Hamnet, a cura e a bruxa
Por Paulo Silva Junior
O primeiro plano de Hamnet (Chloé Zhao, 2025) começa com a câmera apontando para copas de árvores. Ela então desce até o chão, onde encontra a protagonista, Agnes, deitada confortavelmente em seu ambiente de animais, folhas, terra, raízes. Um falcão pousa em seu braço e passeia com ela num convívio familiar. Tudo ali é leve, harmônico, caseiro. Quando um homem surge em cena (é Shakespeare, ainda sem o nome apresentado), ele é um professor; seus alunos são todos meninos. Logo no início do filme, estão lá o mundo na natureza, o mundo das ideias e o corte de gênero.
Estamos na Inglaterra de 1500 e pouco, e aqui chegamos ao encontro dessa rotina da personagem do filme com o que vai estruturar duas reflexões importantes partindo dum ponto de vista feminino: em Calibã e a bruxa: mulheres, corpos e acumulação primitiva, Silvia Federici detalha essa vida rural inglesa, para mostrar como essas mulheres foram atravessando e enfrentando o próprio dilema do capitalismo; em Bruxas, parteiras e enfermeiras: uma história de mulheres que curam, Barbara Ehrenreich & Deirdre English colocam a lupa no cuidado e na saúde — curandeiras como Agnes foram sendo suprimidas pelo que passou a ser entendido como medicina.
Vale reforçar que Hamnet é derivado de um romance escrito por Maggie O’Farrell. O livro é um relato ficcional do filho de William Shakespeare e Anne Hathaway (também grafada como Agnes), que morreu aos 11 anos. Ele trata do luto do casal e conecta a morte da criança à escrita de Hamlet, conhecida obra do escritor, influenciada (pelo menos nessa hipótese) pela história pessoal da partida repentina do garoto. É uma mistura de fatos conhecidos da vida do dramaturgo com certa organização de mitos em torno daquele tempo. De toda forma, a esposa do escritor famoso está lá como uma especialista no uso de plantas para fins medicinais, a fitoterapia.
Isso chamou a atenção de interessados no tema. A página Planta e Ciência, de Leonardo Barratto, listou muito do que aparece no longa, por exemplo: “Uma das plantas é a Artemísia. No filme, Agnes a trata como a ‘mais velha das plantas’. Na tradição antiga, ela era usada para proteção em viagens, mas, para Agnes, ela é a erva da visão. Ela a utiliza para acessar sua intuição e tentar prever o destino de sua família”. Sobre a mesma planta, a jornalista Helem Pomposelli ouviu em sua coluna a especialista Palmira Margarida. “É a erva da bruxa não à toa. Ela é a ponta, a reconexão entre mulheres e o seu estado mais interior e visceral. É a mulher que caminha pela mata, segura de si, dona do próprio território, capaz de proteger a si mesma e às outras”.
Outros dois textos que tratam da personagem e de suas representações é o de Enio Vieira, na revista Bula — “Agnes é apresentada como alguém ligada ao campo, ao pastoreio, ao falcão que a acompanha, conhecedora de ervas e da natureza. Esse comportamento é o passo seguinte para uma mulher daquele período ser chamada de bruxa”. E também essa crítica de Isabel Wittmann, no site Feito por Elas, que comenta, entre outras coisas, essa relação de Agnes com a natureza.
Os livros
Calibã e a bruxa se tornou um clássico feminista anticapitalista investigando como o aprimoramento do sistema passou diretamente por um rebaixamento das mulheres (entre outras coisas, como a escravização, a exploração de povos originários etc). Silvia Federici abre um clarão no debate sobre as esposas, mães e filhas destinadas ao cuidado doméstico e subjugadas pela vida do trabalho. E então junta essas duas questões históricas: a caça às bruxas com a afirmação do capitalismo.
Dentro desse caminho de opressão, um dos focos do patriarcado foi exatamente controlar a divisão das atividades, e o que o livro demonstra é como confinar as mulheres à reprodução foi algo central na acumulação do proletariado moderno. Por consequência isso passa por praticamente todos os aspectos da vida, tanto que em Caças às bruxas e capital Federici vai mostrar como a violência de gênero é também parte da estrutura do neoliberalismo. Dentro desse ciclo repetitivo, há um grande impacto na área da saúde, claro.
