Anselm Jappe e a crítica do valor: da abolição do trabalho à ideia de vida boa

Anselm Jappe tem dois livros aqui na coleção Crise e Crítica (Concreto, de 2025, e A sociedade autofágica, de 2021), além de co-autoria num terceiro (Capitalismo em quarentena, de 2020). Este artigo publicado pela revista Fórum trata do pensamento do autor em torno da crítica do valor.

Por Raony Salvador
Publicado na Fórum

A crítica radical ao capitalismo ganha novos contornos na obra de Anselm Jappe, um dos principais representantes da corrente da “Crítica do Valor”, que desafia os alicerces da sociedade mercantil, como a valorização do trabalho e da produção de valor.

Em seu livro As Aventuras da Mercadoria, Jappe aprofunda uma visão marxista atualizada, que questiona a relação entre o trabalho e a produção de valor, propondo uma reflexão sobre uma sociedade que transcende o capitalismo.

Jappe, ao lado de Robert Kurz, um dos fundadores do movimento da “Crítica do Valor”, afirma que o trabalho, tal como entendido no contexto capitalista, não é um princípio natural e eterno, mas uma construção histórica. A partir dessa perspectiva, o valor das mercadorias não é determinado pela utilidade ou necessidade, mas pelo trabalho abstrato que elas representam, ou seja, o tempo de trabalho necessário para sua produção.

A teoria crítica do valor, na qual Jappe se baseia, vai além da crítica tradicional ao capitalismo. Ela aponta que o trabalho não é a solução para a emancipação humana, mas parte do problema. Para ele, a sociedade capitalista se baseia na valorização do “trabalho abstrato” e não nas necessidades reais dos indivíduos. A mercadoria se torna o centro da vida social, e o trabalho, como forma de produção, apenas alimenta esse sistema de fetichismo. O verdadeiro desafio, portanto, não é melhorar as condições de trabalho, mas abolir o conceito de trabalho como um valor moral e social.

A “Crítica do Valor”, portanto, questiona o próprio conceito de trabalho. A sociedade capitalista, ao privilegiar o trabalho como sua base, transformou-o em uma estrutura alienante, que se manifesta como trabalho abstrato, sem levar em consideração as necessidades humanas reais. Jappe propõe, então, uma reflexão sobre uma nova sociedade, onde o trabalho não mais domine as relações sociais. Para ele, uma sociedade livre de trabalho não estaria condenada à ociosidade, mas seria capaz de definir o que é necessário para uma “boa vida”, promovendo a dádiva e não a mercadoria. Vejamos como isso acontece.

Alternativas de vida boa

Como vimos, Jappe nos convida a repensar a crítica ao trabalho no contexto da sociedade capitalista. Em vez de simplesmente repudiar o trabalho, como muitas vezes ocorre nas alternativas pós-modernas e autonomistas, ele propõe que se examine a estrutura do trabalho e do valor. A verdadeira emancipação, segundo ele, não está na luta para melhorar as condições do trabalho, mas na superação da própria estrutura que coloca o trabalho como central na vida social.

O pensamento de Jappe, dentro da “Crítica do Valor”, propõe uma mudança de paradigma que vai além da luta de classes tradicional. Ele defende a ideia de uma sociedade sem o trabalho como centro, onde a liberdade e a autonomia humana podem ser alcançadas. Ao invés de apenas criticar os excessos do capitalismo, a “Crítica do Valor” nos chama a repensar a própria estrutura da sociedade, imaginando um futuro onde a relação com o trabalho seja superada.

Em seu artigo “Uma sociedade livre de trabalho não estaria necessariamente condenada a não fazer nada. Ela definiria o que é realmente necessário para uma ‘boa vida’”, Jappe discute o papel do trabalho na sociedade capitalista e como a sua supressão poderia abrir caminho para uma vida mais plena e equilibrada.

Jappe inicia sua análise com uma provocação. No conto dos irmãos Grimm, um grupo de lavradores descreve sua preguiça de maneira grotesca. Eles não fazem esforço nem para pegar o pão, apesar da fome, e, principalmente, não cumprem ordens. Essa exagerada “preguiça” é, na verdade, uma forma de resistência ao trabalho imposto pelos patrões. Jappe observa que o conceito de preguiça, frequentemente demonizado no capitalismo, pode ser visto como uma forma de resistência ao sistema de exploração do trabalho.

Assim, Jappe acredita que uma sociedade sem a imposição do trabalho não estaria condenada ao ócio ou à inatividade. Em vez disso, ele propõe que seria possível redefinir o que significa uma “boa vida” e concentrar esforços em atividades que realmente agreguem valor à existência humana, sem a pressão constante de produzir. O autor sugere que a sociedade moderna, na qual o trabalho é a única fonte de valor, está em crise e o aumento da precarização do trabalho e da “flexibilidade obrigatória” é uma evidência de que estamos caminhando para a superação do trabalho enquanto elemento central da vida social.

A crítica ao progresso

Jappe também questiona a ideia de progresso vinculada ao avanço tecnológico. Em uma sociedade de consumo, o progresso se traduz em mais consumo, sem considerar as consequências sociais e ecológicas. Ele sugere que o futuro da humanidade não está em buscar novas formas de “trabalho” ou de “empregos”, mas em repensar a sociedade de modo que a atividade humana não seja mais medida pela quantidade de trabalho produzido. A renda universal, embora com algumas limitações, seria um passo importante para permitir a todos a liberdade de escolher atividades que não dependam do trabalho capitalista.

A sociedade que Jappe imagina não é uma sociedade sem atividades, mas uma sociedade em que as pessoas possam escolher atividades significativas e satisfatórias sem a imposição do trabalho alienado. Para ele, a verdadeira emancipação viria com a superação do sistema de valor e a criação de uma nova forma de vida social.

Portanto, a crítica de Jappe ao capitalismo é radical, pois ele propõe não apenas a crítica da exploração, mas a transformação da própria estrutura que define a vida social em suas categorias fundamentais. Uma sociedade livre do trabalho seria uma sociedade que, ao invés de se concentrar na produção de mercadorias, buscaria atender às necessidades humanas de forma mais consciente e equilibrada.

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