Gideon Levy: ‘Só restam o apartheid eterno ou a democracia entre o rio e o mar’

Por Sara Salbert
Publicado em Revista Veja

O jornalista e escritor israelense Gideon Levy está no Brasil entre os dias 3 e 8 de agosto para o lançamento de seu novo livro O massacre de Gaza: relatos de uma catástrofe, publicado pela Editora Elefante. Colunista do Haaretz, uma das principais publicações de Israel, desde 1982, ele dedicou mais de quatro décadas a documentar os impactos da ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia sobre a sobre a população palestina.

Nascido em Tel Aviv e filho de judeus checoslovacos sobreviventes do Holocausto, Levy recebeu alguns dos principais reconhecimentos do jornalismo israelense e internacional, como o Prêmio Sokolov de Jornalismo (2021), o Olof Palme (2016) e o Paz através da Mídia (2012). A VEJA, ele falou sobre as perspectivas para o cessar-fogo em Gaza, a possibilidade de mudanças na política israelense após a era Benjamin Netanyahu, o papel dos Estados Unidos no conflito e os obstáculos para uma solução duradoura entre israelenses e palestinos.

Apesar do acordo de cessar-fogo em Gaza vigorar desde outubro de 2025, Israel continua os bombardeios contra o enclave palestino. Na prática, o que pode ser feito para encerrar a guerra em definitivo?

A resposta simples seria um telefonema de Donald Trump para Benjamin Netanyahu. No momento em que os americanos disserem a Israel para parar, a guerra será interrompida. Tudo depende muito dos Estados Unidos e de uma pressão internacional massiva, que infelizmente só costuma surtir efeito quando vem dos americanos. Sem essa pressão, o governo israelense continuará com suas ações.

O país conseguiria manter sua campanha militar atual caso perca o apoio do seu maior aliado, os Estados Unidos?

Com certeza não, caso os americanos parem totalmente de fornecer armas. Israel depende totalmente dos Estados Unidos. Se isso acontecesse, Israel não teria escolha a não ser interromper imediatamente as guerras e parte das ocupações na Cisjordânia e no Líbano. Atualmente, já é claro que o apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel está com os dias contados. A atual política em relação a Israel durará, no máximo, até o fim do mandato de Trump, caso os democratas assumam o poder.

Pesquisas indicam que Netanyahu deve ser derrotado nas eleições marcadas para outubro. Existem chances reais de mudança no governo?

É quase certo que Netanyahu não terá a maioria no Knesset, o parlamento israelense, e que haverá um governo diferente, com potencial de ser melhor em muitos campos. Mas não nas questões centrais. Nenhum dos membros da oposição sionista judaica contestou o que o que está acontecendo em Gaza, nem admite haver uma ocupação ou um apartheid. Portanto, embora as coisas possam mudar em alguns aspectos, não se deve esperar guinadas fundamentais nessas questões principais.

Quem seria a melhor opção para substituir Netanyahu hoje?

Está claro que o próximo primeiro-ministro será o ex-chefe militar Gadi Eisenkot. Ele é um homem decente, mas não se deve esperar que faça uma revolução. E Israel precisa de uma revolução.

Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional, defendeu que palestinos deixem Gaza. A remoção da população é um objetivo do governo israelense ou apenas da ala mais radical?

Muitos israelenses adorariam ver uma limpeza étnica em Gaza, mas a maioria percebe que isso não é prático porque os palestinos não têm para onde ir e o Egito não permitiria a entrada deles. É um objetivo oculto dentro da liderança israelense, mas não é o declarado. São ideias nazistas que precisam ser classificadas como tal. Embora Ben-Gvir queira retirar toda a população de Gaza, ele não possui uma solução prática para realizá-lo.

Seus livros circulam mais fora de Israel do que dentro. Sente dificuldade em dialogar com a população israelense?

Não existe diálogo. Desde que a guerra começou, parei de ser convidado para a TV israelense, então escrevo apenas para os leitores do Haaretz. De fato, sou muito mais lido fora do que dentro do país, embora para mim fosse mais importante ser lido internamente. Os israelenses não querem ouvir e não querem saber.

O senhor mora em Tel Aviv, é chamado de traidor por muitos israelenses, mas segue escrevendo. Já pensou em parar? Não teme sair na rua?

Não tenho medo nenhum. Como não apareço mais na TV, sou menos reconhecido e me sinto seguro. Além disso, como um judeu trabalhando para o Haaretz, que é muito respeitado, ainda possuo total liberdade de expressão. O que me motiva, após 40 anos fazendo isso, é que eu não conseguiria fazer outra coisa.

Depois de tudo que documentou, ainda acredita numa solução de dois Estados?

Não é mais uma possibilidade. Já foi uma boa possibilidade, mas depois que os colonos conquistaram a Cisjordânia e não deixaram espaço para um Estado palestino, devemos esquecer essa ideia. As únicas alternativas que restam são o apartheid eterno ou a democracia entre o rio e o mar.

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Foto: Gideon Levy em Niterói-RJ, em agosto de 2026. | Crédito: Vitor Vogel

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