Debate marca relançamento de 
Corumbiara, caso enterrado

O que já era ruim ficou muito pior. E ainda vai piorar.

Há dois anos, quando lançamos Corumbiara, caso enterrado, sabíamos que a situação de violência no campo brasileiro não estava resolvida. Muitas pessoas continuavam sendo assassinadas, o poder de resposta do Estado era baixo e enviesado, a bancada ruralista dava as cartas em Brasília. Mas não imaginávamos que grandes chacinas voltassem a ocorrer. Tampouco imaginássemos que haveria um golpe de Estado no Brasil do século 21. Subestimamos nossa capacidade de produzir barbárie.

adquira seu exemplar!

Aqui estamos, com 51 mortes no campo apenas nos seis primeiros meses de 2017, a caminho do recorde neste século. E agora? A recente chacina de Pau d’Arco, no Pará, nos remonta ao Brasil dos anos 1990, marcado pelos massacres de Corumbiara e de Eldorado do Carajás. Naquele momento, pelo menos, havia um governo com alguma legitimidade, e que podia ser cobrado por setores da população porque mantinha laços com o mundo real. Agora, não.

O Ministério da Justiça virou uma banca de advocacia do presidente golpista, alçado ao poder pela força ruralista e financista e lá mantido às custas de muita negociata à luz do dia. Não há um mísero setor da sociedade com interlocução com o governo, a menos que a gente considere que o mercado financeiro é a sociedade.

Nessa angústia, decidimos nos juntar ao De Olho nos Ruralistas na próxima segunda-feira em São Paulo para reunir uma turma de peso em busca de discutir as origens do problemas e suas possíveis soluções. E também para relançar Corumbiara, caso enterrado, de João Peres. O livro esgotou-se no começo deste ano, mas seu ciclo ainda não estava cumprido: a obra precisa continuar circulando para ampliar o debate sobre como o Brasil do presente é o Brasil do passado.

Nesses dois anos vertiginosos, o trabalho ganhou o segundo lugar no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, em 2015, e foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2016. As láureas são importantes, claro, mas o mais importante para nós é a grande rede de solidariedade que se formou para discutir o tema e fazer com que o trabalho chegasse aos cantinhos de Rondônia, palco da tragédia de 1995.

Olha só o pessoal que vai debater a violência no campo:

Alceu Castilho, coordenador do De Olho nos Ruralistas e autor de Partido da terra.
Kátia Brasil, Amazônia Real (por Skype, direto de Manaus).
Carolina Motoki, Repórter Brasil.
Padre Antônio Naves, Comissão Pastoral da Terra.
Josineide Costa Sousa, Movimento dos Pequenos Agricultores.

Mediação:

João Peres, autor de Corumbiara, caso enterrado.

 

=====
Serviço:
=====

Debate: Os crimes no campo explodem novamente. E agora?
Data: 31 de julho de 2017
Horário: 19h
Local: Ateliê do Gervásio
Rua Conselheiro Ramalho, 945
Bixiga, São Paulo-SP
Entrada franca!

corumbiara reimpressao div

Corumbiara, caso enterrado é recebido na ECA-USP com debate sobre jornalismo independente

O livro-reportagem Corumbiara, caso enterrado foi apresentado na noite de ontem, 3 de setembro, a estudantes de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Foi o último evento realizado em São Paulo antes da sequência de debates e lançamentos em Rondônia, palco do conflito agrário conhecido como “massacre de Corumbiara”, cuja história e desdobramentos são destrinchados pela obra de maneira inédita. O périplo se inicia na próxima quinta-feira, 10 de setembro, em Colorado do Oeste.

O autor João Peres foi à ECA-USP a convite dos professores Dennis Oliveira e Luciano Maluly. Cerca de trinta estudantes participaram do debate, formulando perguntas principalmente sobre as dificuldades de produção de Corumbiara, caso enterrado – o que rendeu uma longa discussão sobre os desafios do jornalismo e de publicações independentes, além de reflexões sobre a importância de abordar, em profundidade, episódios mal explicados da história recente do país amplamente ignorados pelos meios de comunicação.

Compre agora!

“Foi uma conversa muito produtiva. Os estudantes demonstraram bastante interesse em debater o livro e, para além dele, os desafios frente ao jornalismo neste momento complicado”, explica João Peres, ressaltando que as empresas de comunicação passam por uma de suas maiores crises, com demissões em massa, redução de circulação e perda de relevância. O autor sublinhou ainda a importância de trocar experiências com a universidade – e com a ECA, em particular, onde se gradou e onde nasceu a Editora Elefante.

