Corpos que sofrem

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Corpos que sofrem:
como lidar com os efeitos psicossociais da violência?

Organização: Maria Luiza Galle Lopedote et al.
Capa & projeto gráfico: Denise Matsumoto
Prefácio: Dario de Negreiros
Edição: Tadeu Breda
Direção de arte: Bianca Oliveira
Preparação: Paula Carvalho
Revisão: Laura Massunari
Lançamento: março 2019
Páginas: 392
ISBN: 978-85-93115-23-3
Dimensões: 15,5 x 23 cm

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Categoria

Descrição

No Brasil, ao psicanalista que se queira ético não bastam a boa compreensão teórica e a competência técnica necessárias para, da poltrona de seu consultório, conduzir o trabalho analítico sem perder de vista o direcionamento clínico e o horizonte normativo que lhe subjazem – e não que isso seja pouco. Ocorre que os seus consultórios são cercados por cinquenta milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, um a cada quatro de seus compatriotas, bem como pelo recorde mundial de mortes violentas.

Ao latifúndio da carnificina nossa de cada dia, resguardem-se as amplas dimensões da parte que cabe à truculência de Estado: a taxa de letalidade policial brasileira não só é espantosamente maior do que as europeias ou estadunidenses, mas chega a superar até mesmo as registradas nos países mais violentos do globo. Imaginar um brasileiro acreditando poder encontrar as chaves de compreensão deste cenário no trabalho exegético dos textos clássicos da bibliografia europeia seria cômico, caso esta espécie de intelectual ensimesmado não fosse mais uma personagem comum na composição de elenco da tragédia nacional.

Os textos deste livro, o leitor verá, em nada lembram a verborragia típica desta figura picaresca. Todos os autores aqui reunidos fizeram parte, de algum modo, dos trabalhos realizados pelo Centro de Estudos em Reparação Psíquica de Santa Catarina (Cerp-SC); em sua maioria, foram palestrantes do curso “Como lidar com os efeitos psicossociais da violência?”.

Durante três semestres, ao longo dos anos de 2016 e 2017, 25 profissionais de diferentes estados do Brasil foram convidados a trazer suas vivências às salas de aula da Escola de Saúde Pública de Santa Catarina e aos anfiteatros da Universidade Federal de Santa Catarina. E, ao lado dos alunos do curso – mais de uma centena de profissionais que, em suas diferentes áreas, vivem o desafio de prestar cuidado a vítimas de graves violações de direitos –, tomaram parte neste longo processo de construção conjunta de conhecimento.

Os que passaram por essas salas de aula sabem bem que as providências a serem tomadas por um profissional de saúde mental na periferia do capitalismo incluem debruçar-se com seriedade sobre os impasses de nossos esforços de democratização – tais como, mas não só, os golpes de Estado de 1964 e 2016 –, os obstáculos ao bom funcionamento dos sistemas públicos de saúde e assistência social, a violência perpetrada pela polícia e pelas facções criminosas, a brutalidade inominável de nossos presídios, o racismo estrutural e os privilégios da branquitude, a atenção ao louco infrator, à população LGBT, aos usuários de drogas, à população de rua, a imigrantes e refugiados, aos familiares de desaparecidos, a crianças socialmente vulneráveis, dentre outras tantas questões.

— Dario de Negreiros