Discurso filosófico da acumulação primitiva

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Discurso filosófico da acumulação primitiva:
estudo sobre as origens do pensamento moderno
Autor: Pedro Rocha de Oliveira
Edição: Tadeu Breda
Assistência de edição: Luiza Brandino
Preparação: Mariana Zanini
Revisão: Laila Guilherme
Capa & direção de arte: Bianca Oliveira
Diagramação: Denise Matsumoto
Lançamento: maio de 2024
Páginas: 504
Dimensões: 13,5 x 21 cm
ISBN: 9786560080072

Descrição

Ao estudar o Renascimento inglês, Pedro Rocha de Oliveira escancarou um fato extremamente atual: o de que a modernidade — que se confunde com o capitalismo, a acumulação primitiva e o progresso — é uma engrenagem que obrigatoriamente precisa de uma população periférica, externa ou interna, que é descartável, isto é, matável. O “populacho” está fora do acordo oligárquico que define uma democracia — que pertence aos experts, aos proprietários, os quais detêm o monopólio da racionalidade. Todas as nações do mundo fizeram isso, desde o início: Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Itália etc. O Brasil também, claro, desde sempre, porque esse é o regime da Colônia, ou seja, o conjunto da população matável administrada de fora por uma metrópole. Depois, a metrópole é interiorizada, com os mesmos objetivos. Por isso é que até hoje se mata nos campos e nas periferias deste país, impunemente. Eis o denominador comum de todas as elites brasileiras, sejam de esquerda ou de direita: todas são progressistas, pois o progresso é isso. E quem não se adequa a essa realidade é considerado “obscurantista”, “medieval”, “atrasado”, “pré-moderno” etc. Para as pessoas que recebem essas alcunhas, o mundo “superior” do saber, da ciência, da administração pública não diz nada. O Estado é sempre visto como um inimigo do povo. O capitalismo, o progresso, a modernidade podem ser resumidos como uma guerra civil dos cidadãos contra os não cidadãos. A modernidade é o pressuposto de que existe um lado superior (civilização, progresso, racionalidade, administração pública, crítica da superstição), e um inferior, que são os não cidadãos, descartáveis, matáveis. O preço do progresso é o sacrifício de pobres, negros, índios, camponeses, mulheres etc.

— Paulo Arantes

 

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Pode parecer, à primeira vista, que o que pensaram e fizeram alguns influentes intelectuais ingleses do século XVI nada tem a ver com a realidade brasileira, hoje. Mas essa suspeita se desfaz logo nas primeiras páginas de Discurso filosófico da acumulação primitiva, em que Pedro Rocha de Oliveira demonstra a imensa atualidade das ideias desenvolvidas, naquele então, no país que inventou o capitalismo — e, claro, de sua aplicação prática, pela força, ao resto do mundo. Para isso, o autor mergulha na obra dos três principais pensadores do Renascimento inglês: Francis Bacon (1561-1626), considerado o inventor do método científico; Thomas More (1478-1535), criador do termo “utopia” e tornado santo pela Igreja; e Thomas Smith (1513-1577), quem primeiro cunhou o termo “civil society”.

Mas Pedro Rocha de Oliveira não se limita aos escritos dos pais fundadores da modernidade: aborda também a trajetória biográfica de cada um e revela o contexto político, econômico e social em que viveram. E é por isso que este livro é relevante para além dos círculos acadêmicos de especialistas: ao juntar as dimensões filosóficas, sociológicas e históricas que circundaram o universo de Bacon, More e Smith, o autor escapa às armadilhas em que, antes dele, caíram outros estudiosos, cujo entusiasmo pelas ideias revolucionárias desses pensadores fez com que ignorassem — ou omitissem — aspectos no mínimo constrangedores de suas vidas.

Como se estivesse voltando no tempo com o slogan “o pessoal é político” debaixo do braço, Pedro Rocha de Oliveira faz questão de lembrar que Francis Bacon supervisionava torturas, que Thomas More tinha um pelourinho no quintal de casa e que Thomas Smith era um entusiasta da submissão do povo irlandês. Todos eram favoráveis à expansão colonial inglesa e abominavam qualquer ideia de igualdade. Longe de tomar tais fatos como mera anedota, desvios de percurso de homens presos aos valores de seu tempo, o autor argumenta exaustivamente no sentido de sinalizar a imensa coerência entre a vida e a obra desses filósofos tão festejados pelo brilhantismo com que idealizaram um mundo novo.

Este aprofundado estudo é acompanhado de um posfácio em que Pedro Rocha de Oliveira mobiliza suas conclusões sobre as origens da modernidade para interpretar a ascensão da chamada “nova direita” no Brasil, pontuando as diferenças que guarda em relação aos partidos e movimentos políticos tradicionais, conservadores ou progressistas, todos herdeiros e perpetuadores das principais ideologias excludentes que acompanham a instauração do capitalismo. Assim, a leitura de Discurso filosófico da acumulação primitiva amplia a compreensão da profunda crise que vivemos, descartando a efetividade de qualquer proposta de mudança que não passe por um rompimento total e definitivo com as prerrogativas da modernidade ainda tão em voga da esquerda à direita do espectro político.

 

SOBRE O AUTOR

Pedro Rocha de Oliveira é carioca, professor do ensino público federal, psicanalista, e pós-doutor em filosofia. Tentando dar uma voz mais ou menos organizada à sensação de colapso onipresente na experiência contemporânea, estuda as origens e os limites da civilização moderna, entendida simplesmente e rigorosamente como socialização capitalista. É coautor de Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social (Boitempo, 2013), autor de Dinheiro, mercadoria e Estado nas origens da sociedade moderna: estudo sobre a acumulação primitiva de capital (Editora PUC-Rio, 2018) e de vários estudos, artigos e capítulos sobre estética moderna, política penal, psicanálise e história do pensamento moderno, através dos quais tem buscado manter os olhos sempre fixos nas razões para odiar o caminho mortífero em que, desde o advento moderno, a humanidade foi metida. Suas principais referências teóricas são Paulo Arantes, Peter Linebaugh, Theodor Adorno, Sándor Ferenczi e David Graeber. Na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, geralmente leciona crítica da economia política, pensamento brasileiro e filosofia da cultura.