Descrição
Compreender o ecofeminismo como política, e não como identidade, contribui para visibilizar e desessencializar as lutas camponesas, quilombolas, indígenas, ribeirinhas e das comunidades afetadas pela expansão do capitalismo e do patriarcado nos territórios do Sul Global. Trata-se de uma política contrária à morte, à exploração e à acumulação. No centro estão as práticas de cuidado, que assumem caráter revolucionário ao produzir epistemologias situadas, além de alternativas concretas, capazes de defender a vida em sentido amplo. As reflexões de Ariel Salleh rompem com a linearidade evolutiva darwiniana e marxista, questionam a dicotomia homem/natureza e desmontam os binarismos coloniais que sustentam a modernidade ocidental. Um livro essencial para fortalecer as resistências populares que, hoje, se mostram mais necessárias que nunca.
***
Ao enfrentarem a crise ecológica, as ecofeministas do mundo todo se tornaram agentes da história/natureza. Dão voz a uma política subversiva, consciente de sua própria situação e transicionalidade. Em termos epistemológicos, eu diria que o ecofeminismo expressa um materialismo corporificado. Seu primeiro passo é interrogar a convenção eurocêntrica que posiciona o Homem acima da Mulher e da Natureza. Este livro transmite a concretude ou o essencialismo deslocados dessa hegemonia através da fórmula ironicamente positivista Homem/Mulher = Natureza (H/M = N). Desvendando as identidades contraditórias e os abusos intoleráveis incorporados nessa ideologia, espero mostrar como o socialismo, a ecologia, o feminismo e a luta pós- colonial podem ser fundamentados, unificados e fortalecidos por uma dialética ecofeminista de relações internas.
— Ariel Salleh, no Prefácio à primeira edição
***
No início, a tradição judaico-cristã imaginou a vida na Terra como uma Grande Cadeia do Ser. Ela era composta de uma hierarquia de dominação: no topo, os homens brancos — e seu Deus —, depois mulheres brancas, homens negros, mulheres negras, crianças, espécies animais, plantas, ar, água e rochas. O capitalismo e a revolução burguesa na Inglaterra concederam direitos soberanos aos homens de classe média, mas, depois disso, a tradição pluralista do liberalismo ficou estagnada. Até agora, o socialismo não conseguiu entregar um pedaço justo do bolo aos homens da classe trabalhadora. O feminismo, as lutas pós-coloniais e a ecologia, por sua vez, desafiam a “hierarquia natural” do privilégio. Nessa estrutura de condescendência, porém, cada elo da cadeia de desapropriação disputa com os outros, como irmãos ansiosos e pouco amados. Assim, às vezes, o negro e o verde — ou o vermelho e o violeta — travam uma batalha por reconhecimento político, defendendo sua posição no discurso da soberania e dos direitos. A estratégia de dividir para conquistar apenas reforça o controle do mestre.
Atualmente, por meio da bioprospecção, a colonização corporativa enfraquece o acordo paterno e suas proteções domésticas. A ciência dos homens brancos anula a semântica da autodeterminação de povos indígenas e mulheres. Quando sangue, suor e lágrimas são extraídos e vendidos, há um campo árido para a igualdade salarial, o direito contratual e a propriedade da terra. A maioria dos ativistas ambientais, das ecofeministas e dos povos indígenas da Austrália concorda que a grande cultura da Europa está doente do ponto de vista espiritual e é econômica e ambientalmente insustentável. A natureza selvagem em doses moderadas — geralmente aos domingos — tem sido um bálsamo para o mal-estar do Ocidente, mas, assim como a sexualidade, precisa ser contida. Os rostos flácidos e desfocados dos engravatados dizem tudo. Se a natureza selvagem revela, de fato, a crise de uma civilização falida, devemos, então, continuar trabalhando naquele ponto de menor resistência. As políticas verde, negra e ecofeminista vão se beneficiar ao apoiar a luta do movimento dos homens para abandonar a terrível posição usual do patriarcado capitalista.
Não desafiamos a monocultura dos selvagens corporativos através da negação da “diferença” e da “natureza selvagem”. Tachar a especificidade indígena de “primitivização” é aceitar a mentalidade evolucionista do século XIX, com sua escala de “progresso”, em vez de respeitar a diversidade dos modos de vida humanos. É evitar os “negócios das mulheres” em favor dos negócios dos homens brancos. O simples fato de um povo indígena não estabelecer uma cisão entre Cultura e Natureza não significa que ele esteja mais próximo da Natureza no sentido eurocêntrico, “inferior”. Isso também se aplica às mulheres na ideologia do patriarcado capitalista. As culturas indígenas oferecem modelos racionais da percepção dessa ligação pelos povos ao longo de sua história. Não é nostalgia romântica nem afirmação perversa postular que as práticas ambientais indígenas são “melhores” do que as práticas científicas “modernas”. Todas as culturas cometem erros. Também não se pretende sugerir que os povos indígenas deveriam, necessariamente, viver como seus antepassados — embora alguns possam fazê-lo e alguns brancos desejem o mesmo. Todas as culturas crescem e mudam.
