Um materialismo corporificado em ação — entrevista com Ariel Salleh

Um materialismo corporificado em ação*
Por Gerry Canavan, Lisa Klarr e Ryan Vu

*Último capítulo de Ecofeminismo como política: a natureza, Marx e o pós-moderno, de Ariel Salleh, lançado neste ano com tradução de Sara Hoff, prefácios de John Clark & Vandana Shiva, e orelha de Felipe Milanez. Segue abaixo o início da entrevista que ocupa 31 páginas da edição:

Ariel Salleh tem trabalhado na interseção entre ecologia, feminismo e materialismo desde o início dos anos 1980. Sua ênfase na necessidade de uma análise materialista corporificada do capitalismo global fornece um antídoto crucial aos idealismos objetivos do pensamento pós‑moderno e pós‑estruturalista. Ecofeminismo como política: a natureza, Marx e o pós-moderno, seu livro seminal, busca politizar o ecofeminismo, um ramo do pensamento ecológico muitas vezes considerado “confuso” e “essencialista”, especialmente na versão da década de 1970. Em Ecofeminismo como política, Salleh evidencia a formação ideológica Homem/Mulher = Natureza para ressaltar como o alinhamento da “mulher” com a “natureza” permite uma apropriação instrumentalista tanto da natureza como da mulher‑como‑natureza. As mudanças climáticas, a agricultura excessiva, a acidificação dos oceanos — todas as crises ecológicas decorrem dessa estrutura ideológica básica. Em outras palavras, todas essas crises são relacionadas ao sexo e ao gênero. Para Salleh, trata‑se da complicação oculta que subjaz à divisão entre homem e natureza e a conserva, apesar do trabalho de uma análise crítica que, de outra forma, seria astuta. Seu livro é, portanto, uma intervenção fundamental nos campos do marxismo, do socialismo e da ecologia, e foi com a intenção de trazer as ideias do feminismo para a discussão com estudiosos que lutam por objetivos ecossocialistas que Salleh se juntou, em 1988, ao conselho editorial da revista Capitalism Nature Socialism, cargo que continua ocupando. Salleh possui uma compreensão corporificada do materialismo sobre a natureza, a sociedade e o capitalismo, que evoluiu ao longo de décadas de ativismo. Ela foi coorganizadora do Movement Against Uranium Mining, uma das fundadoras do Partido Verde da Austrália, participante de campanhas locais de captação de água, representante da ecologia no Gene Technology Ethics Committee do governo australiano e signatária do Manifesto Ecossocialista de 2001. Os editores da revista Polygraph, da Universidade Duke, Estados Unidos, conversaram com Ariel Salleh por e‑mail no outono de 2009.

Polygraph | Ao longo dos anos, você já falou muito do dualismo conceitual “humanidade versus natureza”, mas, entre as pessoas que debatem a questão, há as que contestam qualquer noção de “natureza” — até mesmo apelando a uma “ecologia sem natureza”.

Ariel Salleh | Bem, acho que estamos falando de preocupações diferentes. A tese de Tim Morton em Ecology Without Nature se assemelha mais ao que fez Judith Butler (1993 [2019]) ao expulsar do feminismo a ideia de “mulher”. Cada autor pretende demonstrar que a linguagem nunca é adequada a seu objeto. No entanto, de modo paradoxal, por trás desse construcionismo incansável existe uma busca efetiva por certeza positivista. E tenho a impressão de que os adiamentos de Morton acabam por reificar sua natureza esquiva e personificá‑lo como um trickster, movimento que ecoa o antigo fascínio de Donna Haraway (1991 [2023]) pela figura do coiote. Três décadas de pós‑estruturalismo, “virada linguística” e fuga dos essencialismos sugerem que a viagem rumo à pureza conceitual sempre afunda em um pântano semântico. Por outro lado, é possível reconhecer a natureza politicamente problemática de termos como “natureza” ou “mulher” e, ainda assim, trabalhar com eles. Na verdade, se a teoria política pretende se embasar na práxis, precisa amenizar ou suspender essas nuances epistemológicas para alcançar as pessoas na vida cotidiana. Para reforçar a resistência ecológica das mulheres comuns ou incentivar a sensibilidade sexual e de gênero nos homens ativistas, é preciso usar palavras que eles conheçam. Isso significa trabalhar no meio ideológico e ao mesmo tempo contra ele — e com as pessoas, para que possam desenvolver a reflexividade. O próprio Morton rejeita vagamente apolítica ecofeminista, embora de forma pouco acadêmica, sem citações para fundamentar sua opinião. No entanto, se ele se envolvesse com nossa bibliografia, descobriria que ela ecoa seu desejo de levar a ecocrítica mais a fundo do que a ecologia profunda, transportando-a aos domínios da “ecologia obscura”. Sua rejeição do encantamento ingênuo da ecologia profunda com o cientificismo da teoria dos sistemas já fazia parte de nosso pensamento há 25 anos (Salleh, 1984b). A análise ecofeminista também antecede o uso que Morton faz da filosofia da não identidade de Adorno, do quiasma e da teoria quântica, para desafiar o dualismo natureza/humanidade de uma forma desconstrutiva (Salleh, 1997, p. 150‑82).

