O que as mulheres libertárias da Guerra Civil Espanhola podem ensinar ao feminismo contemporâneo?

Mulheres Livres conta a história de um grupo de militantes anarquistas que, nos anos 1930, em um contexto de extrema agitação política e social que desembocaria na Guerra Civil Espanhola, decidiu montar uma organização própria, formada apenas por mulheres, para tratar dos assuntos que, acreditavam, deviam ser tratados pelas mulheres — e imediatamente, sem esperar pela autorização de ninguém. Saúde, educação, cuidado dos filhos, amor livre, trabalho doméstico, formação profissional e, é claro, a luta contra o fascismo que tomava conta do país estiveram entre as pautas prioritárias da agrupação Mulheres Livres.

Passando por cima das determinações de federações e confederações que dirigiam o movimento libertário — das quais faziam parte, mas que pretendiam deixar as questões relativas às mulheres para “depois da guerra” —, o grupo defendeu que o processo revolucionário desencadeado pelos trabalhadores em resposta ao levante de Francisco Franco e suas hordas reacionárias, em 1936, deveria promover uma mudança total nas formas de vida dos espanhóis — e isso obviamente incluía transformar a vida das mulheres, que, na Espanha da época, eram vítimas da ignorância, da opressão e do silêncio, na medida em que amargavam o analfabetismo e uma extrema dependência da figura masculina, fosse o pai, o irmão ou o marido.

Por isso, mesmo durante os mais encarniçados enfrentamentos militares — dos quais muitas mulheres participaram, com fuzis em punho — e diante das extremas dificuldades de abastecimento trazidas pelo conflito, as militantes da Mulheres Livres jamais deixaram de difundir suas ideias libertárias em assembleias, reuniões, manifestações, artigos na imprensa popular e publicações próprias, como livros, folhetos, cartilhas e, sobretudo, a revista Mujeres Libres, escrita e editada apenas por mulheres, que teve treze números e apenas deixou de circular com a derrota definitiva das forças republicanas, em 1939.

Em Mulheres Livres, Martha A. Ackelsberg, professora emérita do Smith College, nos Estados Unidos, expõe a formação, os desdobramentos e as dificuldades enfrentadas pela agrupação — uma das experiências de emancipação feminina mais significativas do século XX. As análises e conclusões da autora se baseiam em uma exaustiva pesquisa documental em arquivos espalhados pela Espanha e pela Europa, além de entrevistas realizadas nos anos 1980 com várias militantes da organização — que, como muitos anarquistas, socialistas e liberais da época, se dispersaram pelo mundo para fugir da repressão franquista que se seguiu ao fim da guerra.

O resultado é um livro que explica detalhadamente como esse grupo de mulheres lutou pela revolução libertária na Espanha dos anos 1930, mas não só: Mulheres Livres traz reflexões sobre questões extremamente úteis para os desafios do movimento feminista na atualidade, sobretudo no que diz respeito aos debates entre diferentes visões sobre as origens da desigualdade de gênero e diferentes maneiras de lutar pela emancipação das mulheres — luta que a Federação Mulheres Livres também enfrentou em seu tempo.

Atravessamos 2018, obrigado

Querides leitores,

Nesta mensagem de final de ano não falaremos sobre a crise das grandes livrarias, nem sobre o calote que Saraiva e Cultura deram em todo o mundo, nem sobre o resultado das urnas, nem sobre todos os retrocessos que estamos vivendo e ainda iremos viver. Se 2018 foi muito difícil, 2019 deve ser ainda mais complicado. Sabemos que a tristeza, a frustração e a decepção têm sido imensas. E que tudo pode piorar.

Mas acreditamos que não há mais espaço para lamentações. Por isso, preferimos falar sobre o que fizemos no ano que passou. Apesar de Copa do Mundo, greve dos caminhoneiros e eleições presidenciais, fizemos muito. Lançamos onze novos títulos: livros bonitos e importantes. Temos vimos obras lançadas no ano passado caírem nas graças do público.