Em tempos como estes, quando o estilo de vida de alguns causa devastação ecológica e pobreza para muitos, é urgente reavaliar as alternativas econômicas à industrialização, reformular nossos princípios políticos e começar a dar pequenos passos diários para nos afastarmos do folclore da autoaversão e de seus lamentáveis dispositivos. Conceitos como “gestão” e “controle”, crenças paternalistas de que as tecnologias ocidentais são essenciais para uma vida boa — essas são as formas mais traiçoeiras de invasão. Afinal, o que é a civilização moderna senão um demorado e custoso processo para desmantelar coisas vivas e transformá-las em matéria morta? A única coisa que aumenta com o “crescimento econômico” é o desperdício. Há, portanto, um holocausto entre nós: rios represados se tornam ácidos, e solos ressecados se abrem; os continentes se enchem de refugiados ambientais; vírus criados pelo homem são disseminados; silenciosamente, o buraco na camada de ozônio e a radiação eletromagnética matam novas vítimas de câncer; vazamentos de petróleo sufocam a vida marinha, e o derretimento das geleiras ameaça os povos insulares. Você também fechará os olhos para esses crimes do modelo linear de desenvolvimento exportado pelo Ocidente iluminista?
— Ariel Salleh, no Epílogo
***
Enquanto filósofo dialético e ativista social e ecológico, encontrei em Ecofeminismo como política um guia para o papel integrador do ecofeminismo, e não apenas na ecologia política mas em qualquer política ecológica transformadora — sobretudo no crescente movimento ecossocialista global. […] nas últimas décadas, uma vasta e nova história de lutas de base globais por justiça social e ecológica está sendo conduzida por trabalhadoras do cuidado — mães e avós, camponesas, povos indígenas. Hoje, vemos avanços significativos nesse processo histórico. Por exemplo, o movimento pelo decrescimento na Europa compreendeu a relevância fundamental da revolução dos cuidados. Em Rojava, vários milhões de pessoas mesclaram princípios ecofeministas de afirmação da vida e tradições locais profundamente arraigadas para orientar suas milícias de mulheres e assembleias comunitárias. Agora, a “interseccionalidade” é um tema importante na esquerda, reverberando a visão dialética de Salleh: diversas formas de opressão condicionam profundamente umas às outras, e sexo e gênero estão sistemicamente interligados a outras formas de dominação e exploração na vida de mulheres no mundo inteiro. Essa perspectiva revela como as atitudes e os valores do patriarcado capitalista impregnam cada aspecto do todo social, dando origem a um Estado patriarcal, a uma ciência patriarcal e, infelizmente, até mesmo a radicalismos patriarcais.
— John Clark, no Prefácio
***
Vinte anos após o lançamento, esta edição de aniversário de Ecofeminismo como política, de Ariel Salleh, compreende percepções muito necessárias à mudança de paradigma da globalização patriarcal e capitalista para um mundo de não violência. […] O capitalismo é generificado, racializado e contrário à natureza, tanto nos pressupostos culturais quanto nos instrumentos econômicos. Seu raciocínio antropocêntrico nega a criatividade da natureza e, portanto, os Direitos da Mãe Terra. Ao mesmo tempo, as mulheres, os povos indígenas, os agricultores e os trabalhadores camponeses são considerados menos que humanos. […] Considerando que a pobreza gerada pelas economias de mercado globais enfraquece todas as sociedades, as alternativas locais proporcionadas pelas mulheres, por meio de seus cuidados de proteção à biodiversidade, oferecem soluções reais para a crise alimentar e nutricional. Como aprendi ao longo de 45 anos de ativismo ecológico e pesquisas com mulheres, e em trinta anos de construção do movimento Navdanya — que significa Nove Sementes —, as policulturas domésticas são mais produtivas que as monoculturas. No Sul Global, cultivos familiares baseados no trabalho feminino fornecem a maior parte dos alimentos consumidos no mundo. […] Em busca de soluções reais para problemas reais enfrentados pelo planeta e pelas pessoas, são os conhecimentos subjugados e a coprodução sutil e não violenta com a natureza que indicam o caminho para a sobrevivência humana, a paz e o bem-estar no futuro. Em seu desafio aos ecossocialistas e aos liberais pós-modernos, Ariel Salleh chama isso de “materialismo corporificado”.
— Vandana Shiva, no Prefácio
***
Um livro essencial, que mudou a forma de entender a relação entre gênero e ecologia e que possibilita — hoje mais do que nunca — novos caminhos tanto para o feminismo quanto para o ecossocialismo.
— Stefania Barca
SOBRE A AUTORA
Ariel Salleh nasceu em 1944 em North Adelaide, Austrália. É uma das fundadoras da Global University for Sustainability, professora visitante na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Brasil, e na Universidade Nelson Mandela, África do Sul, e pesquisadora associada em economia política na Universidade de Sydney, Austrália. Lecionou ecologia social na Universidade do Oeste de Sydney e deu palestras em diversas instituições, incluindo Universidade de Nova York, ICS, Manila, Universidade de York, em Toronto, Canadá, e Universidade de Lund, na Suécia. Seu trabalho teórico se baseia na experiência de ativistas em lutas antinucleares, pela captação de água, proteção da biodiversidade e apoio a alternativas comunitárias ecossuficientes para mulheres da Ásia e do Pacífico. Salleh foi cofundadora do Movement Against Uranium Mining na Austrália e do Partido Verde australiano. Atuou também no Comitê de Ética em Tecnologia Genética do governo australiano, no Comitê de Pesquisa para o Meio Ambiente e a Sociedade da Associação Sociológica Internacional e em vários conselhos editoriais de periódicos científicos. É autora de Eco-Sufficiency and Global Justice: Women Write Political Ecology (2009) e de centenas de textos publicados em revistas como Capitalism Nature Socialism, Globalizations, Environmental Ethics, Arena, Journal of World Systems Research, New Left Review, Organization and Environment, Environmental Politics e The Commoner. É também coorganizadora de Pluriverso: um dicionário do pós-desenvolvimento (Elefante, 2021).
















