Crítica do valor, Marx e gênero: o sexo do capitalismo

Elefante está lançando O sexo do capitalismo, de Roswitha Scholz, em tradução de Boaventura Antunes. Trata-se de uma contribuição crítica radical não apenas no que se refere à condição das mulheres, mas, sobretudo, a uma leitura da crise civilizacional da qual somos contemporâneos. Segue abaixo o prefácio à edição alemã (aqui, o prefácio à edição brasileira).

Prefácio à segunda edição alemã

O sexo do capitalismo foi publicado pela primeira vez na primavera de 2000. Foi escrito em um momento em que a teoria de Marx já não tinha muito a dizer nas ciências sociais, após o colapso do bloco do Leste. Particularmente, a questão nelas levantada sobre a ligação entre a análise do capital de Marx e a relação assimétrica de gênero parecia bastante antiquada na época.

A “crítica do valor” havia acabado de ser introduzida como nova abordagem teórica e aparecia apenas marginalmente nos discursos de esquerda, em grande parte ignorando a dimensão de gênero. O debate feminista nessa época era quase inteiramente dominado por teorias desconstrutivistas e abordagens microteóricas. Nos anos 1990, a corrente dominante da teoria feminista transformou-se em debate queer ou de gênero da noite para o dia, não só no mundo acadêmico como também nas correspondentes subculturas de esquerda e nos periódicos das respectivas cenas.

Entretanto, o recurso à teoria de Marx ficou novamente em voga sob a impressão de drásticos processos da crise social e econômica mundial; nesse contexto, foi mais uma vez aberta à discussão a relação entre capitalismo e estrutura hierárquica de gênero. Por isso, não foi surpresa que este livro, há anos esgotado, tenha tido uma procura crescente, que será agora satisfeita com a nova edição. Não fiz nenhuma revisão, ainda que pudesse haver correções neste ou naquele detalhe. Entretanto, em relação à análise do capital de Marx, eu ressaltaria mais a categoria demais-valor que a dimensão de valor “simples”, mas na perspectiva de uma crítica radical da forma, e não no sentido redutor do marxismo tradicional. Na essência, porém, O sexo do capitalismo ainda hoje consegue, na minha opinião, resistir ao escrutínio.

Mais ainda: parece-me que o livro só agora está adquirindo sua real força explosiva, e alguns de seus diagnósticos dos tempos só hoje vêm se tornando totalmente reconhecíveis. A nova edição foi ampliada por um detalhado posfácio intitulado “Towards a Big Theory” [Rumo a uma grande teoria]. Nele, lanço um olhar crítico sobre as tendências recentes do feminismo e da teoria do gênero, à luz da abordagem teórica desenvolvida neste livro. Aos interessados em uma discussão de objeções fulcrais à teoria do valor-dissociação, conforme foram expressas nos dez anos desde que ela apareceu pela primeira vez, indico minha anticrítica no artigo “Não digo nada sem a minha Alltours” (Scholz, 2010).

Já desenvolvi a teoria do valor-dissociação no livro Differenzender Krise — Krise der Differenzen [Diferenças da crise — crise das diferenças] (2005), que trata da tão discutida conexão entre “raça”, classe e gênero na modernidade e na pós-modernidade, hoje conhecida pelo rótulo de “interseccionalidade”. Outras elaborações desde o aparecimento de O sexo do capitalismo podem ser encontradas sobretudo na revista teórica exit!, na qual também relacionei a crítica do valor-dissociação com fenômenos e temas supostamente “outros”.

Naturalmente, pode-se admitir sem problemas que a teoria do valor-dissociação que venho defendendo continua incompleta em muitos aspectos. Ainda é necessário muito esclarecimento e desenvolvimento. Ao mesmo tempo, porém, é preciso recordar a suspeita de Adorno de que a sociedade atual, em sua totalidade fragmentada, possivelmente escapa a uma teoria completamente coerente no sentido tradicional (do meu ponto de vista, andro-centricamente universalista). Minha teoria não pode nem quer de modo algum satisfazer a necessidade, com a qual tenho sido repetidamente confrontada em discussões, de uma exposição assim suficientemente “sem contradições” e com critérios científicos formalmente definitórios, nem a correspondente pretensão. A visão de Adorno está mesmo inscrita no “programa” da teoria do valor-dissociação, como deixei claro neste livro.

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