Tudo começou em março. Dois dias depois da covarde execução de Marielle Franco (quem, afinal, matou Marielle?) lançamos Raul, de Alexandre De Maio, nosso primeiro livro de jornalismo em quadrinhos. Também em março publicamos O eclipse do progressismo: a esquerda latino-americana em debate, conjunto de artigos sobre o fim do chamado “ciclo progressista” na região — que teria uma dramática continuidade com a vitória de Jair Bolsonaro.

Abril foi o mês em que voltamos nossos olhos para a luta pela terra. O perecível e o imperecível: reflexões guarani mbya sobre a existência, de Daniel Calazans Pierri, tenta compreender como este povo vê o mundo e os brancos enquanto resiste em territórios cada vez menores e sob ataque do “progresso”. Apaixonado por justiça: conversas com Sabine Rousseau e outros escritos, de Henri Burin des Roziers, aborda a trajetória do frade francês que dedicou boa parte da vida à luta pela reforma agrária na Amazônia brasileira.

Em junho, marcamos os cinco anos da Jornadas de Junho de 2013, ciclo de protestos populares que deixou um gosto amargo de violência policial. Memória ocular: cenas de um Estado que cega conta a história de uma das vítimas, Sérgio Silva, fotógrafo que perdeu o olho ao ser atingido por uma bala de borracha enquanto cobria uma manifestação no centro de São Paulo. Na tevê, a Copa do Mundo realizada na esteira do centenário da Revolução Russa motivou a publicação de Guia Rússia para turismo do colapso, ou o espetáculo das ruínas construtivistas na Moscou especulada, de Rachel Pach.

O segundo semestre chegou com um livro-reportagem chamado Roucos e sufocados: a indústria do cigarro está viva, e matando, de João Peres e Moriti Neto, que em dezembro seria agraciado pelos jurados do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, no Rio Grande do Sul, berço dos cultivos de tabaco e do lobby favorável aos interesses das grandes empresas do setor.

Novembro assistiu a quatro lançamentos da Editora Elefante. Começamos com No espelho do terror: jihad e espetáculo, um instigante ensaio do historiador Gabriel Ferreira Zacarias sobre as novas modalidades de terrorismo e a violência cotidiana do capitalismo. Menos de dois meses depois, o livro, infelizmente, dialogaria com o caso de um atirador que matou cinco pessoas e depois se suicidou na Catedral de Campinas, em dezembro.

A razão neoliberal: economias barrocas e pragmática populartrouxe a cientista política e ativista argentina Verónica Gago para uma turnê de debates em Manaus, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Os eventos internacionais seguiram com o lançamento de Pós-extrativismo e decrescimento: saídas do labirinto capitalista, de Alberto Acosta e Ulrich Brand, trazendo visões de outros lugares do mundo para ajudar na elaboração de estratégias e alternativas ao atoleiro em que nos metemos.

No finalzinho de novembro, tivemos um momento especial. Com o lançamento de Uma história da onda progressista sul-americana (1998-2016), resultado de anos de pesquisa, viagens, estudos e entrevistas de Fabio Luis Barbosa dos Santos, chegamos à marca de trinta títulos no catálogo. Parece pouco, mas estamos tremendamente orgulhosos por termos chegado até aqui. Claro que jamais conseguiríamos sem o apoio de vocês.

Além de novos livros, em 2018 assistimos a Calibã e a bruxa, de Silvia Federici, cair nas graças das mulheres brasileiras dentro e fora da universidade, animando trabalhos acadêmicos e rodas de conversa país afora. As postagens que diariamente surgem nas redes sociais são prova disso. Nem precisamos dizer a satisfação que sentimos ao ver as declarações de amor pelo livro. Nada faria uma editora mais feliz. Sério, não tem preço.

