Caça às bruxas: desperdício de talento, conhecimento e habilidade de cura

Elefante está lançando Bruxas, parteiras e enfermeiras: uma história de mulheres que curam, livro de Barbara Ehrenreich e Deirdre English, com tradução de Júlia Rabahie. Trata-se de um clássico dos estudos de gênero a partir dos cuidados de saúde, publicado originalmente ainda nos anos 1970. Segue abaixo a segunda parte da introdução à segunda edição, que elas escreveram em 2010:

Introdução à segunda edição: contextualizando

[Primeira parte]

Às vezes, quando consideramos a grande quantidade de pesquisas acadêmicas relevantes que se tornaram disponíveis a partir dos anos 1970, pensamos como seria bom “recomeçar” o projeto (embora seja impossível, já que algumas dessas novas pesquisas foram parcialmente inspiradas em Bruxas, parteiras e enfermeiras). Existe atualmente muita informação sobre a atuação de mulheres como curandeiras, parteiras e “doutoras” nos Estados Unidos recém-independentes e a sua subsequente exclusão da educação médica formal nos séculos XIX e XX. Passou a circular mais e mais conteúdo sobre curandeiras na Europa do início da Era Moderna e sobre seus destinos no contexto da caça às bruxas — o suficiente para ficarmos tentadas a dedicar anos ao que poderia ser um estudo gratificante. Muitos desses trabalhos reforçam e expandem os argumentos que apresentamos em Bruxas, parteiras e enfermeiras, mas alguns deles exigem que façamos algumas atualizações e correções no texto original.

Primeiramente, em relação ao número de mulheres assassinadas como “bruxas”: usamos para o livro as estimativas disponíveis à época — pesquisadores trabalhavam com números na casa do milhão. A contagem desses corpos nunca será exata, mas o historiador John Demos escreve que estudos recentes estimam cifras de cinquenta a cem mil, ressaltando que “essas mulheres foram apenas uma fração de uma quantidade bem maior de suspeitas [de bruxaria]” (Demos, 2008, p. 38).

Em segundo lugar, devemos esclarecer o papel da profissão médica europeia em relação à Igreja e ao Estado. Os julgamentos de bruxas representaram uma cooperação extraordinária — e, às vezes, conflitante — entre as instituições dominantes, incluindo as profissões médicas e jurídicas, então extremamente dependentes da aprovação de autoridades superiores. Foi a profissão médica que forneceu aos tribunais os depoimentos “especializados”: por exemplo, Paulus Zacchias, médico pessoal de dois papas do século XVII, escreveu um tratado de sete volumes intitulado Quaestiones medico-legales [Questões médico-legais] para demonstrar de que forma o “conhecimento médico pode informar as Leis Canônicas em temas como […] as causas da morte fetal, os tipos de loucura, envenenamento, impotência, o falseamento de doenças, torturas [e] bruxaria” (Wear, 1995, p. 237).

Médicos se beneficiaram da repressão a essa “concorrência”: nas cidades europeias onde eles se reuniam, trabalhavam em meio a um mercado ocupado por curandeiras e cuidadores “práticos”. Em Londres, em 1600, havia cinquenta médicos afiliados ao College of Physicians [Faculdade de médicos] — um reduto da medicina galênica—, desbancados em número por cerca de 250 práticos não diplomados (sem contar os cirurgiões, boticários, parteiras e enfermeiras) que ganhavam a vida com o trabalho de cura (Wear, 1995, p. 233). Em 1581, o College of Physicians, que reivindicava o direito de regularizar a prática médica em Londres, tentou proibir uma curandeira chamada Margaret Kennix de trabalhar — mas a rainha Elizabeth interveio, declarando que “deve ser concedido sem alarde à pobre mulher executar e ministrar a cura de doenças e feridas, por meio de certos preparados herbais, prática na qual Deus parece ter-lhe dado um conhecimento especial, em benefício dos menos afortunados” (Wear, 1995, p. 236). Essa proteção para uns poucos sortudos não duraria após a morte da monarca, em 1602.

Reafirmamos aqui que, nessa época, os homens médicos eram mais perigosos e menos efetivos que as curandeiras. Francis Bacon (1561-1626), ele próprio um cientista, pensava que “práticos e anciãs” eram “muitas vezes mais felizes nas suas curas que os médicos estudados”. O filósofo conservador Thomas Hobbes (1588-1679) concluiu que preferia “receber o conselho ou a recomendação de uma anciã experiente, que esteve ao lado de muitos doentes, a se consultar com um instruído mas inexperiente médico” (Thomas, 1971, p. 14).

Em terceiro lugar, supusemos à época da primeira publicação do livreto que as chamadas “bruxas” talvez se conhecessem em covens [reunião de bruxas] ou em outros grupos organizados, e nos referimos a Margaret Murray quando escrevemos que “alguns estudiosos especulam que esses encontros tenham sido ocasiões para a idolatria religiosa pagã”. A pesquisa de Murray, desde então, perdeu atualidade, e hoje grande parte dos pesquisadores parece concordar que as crenças das mulheres que foram executadas como bruxas não podem ser diferenciadas das crenças do resto da população, e que a maioria delas era declaradamente cristã. Algumas religiões pagãs, ou seitas remanescentes dessas religiões, sobreviveram em alguns lugares, mas a conexão entre esse fato e as mulheres acusadas de bruxaria ainda é incerta.

