Mulheres Livres conta a história de um grupo de militantes anarquistas que, nos anos 1930, em um contexto de extrema agitação política e social que desembocaria na Guerra Civil Espanhola, decidiu montar uma organização própria, formada apenas por mulheres, para tratar dos assuntos que, acreditavam, deviam ser tratados pelas mulheres — e imediatamente, sem esperar pela autorização de ninguém. Saúde, educação, cuidado dos filhos, amor livre, trabalho doméstico, formação profissional e, é claro, a luta contra o fascismo que tomava conta do país estiveram entre as pautas prioritárias da agrupação Mulheres Livres.

Passando por cima das determinações de federações e confederações que dirigiam o movimento libertário — das quais faziam parte, mas que pretendiam deixar as questões relativas às mulheres para “depois da guerra” —, o grupo defendeu que o processo revolucionário desencadeado pelos trabalhadores em resposta ao levante de Francisco Franco e suas hordas reacionárias, em 1936, deveria promover uma mudança total nas formas de vida dos espanhóis — e isso obviamente incluía transformar a vida das mulheres, que, na Espanha da época, eram vítimas da ignorância, da opressão e do silêncio, na medida em que amargavam o analfabetismo e uma extrema dependência da figura masculina, fosse o pai, o irmão ou o marido.

Por isso, mesmo durante os mais encarniçados enfrentamentos militares — dos quais muitas mulheres participaram, com fuzis em punho — e diante das extremas dificuldades de abastecimento trazidas pelo conflito, as militantes da Mulheres Livres jamais deixaram de difundir suas ideias libertárias em assembleias, reuniões, manifestações, artigos na imprensa popular e publicações próprias, como livros, folhetos, cartilhas e, sobretudo, a revista Mujeres Libres, escrita e editada apenas por mulheres, que teve treze números e apenas deixou de circular com a derrota definitiva das forças republicanas, em 1939.

Em Mulheres Livres, Martha A. Ackelsberg, professora emérita do Smith College, nos Estados Unidos, expõe a formação, os desdobramentos e as dificuldades enfrentadas pela agrupação — uma das experiências de emancipação feminina mais significativas do século XX. As análises e conclusões da autora se baseiam em uma exaustiva pesquisa documental em arquivos espalhados pela Espanha e pela Europa, além de entrevistas realizadas nos anos 1980 com várias militantes da organização — que, como muitos anarquistas, socialistas e liberais da época, se dispersaram pelo mundo para fugir da repressão franquista que se seguiu ao fim da guerra.

O resultado é um livro que explica detalhadamente como esse grupo de mulheres lutou pela revolução libertária na Espanha dos anos 1930, mas não só: Mulheres Livres traz reflexões sobre questões extremamente úteis para os desafios do movimento feminista na atualidade, sobretudo no que diz respeito aos debates entre diferentes visões sobre as origens da desigualdade de gênero e diferentes maneiras de lutar pela emancipação das mulheres — luta que a Federação Mulheres Livres também enfrentou em seu tempo.

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