No finalzinho do ano soubemos que, depois das infelizes declarações do presidente eleito, o governo cubano retiraria seus profissionais de saúde do Programa Mais Médicos. A notícia fez renascer o interesse em Branco vivo, de Antonio Lino, com fotos de Araquém Alcântara, que havíamos lançado em meados de 2017 — e que foi indicado ao Prêmio Jabuti na categoria “Crônica”. O interesse repentino nos pegou de surpresa, nossos estoques se esgotaram e tivemos que correr para imprimir mais uma tiragem. Correria boa.

Já temos uma fila de lançamentos incríveis para 2019. Logo no comecinho do ano enviaremos a vocês, em primeira mão, uma lista das novidades que nos esperam. Enquanto isso, continuamos trabalhando duro para entregar os livros mais bem editados e desenhados pelo menor preço possível. Porque, sim, enquanto vocês estiverem conosco, seguiremos avançando pela trilha do conhecimento, do debate, das ideias. Afinal, não existe outro caminho.

Agradecemos imensamente pela sua companhia em mais um ano.

Abraços e beijos enormes,

— Os elefantes

Apocalipse canavial

Por Samuel Barbosa
Professor do Departamento de Filosofia e Teoria do Geral do Direito da USP e pesquisador do Cebrap

 

“Deixei o acampamento ainda atordoado pela cena do rapaz me estendendo o osso. Suas palavras ecoavam em mim: ‘Eu queria ir lá em Brasília me esclarecer: por que a gente passa massacre?’, ‘Será que o osso do meu irmão não presta?’”. O antropólogo e advogado Bruno Martins Morais ficou sem reação diante do jovem índio em um dos acampamentos no Mato Grosso do Sul.

A resposta veio no livro Do corpo ao pó, no qual autor apresenta os resultados de sua pesquisa entre os guarani kaiowá, que recebeu o prêmio de melhor dissertação de mestrado em ciências sociais de 2016 pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). Em uma edição primorosa, com várias fotografias impactantes, o livro apresenta a percepção dos índios sobre a violência nos conflitos fundiários e suas formas de resistência.

Acossados por verdadeiras milícias que agem impunemente à luz do dia, sabemos desses povos pelos números de homicídio e suicídio, por uma ou outra reportagem jornalística que desperta nossa atenção à distância.

O livro, no entanto, é uma oportunidade única para ganharmos proximidade e nos surpreendermos com a perspectiva dos guarani kaiowá. Em meio à extrema vulnerabilidade, eles cantam, rezam e narram a associação entre a ocupação da terra e seu sentido sagrado, as noções de pessoa e corpo, os ritos funerários e as concepções cosmológicas sobre o começo e o fim do mundo. Para eles, o mundo não acaba em fogo ou água, mas em cana.

Muito além de denúncia e protesto, o livro nos oferece a tradução dessa fina e densa interpretação indígena que nos dá o que pensar e fazer.

Obrigado por terem caminhado
com os elefantes em 2017

Queridx leitorx,

Mais um ano passou — e que ano: 2017, assim como 2016, foi um ano de muita desgraça no noticiário, mas, também por isso, de muito trabalho para a Editora Elefante: doze meses de ralação intensa, noites mal-dormidas e uma luta incessante contra preços e prazos para produzir livros que talvez não tenham grande apelo comercial, mas cuja importância social, cultural e política é induscutível.

O resultado foram nove novos títulos publicados entre fevereiro e dezembro, além de cinco reimpressões. E isso sem investidores, sem funcionários. Tantos livros nos trouxeram muitos leitores e leitoras, como você, que confiou em uma editora microminúscula e comprou um ou mais de nossos exemplares pela internet. Agradecemos demais a confiança. Isso mostra que todo nosso esforço está valendo a pena.

Começamos 2017 com Desterros, de Natalia Timerman, que trouxe uma série de relatos do hospital-prisão onde trabalha como psiquiatra — e que emocionou tanta gente com a história de Donamingo. Depois veio Cooperativismo de plataforma, de Trebor Scholz, lançado em parceria com a Autonomia Literária, que nos colocou no debate sobre Uber, Airbnb e demais baluartes da economia do compartilhamento.

