensaio de intervenção política, cujo objetivo é libertar a esquerda da lâmpada mágica do lulismo.

Uma história da onda progressista sul-americana é fiel ao título: uma reconstituição da história de cada país sul-americano com ênfase no período recente. É fruto de seis anos de trabalho, envolvendo dez viagens e centenas de entrevistas. É resultado, portanto, de uma densa pesquisa. Minha intenção é oferecer uma obra de referência para quem quer entender a história da região e de cada país sul-americano — inclusive Colômbia, Peru e Chile — em uma perspectiva de esquerda. Por isso inclui um capítulo sobre Cuba. É um livro para o militante e para o acadêmico.

 

O novo livro começa a abordagem pela Venezuela. O que comentar do atual estágio social, político e econômico do país? Por que a crise e a recessão chegaram a patamares tão dramáticos, considerando a abundância de divisas que a renda petrolífera lhe garantira?

A crise venezuelana tem uma origem econômica. A combinação entre inflação, desajuste cambial (enorme diferença entre o câmbio oficial e o paralelo) e desabastecimento corroeu a popularidade do bolivarianismo. Isso ficou claro nas eleições de dezembro de 2015, quando o governo elegeu menos de 1/3 dos parlamentares.

Desde então, o governo Maduro desistiu da institucionalidade que os próprios bolivarianos construíram: só brincam de democracia quando ganham, o que tem sido cada vez mais raro. O argumento de seus apoiadores é controverso, e divide a esquerda: dizem que as alternativas colocadas são todas piores e, com isso, justificam a perpetuação no poder em condições cada vez mais críticas.

Duas perguntas de fundo se colocam: por que estes problemas econômicos explodiram?; e por que não despontaram alternativas à esquerda? São questões que exigem analisar a dinâmica e as contradições do bolivarianismo, um processo que evoluiu ao longo de seus vinte anos. Dois pontos são fundamentais, que detalho no livro: os obstáculos para superar a dependência petroleira (na raiz dos problemas econômicos) e as contradições da mudança a partir do Estado — ou “de cima para baixo” — o que está na raiz das limitações políticas.

 

Tentando colocar numa certa ordem de relevância, quais foram os outros processos políticos nacionais que mais se aproximaram de uma ruptura com o neoliberalismo e a construção de novos modelos de política e sociedade?

Entendo que o único país em que houve a intenção de superar o neoliberalismo foi na Venezuela, que retomarei adiante. Mas talvez as maiores expectativas fossem em torno de Argentina, Bolívia e Equador, que entraram na onda progressista em meio a sublevações populares, onde vários presidentes foram derrubados.

Dentre estes, destaca-se o caso boliviano: Morales venceu as eleições em 2005 e convocou uma constituinte, em que não conseguiu maioria absoluta.Os cambas de Santa Cruz de la Sierra conspiravam para dividir o país, os Estados Unidos mandaram para lá seu ex-embaixador no Kosovo, recém-separado da Sérvia, enquanto os indígenas ameaçavam descer do Altiplano e resolver na marra o que o vice García Linera chamou como “empate catastrófico”.

Afinal, chegaram-se a acordos, a nova constituição foi promulgada e, nas eleições seguintes, Evo Morales ganhou de lavada e fez maioria. A expectativa era que o processo se radicalizasse, mas ocorreu o seu contrário. Desde 2011, trata-se de um governo antipopular, que converteu o poder em um fim em si mesmo.

Como explicar? Para dizer em uma linha, os compromissos para pacificar o país, assumidos na constituinte, determinaram a linha conservadora adotada pelo governo, que persistiram quando teve maioria parlamentar. Maioria que também os Kirchner tiveram em algum momento, e que López Obrador tem agora no México.

Assim, dizer que o PT não mudou o país por causa do “presidencialismo de coalizão” é camuflar a densidade dos laços conservadores que sustentaram seus governos — reduzir um câncer a uma verruga, porque é o que se vê.

 

Um país de grande importância e sempre negligenciado na mídia brasileira é a Colômbia, que agora passa por um intrincado processo de pacificação nacional. Como analisa o desenvolvimento dos acordos de paz e o peso deste país no equilíbrio regional?

Após a eleição de Bolsonaro, os brasileiros têm melhores condições de entender a Colômbia: como um país há meio século em guerra civil conduz longas negociações que desaguam em um acordo de paz, e este acordo é rejeitado em consulta popular? E o principal argumento do “não” era que a paz abriria o caminho para o “castrochavismo” e para que as Farc assumissem o comando do país… Desde os anos 1990, o uribismo envenenou a cultura política colombiana ao mesmo tempo que militarizou o país, em um processo que tem muita semelhança com o modo de fazer política de Bolsonaro.

O atual presidente Duque é um uribista que tem descumprido cada aspecto do acordo de paz — o que aliás, já era a tônica do governo anterior. Em termos regionais, determinou a saída de seu país da Unasul, e trabalhou ativamente para que outros países o acompanhassem. No entanto, ficou só, pois os demais entenderam que era preciso esperar as eleições no Brasil para se posicionarem. Agora, a organização fenecerá — exceto se os Estados Unidos tiverem planos para a Unasul sob Bolsonaro.

 

Qual o peso do Brasil e, mais especialmente do lulismo em meio a todo esse cenário, para bem e para mal?

A onda progressista foi mais do que a soma de governos nacionais: as sinergias e ações conjuntas constituíram um aspecto decisivo, e talvez o maior potencial do processo. Neste sentido pode-se dizer que, se a Venezuela foi a vanguarda da onda progressista, o Brasil foi o seu motor. Recuperemos as origens: em 2002, Chávez respondeu às tentativas frustradas de derrubá-lo radicalizando suas posições, caso único no subcontinente. Neste mesmo ano, Lula foi eleito e, em seguida, assumiu Kirchner. A Venezuela se entusiasmou com a perspectiva de ter parceiros além de Cuba.