“Entretanto, uma curandeira mais típica foi Gostanza, uma mulher julgada por bruxaria em 1594 em San Miniato, uma pequena cidade da Toscana. Depois de ficar viúva, Gostanza havia se estabelecido como curandeira profissional, logo tornando-se bem conhecida na região pelos seus remédios terapêuticos e exorcismos. Morava com sua sobrinha e duas mulheres mais velhas, também viúvas. Uma vizinha, que também era viúva, fornecia-lhe especiarias para os medicamentos. Recebia os clientes em casa, mas também viajava quando necessário, a fim de ‘marca’ um animal, visitar um enfermo, ajudar as pessoas a se vingar ou se liberar dos efeitos de encantamentos médicos (Cardini, 1989, p.51-8). Suas ferramentas eram óleos naturais e pós, bem como artefatos aptos a curar e proteger por ‘simpatia’ ou ‘contato’. Não lhe interessava inspirar medo à comunidade, já que a prática dessas artes era sua forma de ganhar a vida. Ela era, de fato, muito popular, todos a procuravam para serem curados, para que lhes lesse o futuro, para encontrar objetos perdidos ou para comprar poções de amor. Mesmo assim, ela não escapou da perseguição. Depois do Concílio de Trento (1545–1563), a Contrarreforma adotou uma postura dura contra as curandeiras populares, temendo seus poderes e suas profundas raízes na cultura de suas comunidades. Na Inglaterra, o destino das ‘bruxas boas’ também foi selado quando, em 1604, um estatuto aprovado por Jaime I estabeleceu a pena de morte para qualquer pessoa que usasse os espíritos e a magia, ainda que não fossem causadores de danos visíveis” (Silvia Federici em Calibã e a bruxa).
Bruxas, parteiras e enfermeiras surge exatamente disso: “As mulheres sempre exerceram atividades de cura. Elas foram as médicas não licenciadas e anatomistas da história ocidental. Foram aborcionistas, enfermeiras e conselheiras. Foram farmacêuticas, cultivando ervas medicinais e trocando informações sobre seus usos. Foram parteiras que circulavam de casa em casa, de povoado em povoado. Por séculos, as mulheres foram médicas sem diploma. Banidas dos livros e das aulas, aprendiam umas com as outras, transmitindo sua experiência de vizinha para vizinha, de mãe para filha. Eram chamadas de ‘mulheres sábias’ pelo povo, e de ‘bruxas’ e ‘charlatãs’ pelas autoridades. A medicina é parte da nossa herança como mulheres: nossa história, nosso direito, nosso patrimônio” (da introdução do livro).
Acontece que as autoras, Barbara e Deirdre, se deparam ali nos anos 1970 com um dado alarmante, ainda que claro e nada surpreendente: 93% das pessoas exercendo a medicina nos Estados Unidos eram homens. Ou seja, não bastasse a perseguição às bruxas lá atrás, a nossa vida contemporânea escolheu tratar de nossa saúde renegando toda uma história de conhecimento e experiência de séculos, deixando as mulheres apenas como “operárias em uma indústria na qual os chefes são homens” e “acessórios que ocupam espaços de trabalho sem rosto”.
E nesse caminho até aqui, onde a profissionalização da classe médica nada mais é que uma organização do monopólio dos homens como dominadores do conhecimento, elas voltam também aos casos da Idade Média, levantando um ponto interessante: não pesavam contra essas mulheres apenas assassinatos, envenenamentos, crimes sexuais e conspirações; elas também eram acusadas de cuidar e curar. Diz um texto daquele tempo, na Inglaterra, trazido no livro, que “seria mil vezes melhor para a terra que todas as bruxas, mas sobretudo as bruxas que abençoam, sofressem a morte”.
A cerimônia do Oscar acontece em 15 de março, e Jessie Buckley é a favorita a levar o prêmio de melhor atriz pelo papel de Agnes Hathaway, cujo verbete no wikipedia é acompanhado dos parênteses esposa de Shakespeare, para não ser confundida com a artista homônima. Quem sabe a estatueta não a faça ser lembrada como bruxa.
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Mais textos sobre o lançamento Bruxas, parteiras e enfermeiras:
– As mulheres sempre foram médicas (para além dos livros de medicina)
– Caça às bruxas: desperdício de talento, conhecimento e habilidade de cura