Nossa contribuição nessa área teve continuidade, em outubro, com a publicação de Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, de Tom Slee, que chegou à tribuna do Senado Federal, qualificou o debate legislativo e ajudou a fundamentar um projeto de lei sobre a regulamentação dos aplicativos no país. Em 2018, queremos trazer o autor para uma série de conferências no Brasil. Aguarde as novidades.

Em julho, mais de seiscentas pessoas assistiram aos eventos com Silvia Federici em São Paulo e Rio de Janeiro. A feminista italiana veio ao país para o lançamento de Calibã e a bruxa, que publicamos em parceria com o Coletivo Sycorax e com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.

Se você está recebendo esta carta pela primeira vez, é muito provável que tenha chegado até a Editora Elefante graças ao livro da Silvia — que ficou lindo, né não? Apesar de tratar da onda de perseguição às mulheres durante a transição do feudalismo para o capitalismo, na Europa, e durante a Conquista da América, as teses de Calibã e a bruxa são demonstradas todos os dias, ainda hoje, no Brasil e no mundo, em cada ato de violência doméstica e feminicídio.

Em novembro, pudemos constatá-las quase que literalmente quando manifestantes de extrema-direita queimaram uma bruxa de pano com o rosto da feminista norte-americana Judith Butler em protesto contra sua participação em um seminário sobre democracia no Sesc Pompeia, em São Paulo. Tempos estranhos, estes.

Branco vivo, de Antonio Lino, saiu da gráfica em agosto. O livro retrata um pouco do Brasil, dos brasileiros e das brasilidades encontradas pelos doutores e doutoras — sobretudo cubanos — que aderiram ao programa Mais Médicos e se espalharam pelos rincões do país com a missão de levar atendimento de saúde a pessoas que muitas vezes jamais haviam passado por uma consulta. A edição ganhou as imagens do renomado fotógrafo Araquém Alcântara. Ficou uma maravilha que só. Se você ainda não viu, tem que ver.

Setembro e outubro foram meses de livros de intervenção no debate público. Além de Uberização, lançamos com a Autonomia Literária Empresas alemãs no Brasil: o 7×1 na economia, de Christian Russau, que traça o longo histórico de espoliação do capitalismo germânico no país, começando com as parcerias entre Dom Pedro II e a siderúrgica Krupp, passando pela colaboração da Volkswagen com o regime militar e pelos acordos nucleares brasileiros com ex-oficiais nazistas, até chegar no negócio de seguros e resseguros da Usina Hidrelétrica de Belo Monte: um golaço jornalístico essencial para compreendermos o quanto ainda somos colônia.

Outro título que veio ao mundo neste período foi Cuba no século XXI: dilemas da revolução, organizado por Fabio Luis Barbosa dos Santos, Joana Salém Vasconcelos e Fabiana Rita Dessotti, com prefácio de Frei Betto. O volume que produzimos sobre os impasses contemporâneos do socialismo caribenho foi muito especial pra nós, pois, pela primeira vez, financiamos um livro inteiramente com a colaboração antecipada dos leitores. Quatrocentas pessoas confiaram nos autores e na Editora Elefante e contribuíram com a arrecadação de fundos pela internet comprando exemplares em pré-venda. Em troca, puderam escolher a capa. Muito obrigado, gente!

Como agradecimento adicional, antecipamos uma grande novidade: em 2018 traduziremos e publicaremos uma obra importantíssima sobre um período triste da cultura cubana conhecido como quinquenio gris, marcado pela perseguição a artistas, intelectuais e homossexuais. Assim, acreditamos colaborar para uma avaliação mais aprofundada sobre esse grande episódio da história latino-americana que foi e que é a Revolução Cubana, e que completará sessenta anos em 2019.

