O sexo do capitalismo: novos feminismos de classe média
A Elefante está lançando O sexo do capitalismo: teorias feministas e a metamorfose pós-moderna do patriarcado, de Roswitha Scholz (tradução: Boaventura Antunes). Já publicamos aqui no blog trechos dos dois prefácios da edição, aqui e aqui. Agora, segue uma parte do posfácio, intitulado ‘Towards a big theory. But not in a usual way! Notas sobre gênero, queer, neofeminismo, crise fundamental e o atual renascimento de Marx na perspectiva da crítica do valor-dissociação’. Depois da introdução e de tratar dos termos queer e gênero, a autora chega nessa parte reproduzida abaixo:
Novos feminismos de classe média: sobre as “meninas alfa” e as torpedeadas “top girls”
Queer, gênero e diversidade, que recentemente foram estruturalmente ligados, na perspectiva interseccional, a “raça”, classe, idade, deficiência etc., são os termos básicos de um discurso feminista que já não se conhece a si mesmo, dada a sua multiplicação e o seu desgaste. No meio do “efeito elevador” (Ulrich Beck) da economia e do Estado social, da pluralização dos estilos de vida e dos mundos da vida, tendo como pano de fundo as supostas seguranças fordistas e keynesianas que também trouxeram relativa prosperidade às classes mais baixas, uma mulher de certo modo já não queria saber mais nada de si mesma e praticamente desfrutava da autodissolução do feminismo na “diversidade”, entendida também como a diversificação da biografia, sob a forma da sua própria mistura biográfica como mãe e mulher com profissão. Sempre esteve inerente a isso um elemento de concorrência que se afirma (afirmava) precisamente na retração e que hoje ainda culmina na crise, visível na tendência às chamadas meninas alfa (ver também os meus comentários adicionais sobre Nancy Fraser adiante).
O discurso da classe F e das meninas alfa é desdenhosamente chamado de “orientação de classe média” no feminismo e na literatura de gênero atuais, sendo considerado não pertencente. No entanto, ele é a consequência lógica de um feminismo que coloca lado a lado as diferenças como aparentemente inofensivas e aceitáveis. Mas isso acontece de fato em relações de concorrência. Consequentemente, essa orientação resulta em um interesse particular não refletido, especialmente entre as mais jovens (ver, por exemplo, Dorn, 2007; Haaf, Klingner & Streidl, 2008; Stöcker, 2007). As meninas foram longe demais! Essa é a opinião de muitas antepassadas desconstrutivistas, que agora também já estão em idade bem mais avançada. No entanto, o novo feminismo das meninas alfa e companhia fala diretamente, por assim dizer, do que tem sido escondido, mas mantido presente de modo latente e agressivo, que até agora existia nos velhos feminismos apenas de maneira negada e abafada (ver Scholz, 2000, p. 153 ss.).
O novo feminismo de classe média tem um duplo caráter: por um lado, não quer mais saber nada de um feminismo “fundamentalista”, mesmo nas suas já desgastadas variantes da diversidade. Por outro, porém, quer insistir em si mesmo, à maneira bastante neoliberal e individualista da concorrência, e inscrever nesse sentido a questão da mulher ou do gênero na sua bandeira. Em termos teóricos e de prática política, isso se aplica até a programas de feminismo marxista e de social-democracia de esquerda, mesmo que ser mulher como tal signifique ser “pau para toda obra” com dupla jornada coadministradora de crise e mulher dos escombros. As exigências da classe média para o cuidado com os filhos em instituições públicas, que estão de acordo com a política de Ursula von der Leyen, ex-ministra da Família, são entendidas por Rosemary Crompton como emancipatórias e voltadas ao futuro da sociedade em seu conjunto (ver em mais detalhes minha crítica a Rosemary Crompton em Scholz, 2008, p. 85-6).
