Capitalismo, classe e crise climática: nós entendemos tudo errado

Elefante está lançando Capitalismo na teia da vida: ecologia e acumulação de capital, de Jason W. Moore, organizador de Antropoceno ou capitaloceno, lançado em 2022. Trata-se de um clássico do pensamento ecológico radical, que parte da ideia de que o capitalismo atua como uma forma de organizar a natureza. Segue o início do prefácio à nova edição, inédito:

Natureza e outras palavras perigosas: Marx, método e o ponto de vista proletário na teia da vida

Capitalismo, classe e crise climática: nós entendemos tudo errado. Não os fatos. As mudanças climáticas são reais — e implacáveis. Ainda que não signifiquem uma catástrofe existencial — como os mestres da humanidade querem nos fazer acreditar —, as condições da vida no planeta mudarão de modo significativo no curso do próximo século. Elas já estão passando por mudanças dramáticas. Os níveis dos oceanos estão subindo. A produtividade agrícola está no limite. Quem trabalha ao ar livre está desidratando sob o calor do verão, e a produtividade laboral — em ambientes internos ou externos — está estagnando. Geleiras do tamanho de países estão se desprendendo. A biodiversidade sofre. Os fatos são bem conhecidos por todos nós. O que molda a política é o nosso entendimento desses fatos.

A crise climática é real, portanto, e o capitalismo é o culpado. Apenas afirmar isso, no entanto, dificilmente resolverá as coisas. Palavras de ordem são fáceis: “mudanças sistêmicas, não climáticas”. Mas uma compreensão errada sobre “o sistema” tem implicações graves. Depois do frenesi dos estudos sobre globalização da virada do século, intelectuais “críticos” convenceram muitos de nós a pensar que o problema do capitalismo está na fantasia dos mercados que se autorregulam, e não na exploração de classe.

Temos aí uma distinção que produz uma diferença real e gera prioridades políticas divergentes, com base em interpretações históricas divergentes. O importante é como pensamos e analisamos — e então agimos sobre — os “sistemas”. (O uso do termo, aqui, implica o significado comunista pré-guerra, e não sua versão pós-guerra, mais tarde reapresentada pelo grupo à frente do relatório Limites do crescimento [Meadows et al., 1972].) É esse o ponto de vista marxista, dialeticamente relacionado à investigação histórica e a uma crítica penetrante ao “concreto representado” que emerge dos fetiches que buscam controlar a imaginação histórico-mundial — e, com ela, a consciência proletária (Marx, 1973, p. 100 [2011, p. 54]). Nossa avaliação histórico-mundial para as origens e o desenvolvimento da crise planetária determina nossas prioridades políticas na crise climática.

Minha perspectiva interpretativa e política é moldada pela insistência de Marx e Engels no método e na práxis proletários. O proletariado, salientam eles, “só pode, portanto, existir histórico-mundialmente”, em sua “relação dupla — de um lado, como relação natural, de outro, como relação social” (Marx & Engels, 1970, p. 26, 20 [2007, p. 39, 34]). Essas questões de poder, lucro e vida têm sido minha obsessão pelas últimas três décadas. Capitalismo na teia da vida representa um momento importante nessa jornada rumo à síntese. A começar com a história do trabalho, passei esses anos confrontando os antagonismos metabólicos do capital, dialeticamente ligados à formação de classe, à estrutura de classe e à luta de classe em suas múltiplas expressões.

Como percebi, a ontologia de Marx é crucial para entender tudo isso. Trata-se de uma teoria da vida-trabalho (labor theory of life). Longe de ser um reducionismo ao trabalho, que levaria a um formalismo, a um monismo não dialético ou a alguma outra patologia burguesa, Marx lançou o materialismo histórico com uma crítica dupla. Primeiro, como crítica ao “homem abstrato” e à “natureza abstrata” (Marx, 2007, p. 142[2004, p. 115]). É esse o tema que percorre os Manuscritos econômico-filosóficos e A ideologia alemã. Como cristalizado nas célebres “Teses sobre Feuerbarch”, Marx denuncia o fetiche do Homem — a inicial maiúscula é dele — e insiste nos “homens históricos reais” no “conjunto das relações sociais” (Marx & Engels, 1970, p. 34-5, 197-8 [2007,p. 30, 534-5]).

