Por uma proliferação queer de famílias — no plural, contra A Família

A Elefante está lançando Outra gravidez é possível: feminismo contra a família, de Sophie Lewis. Segue a orelha preparada para a edição:

“Meu livro é essencialmente uma defesa de que todos nós merecemos mais — sobretudo, mais mães”, afirmou Sophie Lewis em uma entrevista sobre Outra gravidez é possível. Para quem se horroriza com o subtítulo, feminismo contra a família, a autora lembra que assistimos impassíveis à desintegração familiar nas fronteiras entre o Norte e o Sul Global: famílias latino-americanas separadas pela polícia nos Estados Unidos, famílias palestinas riscadas do mapa nos territórios ocupados por Israel, famílias africanas a caminho da Europa submersas nas águas do Mediterrâneo.

As mesmas vozes que se levantam em defesa de uma certa ideia de “família” se calam diante dessas tragédias cotidianas. Do que estamos falando, afinal? “Quando defendo a abolição da família, estou me rebelando contra a chantagem de que precisamos nos contentar com relações definidas pelo sangue ou pela natureza”, explica. “O que proponho é uma proliferação queer de famílias, no plural, contra A Família.”

É justamente aqui que entra a gravidez, base do que nossas sociedades entendem por “família”. “É assombroso que permitamos que haja fetos dentro de nós”, escreve Lewis. “Diferentemente da maioria dos animais, centenas de milhares de seres humanos morrem todos os anos por causa de uma gravidez. E as coisas são dessa forma por razões políticas e econômicas.”

Assim, a autora dá início a uma complexa argumentação sobre a relação entre bebê e gestante, entre gestante e família, entre família e sociedade. Para isso, discute exaustivamente os dilemas relacionados à barriga de aluguel, em linha com as perguntas feitas pela socióloga Bruna Kern Graziuso no prefácio: “Por que uma pessoa gestante seria necessariamente uma mãe? Por que seria necessariamente uma mulher?”.

Contra as correntes do feminismo que consideram a barriga de aluguel apenas como uma forma de explorar mulheres pobres que não têm alternativa de sustento a não ser vender o fruto do próprio ventre dotado de uma carga genética alheia, Lewis afirma que “precisamos ouvi-las quando dizem que essa prática é mais rentável que outros trabalhos. Ignorá-las é uma forma de bioconservadorismo que retira a sua humanidade”.

Aqui emerge outro tema central do livro: a gestação como trabalho e a gestante como trabalhadora. “A atividade gestacional possui jornada de 24 horas por dia, sete dias por semana, por um período de 37 a 42 semanas”, recorda Bruna Kern Graziuso. “Ser contra ou a favor da barriga de aluguel é irrelevante. A questão é: por que devemos ser mais contra esse trabalho do que contra outros empregos de risco?”

Sophie Lewis argumenta que “a indústria da reprodução assistida e da barriga de aluguel é uma extensão lógica de um mundo onde as crianças, consideradas biogeneticamente, são posses naturais de seus pais. A barriga de aluguel é a mais virulenta expressão da sacralidade da família e da biogenética como destino.”

Eis as amarras que este livro pretende romper. E o futuro utópico vislumbrado por Sophie Lewis para as configurações familiares, expresso na parte final de Outra gravidez é possível, passa por ideias já defendidas por feministas lésbicas, queer e marxistas negras, as quais podem ser resumidas em uma frase proferida pelas mães solo negras nos anos 1980: “No futuro, as crianças não pertencerão ao patriarcado, mas tampouco pertencerão a nós; pertencerão apenas a si mesmas”.

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