“O diálogo com o mundo acadêmico é sempre muito importante. Até agora, temos visto que está nas faculdades um dos públicos que mais teve interesse pelo livro”, afirmou, ao citar que a série de debates e lançamentos em Rondônia só será possível graças ao engajamento da comunidade universitária local. “No caso da ECA, pela ligação afetiva, havia a expectativa de saber qual seria o grau de envolvimento dos alunos com um tema que, a princípio, nos parece tão distante. O resultado da conversa foi surpreendente nesse sentido porque várias das perguntas demonstraram uma vontade grande de saber mais.”

Seis motivos para ler Corumbiara, caso enterrado

Lançado recentemente, o livro-reportagem Corumbiara, caso enterrado despertou atenção e interesse em muita gente de Rondônia, São Paulo e várias partes do país. O trabalho de João Peres, com fotos de Gerardo Lazzari, passa a limpo o episódio conhecido como “massacre de Corumbiara”, um conflito agrário que deixou doze mortes, segundo os números oficiais, há vinte anos.

Compre agora!

Os dados gerais são fáceis de conhecer: três policiais e dois sem-terra foram condenados pela tragédia ocorrida durante a reintegração de posse na fazenda Santa Elina, em 9 de agosto de 1995. Mas, é claro, ninguém deve se contentar com informações tão breves. O importante é ir a fundo, entender os detalhes, vasculhar os cantos obscuros deste episódio tão importante – e, como outros, tão esquecido.

Por isso, listamos seis motivos pelos quais você deve ler Corumbiara, caso enterrado:

1. É inédito. Este é o primeiro livro-reportagem sobre o caso. É uma chance única de conhecer a fundo um dos piores conflitos agrários do Brasil pós-ditadura, de maneira sistematizada, com a apresentação das informações centrais e das diferentes versões sobre o que ocorreu em 9 de agosto de 1995 na fazenda Santa Elina, em Corumbiara, Rondônia.

2. Não tem Fla-Flu. Um dos grandes esforços de Corumbiara, caso enterrado é afastar-se da polarização que nos empobrece intelectualmente a cada dia. Logo de início, o livro convida o leitor a deixar para trás os conceitos pré-fabricados que tentam a tudo e a todos enquadrar. A ideia é retratar fielmente as diferentes visões em torno deste episódio, respeitando a autonomia de quem lê para formar a própria opinião.

3. Inquietações. Trazer à tona os incômodos dos acomodados é um dos papeis deste livro. Por que algumas pessoas se recusam a comentar o episódio? A população de Rondônia tem uma nova oportunidade de questionar Valdir Raupp (PMDB), à época governador. O hoje senador tem se negado a falar sobre o caso, que claramente não figura em suas melhores lembranças.

4. Este não é um caso isolado. O debate sobre o caso Corumbiara não diz respeito ao nosso passado. Temos um país que continua sem debater a fundo a questão da reforma agrária, empurrada com a barriga durante sucessivos governos. O Brasil registra muitas mortes em conflitos agrários todos os anos – são pelo menos 328 em uma década – e Rondônia está sempre entre os líderes da desonrosa lista elaborada pela Comissão Pastoral da Terra. O papel da ditadura na situação atual da Amazônia e na distribuição territorial brasileira é outra questão discutida pelo livro.

5. Repercussão. O livro-reportagem foi tema de vários veículos de alcance nacional e de destaque em Rondônia. “No livro ninguém é santo”, escreveu o El País Brasil. O jornalista Mário Magalhães, autor da premiada biografia sobre Carlos Marighella, considera fundamental o trabalho lançado pela Editora Elefante. “Das desgraças de uma nação, poucas são tão nefastas como memória embaçada. Contra a maldição do esquecimento, há uma novidade a comemorar: o livro Corumbiara: Caso Enterrado”, publicou em seu blog. No site da Editora Elefante, é possível ler reportagens, ouvir e assistir a entrevistas.

6. Cultura sem amarras. Ao comprar Corumbiara, caso enterrado, você ajuda a manter uma editora independente e sem fins lucrativos, que se propõe a oferecer livros que talvez não tenham grande interesse comercial, mas cuja importância social, política e cultural é indiscutível. A Editora Elefante é uma iniciativa verdadeiramente livre de amarras econômicas e partidárias, capaz de contar histórias sem se preocupar em proteger privilégios de uns poucos ou interesses dos mais inconfessáveis.