Capitaloceno: poucos segundos para o fim do mundo
A Elefante está lançando Capitaloceno: uma história radical da crise climática, de Francisco Serratos (tradução de Reginaldo Pujol Filho). Capitaloceno, como o autor diz em determinada altura do livro, é “antes de um conceito, um argumento; mais ainda, é a crônica de uma série de acontecimentos enquadrada por uma narrativa muitíssimo mundana que é a acumulação ilimitada de riquezas através de diversas tecnologias como a guerra, a colonização, a privatização ou a espoliação”. Segue abaixo o primeiro capítulo do livro (aqui, outro trecho publicado anteriormente em nosso blog).
11:59:31 PM
Em nosso afã por historiar o Apocalipse, já criamos várias formas de medir o tempo de vida que nos resta como espécie. Uma dessas invenções foi o Doomsday Clock, criado em 1947 como resultado do medo que o hemisfério ocidental experimentou com a ameaça de uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética. A idealizadora foi Martyl Langsdorf, artista e esposa de um dos cientistas que participaram do Manhattan Project, que buscava desenvolver a primeira bomba atômica. O objetivo de Langsdorf era conscientizar sobre o perigo das novas forças destrutivas no mundo.
Porém, uma vez mitigada a paranoia nuclear, o Doomsday Clock passou a ser utilizado para medir simbolicamente qualquer perigo global que ameace a vida terrestre e a paz mundial, desde conflitos bélicos até desastres como as mudanças climáticas. No momento em que o relógio começou a funcionar, os ponteiros marcavam sete minutos para a meia-noite (ou seja, o fim) e regressaram até os dezessete minutos quando os Estados Unidos e a União Soviética assinaram em 1991 um acordo para reduzir seus arsenais nucleares.
Esses minutos não representam um tempo real, mas eventos históricos que fazem os ponteiros se deslocarem para trás ou para a frente, dependendo da ameaça que representam; quer dizer, o relógio do fim do mundo não mede o tempo, mas os acontecimentos. No total, ele se movimentou 22 vezes desde sua criação. Um dos ápices do relógio, quando esteve a dois minutos da meia-noite, foi quando os Estados Unidos concluíram com êxito seus testes com a bomba de hidrogênio. Depois, em janeiro de 2017, o relógio marcou 2m30s para a meia-noite: era o início da primeira presidência de Donald Trump nos Estados Unidos.
Em 2020, o relógio estava marcando cem segundos para a meia-noite, o ponto mais próximo da catástrofe desde a sua criação. O motivo é a inação dos governos para desacelerar a crise climática. Incrivelmente, com o retorno de Trump à presidência, em 2025, o relógio voltou a avançar aos 89 segundos para a meia-noite, quebrando o recorde anterior. A viagem ao fim da noite está apenas começando.
Foto: UNICEF/Ulet Ifansasti











