Uma genealogia de ‘energia’, a palavra que está em toda parte
A Elefante está lançando O nascimento da energia: combustíveis fósseis, termodinâmica e política do trabalho, de Cara New Daggett, trabalho que recebeu o prêmio Clay Morgan como melhor livro de teoria política ambiental. A tradução é de Humberto do Amaral. Trata-se de uma “genealogia da energia” como ideia científica e política. Segue a orelha da edição:
Nunca se falou tanto em “energia”. Dos slogans de companhias petrolíferas à publicidade do achocolatado em pó, essa palavra está em toda parte e tornou-se sinônimo de “potência”, “força”, “combustível”. Em tempos de crise climática, ganhou ainda mais evidência, principalmente no contexto da “transição energética”, que se refere à substituição de petróleo, carvão e gás pela geração de eletricidade a partir de matrizes renováveis, como a correnteza dos rios, a luz do sol e o sopro dos ventos.
Mas “energia” nem sempre teve esse significado. Aliás, esse conceito nem sempre existiu. Apesar de possuir raízes etimológicas no termo enérgeia, cunhado por Aristóteles, a “energia” como a conhecemos é uma criação da Revolução Industrial. Por isso, está imbuída dos mesmos valores que impulsionaram a proliferação das máquinas a vapor na Grã-Bretanha. Trata-se de uma ideia relativamente recente, cuja história é contada nestas páginas com riqueza de detalhes por Cara New Daggett.
Assim como as mudanças climáticas, a “energia” nasceu no século XIX. Não se trata de mera coincidência cronológica. “A energia é resultado do uso de combustíveis fósseis na produção industrial”, explica a autora, que é professora da universidade Virginia Tech, nos Estados Unidos. “Apenas fazendo experimentos com máquinas a vapor e tentando entender como a queima de carvão conseguia mover pistões é que os cientistas vislumbraram a energia. Ou seja, o conceito surgiu do interesse dos seres humanos em fazer com que as máquinas fossem mais eficientes e lucrativas.”
Portanto, aquilo que entendemos por “energia” é indissociável do capitalismo, do produtivismo e do imperialismo, bem como de todas as implicações que essas ideologias desencadearam pelo mundo. Uma delas — talvez a principal — se abateu sobre o trabalho humano. O conceito de “energia” foi definido basicamente pela termodinâmica, que trata da conservação e da dispersão de energia (ou entropia). Embora a energia seja o resultado de cálculos matemáticos, e não uma existência material na natureza, os cientistas trataram o conceito como uma “lei da física”, com aplicações políticas, econômicas e sociais.
“A ciência da energia empresta à ideologia do trabalho e do produtivismo uma aura de autoridade científica”, revela a autora. “É como se as leis do universo estivessem validando o projeto europeu — e, posteriormente, estadunidense — de colocar o mundo para trabalhar.
”Nesse período, o trabalho começou a ser entendido como transformação de energia, e o ser humano passou a ser valorado segundo sua capacidade de produzir bens comercializáveis. “A humanidade se tornou uma vasta reserva de mão de obra aguardando sua conversão em trabalho”, explica Daggett, sublinhando que uma lógica semelhante se estendeu à natureza. “As mesmas ferramentas usadas para tornar uma máquina mais eficiente passaram a ser usadas para tornar uma floresta mais eficiente. A ‘energia’ faz com que tudo seja comparável enquanto ‘trabalho’. Trata-se, portanto, de uma ideia muito útil para o extrativismo e a acumulação.”
Não surpreende que esse conceito também tenha ajudado a consolidar a noção de que existe uma relação linear entre o uso da energia e o progresso das sociedades, o que leva ao entendimento de que há povos superiores e inferiores e que precisamos sempre de mais energia — tanto que as noções ocidentais de “soberania” muitas vezes se confundem como acesso irrestrito às fontes disponíveis, onde quer que elas estejam, independentemente das consequências para as populações locais e o meio ambiente.
A genealogia traçada por Cara New Daggett oferece uma nova leva de evidências para reforçar os argumentos de que jamais conseguiremos deter o colapso climático se apenas substituirmos os combustíveis fósseis por fontes de energia consideradas “limpas”, uma vez que a raiz da devastação está justamente na “energia” e nas enormes consequências da disseminação dessa ideia em todo o planeta. Sem um questionamento profundo das noções ocidentais de “trabalho”, “eficiência” e “soberania”, intimamente relacionadas com a “energia”, o debate ecológico continuará girando em falso, em benefício de um status quo definido pela exploração sem fim de vastos contingentes humanos e da natureza para o enriquecimento da minoria.
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Imagem: “Glasgow e sua exposição”: uma visão do interior da Exposição de Glasgow de 1888. Fonte: The Pictorial World, 7 jun. 1888 (suplementos gráficos da Exposição Internacional de 1888). Collection: The Mitchell Library, Special Collections.