No entanto, logo ficou claro que o Brasil não militaria por um projeto contra-hegemônico, pois queria ser global player. Em outras palavras, seu interesse não era fazer um time, mas ser o líder regional; seu jogo não era a Alba, mas a Unasul. E esta é uma terceira dimensão importante para entender o que aconteceu na Venezuela: o papel regional do Brasil, que, na prática, atuou como um freio e não como um acelerador da onda progressista.

Em linhas gerais, as gestões petistas projetaram sua lógica interna para a política regional: em casa, pretenderam melhorar a situação dos de baixo, sem comprar briga com os de cima. No plano internacional, ambicionaram ampliar a soberania regional, sem enfrentar os Estados Unidos. Assim, as gestões petistas foram simpáticas a Chávez ou a Fidel — desde que seus países aceitassem a ordem proposta.

 

Saindo da América do Sul, como enxerga Cuba em meio a tudo isso?

Desde o fim da União Soviética, Cuba se tornou uma espécie de quilombo, lutando com dignidade para sustentar seu socialismo primitivo em um mundo hostil. A principal dificuldade é econômica: Cuba é um país pobre, que não tem como sustentar de forma isolada o padrão social que construiu com apoio soviético. Desde os anos 1990, sua sobrevivência ficou ainda mais difícil: o horizonte civilizatório deixou de ser o comunismo, reduzindo-se à manutenção das conquistas sociais e da soberania fundadas na revolução.

Neste quadro, a onda progressista proporcionou algum alento: a Venezuela propôs parceria e petróleo, enquanto o Brasil ofereceu negócios. Vinte anos depois, os limites do progressismo também afetam a ilha, que reescreve sua constituição eliminando a referência ao comunismo. O saldo do processo não poderia ser mais claro: a onda progressista, que começou reescrevendo constituições com a proposta de refundar nações (Venezuela, Bolívia, Equador), termina reescrevendo o que havia de nação e de esquerda na região.

 

Afinal, por que a onda dos governos progressistas encontrou um limite e parece agora viver um quase irresistível processo de reversão pela direita e até extrema-direita?

Os governos progressistas acreditaram que era possível resolver ou amenizar os problemas de seus países sem atacar suas causas estruturais. A estratégia foi conciliar os interesses dos de cima, que ganharam, como sempre, com pequenas concessões para os de baixo, o que resultou em relativa pacificação social. Entretanto, esta pacificação implicou formas de neutralizar e apassivar o campo popular. Quando as condições políticas, sociais e econômicas que favoreceram esta pacificação se modificaram — e então é preciso analisar cada país —, vemos que as classes dominantes encontram-se fortes como sempre, enquanto o campo popular está desmobilizado, e em alguns casos, desmoralizado.

Neste sentido, entendo a atual conjuntura mais como um desdobramento do que como uma reversão. Vejamos o caso brasileiro: o governo Temer foi sem dúvida mais truculento do que as gestões petistas, mas o sentido das suas políticas foi o mesmo.

Por exemplo: o congelamento dos gastos públicos por vinte anos radicalizou a lógica do ajuste estrutural, praticada regiamente pelas gestões petistas, enquanto a perseguição popular se escora na lei antiterrorista sancionada por Dilma às vésperas do seu afastamento. As continuidades são sintetizadas por Henrique Meirelles, que comandou o Banco Central sob Lula.

Portanto, o governo Temer deve ser visto como uma metástase das administrações petistas, uma vez que os interesses antipopulares que aquelas jamais enfrentaram logo se espalharam desimpedidos.

 

Acredita que essa direitização só pode se dar em termos mais radicalizados e até fascistizados na atual conjuntura do capitalismo da região? Autoritarismo e fórmulas disfarçadas de estados de exceção seriam a única via para a reprodução do neoliberalismo neste momento?

Sem dúvida, esta é a tendência, mas não é a regra. Veja as eleições no México: López Obrador é visto como uma novidade política em um contexto de crise, fez uma campanha centrada na questão da corrupção, em que as redes sociais tiveram um papel determinante. As similaridades superficiais com Bolsonaro são surpreendentes. Como explicar? Esta contradança entre México e Brasil sugere que há uma variedade de formas para lidar com a crise na atualidade, dentre as quais se inclui o progressismo.

Veja o paradoxo: enquanto os países que atravessaram a onda progressista avançam para estados de criminalização da política e insulamento da economia, à moda colombiana, os países que não foram governados pelo progressismo evoluem na direção contrária: frentes de esquerda se destacaram nas eleições no Chile, Peru e Colômbia entre 2016 e 2017, enquanto López Obrador alcançou a presidência em 2018.

Esta ascensão pode ser interpretada não como um indício de mudança, mas como o seu contrário: vinte anos depois, constatada ao mesmo tempo a inofensividade do progressismo para ameaçar a ordem e sua relativa eficácia em geri-la, entreabre-se nos países em que as forças da mudança estiveram mais asfixiadas uma brecha, que seguramente cativará a ilusão de muitos e certamente não levará a mudança alguma. López Obrador será o primeiro atirado aos leões, encarando a monumental crise mexicana.

 

O que esperar do governo de Jair Bolsonaro, cuja equipe já está inteiramente nomeada e oferece pistas do que teremos? Que consequências suas políticas devem gerar no chão social?