Não é por acaso que uma orientação queer ou de gênero tem correspondido a um feminismo pós-moderno da terceira onda desde os anos 1990, assim chamado após uma primeira onda no século XIX e no início do século XX; uma segunda onda em sentido mais estrito desde 1968, na qual a opressão feminina foi denunciada à maneira da nova esquerda; e agora uma terceira onda pós-moderna. Esta onda se move em uma zona cinzenta de perspectivas de interseccionalidade, de um neoliberalismo maquiado de feminista e de um conexo culturalismo pop feminista de esquerda à la“Missy” [“queridinha”] surgido a partir dos anos 1990 até os “terrenos pantanosos” e, não por último, a afirmações também implicitamente orientadas para a concorrência de meninas alfa (Wichterich, 2009, p. 219ss.). Quem ainda é capaz de distinguir entre esses momentos confusos? Aqui, porém, uma nova abordagem feminista de esquerda promete orientação: a análise crítica de Angela McRobbie sobre as “Top Girls”, de acordo com seu novo livro com o subtítulo “Feminismo e a ascensão do regime neoliberal de gênero”. Ela constata:
Às mulheres jovens, em vez do que uma política feminista modernizada poderia lhes oferecer, é sugerida uma espécie de igualdade retórica, que encontra expressão concreta nas oportunidades de educação e de emprego, nas oportunidades de participação na cultura de consumo e na sociedade civil. (McRobbie, 2010, p. 18)
McRobbie é autocrítica: antes ancorada nos cultural studies e no discurso da cultura pop, ela própria tinha apostado no New Labour [novo trabalhismo], até se dar conta de que aqui tanto o velho feminismo das bruxas como, na mesma medida, a política queer (mas também as anteriores políticas antirracistas e multiculturais) teriam sido incorporados ao capitalismo e simultaneamente tornados incapazes.
De acordo com McRobbie, a “mascarada” introduzida por Butler na esteira de Rivière, que na verdade contém uma potencial contradição, foi assim política e midiaticamente apropriada, tornando-se inofensiva. Assim, afirma ela,
em vista da possível ruptura da estável binaridade de gênero e da ameaça que isso representa para a autoridade patriarcal, o simbólico [entendido como a “lei do pai” lacaniana] segue a estratégia de delegar uma parte não desprezível do seu poder ao complexo da moda e da beleza, do qual, como “grande luminosidade”, a mascarada pós-moderna emerge como uma nova dominância cultural. Essa estratégia central contraria a ameaça representada pelos trabalhos de Butler sobre a ficcionalidade, a artificialidade e a existência performativa do gênero na vida cotidiana, e volta a pôr essa abordagem no seu lugar. Ela permite um distanciamento da insuportável proximidade da feminilidade […] e realiza um legítimo, irônico e pseudofeminista casting da feminilidade como excesso, de modo que sua ficcionalidade é agora abertamente reconhecida. Aqui fica claro quão adaptada e rapidamente o simbólico pode reagir quando manda de volta ao seu domínio precisamente delineado modos de ação e desenvolvimentos que tentam romper a posição subordinada do feminino […]. A mascarada reconhece abertamente o status fictício do feminino, até o celebra, mas ao mesmo tempo desenvolve novas estratégias para impor a diferença de gênero. (McRobbie,2010, p. 99-100)
Ainda que os processos econômicos e as tendências sociais de individualização sejam considerados por McRobbie parcialmente responsáveis por tais desenvolvimentos, parece-me um tanto presunçoso entender a adoção de estratégias pós-feministas pela mídia como uma reação aos escritos de Butler. É muito mais provável que Butler, com seus trabalhos, tenha dado à “mascarada pós-moderna” um brilho feminista radical, e por isso mesmo tenha estado na linha de inclinação de um capitalismo neoliberal pós-moderno, do qual a sua política travesti era apenas a música de acompanhamento.
Aqui McRobbie naturalmente assume que o “velho” feminismo e a orientação queer têm uma ampla intersecção comum. Mas quando ela formula, como tese principal em seu novo livro, que existe uma conexão íntima da mídia e do neoliberalismo com as tendências pós-feministas, isso não é nada de novo. Foi precisamente essa crítica que foi trazida a campo pelas antigas feministas e pelas lésbicas contra o queer nos anos 1990. Na Alemanha, por exemplo, isso foi feito por autoras da revista Ihrsinn, que também publicaram vários artigos na Beiträge zur Feministen Theorie und Praxis [Contribuições para a teoria e práxis feminista]; ambas as revistas foram, desde então, descontinuadas (ver, por exemplo, Laps, 1993; Janz, Steffens & Kosche, 994; Baier & Soine, 1997; Soine, 1999; ver também Selders, 2003).