Novembro assistiu à inauguração da coleção de antropologia da Editora Elefante, Fundo & Forma, com o lançamento de Do corpo ao pó: crônicas da territorialidade kaiowá e guarani nas adjacências da morte, de Bruno Martins Morais, vencedor do Prêmio Anpocs de Teses Acadêmicas 2016. Triste e, ao mesmo tempo, belo, o livro procura compreender como os Kaiowá e Guarani lidam com a morte no contexto de violência extrema do Mato Grosso do Sul. A edição ganhou as fotos de dois jornalistas que acompanham de perto a luta dos povos brasileiros pelo seu pedaço de chão contra o avanço do agronegócio e do desmatamento: Lunaé Parracho e Ruy Sposati. O lançamento em São Paulo contou com um show do Ruspô, que arrancou lágrimas da gente com suas canções sobre a injustiça que assola o país.

Em dezembro, mais uma vez, fechamos o ano com poesia. Publicamos os versos de estreia de Lucas Bonolo, compilados na edição dupla e infinita de Gaia primavera: o amor vai à guerra, um grito pela rebeldia contra o absurdo que se tornou viver.

Também fizemos uma festinha de final de ano. Fomos recebidos pelo Presidenta Bar & Espaço Cultural, na Rua Augusta, e botamos pra quebrar com o pocket show de Eva Figueiredo, Paulo de Tarso L. Brandão e Guilherme Kafé, com a discotecagem do DJ Renato Brandão e com as latinidade do Cumbia Calavera. Foi incrível! Gostamos da coisa. Ano que vem, se chegar vivos até o final de 2018, teremos mais momentos de confraternização.

Enfim, estamos exaustos, exaustos, exaustos. Porém, tremendamente felizes. Em 2017, apesar de todos os pesares, nossa manada cresceu um bocado — e isso é maravilhoso! Nunca tivemos tantos elefantes caminhando conosco pelas trilhas tortuosas e cheias de armadilhas do pequeno mundo editorial brasileiro.

Em meio a condições injustas nas livrarias, dificuldades de distribuição, custos crescentes de gráfica, papel e Correios, continuamos produzindo livros bonitos que precisam ser lidos, e não apenas vendidos para gerar lucro. Seguiremos assim. Mas, claro, não faremos nada sozinhos. Queremos ser cada vez mais interdependentes de você. Venha conosco!

As novidades, você já sabe onde encontrá-las: em nosso saite e blogue, sempre atualizados (www.editoraelefante.com.br), ou em nossas páginas de Facebook (www.fb.com/editoraelefante) e Instagram (www.instagram.com/editoraelefante).

Obrigadíssimo, mais uma vez. Sairemos para um merecido descanso entre 20 de dezembro e 10 de janeiro. Nos vemos em breve.

Muitos beijos e abraços.

Dos paquidermes,

Bianca Oliveira
João Peres
Leonardo Garzaro
& Tadeu Breda

Recesso de fim de ano

Prezad@s leitor@s,

Os elefantes também precisam descansar: ainda mais depois de um ano como 2016. Foram seis novos títulos, quatro apenas no segundo semestre. Estamos felizes com o que fizemos, mas exaustos…

Entraremos em recesso a partir de 20 de dezembro. Voltamos em 15 de janeiro. Nesse meio tempo, as compras pelo saite continuam funcionando. Os livros, porém, demorarão um pouco mais pra chegar.

Começaremos 2017 com novidades. Aguardem…

Boa passagem de ano pra tod@s vocês!

Obrigado pela companhia em 2016

Querid@s leitor@s,

Que ano está sendo este, meodeos!? Cada um e cada uma de vocês terá uma interpretação pessoal sobre 2016: bom, ruim, louco, catastrófico, eterno, maravilhoso, rápido, vá-de-retro, que saudades… Não temos nenhuma intenção de interferir nesse balanço. Mas queremos, e muito, agradecê-l@s. O ciclo que dentro de alguns dias se acabará (será?) foi bastante proveitoso para a Editora Elefante. E vocês são parte disso — uma parte fundamental.