De Bolsonaro, o povo só pode esperar o pior. A ambição geral da sua política é uma espécie de reformatação da sociedade brasileira, análoga à produzida pela ditadura de Pinochet no Chile — outra experiência que analiso no livro e que os brasileiros devem entender, para além da conhecida repressão. Ao final da ditadura, até a esquerda chilena estava desfigurada, e o Partido Socialista de Salvador Allende transformou-se em um gestor da ordem legada.

Porém, há uma distância entre o que o governo Bolsonaro quer e o que conseguirá fazer. O fator mais importante não será o temperamento do presidente, sua base infiel, nem fictícios liberais democráticos — mas a reação popular. A pretensão de enfrentar os problemas do neoliberalismo com mais neoliberalismo certamente os agravará, assim como combater a violência com mais violência a piorará. Em um primeiro momento, é provável que Bolsonaro ofereça sangue petista para aplacar a turba iludida que o elegeu.

Mas em seguida, a realidade cobrará a fatura e o campo popular responderá. Portanto, será necessário superar o lulismo, que não é um antídoto ao fascismo, mas um entorpecente que dificulta a compreensão do que se passa. Só com luta os brasileiros escaparão da barbárie, não com morfina.

Cuba na encruzilhada

A revolução cubana completou 60 anos no dia 1º de janeiro de 2019. Se fosse um ser humano, teria ingressado na faixa etária dos idosos. Quem diria. Desde a queda do bloco soviético, analistas de todos os matizes preveem o colapso do regime cubano. Há trinta anos o governo da ilha administra uma situação de fragilidade econômica, sem deixar esmorecer um sistema de direitos sociais que, ao fim e ao cabo, lhe angariou a estabilidade política.

Em 1999, Cuba se desafogou da maior crise da sua história devido à ajuda da Venezuela de Hugo Chávez, que lhe forneceu petróleo barato em troca de serviços de saúde e educação. Os governos progressistas latino-americano cumpriram um papel importante na subsistência cubana durante o século XXI. Mas, e agora? Como a recente guinada à direita da América Latina afeta o futuro da revolução cubana?

São dois grandes desafios. Primeiro, Cuba terá que preparar-se para a eventual necessidade de reorganizar seus fluxos de comércio exterior, ocupados 40% por países americanos — sendo 18% com a Venezuela, 5% com Canadá, 4% com Brasil e 3% com Argentina (ONE, 2016). O colapso do chavismo pode deteriorar parte das receitas cubanas e comprometer algumas conquistas sociais. O cenário mais provável é que Cuba crie uma rota de compensação externa com a China, que já representa 20% das suas trocas internacionais, além da amizade antiga.

O segundo desafio é como amortecer o choque das turbulências externas com reformas internas, que demonstrem permeabilidade, escuta e agilidade das direções partidárias com as novas demandas sociais. Em 24 de fevereiro, a cidadania cubana irá às urnas aprovar sua nova Constituição, produzida pela Assembleia Nacional do Poder Popular. No novo texto, o caráter socialista do sistema é declarado irrevogável, ao mesmo tempo que se oficializa a propriedade privada de alguns meios de produção em setores minoritários.

O desafio interno é combinar a gratuidade dos direitos sociais, a proteção aos trabalhadores do setor público e privado e a democratização política da revolução, em um cenário repleto de restrições econômicas e tensionamentos ideológicos. Ultimamente, têm florescido na ilha novas pressões em defesa da maior diversidade dos meios de comunicação, especialmente entre setores favoráveis à revolução, mas críticos ao seu caráter centralista e monolítico. O oficialismo ainda desconfia da pluralidade e da polifonia das atuais redes de comunicação, mas aos poucos tateia caminhos para reconhecer novas subjetividades políticas.

O aniversário de 60 anos da revolução sinaliza que a capacidade de superar as crises cresce quanto mais seja bem cuidada sua representatividade social. A fortaleza externa é a fortaleza interna. É preciso que as direções políticas saibam repactuar permanentemente os valores da revolução com as novas gerações para, com elas, cruzar a tempestade.


Joana Salém Vasconcelosé autora do livro História agrária da revolução cubana (Alameda, 2016) e co-organizadora do livro Cuba no século XXI: dilemas da revolução (Elefante, 2017). Faz doutorado em História Econômica na USP.

Atravessamos 2018, obrigado

Querides leitores,

Nesta mensagem de final de ano não falaremos sobre a crise das grandes livrarias, nem sobre o calote que Saraiva e Cultura deram em todo o mundo, nem sobre o resultado das urnas, nem sobre todos os retrocessos que estamos vivendo e ainda iremos viver. Se 2018 foi muito difícil, 2019 deve ser ainda mais complicado. Sabemos que a tristeza, a frustração e a decepção têm sido imensas. E que tudo pode piorar.

Mas acreditamos que não há mais espaço para lamentações. Por isso, preferimos falar sobre o que fizemos no ano que passou. Apesar de Copa do Mundo, greve dos caminhoneiros e eleições presidenciais, fizemos muito. Lançamos onze novos títulos: livros bonitos e importantes. Temos vimos obras lançadas no ano passado caírem nas graças do público.

Tudo começou em março. Dois dias depois da covarde execução de Marielle Franco (quem, afinal, matou Marielle?) lançamos Raul, de Alexandre De Maio, nosso primeiro livro de jornalismo em quadrinhos. Também em março publicamos O eclipse do progressismo: a esquerda latino-americana em debate, conjunto de artigos sobre o fim do chamado “ciclo progressista” na região — que teria uma dramática continuidade com a vitória de Jair Bolsonaro.

