O massacre de Gaza, a violência e o caminho do terror
A Elefante está lançando O massacre de Gaza, de Gideon Levy e com tradução de Rafael Domingos Oliveira. O livro está em pré-venda com desconto no nosso site e se junta à Intifada Editorial (são outros seis livros publicados em 2024 e 2025 diante do genocídio na Palestina). São quase 100 textos escritos pelo jornalista israelense ao longo de uma década, abordando questões cotidianas dos palestinos nessa estreita porção territorial sitiada. Segue abaixo um texto da segunda parte do livro.
2022
O único caminho
31 de março
O caminho do terror é o único caminho aberto aos palestinos para lutarem por seu futuro. O caminho do terror é o único meio de lembrarem a Israel, aos Estados árabes e ao mundo que eles existem. Eles não têm outro caminho. Israel lhes ensinou isso. Se não recorrerem à violência, todos os esquecerão.
Não se trata de uma especulação; isso já foi provado na realidade, repetidas vezes. Quando estão em silêncio, o interesse por sua causa evapora e desaparece da agenda de Israel, assim como do restante do mundo.
Veja o que acontece com Gaza entre as rajadas de foguetes. Quem presta atenção? Quem se importa? Todos já querem esquecer a existência dos palestinos. As pessoas estão cansadas de ouvir sobre o sofrimento palestino, e o silêncio torna isso possível.
Só quando tiros são disparados, facas golpeiam e foguetes explodem é que se lembra que há outro povo aqui, com um problema terrível que precisa ser resolvido. A conclusão é dura e aterradora: apenas por meio do terrorismo eles serão lembrados, apenas por meio do terrorismo talvez consigam algo.
Uma coisa é certa: se depuserem as armas, estarão condenados.
Pode-se discutir a legitimidade do terror palestino e sua definição: quem mata mais, quem é mais brutal, Israel ou eles?
Nas últimas semanas, noticiamos aqui os casos de um estudante palestino que saiu para uma caminhada e levou um tiro na cabeça, de um garoto que segurava um coquetel molotov diante de um muro de vinte metros de altura e foi morto com um tiro nas costas, de um palestino que voltava de um treino esportivo quando soldados dispararam 31 balas contra seu carro e de um adolescente que fugia desesperado de policiais de fronteira que dispararam doze tiros contra ele, matando-o. Isso não é também terrorismo? Em que isso difere de Bnei Brak*?
A violência é sempre brutal e imoral: a violência dos terroristas que atiram indiscriminadamente contra civis inocentes e a violência uniformizada e sancionada pelo Estado contra palestinos, inclusive inocentes, como prática rotineira. Os palestinos ficaram relativamente quietos por meses, enquanto sofriam violência, enterravam seus mortos e perdiam suas terras, casas e os últimos resquícios de dignidade. E o que receberam em troca? Um governo israelense que declara que o destino deles não será discutido em um futuro próximo, porque isso não convém à atual composição do governo.
E então veio a cúpula de Sde Boker. Seis ministros estrangeiros dizendo: o seu destino não nos interessa. Há questões mais urgentes e interesses mais importantes. O que eles estavam pensando, reunidos no hotel Kedma? Que tirariam fotos, sorririam, se abraçariam e visitariam o túmulo do fundador de Israel, o comandante que supervisionou a Nakba — “Aqui é onde tudo começou”, como disse Yair Lapid — e os palestinos aplaudiriam? Que os palestinos veriam que estavam sendo deixados sangrando à beira da estrada e ficariam calados? Que talvez se satisfizessem com os doces coloridos que o governo atirou a eles no marco do evento — vinte mil permissões de trabalho para trabalhadores de Gaza? E o outro 1,98 milhão de habitantes que vive sob o bloqueio?
Os ataques terroristas são o castigo; o pecado é a arrogância e a sensação de que nada é tão urgente assim. Israel está em uma situação desconfortável agora. A coalizão é sensível. As coisas nunca foram cômodas para ela. Agora há o Irã e um novo Oriente Médio, livre de palestinos. Não está funcionando. E aparentemente nunca vai funcionar.
Os palestinos não têm outro modo de prová-lo, a não ser atirando nas ruas. Um jovem desconhecido de Yabed que matou civis e um policial fez com que Israel percebesse isso. Do contrário, não teria se dado conta.
É claro que o terrorismo deve ser combatido. Nenhum país pode permitir que sua população viva com medo e em perigo. Cúpulas como a de Sde Boker são, também, um avanço encorajador, e o ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes, xeque Abdullah bin Zayed, é uma pessoa muito impressionante, inteligente e calorosa.
Mas, quando Lapid disse “aqui é onde tudo começou”, bem que poderia estar se referindo ao início de outra onda de ataques terroristas, uma destinada a lembrá-lo, a ele e a seus colegas, de que, mesmo tendo jantado kebab de peixe sobre folha de oliveira, arroz “Ben-Gurion” e pomelo de fim de inverno, a apenas duas horas dali um povo continua sufocando sob a brutal e totalitária ocupação israelense.
*Bnei Brak é uma cidade israelense de maioria ultraortodoxa, próxima a Tel Aviv. Em março de 2022, foi alvo de um ataque armado em que um palestino matou cinco pessoas, incluindo civis e um policial.
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Foto: Casa de família palestina nos escombros em Gaza | Médicos Sem Fronteiras








