Descrição
“O capitalismo não é um sistema econômico, tampouco um sistema social: é uma forma de organizar a natureza. […] Em poucas palavras, humanos criam ambientes, e ambientes criam humanos — e também organizações humanas.” É a partir dessa ideia central que Jason W. Moore constrói as teses que permeiam este livro, apoiado em conceitos como oikeios, as “Quatro Naturezas Baratas” (força de trabalho, comida, energia e matérias-primas), “natureza humana” e “natureza extra-humana”, “humanidade-na-natureza” e “capitalismo-na-natureza”, além de uma exaustiva análise histórica das sucessivas hegemonias holandesa, britânica e estadunidense na economia mundial a partir do século XVI. Publicado originalmente em 2015, com um novo prefácio escrito pelo autor dez anos depois, Capitalismo na teia da vida é um clássico incontornável do pensamento ecológico radical.
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As perspectivas para a humanidade no século XXI não são das mais felizes. Logo de saída, nosso futuro pode ser descrito em dois níveis de abstração. O primeiro é o da humanidade-na-natureza. Ao longo da última década, a interação dos humanos com o resto da natureza atingiu o ponto “em que mudanças ambientais globais abruptas não podem mais ser descartadas”. O segundo é o do capitalismo-na-natureza. A crise do capitalismo neoliberal que se desdobra — desta vez em meio à crise sinalizadora de 2008 e à deflagração imprevisível, mas inevitável, de uma crise terminal — sugere que talvez possamos ver algo muito diferente do padrão com que estamos familiarizados. Segundo esse padrão, novas tecnologias e organizações de poder e de produção emergem após grandes crises sistêmicas, e as crises anteriores seriam encerradas graças à mobilização da natureza de formas novas e poderosas. A revolução neoliberal após os anos 1970 é apenas o exemplo mais recente. Hoje, contudo, é cada vez mais difícil fazer com que a natureza — na qual se inclui a natureza humana — produza suas “amostras grátis” a preço de custo. Esse fenômeno indica que podemos estar vivendo não uma mera transição de uma fase do capitalismo para outra, mas algo mais epocal: o colapso das estratégias e relações que vêm sustentando a acumulação de capital ao longo dos últimos cinco séculos. Capitalismo na teia da vida trata de como o mosaico de relações a que denominamos de “capitalismo” atravessa a natureza; e como a natureza atravessa essa zona mais limitada, a do capitalismo. Esse movimento dúplice — do capitalismo através da natureza, da natureza através do capitalismo — é o que chamo de “dupla internalidade”. […]
Capitalismo na teia da vida se baseia nas contribuições inovadoras daquilo que chamarei de Pensamento Verde (uma generalização imprudente, mas necessária). O Pensamento Verde, tal como concebido em linhas gerais, é aquela tradição diversificada nas humanidades e nas ciências sociais que se preocupa com as mudanças ambientais do passado e do presente. Ele se vale de alguns elementos das ciências físicas, sobretudo aqueles relacionados a estudiosos dedicados à mudança planetária. Este livro põe em evidência três dos atributos definidores do Pensamento Verde: a reunião da humanidade em um agente unificado; a redução das relações de mercado, de produção, políticas e culturais a relações “sociais”; e a conceitualização da Natureza como algo independente dos humanos, mesmo diante de evidências que sugiram o contrário. […]
Capitalismo na teia da vida começa por dar um nome a essa relação de criação da vida: oikeios. A partir dessa relação — que é tanto uma orientação metodológica quanto uma afirmação ontológica —, podemos ver uma multiplicidade de configurações de espécie-ambiente surgir, evoluir e, por fim, passar a ser algo completamente diferente. Em nosso argumento, ecologia, natureza e todos os tipos de frases congêneres derivam do oikeios. Para sermos bem claros, o oikeios é uma relação que inclui os humanos e por meio da qual as organizações humanas evoluem, sofrem adaptações e se transformam. As organizações humanas são, ao mesmo tempo, produtos e produtoras do oikeios: é a configuração cambiante dessa relação que merece nossa atenção. Nesse sentido, entendo “capital” e “capitalismo” como produtores e produtos do oikeios. O capitalismo como ecologia-mundo é, portanto, não uma ecologia mundial, mas uma história padronizada de poder, capital e natureza unidos de forma dialética.
— Jason W. Moore, na Introdução
SOBRE O AUTOR
Jason W. Moore é historiador ambiental e economista político filiado ao Departamento de Sociologia da Universidade Binghamton, no estado de Nova York, Estados Unidos. Também coordena a Rede de Pesquisa em Ecologia-Mundo (World-Ecology Research Network). Pela Elefante, já publicou Antropoceno ou Capitaloceno? Natureza, história e a crise do capitalismo (2022), lançado originalmente em 2016.