Afinal, não é qualquer um que, diante dos infinitos atrativos da internet, investe alguns minutos em nosso saite, oferece endereço, dados bancários e pessoais e encomenda livros de uma editora pequena e desconhecida, confiando nas equipe do lado de lá e na efetividade dos Correios. Ao comprar diretamente conosco, vocês nos ajudam a driblar o “pedágio” das livrarias, que costumam ser abusivos, inviabilizando iniciativas independentes, como a nossa. Por isso, toda a nossa gratidão seria insuficiente para compensar tal gesto de nobreza. Podemos retribuir, porém, com um bom trabalho. E temos nos desdobrado dias e noites para entregar livros cada vez melhores a preços justos. O que conseguimos fazer nos últimos doze meses foi publicar seis novos títulos, aumentando nosso catálogo de quatro para dez livros. Urrú!

Tudo começou em janeiro, quando lançamos O Bem Viver: Uma oportunidade para imaginar outros mundos, do pensador equatoriano Alberto Acosta. Estivemos com o autor em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Mariana (MG). O Bem Viver foi nossa primeira tradução, e também inaugurou uma excelente parceria com a Editora Autonomia Literária e com a Fundação Rosa Luxemburgo. A união fez a força: em agosto, lançamos conjuntamente o livro de artigos Descolonizar o imaginário: Debates sobre pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento, que dá continuidade às discussões sobre o Bem Viver; e, em outubro, Elefante e Rosalux colocaram no mundo a história em quadrinhos Xondaro, de Vitor Flynn Paciornik, sobre a luta dos Guarani Mbya pela demarcação de suas terras ancestrais na cidade de São Paulo.

Em junho, vivemos momentos marcantes com o lançamento de Memória Ocular, de Tadeu Breda, que conta uma parte da trajetória de Sérgio Silva, fotógrafo que perdeu o olho esquerdo ao ser atingido por uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar de São Paulo enquanto cobria as manifestações de 13 de junho de 2013. Voltar à esquina em que tudo aconteceu, três anos depois, na companhia de dezenas de amigos e amigas e de uma nova vítima do artefato policial — Douglas Santana, de apenas doze anos —, e assistir a imagens daquela jornada repressiva projetadas num dos prédios do centro foi… foi… ai, até agora arrepia.

Em 26 de outubro, colocamos para rodar o ônibus amarelo da Rizoma, distribuidora de livros independentes que estamos tirando do papel junto com a Editora Autonomia Literária e a N-1 Edições. A inauguração ocorreu na Biblioteca Mario de Andrade, no centro de São Paulo. Estacionamos o Rizomamóvel em frente ao edifício enquanto lá dentro o equatoriano Alberto Acosta e o italiano Antonio Negri debatiam alternativas para a crise que caiu sobre as esquerdas em todo o mundo. O busão amarelo ainda ficou alguns dias estacionado na biblioteca — e participou do encerramento da Balada Literária 2016, no Centro Cultural B_arco, em Pinheiros. Em quatro rodas, levando livros pra lá e pra cá, pretendemos acelerar algumas mudanças no sistema de distribuição de livros independentes. O ano que vem promete!

Em novembro, lançamos Além do PT: A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana, de Fabio Luis Barbosa dos Santos, ensaio que acreditamos ser essencial para começar a construir um novo caminho para sair da encalacrada política em que estamos nos metendo. Por fim, também em novembro, colocamos um pouco de lirismo nessa conjuntura nefasta com a publicação de O livro das diferenças, de Paulo de Tarso L. Brandão. O recital de lançamento foi tão bonito, mas tão bonito, que só estando lá para entender a satisfação que sentimos em encerrar com música e versos um ano tão, tão, tão… tão 2016.

Ah, e no meio de todos esses lançamentos e debates e ônibus e tantas outras coisas, ainda recebemos a notícia de que Corumbiara, caso enterrado, de João Peres e Gerardo Lazzari, que lançamos em julho de 2015, foi indicado como finalista da 58ª edição do famoso Prêmio Jabuti. O livro sobre o massacre de Corumbiara — ocorrido em 1995, em Rondônia, e que deixou ao menos doze mortes — ficou entre as dez melhores publicações do ano na categoria Reportagem e Documentário, ao lado de várias feras e monstros sagrados do jornalismo (ô loco, bicho!). Nada mais que merecido para um trabalho que rodou o estado ex-amazônico de sul a norte, e foi recebido com entusiasmo por milhares de rondonienses.

