‘Não temos na nossa mesa a biodiversidade brasileira’
Por Guilherme Magalhães
Publicado na Quatro Cinco Um
Cobertura d’A Feira do Livro 2026, em mesa com a presença de Inara Nascimento e Rute Costa, autoras de Ajeum mi’u
Quem assistiu à mesa Floresta na boca, que reuniu a chef paulistana Bel Coelho, a antropóloga amazonense Inara Nascimento e a pesquisadora fluminense Rute Costa no Palco da Praça d’A Feira do Livro neste sábado (30), saiu com fome e provavelmente não olhou para o prato do almoço da mesma maneira.
Na conversa mediada pela jornalista Isabelle Moreira Lima, não faltaram menções a ingredientes e pratos da rica biodiversidade brasileira e ficou o recado de que comer é um ato político.
“Comida é relação. Quando a gente olha para um prato de comida e não consegue saber de onde veio o que a gente come, nem estabelece uma relação com esse território, com os corpos que produzem essa comida, a gente começa a primeira ruptura”, afirmou Nascimento.
Ela, que é mulher indígena sateré-mawé e se apresenta como amazonense de umbigo e roraimada de bucho, lembrou que essa ruptura “gera uma série de violências, que vão chegar nos nossos territórios, nos adoecimentos que nos acometem”. “Não ver esse caminho faz parte dessa estratégia, que segue sendo colonial”, arrematou.
Costa puxou esse fio. “A colonização nos fraturou. Ela se encerra do ponto de vista jurídico e político, mas a colonialidade segue como herança nos dias atuais, ordenando essa relação que a gente coloca aqui de devorar o mundo, de utilizar o máximo, de olhar para as pessoas e para a natureza como recurso”, afirmou a pesquisadora, que é mulher negra, cria do morro do Caonze/Kwanza e professora adjunta do Instituto de Alimentação e Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
As duas são autoras do recém-lançado Ajeum mi’u: confluências negras e indígenas em torno da alimentação no Brasil (Elefante), que traça o caminho da comida a partir da cozinha, da roça, do quintal e do terreiro para pensar nos alimentos como território de conhecimento.
Descolonização | “A colonização nos fere nesse ponto, da existência, porque condiciona a forma de viver a partir dessa lógica do acúmulo, do capital, dessa comida que não tem alma. Os ultraprocessados não têm alma. Não são nem alimentos. São produtos majoritariamente feitos a partir de compostos retirados a partir de substâncias do alimento, de produtos à base do petróleo e do carvão. Não tem vida”, afirmou Costa.
Coelho recordou uma visita que fez a uma escola ribeirinha na região do rio Iriri, um braço do Xingu, no Pará. Todos os alimentos usados no preparo das merendas eram oriundos da roça do entorno, fomentando uma economia circular, oferecendo alimento de ótima qualidade nutricional e fortalecendo a cultura alimentar do local.
“Ver isso numa reserva extrativista a 12 horas de barco de Altamira foi muito emocionante, de cair em lágrimas, com a diversidade do que eles estavam comendo, e que não tinha nada a ver com a alimentação escolar que a gente vê aqui em São Paulo”, disse a chef, autora de Floresta na boca: Amazônia – pessoas, paisagens e alimentos (Fósforo). Nesse relato de viagem pelo Pará, ela retrata a sociobiodiversidade amazônica sob o prisma dos sistemas alimentares locais e conta histórias de quem atua no começo dessa cadeia.
“Como um refrigerante chega com tanta facilidade em territórios ribeirinhos, em comunidades tradicionais, e corrompe hábitos do suco de açaí?”, questionou Coelho. “Isso a gente precisa pensar, então tributar, outra política pública, os industrializados, isso seria fundamental. Não estou falando só dos territórios, das pessoas que estão produzindo alimentos e mantendo a floresta em pé, mas também nos grandes centros urbanos, da gente se alimentar de menos industrializados, porque todo mundo está adoecendo com essa prática.”
Coelho reconheceu que a culinária europeia tem “coisas deliciosas”, mas afirmou estar num caminho contrário, de “descolonizar o próprio paladar”. “O nosso gosto foi muito colonizado e a gente não tem na nossa mesa a biodiversidade brasileira. Isso é um dos problemas para a conservação socioambiental.”
A paulistana confessou que vem de um “meio muito individualista, muito egoico, o mundo dos chefs de cozinha”. Ela pensava em escrever um livro de receitas tradicional, mas, à medida que mergulhou na pesquisa, isso perdeu o sentido. “Quanto mais eu pesquisava e mais relação eu tinha com produtores ou extrativistas, pensava que o que a gente faz é muito menos trabalhoso do que o que essas pessoas fazem: produzir alimento com floresta em pé.”