Abril foi o mês em que voltamos nossos olhos para a luta pela terra. O perecível e o imperecível: reflexões guarani mbya sobre a existência, de Daniel Calazans Pierri, tenta compreender como este povo vê o mundo e os brancos enquanto resiste em territórios cada vez menores e sob ataque do “progresso”. Apaixonado por justiça: conversas com Sabine Rousseau e outros escritos, de Henri Burin des Roziers, aborda a trajetória do frade francês que dedicou boa parte da vida à luta pela reforma agrária na Amazônia brasileira.

Em junho, marcamos os cinco anos da Jornadas de Junho de 2013, ciclo de protestos populares que deixou um gosto amargo de violência policial. Memória ocular: cenas de um Estado que cega conta a história de uma das vítimas, Sérgio Silva, fotógrafo que perdeu o olho ao ser atingido por uma bala de borracha enquanto cobria uma manifestação no centro de São Paulo. Na tevê, a Copa do Mundo realizada na esteira do centenário da Revolução Russa motivou a publicação de Guia Rússia para turismo do colapso, ou o espetáculo das ruínas construtivistas na Moscou especulada, de Rachel Pach.

O segundo semestre chegou com um livro-reportagem chamado Roucos e sufocados: a indústria do cigarro está viva, e matando, de João Peres e Moriti Neto, que em dezembro seria agraciado pelos jurados do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, no Rio Grande do Sul, berço dos cultivos de tabaco e do lobby favorável aos interesses das grandes empresas do setor.

Novembro assistiu a quatro lançamentos da Editora Elefante. Começamos com No espelho do terror: jihad e espetáculo, um instigante ensaio do historiador Gabriel Ferreira Zacarias sobre as novas modalidades de terrorismo e a violência cotidiana do capitalismo. Menos de dois meses depois, o livro, infelizmente, dialogaria com o caso de um atirador que matou cinco pessoas e depois se suicidou na Catedral de Campinas, em dezembro.

A razão neoliberal: economias barrocas e pragmática populartrouxe a cientista política e ativista argentina Verónica Gago para uma turnê de debates em Manaus, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Os eventos internacionais seguiram com o lançamento de Pós-extrativismo e decrescimento: saídas do labirinto capitalista, de Alberto Acosta e Ulrich Brand, trazendo visões de outros lugares do mundo para ajudar na elaboração de estratégias e alternativas ao atoleiro em que nos metemos.

No finalzinho de novembro, tivemos um momento especial. Com o lançamento de Uma história da onda progressista sul-americana (1998-2016), resultado de anos de pesquisa, viagens, estudos e entrevistas de Fabio Luis Barbosa dos Santos, chegamos à marca de trinta títulos no catálogo. Parece pouco, mas estamos tremendamente orgulhosos por termos chegado até aqui. Claro que jamais conseguiríamos sem o apoio de vocês.

Além de novos livros, em 2018 assistimos a Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, cair nas graças das mulheres brasileiras dentro e fora da universidade, animando trabalhos acadêmicos e rodas de conversa país afora. As postagens que diariamente surgem nas redes sociais são prova disso. Nem precisamos dizer a satisfação que sentimos ao ver as declarações de amor pelo livro. Nada faria uma editora mais feliz. Sério, não tem preço.

No finalzinho do ano soubemos que, depois das infelizes declarações do presidente eleito, o governo cubano retiraria seus profissionais de saúde do Programa Mais Médicos. A notícia fez renascer o interesse em Branco vivo, de Antonio Lino, com fotos de Araquém Alcântara, que havíamos lançado em meados de 2017 — e que foi indicado ao Prêmio Jabuti na categoria “Crônica”. O interesse repentino nos pegou de surpresa, nossos estoques se esgotaram e tivemos que correr para imprimir mais uma tiragem. Correria boa.

Já temos uma fila de lançamentos incríveis para 2019. Logo no comecinho do ano enviaremos a vocês, em primeira mão, uma lista das novidades que nos esperam. Enquanto isso, continuamos trabalhando duro para entregar os livros mais bem editados e desenhados pelo menor preço possível. Porque, sim, enquanto vocês estiverem conosco, seguiremos avançando pela trilha do conhecimento, do debate, das ideias. Afinal, não existe outro caminho.

Agradecemos imensamente pela sua companhia em mais um ano.

Abraços e beijos enormes,

— Os elefantes

O terror que se aproxima

Por Gabriel Ferreira Zacarias
Publicado originalmente na Revista Cult
26 out. 2018

 

O desprezo de Jair Bolsonaro e sua família pelas instituições republicanas e sua ignóbil admiração, tantas vezes proclamada, pelo abjeto torturador Carlos Ustra, indicam que o risco de um terrorismo de Estado paira novamente como ameaça real sobre a democracia brasileira. Muitos, porém, com grande otimismo ou cegueira, descartam essa ameaça como demasiado remota.

Se aceitarmos essa versão, que aposta na pouca fiabilidade do que diz o personagem bufão, não estaremos livres da ameaça de um terror cotidiano — como demonstram as dezenas de casos de violências contra minorias e opositores políticos registrados desde o primeiro turno da eleição. Gostaria de fazer uma breve reflexão sobre essa questão, com base em análises que fiz do terrorismo na Europa, e que compõem ensaio recentemente publicado.

O terrorismo contemporâneo, tal qual demonstram os casos recentes de ataques terroristas nos países do hemisfério norte, tem se caracterizado por algo que chamei de “terrorismo faça você mesmo”. No estudo que fiz sobre o problema do terrorismo na França, chamou atenção o caráter difuso do novo terrorismo, impulsionado por uma sociedade na qual os elos sociais se estabelecem prioritariamente por mediações virtuais e não mais por formas diretas de relações humanas.