Quais são as pré-condições desse conjunto? Forças não dialéticas, sem dúvida, a começar pelas “condições naturais” do clima e da topografia. A segunda crítica de Marx é reconstrutiva e reage às tentações do naturalismo burguês e do determinismo ambiental. Essa alternativa coloca em primeiro plano o processo de trabalho como eixo ontológico e histórico sobre o qual ocorrem as “modificações” do “restante da natureza” (Marx & Engels, 1970, p. 7 [2007, p. 87]). Trata-se, aqui, de antagonismos dialéticos: aquilo que tentei capturarem minha análise para a criação de ambientes (environment-making) centrada no trabalho. O processo de trabalho não é produto do “homem abstrato”. O homem abstrato é um fetiche. Em vez disso, o trabalho é o momento ativo da evolução humana: “[o trabalho] criou o ser humano” (Marx & Engels, 1970, p. 18 [2007, p. 34-5]; Engels, 1970,p. 251 [2020, p. 337]). Em suma, o “homem abstrato” (e a “natureza abstrata”) é o “concreto representado”; o homem histórico, em oposição, é o produto do trabalho, um tipo específico de “força natural” com a qual não só paisagens mas também corpos, discursos, cérebros e todas as condições da socialidade humana se formam. Daí o registro duplo da ontologia de Marx e as premissas mobilizadoras do materialismo histórico: o trabalho, “de um lado, como relação natural, de outro, como relação social” e como relação de produção imediata e de reprodução intergeracional (Marx & Engels, 1970, p. 18[2007, p. 34]). Na teoria da vida-trabalho de Marx e Engels, a filosofia da práxis subsidia a visão estratégica do proletariado à medida que o capitalismo se vê diante de seu distintivo complexo de crises, marcado por seus próprios antagonismos dialéticos e não dialéticos. Um materialismo histórico incapaz de compreender de que forma as várias sociedades de classe e seus antagonismos dialéticos são sobre-determinados por ciclos solares, pelo vulcanismo e por todos os tipos de eventos e padrões geofísicos — antagonismos não dialéticos— não será capaz de compreender o passado, o presente e nossas possibilidades de futuros socialistas.

A teoria da vida-trabalho de Marx e Engels nos leva a entender as lutas de classes e suas múltiplas expressões ao longo dessas condições histórico-mundiais mutáveis. Richard Levins e Richard Lewontin capturaram o argumento metodológico quase trinta anos atrás:

Não há organismo sem ambiente, mas não há ambiente sem organismo. Há um mundo físico fora dos organismos e esse mundo passa por certas transformações que são autônomas. Vulcões entram em erupção, a Terra faz o movimento de precessão em torno de seu eixo de rotação. Mas o mundo físico não é um ambiente, ele é apenas as circunstâncias a partir das quais os ambientes podem ser feitos. […] [Os] organismos reconstroem continuamente o ambiente, em todos os momentos e em todos os lugares. Cada organismo consome recursos necessários para sua sobrevivência, e produz resíduos que são tóxicos para si mesmo e para outros. […] Uma consequência da codeterminação do organismo e seu meio ambiente é que eles coevoluem. À medida que a espécie evolui em resposta à seleção natural em seu ambiente atual, o mundo que ela constrói em torno de si mesma é ativamente alterado. […] [Os] organismos são os criadores e recriadores ativos de seu meio. […] [Uma] ecologia política racional demanda esse conhecimento. Não se pode fazer uma política ambiental sensata com o mote “Salve o meio ambiente” porque, primeiro, “o” meio ambiente não existe, e, segundo, porque toda espécie, não apenas a espécie humana, está a todo momento construindo e destruindo o mundo que habita. (Lewontin & Levins, 1997, p. 96, 98 [2022, p. 49, 51]).

Capitalismo na teia da vida — e as conversas ecológicas-do-mundo mais amplas em que este livro está inserido — é um esforço incessante para encontrar uma explicação histórico-mundial para o capitalismo com o uso desse método (Moore, 2022b). Sua ontologia socioecológica é o processo de trabalho: a relação metabólica ativa que forma a socialidade humana e é remodelada e redirecionada pelo domínio de classe da burguesia. Sua primeira articulação foi elaborada por Marx e Engels nos anos 1840. Marx amplificou esses argumentos ao longo de toda a vida, sobretudo n’O capital. Marx e Engels rejeitaram a Aritmética Verde — que soma Homem, Sociedade e Natureza — porque esse método expressa e reforça as relações reais da acumulação primitiva e do gerencialismo capitalista. A Aritmética Verde mantém uma cisão ao se valer da separação histórica entre os produtores diretos e os meios de vida. Por esse motivo, a temática do método, que está no âmago de Capitalismo na teia da vida, não é uma questão trivial. O método dialético é fundamental para a luta de classes e para a filosofia da práxis no “solo da história real” (Marx & Engels, 1970,p. 28 [2007, p. 43], grifo nosso; Moore, 2022c; 2023d).

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Foto: Jan Tang / Pexels

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