Outro ponto que merece ser revisitado se refere às guerras religiosas que formavam o contexto da caça às bruxas. Escrevemos: “Os métodos das bruxas-curandeiras eram uma ameaça tão grande (à Igreja católica e protestante) quanto seus resultados, já que a bruxa era uma empirista”. Não podemos abordar devidamente aqui toda a complexidade dos conflitos da Reforma e da Contrarreforma — assim como não pude-mos fazê-lo em um curto livreto —, mas deve ser lembrado o fato de que, enquanto protestantes lutavam contra a Igreja católica romana, também torturavam e executavam bruxas.

Se afirmamos a importância de retificar esses pontos, por outro lado nos parece que alguns estudiosos foram muito longe em outra direção, chegando a desacreditar Bruxas, parteiras e enfermeiras. Por exemplo, em 1990, nosso trabalho foi descrito como “pioneiro” por um pesquisador de Oxford, David Harley — mas não num sentido positivo (Harley, 1990,p. 1-26). Mesmo concordando que as bruxas eram frequentemente identificadas como curandeiras, Harley nos criticou com base em uma pesquisa sobre as condenações na Inglaterra, na Escócia e na Nova Inglaterra (informações que não estavam disponíveis quando escrevemos o livro), dizendo que exageramos na proporção de parteiras entre as condenadas por bruxaria, caluniamos as mulheres que exerciam esse ofício e criamos “uma multidão de mártires imaginárias para o movimento moderno de saúde da mulher”. Outros, como a historiadora da arte Jane Davidson, da Universidade de Nevada, ecoaram as conclusões de Harley sem adicionar novos dados ao argumento, e passaram a se referir, de forma ainda menos plausível, ao “mito da perseguição das bruxas-curandeiras” (Davidson, 2008, p. 257).

É verdade que a única fonte primária ao nosso alcance à época era o manual de caça às bruxas do século XV, o Malleus Maleficarum [ou O martelo das feiticeiras], que proclamava que “não há quem mais malefícios causem à Fé Católica do que as parteiras” (Institoris & Sprenger, 2006 [2015]). Mesmo hoje, com todos os dados de arquivo disponíveis, é impossível para os pesquisadores fornecer generalizações estatísticas consistentes sobre a ocupação das mulheres acusadas de bruxaria: em geral, a profissão da condenada não era registrada.

Ainda assim, quando partimos para a análise, a associação entre bruxas e parteiras feita pelos caçadores de bruxas na Europa é inescapável. Baseando-se em pesquisa arquivística sobre a Alemanha, Lyndal Roper documenta vários exemplos. Em 1590, na cidade de Nördlingin, a parteira Barbara Lierheimer se manifestou raivosamente, dizendo que seu algoz havia “arruinado seu meio de sobrevivência afirmando que ela era uma bruxa” (Roper, 2004,p. 33). Logo ela seria presa e, depois de muitas negações e confissões contraditórias, torturada até a morte. Sobre Würzburg, em 1627, Roper nos conta que uma “parteira astuta” foi listada entre os condenados, e que o escrivão adicionou um comentário em sua condenação: “Todo o negócio vem dela” (Roper, 2004, p. 70). Ainda no século XVII, mas muitos anos depois, em Augsburgo, Roper descobriu que o pastor da Igreja da Santa Cruz não tinha “escrúpulos em dizer que a parteira local era uma bruxa, e que ele se recusava categoricamente a batizar qualquer criança que ela trouxesse ao altar” (Roper, 2004, p. 187).

Independentemente do número de parteiras condenadas, poucos historiadores contestariam a prevalência de curandeiras entre as acusadas de bruxaria. De acordo com Brian P. Levack, “estudos sobre os testemunhos de bruxaria na Suíça, Áustria, Schleswig-Holstein, Inglaterra, Escócia e Nova Inglaterra revelam que muitas daquelas que foram processadas por bruxaria eram na verdade mulheres sábias” (Levack, 1995, p. 127). Levack afirma que era a proeminência como “cozinheiras, curandeiras e parteiras” que tornava as mulheres em geral “vulneráveis às acusações de que estavam praticando magia nociva” ( Levack, 1995, p. 146).

“Magia nociva”, contudo, não era o único tipo de acusação: como apontamos no livro, a prática de cura ou a “magia branca” era em si um sinal de identificação dos seguidores de satã. William Perkins (1558-1602), pastor e teólogo protestante inglês, foi um dos clérigos que introduziu na Inglaterra e na Nova Inglaterra ideias sobre bruxaria vindas da Europa continental. Ele pregava que, além das “bruxas más”, havia as “bruxas boas”, que apenas curavam as “dores” infligidas pelas “bruxas más”, explicando: “ Das duas, o mais horrível e detestável monstro é a bruxa boa […], que é mais conhecida que a má, sendo comumente chamada de mulher sábia (ou de homem sábio). Isso pode ser observado na maioria dos lugares deste país” (Perkins, 2004, p. 94-6).