Diferentemente do que ocorria no passado, hoje não é mais necessária a existência de grupos com organizações centralizadas que forneçam as condições materiais e estratégicas para a ação terrorista. As ações podem ser frutos de indivíduos que se identificam imaginariamente com os símbolos e valores de grupos maiores. Assim, parte dos atentados atribuídos ao Estado Islâmico na Europa foram cometidos por indivíduos nascidos no continente e que nunca haviam abandonado seu país de nascença, ou seja, que jamais tinham tido contato direto com a organização no Oriente Médio. Sua relação se dava pelas redes sociais de pró-jihadistas e seus atos eram impulsionados pela certeza de que seriam recompensados pela admiração nessas mesmas redes.

Portanto, a forma atual do terrorismo é justamente a de atos violentos isolados que não são diretamente ordenados pelas lideranças. Tudo que essas lideranças têm de fazer é fornecer um conjunto simbólico que justifique a violência, que a torne socialmente reconhecida, mesmo que no interior de uma coletividade delimitada. No caso do terrorismo islâmico, os valores reivindicados pelo fundamentalismo muçulmano em oposição àquilo que veem como um Ocidente degenerado tornam-se justificativas suficientes para que indivíduos disparem a esmo contra multidões ou joguem veículos sobre transeuntes. Ações que poderíamos nomear simples atos de loucura, e que não deixam de sê-lo, mas que aparecem como dotados de racionalidade para aqueles que se acreditam em uma espécie de “guerra santa”. A linha que separa o ato de loucura do ato de terrorismo tornou-se demasiado tênue, e por consequência tornou-se igualmente tênue a linha que separa o ato isolado do projeto coletivo.

Erich Fromm fazia uma distinção entre patologias e defeitos socialmente moldados, isto é, traços de caráter que não são mais percebidos como patológicos em dadas condições sociais. O que pode parecer como pura loucura em uma coletividade pode ter uma legitimidade em outra, e isso vale sobretudo para as manifestações de violência. O termo amok, que identificava uma prática ritual de violência cega em povos malásios, é usado hoje para designar os casos de violência incompreensíveis para a racionalidade ocidental, casos como o dos chamados “atiradores loucos”, que em explosões de raiva disparam a esmo sobre a multidão. Agora, parte desses atiradores loucos – ou em alguns casos, atropeladores loucos – são simplesmente designados como terroristas. A vazão de sua violência encontrou uma forma simbólica, que é fornecida pelo fundamentalismo, e que, portanto, não é mais descartada como simples loucura.

Se um líder político apregoa o uso livre da violência e nomeia insistentemente grupos que valem menos, está autorizando com falas e ações que indivíduos descarreguem sua raiva sobre esses mesmos grupos. É interessante notar aqui a semelhança que há nos alvos escolhidos pelo fundamentalismo islâmico e pelo fundamentalismo bolsonarista. Em ambos os casos, existe a veiculação de uma moral religiosa que condena a diversidade sexual e que se volta contra os setores progressistas da sociedade.

Quando dos ataques de novembro de 2015 em Paris, muitos se perguntaram por que um de seus alvos foi a região do Canal Saint Martin, frequentada por pessoas tolerantes à diversidade religiosa e comumente defensores da imigração, em vez de se voltar contra alvos associados ao Front National, partido conhecidamente xenófobo e anti-muçulmano. Acontece que tanto os correligionários do Front National quanto os partidários do Estado Islâmico manifestam incompreensão e ressentimento para com sociedades plurais e fundadas na diversidade, e veem como principais inimigos aqueles que lutam pela defesa de uma sociedade plural.

Algo semelhante ocorre hoje no Brasil, onde os meios culturais, artísticos e universitários estão entre os alvos prioritários do ressentimento bolsonarista, um ressentimento fundado em mentiras e desconhecimento, mas também na identificação correta de que esses espaços permanecem bastiões de luta contra qualquer fundamentalismo. Diversas universidades têm sido pichadas com ameaças e suásticas nas últimas semanas. Para ficar apenas no exemplo que me está mais próximo, na biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp, os dizeres associavam nazismo e school shooting, as suásticas sendo acompanhadas da ameaça “vai ter Columbine” (em referência ao histórico massacre escolar de 1999). O autor, já identificado, é mentalmente instável. Mas não deixa de ser relevante que tenha percebido uma articulação possível entre uma simbolização política e um gesto violento codificado e identificado com o ambiente de ensino.

A ausência de controle sobre os correligionários, que Bolsonaro evoca em sua defesa, não o isenta de responsabilidade sobre atos que tornam reais as ameaças contidas em suas falas. Se olharmos para o terrorismo contemporâneo, veremos que a falta de um controle em nada reduz os riscos da violência, a anuência simbólica sendo mais do que suficiente para dar aval ao terror. E lembremos que, caso Bolsonaro seja eleito, esta é apenas a perspectiva otimista.

 

Imagem: Andy Warhol, “Guns”, 1982.

Onda progressista, a mudança que não veio

Por Isabel Loureiro

 

Na América Latina, de tempos em tempos, somos invadidos pelo sentimento desesperador do eterno retorno do mesmo. A cada tentativa de integração civilizadora, nossas sociedades são tragadas pela voragem do atraso que as mantêm presas à desigualdade, à falta de liberdade e à injustiça. Por quê?

No intuito de responder a inquietações que retornaram com força depois do desmanche da “onda progressista”, Fabio Luis Barbosa dos Santos procura, a partir de rica pesquisa de campo e de entrevistas, além de amplo domínio da literatura especializada, sintetizar o que ocorreu nas últimas duas décadas.