Enfim, estamos muito contentes porque, em 2016, e graças a muito trabalho contra a maré, chegamos ao fim do ano vendo nossa manada crescer. Cresceu demais! Para além de prêmios e vendas, é isso o que realmente importa — é isso que queremos. Vocês podem imaginar que não é nada fácil levar uma editora microminúscula em um país que lê muito pouco e passa tempo demais diante da televisão e das redes sociais. Mas ninguém aqui está reclamando — até porque temos vocês. Seguimos em frente, caminhando devagar e nunca sozinhos. Igual aos elefantes.

Tomara possamos continuar contando com sua companhia em 2017.

Uma ótima passagem pra tod@s vocês!

E nosso muitíssimo obrigad@!

Dos paquidermes,

Bianca Oliveira,
Leonardo Amaral,
João Peres &
Tadeu Breda

Chegamos a nosso décimo título
cheios de lirismo, meodeos!

Foi certamente o lançamento mais bonito que já tivemos. O livro das diferenças, de Paulo de Tarso L. Brandão, veio ao mundo em 21 de novembro, em São Paulo, em um dia frio de um verão que teima em não chegar. Muita gente se dirigiu ao casarão do Bixiga — e não se arrependeu. Começou um pouco mais tarde do que deveria, mas a espera valeu muito a pena. As fotos falam por si mesmas. O livro das diferenças foi nosso décimo título. Só alegrias =) Se não pode comparecer, peça o seu pela internet aqui. E venha pra nossa manada! (Fotos: Alécio Cezar)

Na semana em que ignoramos o ‘massacre de Corumbiara’, outra tragédia nos bate à porta

Por João Peres*

Eis que a história se repete. Tal como se sabia, repete-se na forma de tragédia. Na semana em que a imprensa brasileira decidiu ignorar a memória sobre os vinte anos do chamado “massacre de Corumbiara”, outra matança bateu-nos à porta. Chacina, execuções em série, massacre: o nome, neste momento, não é o mais importante. Nevrálgico é reconhecer que ocorreu de novo. Sujamos nossas mãos com sangue. E tornaremos a sujá-las enquanto nos mantivermos nessa ignorância histórica.

O que um caso ocorrido na Grande São Paulo em 13 de agosto de 2015 tem a ver com um registrado em 9 de agosto de 1995 em Rondônia? Tudo. Mudam as formas, os lugares, as vítimas. Mantêm-se o modo de operação e a chancela social, quase uma tara, para episódios em que a morte se banaliza.
A hipótese mais provável para o caso de Osasco e Barueri, com 18 mortes, é o revide da Polícia Militar ao assassinato de um integrante da corporação.

Como de outras vezes, evoca-se o perfil das vítimas – cor de pele, histórico policial, região de moradia –, como se fosse esta a questão central. Não é preciso ganhar úlceras lendo comentários nos portais de notícias para saber que estão apinhados de defesas da execução de supostos bandidos. É a maneira que uma sociedade encontra para externar seu apreço pela barbárie. É como se tivéssemos um arcabouço legal que outorga à PM o poder de definir pela pena de morte dos cidadãos.

Impossível tratar o caso da última semana como um episódio isolado. Temos uma sociedade que todos os dias mata. Mata muito. Mata de forma desigual. O Mapa da Violência computa 880 mil vítimas de armas de fogo entre 1980 e 2012. A taxa anual de homicídios avançou 387% no período. Quase 25 mil jovens entre 15 e 29 anos são assassinados a cada 365 dias.

Os números mostram que não morremos por igual. Em alguns estados, a chance de um negro ser vitimado é 1.000% maior que a de um branco. De 2002 a 2012, a taxa de homicídios entre brancos passou de 14,5 para 11,8 por cem mil habitantes, enquanto a de negros avançou de 24,9 para 28,5. É a expressão estatística do aval que demos para a naturalização da violência. É a autorização que firmamos para que a história se repita.

