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Por Carlos Minuano
Publicado em Quatro cinco um

 

No final do alucinado ano de 1969, uma robusta quantidade de LSD importada da Califórnia, epicentro da contracultura, foi parar na mão do artista plástico Antonio Peticov, então com 23 anos e um dos principais agitadores da cena hippie de São Paulo. Ele rapidamente espalhou a novidade pelo circuito underground, e a elite paulistana intelectual e artística, que podia pagar o preço, se esbaldou — mas não por muito tempo. O Brasil vivia um dos momentos mais brutais da ditadura, com elevada repressão às drogas — as penas eram semelhantes para traficantes e usuários. Para a turma do desbunde que não embarcou na militância política e começava a se sintonizar na onda dos psicodélicos, a bad veio cedo demais, e não exatamente por causa dos efeitos do ácido.

Numa tarde de janeiro de 1970, Peticov foi surpreendido em seu apartamento pela visita de Russinho, integrante do Esquadrão da Morte (grupo de policiais envolvidos com jogo do bicho, prostituição, tráfico de drogas e, como o nome indica, muitas mortes). Foi a primeira prisão por posse e tráfico de LSD e o primeiro processo judicial envolvendo a droga no país. O caso, cheio de intrigas e contradições, é apenas um pequeno fragmento de uma extensa e intrigante história que só agora começa a ser contada com a publicação de História social do LSD no Brasil, do jornalista Júlio Delmanto. O episódio e seus desdobramentos não eram o foco do autor, mas se tornaram o recheio mais apimentado do livro.

O garimpo histórico envolveu cinco anos de pesquisa para uma tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP). “O tema inicialmente seria drogas e contracultura”, diz Delmanto, que já havia feito uma incursão no assunto no mestrado, resultando em seu primeiro livro, Camaradas caretas: drogas e esquerda no Brasil (Alameda). A mudança no percurso ocorreu quando deparou com Os alucinógenos e o direito: LSD (Juriscredi), de Geraldo Gomes, juiz responsável pelo caso envolvendo Peticov. A partir dele, Delmanto achou o processo, de milhares de páginas, nos arquivos do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Seu livro traz vários trechos do extenso processo e revela singularidades do contexto em que ocorreu. O enredo parece saído de uma trama policialesca, com toques de psicodelia e o pior da política, permeado de denúncias de tortura e versões contraditórias. Ele narra ainda o início da cobertura midiática sensacionalista que disseminou uma imagem negativa dos psicodélicos, retratando-os como perigosas drogas alucinógenas. Foi o caso de uma reportagem em um grande jornal que noticiava a suposta presença do FBI no Brasil, que estaria investigando uma rede de traficantes de LSD.

O livro tem outro recorte pouco conhecido: as experimentações terapêuticas dos anos 1950 e 60, incluindo em pacientes internados entre 1958 e 1963 na Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina da USP. Interrompidas por décadas de proibição, há alguns anos pesquisas com psicodélicos voltaram a ser realizadas em universidades prestigiadas. Resultados promissores indicam que eles podem em breve revolucionar o tratamento de transtornos como depressão e dependência química. Até por aqui, sob um governo que anda em marcha a ré quando o assunto é ciência, há avanços. No final de 2019, foi divulgado sem muito alarde um novo estudo com LSD em ratos e minicérebros (estruturas produzidas por células-tronco) que destaca sua possível função como estimulante cognitivo e sugere uma melhora no aprendizado graças ao aumento de sinapses. Um dos autores da pesquisa é o neurocientista Sidarta Ribeiro, que assina a orelha do livro de Delmanto.

Ao remontar os caminhos do LSD até chegar ao Brasil, o jornalista menciona figuras como o dramaturgo Antonio Bivar e o poeta Claudio Willer, que afirmam ser poucos os que haviam experimentado o ácido até meados de 1960, e destaca o messias do uso terapêutico da substância, o dramaturgo Fauzi Arap. “Foi com o uso do LSD, no ano de 1963, que vi descortinar-se toda uma realidade paralela que eu estava acostumado a ignorar em meu cotidiano”, escreveu em Mare Nostrum: sonhos, viagens e outros caminhos (Senac).