Ao analisar as contradições e os dilemas dos governos progressistas, o autor mostra que, apesar das particularidades de cada país, há características comuns: os presidentes não romperam com o legado macroeconômico das ditaduras; com pequenos piparotes na desigualdade, fortaleceram o capitalismo, deixando de cumprir promessas de integração social substantiva; levados ao poder pela insatisfação do campo popular com as políticas de ajuste neoliberais, canalizaram a revolta para demandas institucionais de pequeno resultado; e, por fim, se aproveitaram da acumulação por espoliação, surfando no consenso das commodities sem atentar para a predação socioambiental daí decorrente.

Em suma, enfraqueceram o campo popular e incrementaram a inserção subordinada e passiva de seus países no mercado mundial, em nome de uma política de esquerda. É fácil entender que a volta da direita ao poder não é um raio em céu azul.

Fabio Luis conclui que a derrocada da onda progressista atesta mais uma vez que, dado o caráter antinacional, antipopular, antidemocrático e predatório das classes dominantes no continente, a única alternativa civilizatória para a América Latina é o socialismo. Não por acaso, o último país analisado neste livro é Cuba. Seus dilemas são os dilemas do socialismo hoje.

Ao mapear o debate público aberto em 2016 sobre os rumos da revolução, o autor mostra sem preconceitos nem idealizações os problemas enfrentados pela ilha, isolada no oceano do capitalismo global, assim como os limites da Revolução Cubana.

Das reflexões de Fabio resta uma advertência: a alternativa civilizatória para Nossa América, que vá além do canto de sereia do consumo, está num projeto socialista humanista fundado em valores como igualdade, liberdade e participação popular, combinando direitos universais com relações mercantis disciplinadas por um Estado soberano.

Mas é sabido que mesmo uma proposta reformista tão modesta continua tabu absoluto para os donos do poder. Só resta concluir com Fabio Luis que, diante da contrarrevolução permanente, reforma é revolução.

O guri da terceira idade

Por Antonio Lino
Fotografia Araquém Alcântara

 

 

Como aconteceu durante os sete anos em que trabalharam juntos na Venezuela, dr. Jorge Chaves e dra. Yudaimi Vera voltam a deixar o Buick Oldsmobile vermelho e branco, ano 55, estacionado em Cuba. O dobermann de estimação também não veio. Como consolo, o casal de médicos adotou um tigre de pelúcia, enorme, que descansa deitado sobre as patas, ocupando os dois lugares do sofá da sala.

Na cozinha, a dona da casa prepara o congrí, uma espécie de baião-de-dois caribenho, acrescido de bacon na mistura de arroz com feijão preto. E enquanto não sai o jantar, na varanda do apartamento, admirando a vista do quarto andar, brindo uma cerveja com o dr. Jorge. Lá fora, desde a tarde, o município de São Gabriel, no interior do Rio Grande do Sul, segue tomando uma boa ducha fria.

Persistente, a chuva do domingo deságua na terça-feira. No bairro Élbio Vargas, por volta das oito da manhã, a faxineira empunha um rodo contra as poças cheias à entrada do posto de saúde. Pontualmente, os médicos cubanos chegam para começar o expediente.

Passando ao largo da plaqueta amarela, aberta como advertência sobre o piso molhado, dr. Jorge e dra. Yudaimi cumprimentam a moça da limpeza, desejam bom dia às recepcionistas, se misturam à roda animada dos agentes comunitários de saúde, trocam gracejos afetuosos com as enfermeiras, e assim seguem juntos pelo corredor, distribuindo cordialidades aqui e ali, até que se despedem com uma bitoca, entram em seus respectivos consultórios, porta-a-porta um com o outro, e tomam assento para receber os pacientes… que não vêm.

À espera da estiagem, muita gente faltou aos agendamentos ou aguentou o mal-estar em casa. A meteorologia operou o inusitado: médicos aguardando sua vez de atender. Dra. Yudaimi, que em média realiza entre dez e quinze consultas antes do almoço, aproveita o recesso incomum para despachar um formulário deitado desde ontem sobre sua mesa.

Dedos floridos seguram a Bic: como ornamento, sobre as unhas azuis da doutora, a manicure pintou margaridas minúsculas. Os cabelos pretos, lisos, escorrem até os ombros, emoldurando o rosto maquiado naturalmente por um tom moreno. O batom rosa claro destaca seus lábios finos: sem exagero, as cores da vaidade não chegam a macular a austeridade branca do jaleco.

Eu é que atrapalho a concentração da médica, debruçada sobre o relatório clínico. Apontando os talonários empilhados ao seu lado, pergunto-lhe sobre a burocracia brasileira.

– Estou acostumada. Na verdade, em Cuba a gente preenche mais papel que aqui. Os prontuários lá são grossos assim, tem registro até do nascimento do paciente. Aqui, tem gente abrindo ficha só agora, já com idade.

É o caso de Amadeu Brabos. Aproveitando que o dilúvio amansou à condição de garoa, o senhor de 70 anos (“e quatro meses”), um “guri da terceira idade”, segundo o próprio, chega ao posto de saúde procurando o dr. Jorge. A anamnese é rápida. Amadeu havia se consultado na véspera. O retorno é só para trocar o curativo.

– Bah, de ontem pra hoje melhorou setenta por cento. Voltei até a mexer os dedos do pé, olha só.

Ao lado da maca, dr. Jorge observa a enfermeira desenrolar as bandagens usadas em volta do tornozelo esquerdo do garçom aposentado, que nos anos 1970 trabalhava de fraque e luvas brancas, com uma mão equilibrando a bandeja de prata e a outra nas costas, “estilo diplomata”, servindo nacos de faisão à elite carioca, em banquetes de gala no Iate Clube.

No Hotel Luxor, Amadeu aprendeu idiomas para melhor atender os hóspedes estrangeiros. Tendo viajado “o Brasil inteiro”, o gaúcho grisalho e conversador, natural de Rosário do Sul, admite que já foi “muito agitado”, mas garante que não fuma nem bebe mais:

– Depois de velho, tomei tenência no corpo.