Não há como negar: os humanos são a natureza em forma corporificada. Se as pessoas não fossem feitas de carne terrena, não haveria o metabolismo que nos mantém vivos. Essa divisão entre humanidade e natureza é completamente histórica, assentada na psicologia profunda, um dispositivo do capitalismo, e nas formações patriarcais pré‑capitalistas. Mas a deformação estática e essencializada da natureza não deve ser confundida com a potencialidade material da natureza, assim como a deformação conhecida como feminilidade não deve ser confundida coma potencialidade material de uma corporificação específica. Do mesmo modo que os humanos existem em continuidade com a natureza, também não existe oposição binária, mas sim um continuum de tipos e disposições corporais, nos sexos e gêneros sexuais culturalmente inscritos (Salleh, 1984a).

O conhecimento humano da natureza selvagem e da natureza corporificada é corrompido por discursos politicamente contaminados, mas isso não significa que essas entidades não tenham existência fora da linguagem. Embora em decadência, essa popular suposição pós-moderna desafia o senso comum. De onde isso veio, então? Com certeza, as universidades do Norte Global tiveram um papel importante em sua propagação. Como observam as ecofeministas materialistas, as economias patriarcais capitalistas estão fortemente alicerçadas em uma profunda alienação humana da natureza, gerada pela exploração do trabalho e dos recursos das pessoas. A racionalização dessa condição permeia todas as práticas e estruturas capitalistas, incluindo instituições hegemônicas como a academia. O feminismo radical de base que se estabeleceu na década de 1970 foi rapidamente contido e sanitizado por uma nova disciplina chamada “estudos de gênero”. Vertentes mais críticas do ambientalismo logo foram despolitizadas pelos “estudos culturais”. Se, no início, os praticantes do pós-estruturalismo eram metodologistas, rapidamente passaram a agir como ontologistas do capital.

Polygraph | Para problematizar ainda mais a divisão entre humanidade e natureza, o que devemos fazer com as repetições do binário que alinham os homens europeus com a natureza contra a influência de uma cultura excessivamente feminizada? Como essas figurações complicam o binário natureza/cultura, do qual o ecofeminismo tira grande parte de sua força interpretativa?

Salleh | Não encontrei nenhuma pesquisa que misture os pares masculino/feminino, história/natureza, progresso/retrocesso, utilizados pelas ecofeministas para expor as operações da mentalidade globalizante. Mas consigo entender que, em um campo ideográfico como a literatura ou os estudos culturais, seja possível encontrar casos estranhos que escapam aos dualismos. No entanto, as únicas “culturas completamente feminizadas” que conheço são os matriarcados residuais no sul da China e no México, e elas não representam uma ameaça para o complexo de corporações de telecomunicações, farmacêuticas e nucleares. O mito bíblico da Criação alia Eva com a serpente, enquanto Adão representa a civilização e o Deus-pai transcendente. Da mesma forma, no período em que bruxas eram mandadas à fogueira, as mulheres foram acusadas de bestialidade. Dito isso, o conceito tradicional de “mulher” é híbrido. Ora ela é construída como a Madona (domesticada pelos costumes patriarcais), ora como a prostituta (natureza imunda). Mas cada uma dessas feminilidades é passível de se tornar recurso nas mãos dos homens. Na esfera privada, a Madona/mãe/dona de casa “medeia a natureza” para a família. No entanto, mesmo no emprego público, concebe-se implicitamente que as trabalhadoras mulheres estão “mais próximas da natureza”, e elas recebem salários significativamente mais baixos comparado aos dos homens. É claro que as mulheres vivas não são nenhuma dessas essências — Madona/prostituta —, mas uma mistura de muitas aprendizagens, inclusive atributos ditos masculinos. A justificativa muçulmana de que as mulheres devem se cobrir por causa dos potentes impulsos naturais dos homens usa a via da Madona para a opressão, mas o dualismo e o processo de alteridade ainda estão lá. Identificações esporádicas dos homens com a natureza aparecem em declarações de direitistas paroquiais. Mas a imagem deles é a da natureza masculina como força bruta e controle — o que não abala excessivamente as categorias familiares. Creio que a pergunta a fazer seja: quem é sujeito e quem é objeto nessas fórmulas? Será preciso reunir essas restrições irracionais em diferentes combinações para legitimar o exercício do poder.