Na Nova Inglaterra colonial, território que não estudamos em Bruxas, parteiras e enfermeiras, pesquisas recentes revelaram muitos detalhes sobre a relação entre a perseguição de curandeiras e bruxas. Segundo David D. Hall, as curandeiras na Nova Inglaterra, no século XVII, eram “especialmente vulneráveis” a acusações de bruxaria. O curandeirismo era considerado suspeito porque não “se baseava na confissão do pecado” ao clero e porque ainda considerava que as doenças eram causadas por Deus ou pelo diabo (Hall, 1991, p. 5). Em The Enemy Within [O inimigo interior], John Demos descreve o perfil típico de mulheres julgadas por bruxaria na Nova Inglaterra, afirmando que talvez um quarto — ou um terço — do grupo suspeito era conhecido por

produzir e administrar “remédios ” especiais, oferecer formas específicas de cuidado, ou atuar de maneira mais ou menos regular como parteiras. Algumas eram especificamente descritas como “doutoras” […]. A ligação subjacente aqui é bastante óbvia: a habilidade de curar e a habilidade de fazer mal parecem intimamente relacionadas. (Demos, 2008, p. 43).

Demos especula sobre o efeito que as perseguições causavam na população: “Claramente, o caminho mais sábio a ser seguido no início da vida comunitária moderna — em especial para as mulheres — era se misturar à massa e não parecer muito assertiva ou determinada. Ser ou se comportar de outra maneira significava estar sujeita à suspeita de bruxaria” (Demos, 2008, p. 119).

Olhando para trás, depois de tantos anos, vemos que a caça às bruxas não se resume apenas às crenças bizarras que a inspiraram e às tragédias pessoais que dela resultaram, e que representou também um absoluto desperdício de talento e conhecimento. Para além das mulheres torturadas e executadas, o conjunto das vítimas se estende a todas as pessoas que, como consequência dessa perseguição, foram privadas das habilidades de cura das “bruxas” assassinadas e de seus conhecimentos sobre o parto. Numa época que agora associamos à Renascença europeia e aos primeiros sinais de revolução científica, a caça às bruxas foi um passo em direção à ignorância e ao desamparo, não apenas para os membros das classes menos favorecidas, que perderam tantas de suas tradicionais curandeiras, mas para toda a população.

O que poderia ter sido motivo de orgulho para as mulheres — como ocupação e campo para a vívida inve-tigação intelectual — foi descreditado, se não completamente obliterado. Depois, quando membros da elite ilustrada procuraram recuperar parte do conhecimento perdido sobre o mundo natural, tiveram de se voltar a vestígios bastante marginais da antiga tradição de cura. Ao escrever sobre o grande botânico inglês Joseph Banks, que viveu em meados do século XVIII, Richard Holmes disse que seu interesse em botânica

proporcionou o contato com um povo que normalmente seria invisível a um garoto privilegiado de Eton, como ele: as mulheres sábias das alamedas rurais e cercas vivas, as herbanárias ciganas que coletavam ervas curativas ou medicinais […]. Eram uma tribo estranha mas sábia, a quem logo ele aprendeu a tratar com respeito. (Holmes, 2008, p. 7).

A supressão das “bruxas” e a eliminação posterior e menos violenta das parteiras e aspirantes a médicas nos Estados Unidos não são os únicos exemplos de desperdício intencional de talento, educação e experiência ao longo da história. O progresso intelectual humano continua sua marcha, mas de forma hesitante, com pausas atrozes para o massacre de indivíduos e grupos suspeitos, extirpações coloniais de culturas indígenas e retrocesso à ignorância imposta pela religião. Às vezes, uma importante tarefa para os progressistas é recuperar, ou ao menos pontuar, aquilo que foi perdido — mesmo que, à primeira vista, isso possa ser encarado como algo “conservador”.

Estamos muito orgulhosas do papel que este livro desempenhou nas reivindicações das mulheres sobre as funções de cuidados e de cura no final do século XX, junto ao movimento de mulheres e de saúde da mulher do qual se originou. Este texto ajudou a inspirar mulheres jovens a ir para a faculdade de medicina, a recriar a profissão de parteira nos Estados Unidos, a alavancar o status da profissão de enfermeira. Às novas leitoras e leitores, sublinhamos, entretanto, que nossa preocupação se estendia à equidade de classe e raça tanto quanto à de gênero. Comparado ao que confrontamos na década de 1970, o sistema de saúde estadunidense hoje é composto de muito mais mulheres, tanto nas funções práticas quanto na tomada de decisões, mas também é mais obstinadamente dirigido pela lógica do lucro. Temos esperança de que uma reforma coloque um freio à tendência assassina de excluir do sistema de saúde aqueles que mais precisam de cuidado, embora problemas básicos de acesso, inclusive financeiro, continuem a existir. Temos um árduo trabalho pela frente.

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Imagem: Ilustração de Charles Dana Gibson, c. 1900.

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