É quando a enfermeira termina de desmanchar o curativo. No mesmo instante, dou um passo involuntário para trás, desvio o olhar. E, pela primeira vez desde que nos conhecemos, vejo uma expressão de contrariedade se instalar no semblante invariavelmente bonachão do dr. Jorge. O motivo é o tornozelo de Seu Amadeu, quase todo rodeado pelas carnes expostas de uma ferida profunda.

Para reter a atenção do paciente inquieto, o médico cubano dirige um olhar firme para dentro dos óculos de Seu Amadeu, e repete as prescrições da véspera como uma indisfarçada reprimenda, reforçando a importância da renovação periódica das gazes, da disciplina em relação à dieta, da obediência ao repouso absoluto e da correta administração dos medicamentos, para que a circulação periférica ganhe fluência, a úlcera perca sua voracidade atual e, se Deus quiser, para que as veias grossas e rígidas que afloram na panturrilha direita não estourem em nova ferida, passando a lhe carcomer também a outra perna.

Seu Amadeu agradece os cuidados teatralizando uma mesura subserviente, evocada como galhofa de seus tempos de garçom. Então, ao saber da minha profissão de escriba, reforça o ar solene, e faz votos de que, como o arcanjo mensageiro, patrono municipal, eu também remeta ao mundo as boas novas que vim buscar em São Gabriel.

Em seguida, baixa a perna direita da calça esportiva, de tactel preto, escondendo o curativo novo. Abre o guarda-chuva. E sai mancando de volta à rua.

*

Dirceu Santos impermeabilizava o fundo do bote quando o piche quente respingou no seu pé descalço. A pele borbulhou. E durante quase um mês, a queimadura resistiu a cicatrizar. Diante daquela ferida teimosa pegando (literalmente) no pé do paciente, o dr. Yunior Carralero Perez aventou uma suspeita, e pediu os devidos exames para confirmá-la. Dias depois, de dentro do envelope do laboratório, sai a sentença vitalícia:

– Dirceu, você é diabético.

O diagnóstico não parece preocupar muito o areeiro de 62 anos que, durante a semana, se mete na água com uma pá nas mãos, e enche seu bote com o fundo do rio Vacacaí, matéria-prima boa para reboco e tijolo. Dirceu já convive em casa com a doença, que também adoça o sangue de Luiza Marlene, sua esposa. No sofá da sala, decorada com porta-retratos dos guris e emblemas que dividem a família entre o Inter e o Grêmio, o casal combina o novo regulamento da rotina doméstica. Além de reduzir o estoque de farináceos na despensa, Luiza pretende colar uma tabelinha na porta da geladeira, para evitar confusão e não perder a conta dos dois comprimidos diários de metformina 850mg, dose que, a partir de agora, cabe tanto a ela quanto ao marido:

– Você toma o seu que eu tomo o meu.

Dando sequência à dupla consulta domiciliar, dr. Yunior lê na contraluz a chapa mais recente da dona da casa. O quadro inspira cuidados: uma bronquite se infiltra outra vez nos pulmões defumados de Luiza, que segue tentando abandonar o vício que a consome desde os 14 anos.

– Hoje, quando dá vontade, quando vem aquela loucura, eu bebo um copo d’água.

Dirceu, por sua vez, recebe uma prescrição de exames e remédios paliativos para as dores lombares: um peso antigo do ofício, que o areeiro vai suportando por conta própria, a base de analgésicos, já que precisa completar mais três anos de trabalho para, enfim, descansar as costas na aposentadoria. Em seguida, o médico cubano se despede, formal. E sem demorar como a enfermeira e o agente de saúde no rame-rame da saída, chega primeiro ao carro que levará a equipe para a próxima visita.

Além da camisa cinza abotoada até o pescoço, dr. Yunior traja uma feição geralmente fechada, que à primeira vista me pareceu até alguma antipatia. A aparente sisudez, no entanto, é só a fachada de um profissional reservado e lacônico, difícil de entrevistar. No posto de saúde, por exemplo, são as enfermeiras que mais me contam sobre o trabalho do médico, exaltando seu caráter sempre prestativo, e revelando que ele chega até a pagar voluntariamente o táxi do próprio bolso, quando decide visitar algum paciente aos finais de semana. Sentado, espreitando a conversa por detrás das lentes dos óculos, o médico cubano se manifesta apenas para minimizar os casos e diluir o verniz de virtude com que as moças lhe pintam. O recato sobressai à sua personalidade. E fica ainda mais gritante, por contraste, quando confrontado com o jeito brincalhão de Dona Otacília:

– Pode entrar, gente! Vem que tem chazinho pra todo mundo.

Assim, de cara, pelas primeiras impressões do encontro, não dá para perceber. Aos poucos, no entanto, a senhora bem-humorada, prestes a completar 77 anos (“No dia 02 vou matar uma galinha”) vai deixando entrever os sinais da tristeza, que explica sua cabeça quase nua. Uma isquemia rapou os cabelos de Dona Otacília (“Tinha os cabelos por aqui assim, passava a mão caia tudo no chão”). Restou-lhe apenas uma penugem grisalha e um chumaço no cocuruto, que ela prende com uma fivelinha vermelha para não arrepiar (“Levanta um galho aqui pra cima, parece um garnisé”). A perda capilar, aparente, reflete outra, mais profunda: a morte recente do marido.

– Me deu um nó.