Na bem‑vinda antologia Material Feminisms, organizada por Stacy Alaimo e Susan Hekman, vários acadêmicos visitam o terreno epistemológico ecofeminista abordando a divisão humanidade/natureza. Como observa Alaimo, por muito tempo a natureza e o biológico “foram o ‘abjeto’ do feminismo — aquilo que, ao ser expulso do ‘eu’, serve para definir o ‘eu’” (Alaimo, 2008, p. 237). O que é mais interessante nessa coleção de ensaios é que as mulheres que outrora se ocupavam da virada linguística — Elizabeth Grosz, Donna Haraway, Vicki Kirby — agora levam a sério “a própria matéria” dos corpos e das naturezas. Nem sempre se trata de uma emancipação total do corpo enquanto texto inscrito, mas está surgindo uma nova apreciação da agência material. A própria Alaimo usa o termo “transcorpóreo” para descrever o espaço entre a humanidade e a natureza como um lugar para novos trabalhos teóricos. De fato, o corpo passa a conhecer a si mesmo por meio de suas interações ambientais. As alusões e as permutações discursivas podem se prolongar até o infinito, mas a ação política exige que as pessoas pensantes testem sua análise no fazer material. Aqui, a metáfora Mulher = Natureza chama a atenção para o roubo maciço dos trabalhos reprodutivos das mulheres — roubo que está na própria base do capitalismo. Essa metáfora Mulher = Natureza remete ao recurso: uma apropriação de tempo e energia que pode ser quantificada como “dívida corporificada”. No entanto, a mudança de paradigma não está completa. Abandonar a fugidia “materialidade” pós‑moderna do corpo corpóreo é apenas o começo.

O próximo passo será compreender a implicação única das mulheres no metabolismo humanidade/natureza. Isso deve ser articulado com o materialismo da dominação econômica. Para tanto, a virada linguística será complementada por lentes múltiplas e pelo pensamento transdisciplinar. Além disso, é impossível escrever de forma sensata sobre política sem experiência prática nas bases. Meu próprio ativismo atravessou diversos movimentos, desde a justiça social até a ecologia e vice-versa, e descobri que a análise do binário humanidade/natureza ajuda a interligar variadas vertentes políticas. O posicionamento da humanidade (leia‑se do homem) acima da natureza marca a produção eurocêntrica de conhecimento, da religião à filosofia e à ciência, e a mesma convenção é cúmplice do colapso dos sistemas de suporte à vida na Terra. Sim: estou dizendo, por exemplo, que as mudanças climáticas têm bases de sexo e gênero. A dominação da natureza é intrínseca à masculinidade tal como a conhecemos — um identidade pré-consciente mas social, para a qual a mãe (e as mulheres, como corpos em geral) existe como terreno primordial. A sublimação dessa atitude é amplificada na geopolítica quando o Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC) reduz o poder regenerativo da natureza (e das mulheres) a “fontes e sumidouros”. Os efeitos sociológicos dessa dissociação entre sexo e gênero se traduzem na violência contra as mulheres, na expropriação econômica e no silenciamento político. Mas o binário humanidade/natureza também pode enfraquecer os esforços dos movimentos radicais — desde a ecologia profunda, na direita, até o ecossocialismo, na esquerda. Não haverá mudança duradoura até que essa ruptura entre sexo e gênero, carregada de libido, seja reconhecida como fenômeno político. Não é uma tarefa fácil. O apelo à reflexividade histórica ameaça abrir um abismo de dúvida — desorientação masculinista. É muito mais fácil fantasiar um controle de ordem superior sobre a carne da natureza por meio da transcendência tecnológica de seus poderes. Segundo minha interpretação ecofeminista de Michael Hardt e Antonio Negri, essa gestão “afetiva” é a verdadeira pauta do cognitariado (Hardt & Negri, 2004,p. 132‑49, 172‑5). Enquanto isso, podemos ter certeza de que a “Mãe Terra” continuará a gerenciar os riscos científicos e a remediar os vazamentos industriais…

(…)

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