Ecofeminismo como política: mulheres que criam outra relação entre humanidade e natureza
A Elefante está lançando Ecofeminismo como política: a natureza, Marx e o pós-moderno, de Ariel Salleh (tradução: Sara Hoff), em pré-venda no nosso site. Aqui na editora, a autora australiana foi coorganizadora de Pluriverso: um dicionário do pós-desenvolvimento, lançado em 2021. Em Ecofeminismo como política, ela impactou a forma de se entender a relação entre gênero e ecologia, de modo a abrir novos caminhos tanto para se pensar o feminismo, quanto para se buscar um ecossocialismo. Reproduzimos abaixo um dos prefácios da edição, escrito por John Clark, escritor, ativista e professor emérito de filosofia na Universidade Loyola.
Prefácio,
por John Clark
Sempre que alguém demonstra curiosidade em relação ao significado de “ecofeminismo”, sugiro este livro sem hesitar. Ele representou um grande avanço teórico quando foi publicado, há duas décadas, e desde então tem sido um ponto de referência constante para mim. Na verdade, foi a inspiração para meu artigo sobre “as lições do ecofeminismo” em Capitalism Nature Socialism, uma revista acadêmica da qual tanto Ariel Salleh quanto eu somos colaboradores há muito tempo (Clark, 2000). Eu, enquanto filósofo dialético e ativista social e ecológico, encontrei em Ecofeminismo como política um guia para o papel integrador do ecofeminismo, e não apenas na ecologia política mas em qualquer política ecológica transformadora — sobretudo no crescente movimento ecossocialista global. Mal consigo resumir as muitas razões pelas quais ele merece atenção cuidadosa.
Devemos estar sempre preparados para o momento em que a política começa a alcançar a visão. Salleh nos auxilia nessa tarefa, mostrando que, nas últimas décadas, uma vasta e nova história de lutas de base globais por justiça social e ecológica está sendo conduzida por trabalhadoras do cuidado — mães e avós, camponesas, povos indígenas. Hoje, vemos avanços significativos nesse processo histórico. Por exemplo, o movimento pelo decrescimento na Europa compreendeu a relevância fundamental da revolução dos cuidados. Em Rojava, vários milhões de pessoas mesclaram princípios ecofeministas de afirmação da vida e tradições locais profundamente arraigadas para orientar suas milícias de mulheres e assembleias comunitárias. Agora, a “interseccionalidade” é um tema importante na esquerda, reverberando a visão dialética de Salleh: diversas formas de opressão condicionam profundamente umas às outras, e sexo e gênero estão sistemicamente interligados a outras formas de dominação e exploração na vida de mulheres no mundo inteiro. Essa perspectiva revela como as atitudes e os valores do patriarcado capitalista impregnam cada aspecto do todo social, dando origem a um Estado patriarcal, a uma ciência patriarcal e, infelizmente, até mesmo a radicalismos patriarcais.
As ecofeministas rejeitam os dualismos hierárquicos que infestam o legado de dominação que chamamos de “História” e o sistema de dominação que denominamos “Civilização”. Este livro destrói tais dualismos, principalmente os dualismos primordiais que colocam a “humanidade acima da natureza” e os “homens acima das mulheres”. Salleh nos desafia a examinar a rígida sensibilidade hierárquica que prevaleceu, culturalmente construída, e a repensar, reperceber e reimaginar, dialeticamente, as relações sociais e ecológicas. Há vinte anos, ela nos convidava a não considerar sexo e gênero como binários rígidos, mas como um continuum, e nos incentivava a abandonar os extremos das ideias instrumentais e romantizadas da natureza. No entanto, ela enfatiza a importância de manter uma concepção radical da “natureza selvagem”, como aquilo que “escapa ao controle”, detona categorias ideológicas essencialistas e manipuladoras e desafia a dominação.
Ecofeminismo como política: a natureza, Marx e o pós-moderno inclui uma crítica incisiva da tendenciosidade patriarcal tanto no pensamento marxista ortodoxo como na maior parte do ativismo ecossocialista. Salleh observa uma contradição entre a dialética autêntica de Marx, que tem implicações radicalmente ecológicas e feministas, e a perpetuação dos tradicionais dualismos ocidentais que distinguem um reino de necessidade, feminino, corporificado e reprodutivo, e um reino de liberdade, masculino, criativo e produtivo. Ela assinala a cegueira de muitos radicais de esquerda em relação ao instrumentalismo masculinista, inerente à preocupação com a produção e o valor de troca, bem como a negligência no que diz respeito ao “valor metabólico” ou intrínseco da natureza. As dez críticas ecofeministas de Salleh à metodologia de Marx continuam a ser um dos melhores resumos dos pontos que devem ser confrontados e superados para que alcancemos um marxismo verdadeiramente ecológico ou uma ecologia socialista.