 

A paixão segundo o LSD

Após a notável descoberta do LSD pelo suíço Albert Hofmann, em 1943, o laboratório onde o químico trabalhava começou a fornecer a droga gratuitamente a pesquisadores em troca dos resultados de seus estudos. Com o acesso facilitado, psiquiatras e psicólogos começaram a trabalhar com a substância em São Paulo e no Rio de Janeiro, e entre os pacientes estavam figuras da cena alternativa como o poeta Roberto Piva e o artista plástico e fotógrafo Wesley Duke Lee. Entre os mais célebres pacientes estavam também dois escritores. Um deles foi Paulo Mendes Campos, que dividiu suas impressões sobre a prática na série “Experiências com LSD”, publicada na revista Manchete em 1962 e no livro Cisne de feltro (Civilização Brasileira).

A outra, o que muitos de seus leitores desconhecem, teria sido Clarice Lispector. Delmanto reproduz uma entrevista em que Fauzi Arap aborda o assunto. Segundo ele, apesar de Clarice não ter sentido os efeitos do LSD durante as sessões, ela teria confirmado a ele que veio dessas experiências o estado de verdadeira inspiração em que escreveu sua obra-prima, A paixão segundo G. H. “No meu livro relato que vivi uma situação de desconforto com o meio teatral porque andei falando muito de minhas experiências com ácido, a última delas realizada há mais de vinte anos. Quando descobri o livro da Clarice, concluí que a minha experiência lisérgica estava descrita no livro dela”, conta.

Delmanto revela outro aspecto que acredita ser uma contribuição importante de sua pesquisa: o fato de muitos dos pioneiros na investigação do LSD no Brasil, quase todos psiquiatras, terem ideias e práticas bastante conservadoras. Diferentemente do que esperava — profissionais “alternativos”, adeptos de medicina oriental, macrobiótica, “paz e amor” —, encontrou médicos que trabalhavam com eletrochoques, em clínicas ou hospitais suspeitos, ou que viam a homossexualidade como doença. “Um deles chegou até a colaborar com a polícia aplicando LSD em um preso durante um interrogatório”, afirma o autor.

O livro adentra também trechos nebulosos da sinuosa história do processo de Peticov, como uma suposta delação. Após sofrer tortura, ele teria entregado fornecedores do ácido e seus clientes. A investigação é parte de uma história repleta de elementos bizarros e pontas soltas, com personagens, fatos e polêmicas que se entrecruzam. Há um investigador psicopata integrante de um grupo de extermínio que gerenciava o tráfico da cidade e que mudou seu depoimento mediante suborno; um juiz preocupado com “a juventude”, que defendeu nos autos os valores familiares e a virgindade feminina; um misterioso inglês financiador da operação que nunca foi visto, muito menos preso; e ainda traficantes internacionais que, uma vez na cadeia, se converteram e mudaram de vida.

A capa do livro também merece menção. Toda pontilhada como uma cartela de ácido, traz uma ilustração assinada por Bianca Oliveira, inspirada na primeira experiência que o poeta Roberto Piva teve com o LSD, nos anos 1960, na Serra da Cantareira, em São Paulo. “Lá, eu entrei no meio do mato e repentinamente, quando bateu o ácido, olhei para o sol e vi como se fosse uma grande tangerina gotejando amor para o universo”, descreve. “Então tirei a roupa. Fiquei totalmente nu, e caminhei por todo aquele mato sem me machucar em nenhum espinho.”

Apesar da quantidade pequena de entrevistas (uma dezena, segundo o autor), o livro se sustenta sobre extensa pesquisa. Vale acrescentar ainda que o autor tem os dois pés no ativismo. Participa dos coletivos antiproibicionistas Marcha da Maconha e Desentorpecendo a Razão. A publicação ganha ainda mais relevância considerando o deserto de publicações sobre o tema no país. Faltam desde traduções de clássicos da literatura psicodélica (como o antológico LSD: My Problem Child, de Albert Hofmann) a publicações mais acessíveis para leigos — há uma farta quantidade de pesquisas científicas, mas são em geral muito herméticas para o grande público. Nesse sentido, Delmanto abre caminho — com importantes setas — para que outros autores, fora do meio acadêmico, também se aventurem por essas veredas psicodélicas repletas de histórias delirantes.

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