Marx 2000: ler a teoria com novos olhos

Elefante está lançando Marx a contrapelo: contribuições para uma releitura da crítica da economia política. O livro tem 12 textos, apresentados aqui em nosso blog. Um trecho do prefácio de Jorge Grespan também já foi publicado por aqui. Abaixo, segue o início do capítulo dez, Marx 2000, texto de Robert Kurz traduzido por Bruno Serrano a partir do original (Marx 2000, Weg und Ziel, v. 2, n. 99, 1999)

Marx 2000
por Robert Kurz

Depois da derrocada dos socialismos de Estado, o capitalismo virou do avesso a famosa metáfora marxista do coveiro e a reivindicou para si. Mas se é cavada mais uma vez a cova da teoria de Marx, então a ciência acadêmica oficial certamente há de enterrar o cadáver errado. Embora esquartejada pelas ditaduras burocráticas dos socialismos de Estado com objetivos de legitimação, a obra de Marx não apresenta de fato, segundo seu próprio teor, uma teoria positiva da “construção socialista”, mas, bem ao contrário, uma teoria negativa da crise do moderno sistema produtor de mercadorias. O campo de referência lógico e analítico é, portanto, o capitalismo teoricamente extrapolado de seu desenvolvimento e apresentado à luz de sua futura crise de maturidade.

A instrumentalização ideológica em vista dos problemas de uma “modernização retardatária” na periferia do mercado mundial que ficou para trás em termos capitalistas (da Revolução de Outubro até os assim chamados “movimentos de libertação” do Terceiro Mundo) obscureceu completamente aquele núcleo teórico. Decerto não se trata aí de modo algum de um “equívoco” intrateórico, mas de um curso da história real: o século XX, na verdade, não foi dominado pela crise substancial do modo de produção capitalista, mas pelas crises de não simultaneidade histórica tais como produzidas a partir do declínio global do poder do capital e da produtividade no interior desse mesmo sistema. Quando os retardatários históricos reclamavam para si um Marx reduzido e mutilado como suporte ideológico de legitimação, para afinal se firmarem como sócios independentes e responsáveis no universo burguês do mercado mundial, isso era em certo sentido seu direito. Mas a tentativa tinha necessariamente de fracassar em virtude dos critérios daquela lógica do sistema, em cuja domesticação pela moderação estatal se acreditava.

O colapso do sistema de mercado planejado de maneira estatal deixou o capitalismo ocidental à sua própria sorte: ele se tornou agora um sistema total, unipolar, globalizado e “simultâneo”, já não havendo possibilidade de se empanturrar ideologicamente das estruturas externas de sua própria não simultaneidade histórica, insufladas até serem vistas como um suposto contrassistema. Pois a autolegitimação ocidental, por seu turno, havia de fato vivido sempre e apenas dos déficits da “modernização retardatária”, medida pelo estado de desenvolvimento dos países capitalistas mais avançados (ideologia do consumo de mercadorias, campanha de direitos humanos etc.). A partir de agora, o capitalismo deve se legitimar nele mesmo, e nisso ele falha miseravelmente. Ano após ano, torna-se cada vez mais implausível vender a miséria em massa, inexoravelmente crescente no Leste e no Sul, como mero “fardo legado” dos sistemas desvanecidos. Seria totalmente ridículo querer responsabilizar de algum modo, mais uma vez, aqueles antigos inimigos maus pela crescente pobreza em massa e pela degradação social no próprio Ocidente. O que acontece agora é sempre apenas efeito da maravilhosa e única “economia de mercado”.

Nessa situação social incerta, não se trata meramente de não se esquecer de Marx, mas antes de tudo de descobri-lo e de ler sua teoria com novos olhos, como teoria do desenvolvimento e da crise do moderno sistema produtor de mercadorias (um conceito que engloba logicamente o capitalismo ocidental e os sistemas do socialismo de Estado da modernização retardatária). Essa leitura da teoria de Marx “a contrapelo” de sua interpretação corrente requer duas coisas. Em primeiro lugar, sua historicização: isto é, que se lhe desempoeire os elementos nos quais o próprio Marx pensou, estando ainda no interior do horizonte da modernização burguesa. Em segundo lugar, para tal leitura é necessário inverter, por assim dizer, a polaridade da teoria de Marx, ou seja, entendê-la não mais como apresentação positivista das categorias capitalistas (que então deveriam ser “subjugadas” na forma não superada da subjetividade burguesa), mas, inversamente, como crítica radical imanente dessas categorias. Em outras palavras: deve-se reconhecer e superar as contradições historicamente condicionadas na teoria de Marx. Apenas com sinal negativo, ao invés de positivo, essa obra pode se tornar novamente uma carga explosiva teórica.

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