Há vinte anos, em um agosto como esse, doze pessoas foram mortas na fazenda Santa Elina, em Corumbiara, Rondônia. Nove sem-terra, dois policiais e um rapaz não identificado são o saldo de se tratar um problema social com força bélica. Após o episódio, mobilizaram-se argumentos para dizer que os posseiros estavam errados por invadir uma propriedade privada, como se isso justificasse o resultado. O comandante da PM à época chegou a afirmar que aquela era uma lição que sua corporação havia dado à sociedade rondoniense. De outro lado, cada grupo tratou como especiais os seus mortos, ignorando os alheios, como se houvesse vidas mais e menos importantes.

Durante o julgamento, realizado em 2000, em Porto Velho, o promotor Tarcísio Leite Mattos fez história ao defender o direito dos policiais ao extermínio. “Ou o Brasil acaba com os sem-terra, ou os sem-terra acabam com o Brasil.” Mattos sintetiza a imperfeição de nossas instituições democráticas. Ao longo da carreira, defendeu inúmeras vezes o direito de uma corporação para atuar à margem da legalidade, sem que por isso fosse punido.

O ano de 2015, entendido como desdobramento dos anteriores, é farto em novos exemplos. Temos um presidente da Câmara capaz de controlar uma bancada suprapartidária indiferente a qualquer anseio social e totalmente subordinada aos interesses privados que defende. Temos um ministro da Justiça disposto a fazer aprovar uma legislação contrária a qualquer direito de reivindicação. Temos, a cada um ou dois meses, marchas como a de domingo 16, que contam com segmentos consideráveis que externam desapreço pela democracia.

O caso de Corumbiara evidencia outro traço desta incompletude democrática. O governador de Rondônia à época, o hoje senador Valdir Raupp (PMDB), não se vê obrigado a prestar contas à sociedade. Guarda para si informações que, em verdade, são públicas, avaliando que a preservação da imagem individual é mais importante que a construção da memória coletiva.

Não é diferente do atual governador paulista. Geraldo Alckmin é um notório defensor da chancela para que se faça da violência o principal instrumento de mediação social e, dentro disso, para que a PM mate muito. “Criamos uma força-tarefa com 50 policiais civis, 12 peritos e 8 médicos legistas para que as investigações sejam feitas o mais rápido possível. Não vamos descansar até que os responsáveis sejam presos. Nenhuma hipótese está sendo descartada pelas investigações”, afirmou após o caso da região metropolitana. É sua resposta-padrão. Uma resposta de quem sabe que não será cobrado mais adiante. Pelo contrário, recebeu no ano passado uma estrondosa aprovação eleitoral à política de mão dura seletiva.

A imprensa, é claro, tem imensa fatia da responsabilidade. Pelo óbvio: Datenas se multiplicaram pelo país à razão do crescimento do número de mortes, espraiando a sensação de medo tão central para a legitimação de respostas bárbaras e imediatistas a uma questão complexa e de longo prazo. Pelo não tão óbvio: ao forçar o esquecimento sobre episódios fundamentais, ajuda a criar uma sociedade com baixa capacidade para contextualizar, avaliar e evitar repetições.

Não é à toa que o caso de Corumbiara passou praticamente batido pela imprensa de alcance nacional. Primeiro, estamos falando de equipes jornalísticas que têm, as próprias, dificuldades severas de memória em meio aos cortes dos profissionais mais experientes. Depois, de uma mídia que perdeu de vista o interesse público em benefício do projeto de extermínio de um partido político que forneceu de lambuja todos os motivos para que esta finalidade se cumpra. Em terceiro lugar, e não menos importante, trata-se de um jornalismo declaradamente elitista. Pobres? Sem-terra? Rondônia? Deixa essa história pra lá. Assim como será relegada ao esquecimento a barbárie da Grande São Paulo. E a repetiremos. Muitas vezes.

* João Peres é autor de Corumbiara, caso enterrado, lançado pela Editora Elefante