McRobbie exige agora uma nova articulação delimitadora em relação aos abafamentos pós-modernos, como se o desconstrutivismo butlerista não tivesse contribuído muito para isso e tampouco apoiado o contexto de classe média pós-moderna incriminado por McRobbie. Em vez disso, ela quer passar a batata quente para o New Labour e seus ideólogos Beck, Beck-Gernsheim, Giddens e Lash:
Novas possibilidades de ação estão se abrindo para o sujeito individual (também feminino): as mulheres estão entre as beneficiárias da segunda modernidade. Essa forma de análise sociológica desafia diretamente as abordagens marxista e neomarxista, que foram moldadas pelo materialismo histórico e pelo pensamento dialético e tiveram uma influência considerável na sociologia e nos estudos culturais — e, portanto, também no ponto de vista central de que as transformações sociais são um produto da contradição entre capital e trabalho. A afirmação de Beck, Beck-Gernsheim e Giddens de que mais liberdades foram conquistadas e de que as mulheres têm hoje mais possibilidades de ação e de escolha não têm em conta um fato crucial: as hierarquias de gênero não só persistem, mas também continuam a ser reproduzidas, embora agora de forma mais sutil. (McRobbie,2010, p. 77-8)
Como se as críticas feministas às ideias pós-modernas e desconstrutivistas não tivessem sido feitas há muito tempo, e como se nunca tivesse ocorrido uma “controvérsia sobre a diferença” (Benhabibet al.,1993), em que a argumentação de Butler girava em torno da defesa da “desarticulação” (tudo é produto do discurso e a violência emana dele), enquanto Seyla Benhabib, “antiga feminista”, tentava desesperadamente afirmar contra Butler, nessa época, precisamente a articulação com que McRobbie se preocupa agora, como uma suposta nova descoberta ou redescoberta (Benhabib, 1993), independentemente do pequeno detalhe de que o pós-estruturalismo surgiu na França precisamente em oposição ao marxismo tradicional, o que não pode ser aprofundado aqui (ver, por exemplo, Kurz, 2007, especialmente p. 72 ss.).
É assim que uma pessoa se preserva nos novos tempos, quando o queer, o gênero e o outrora muito na moda feminismo cultural em geral estão perdendo a esperança, na esteira das tendências gerais da crise. Butler tem de ser reformulada em conformidade, como se tivesse tido algo a ver com as tendências correspondentes, mesmo que tangencialmente. Agora torna-se necessária uma reformulação da desconstrução. Ela surge em um novo contexto narrativo, como se nunca tivesse condescendido em rir da crítica social radical, situação em que a desconstrução era colocada “soberanamente” apenas “ao lado” do capitalismo, mas não contra ele. Consequentemente, as meninas alfa são transformadas nas incriminadas “Top Girls”, de certa maneira de acordo com o lema “com Butler para além de Butler”, analogamente à fórmula “com Marx para além de Marx”, que é usada hoje na crítica da economia política, não só no sentido de um desenvolvimento mais crítico mas também como uma regressão afirmativa.
Em relação ao livro de McRobbie, talvez até se possa dizer: pequenas heroínas desesperadas da desconstrução da classe média em aflição — e tanto mais quanto mais a falência pós-feminista é sutil e detalhadamente documentada, e em parte brilhantemente analisada por McRobbie, mesmo no nível midiático-cultural-simbólico. Desse modo, porém, todo o livro da autora clama por esclarecimento, por meio de uma reflexão crítica sobre o princípio da forma do valor-dissociação, que não só tenta conceitualizar o contexto patriarcal global da relação capitalista em termos econômicos materialistas mas também quer olhar para as novas disparidades sociais no entrelaçamento com as formas de pensamento patriarcal capitalista e as formações ideológicas nelas baseadas; e isso para além das nostálgicas ilusões (pós-)fordistas, que consideram a mudança social possível apenas dentro do capitalismo e continuam a formular apenas a oposição imanente de “capital e trabalho” no sentido antigo.