Valter era técnico de laboratório do Departamento Nacional de Estradas e Rodagens. O companheiro de Dona Otacília media, em porções de caçamba, cada um dos ingredientes necessários para a adequada composição do asfalto. A família cresceu pelos caminhos que o pai pavimentava: dos quatro filhos do casal, dois rapazes nasceram em Canoas, a guria em Porto Alegre e o caçula em Santa Maria. Ao se aposentar, Valter encostou em São Gabriel, às margens da BR-290, numa casa de madeira, ao lado de outras idênticas, situadas na vila DNER, bairro construído pela empresa aos seus funcionários. Há um mês, Dona Otacília vive sozinha sob o teto que o casal compartilhou por 40 anos. Penso em Lobo Antunes: “Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar…”.

Apontando um retrato enquadrado na parede, que mostra o marido ao lado de um fusca azul marinho (“Era um homem grande, nunca se queixou de nada”), Dona Otacília conta que, nos últimos tempos, Valter vinha acusando dores abdominais. Os médicos do plano de saúde creditaram o incômodo a sequelas do Parkinson, mal que o combalia há cinco anos. Ao conhecer o caso, dr. Yunior decidiu averiguar melhor. Mas já era tarde: feroz, e aparentemente incubado nos rins, o câncer logo se espalhou para o fígado, o estômago e, uma semana depois, corrompeu todo o intestino do marido de Dona Otacília. Desde então, uma vez por semana, o médico cubano vem à vila DNER conferir a saúde da viúva.

– Aqui o doutor sempre demora. Que é uma chorumela de doença.

Além da isquemia que lhe custou os cabelos, da pressão arterial exaltada e das dores nas mãos e nos joelhos, Dona Otacília tombou de seu alto-astral costumeiro, e precisou dos comprimidos de amitriptilina para se levantar da depressão. Após três semanas de tratamento, no entanto, a septuagenária começa a dar provas de que seu ânimo já recupera o vigor de sempre. Natural de Livramento, neta de dois uruguaios e uma argentina que não entendia português, Otacília logo aprendeu a falar e escrever em espanhol (“No colégio trocava o ipeloj, era aquela borração”). Enquanto dr. Yunior lhe apalpa as articulações, cumprindo os exames de praxe, a paciente bilíngue aproveita a oportunidade para desengavetar o castelhano. E também para cutucar a timidez do doutor:

– No queria puxar la barra, mas ele tá acertando comigo. Buenomédico, mui buenomédico. E no precisa avermelharse!

Depois de se divertir pelo rubor que conseguiu instalar nas bochechas do cubano, Dona Otacília prossegue:

– Estoyprocurando me arrumar, dentro de losconformes. Que é pra mim chispar lamula.

Às voltas com a papelada obituária do marido, a viúva aguarda apenas os derradeiros carimbos para viajar. O primogênito sugeriu sua mudança para Porto Alegre, de modo que a mãe não ficasse sozinha naquela casa engrandecida pela ausência do pai. Mas Dona Otacília só topou passar uma temporada com a filha em São Paulo. Só uma temporada, ela frisa:

– Meu canto é aqui.

Ao final da visita, dr. Yunior lhe deseja boa viagem, caso a ida a São Paulo se confirme mesmo na semana seguinte, antes da próxima consulta. Então, os dois se despedem. Ela o acompanha até a porta. E quando o visitante já está a meio caminho do portão da rua, a anfitriã ergue a voz para chamá-lo:

– Dotor,dotor, me esqueci una cosa… quanto laconsulta?

Sem dizer nada, dr. Yunior lhe dá as costas, escondendo o sorriso tímido. E retoma o passo apressado em direção à saída, enquanto Dona Otacília, com ar maroto, acena de longe:

– É o único que falou em dinheiro ele sai correndo.

*

Desde que dr. Jorge e dra. Yudaimi ajudaram a regular sua tireoide e a içaram da depressão, Carmen Ferraz passa quase todos os dias no posto de saúde, só para deixar uma térmica de café e uns pedaços de bolo, como regalo aos seus “amigos estrangeiros”:

– Eles cuidam de mim, eu cuido deles.

Além dos mimos calóricos de Carmen, responsáveis diretos pelo sobrepeso de seis quilos que dra. Yudaimi incorporou desde sua chegada ao Brasil, os médicos cubanos contam também com a generosidade espontânea de outros pacientes. Hoje, por exemplo, ao final do expediente, o casal leva para casa um pote de doce de abóbora, uma banda de queijo meia cura, um brinco com pingentes dourados e uma capa de almofada tricotada. Entre dar e receber, em nossa despedida, acaba que eu é que ganho um presente dos médicos: um chaveiro com as cores da bandeira de Cuba. Entregamos ao acaso um futuro reencontro, indefinido mas desejado. E então pergunto aos dois sobre seus planos, depois que cumprirem este último ano que lhes resta de missão em São Gabriel:

– Queremos muito trabalhar na África. Mas antes, vamos parar por um tempo em Cuba. Já estamos com 39, hermano. Chegou a hora de termos um filho.

Estacionado em frente ao posto de saúde, o motorista da Prefeitura aguarda nossos últimos cumprimentos para conduzir os médicos de volta para casa, no centro da cidade. Dr. Jorge abre a porta de trás para a esposa. E quando se posiciona para sentar no banco da frente, de súbito, se detém mais um instante do lado de fora do carro, erguendo novamente a cabeça: passando pela rua, Seu Amadeu Brabos lança um aceno ao médico. O doutor ergue a mão como resposta. E assim, impávido, sem demonstrar nenhum sinal de constrangimento pelo encontro que o flagra no pulo, descumprindo o repouso que lhe foi prescrito pela manhã, o “guri da terceira idade” logo segue adiante, com o curativo já meio sujo no tornozelo, andando pelo bairro de bicicleta.