Este livro fornece uma enorme contribuição para compreender como será esse “materialismo corporificado”. Tal perspectiva, assim como a da maioria dos ativistas do Sul Global, não é apenas feminista mas também “mulherista”, pois expressa o envolvimento das mulheres na “reprodução social”. Ela difere fundamentalmente do feminismo burguês, baseado em direitos abstratos para legitimar a participação das mulheres no sistema neoliberal. Salleh vê o trabalho de cuidado feito por mulheres marginalizadas, agricultoras de subsistência, pescadoras e coletoras como a criação e a prática de uma ontologia e uma epistemologia alternativas nas relações entre humanidade e natureza. O ecofeminismo que emerge de tal prática não é nada “essencialista”, como seus críticos o rotularam, pois está firmemente embasado nas realidades materiais e históricas do trabalho de “uma classe metaindustrial” hábil em enfrentar as exigências da vida cotidiana.
Os teóricos do sistema-mundo começam a reconhecer que o capitalismo depende de uma livre e massiva apropriação da natureza material, incluindo do trabalho das mulheres, tradicionalmente considerado parte da “natureza”. Ao repensar o marxismo Salleh pergunta: como se pode excluir do “proletariado” o suposto sujeito histórico-mundial da revolução, um segmento da humanidade que é responsável por dois terços do trabalho global e, ainda assim, recebe somente 10% da massa salarial mundial? Advém daí a questão perturbadora e absolutamente incontornável de que o imaginário revolucionário constitui uma extensão do imaginário patriarcal predominante. Salleh argumenta que o conceito convencional de classe de vanguarda é demasiado restrito e tão antropocêntrico quanto androcêntrico, e que a sobrevivência da espécie humana exigirá uma política ecocêntrica. Em função disso, a maioria global de mulheres, agricultores de subsistência e povos indígenas representa uma força crítica. A emancipação das relações hierárquicas entre humanidade e natureza é inerente à sua forma metaindustrial de trabalho.
Ao relacionar a mudança global à responsabilidade e à ação pessoais, o ecofeminismo problematiza as prerrogativas masculinas, visto que uma mudança cultural profunda implicará a dissolução da identidade de ego dominadora que se relaciona profundamente à civilização patriarcal e capitalista. As instituições que mantêm o poder hierárquico perpetuam um vício massivo e uma fraude sistêmica. Salleh reforça que, embora esse sistema oprima e cause sofrimento desproporcional às mulheres tanto no Norte como no Sul Global, ele também torna os homens infelizes. E nessa angústia crescente está um dos fatores que os levam à violência contra as mulheres, outras etnias e o mundo natural. O ecofeminismo não é um movimento pela libertação das mulheres apenas, mas de todos os seres humanos e, na verdade, de todos os seres vivos.
Muitos de nós, homens e mulheres, fomos inspirados, já na década de 1970, por grandes pensadoras feministas como Dorothy Dinnerstein e Nancy Chodorow, que dirigiram a atenção à questão do trabalho de cuidado. Muitos de nós sonhávamos em ajudar a criar um mundo renovado e regenerado, no qual o sustento se tornaria onipresente — a própria base de todas as práticas e instituições sociais. Depois, vimos esse sonho ser esmagado por uma onda de reação cultural que ocasionou o ressurgimento de valores capitalistas e estruturas de caráter opressivas. Ecofeminismo como política se apresenta como um farol de esperança que reafirma e efetivamente expande nossa visão política e ética do cuidado. Nos próximos anos, precisaremos mais do que nunca dessa visão transformadora para que nossos filhos e a Terra sitiada sejam salvos.
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Foto: ato pela memória de Berta Cáceres, a quem o livro é dedicado. Berta foi assassinada em Honduras, em 2016, ao liderar sua comunidade contra a hidrelétrica de Agua Zarca.












