A vida em um perpétuo agora: ainda nos resta algum tempo neste mundo?

Segue um trecho da introdução de O progresso dessa tempestade, novo livro de Andreas Malm aqui na Elefante.

Será que ainda nos resta algum tempo neste mundo? Em um ensaio publicado em 2015 na New Left Review, Fredric Jameson reiterou o diagnóstico que fizera, trinta anos antes, para a pós-modernidade como a “predominância do espaço sobre o tempo”. Continuamos a viver num estágio em que não há nada além do presente. Tanto o passado quanto o futuro se dissolveram em um perpétuo agora, que nos aprisiona em um ponto sem encadeamentos para a frente ou para trás: apenas a dimensão do espaço se estende em todas as direções, na superfície uniforme de um mundo globalizado em que incontáveis fios conectam todos a todos. O tempo deixou de fluir — ou, nas palavras originais de Jameson em Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio:

Agora habitamos a sincronia e não a diacronia, e penso que é possível argumentar, ao menos empiricamente, que nossa vida cotidiana, nossas experiências psíquicas, nossas linguagens culturais são hoje dominadas pelas categorias de espaço e não pelas de tempo, como o eram no período anterior do alto modernismo.

Mais do que qualquer outra coisa, essa mudança de dimensões marca o início da pós-modernidade — e aqui estamos, ainda.

Esse diagnóstico depende da erradicação da natureza. O argumento de Jameson segue mais ou menos assim: na era moderna, amplos campos de velha natureza continuaram espalhados em meio aos novos e fervilhantes centros de fábricas e mercados. Uma rápida viagem levaria o modernista de volta para o vilarejo rural onde nascera; formas antigas de vida polvilhavam todos os horizontes, e o modo moderno se acelerava nos limites de uma paisagem vinculada ao natural e ao imemorial. Era esse contraste que fazia os modernistas sentirem aquele movimento do tempo — do velho para o novo, rumo ao futuro — que estruturava sua cultura de modo tão fundamental. Hoje, esse elemento de comparação se foi. Camponeses, lordes, artesãos, vendedores ambulantes desapareceram de vista, e com eles “a natureza foi triunfalmente cancelada”. No lugar de vilarejos, há subúrbios; não importa para quão longe viaje o pós-modernista, ele encontrará habitantes de um mesmo presente cultural, que assistem aos mesmos programas de televisão ou — para atualizar a análise — postam as mesmas fotografias nas mesmas redes sociais. O novo é a única alternativa e, por isso mesmo, perde sentido e brilho, de modo que, em vez de andarmos para a frente, parecemos estar sempre atolados no mercado automatizado da monotonia do novo. A pós-modernidade, assim, “é o que se tem quando o processo de modernização está completo e a natureza se foi para sempre”; e, sem “a ideia da natureza ou do natural como um conteúdo ou referente últimos”, não é possível haver sensação de tempo: ficamos encalhados em uma megalópole onde superfícies de vidro refletem umas às outras, imagens e simulacros governam dia e noite, e um jogo desenfreado de máscaras e papéis sem substância real, material, se repete sem cessar. Mas uma tempestade se aproxima dessa cidade.

A condição da pós-modernidade de Jameson pode ser reconhecida na vida em Nova York tal como retratada por Ben Lerner no livro 10:04. Inverdades e imitações parecem governar cada passo dado pelo narrador-protagonista, que trabalha na criação de uma falsa troca de cartas com autores célebres. Uma amiga pede que tenham um filho juntos, mas sem fazerem sexo; em vez disso, ele embarca em um trabalhoso processo no qual assiste a filmes pornográficos, se masturba e entrega o sêmen para inseminação artificial. O narrador fica desnorteado com uma instalação de arte de 24 horas de duração chamada The Clock, composta de trechos de milhares de filmes integrados em uma sequência contínua, de modo que a cena do relâmpago às 10h04 da noite no filme De Volta para o Futuro (1985) seja reproduzida em tempo real exatamente no mesmo horário para o público, e assim por diante ao longo de todo o dia e toda a noite, com a concretização da “derradeira transformação do tempo ficcional em tempo real”.

A Nova York de Lerner, no entanto, está sitiada. O romance começa com a aproximação de um “sistema ciclônico incomumente grande” e termina com a chegada cataclísmica de outro. “Por toda a costa, de norte a sul, casas foram destruídas e inundadas, dali a pouco um bairro no Queens estaria em chamas. Equipes de emergência pescavam os corpos dos que se afogaram durante a invasão das águas; não dava para saber quantos sem-teto haviam perecido.” Uma ponta irrefutável de realidade perfura a narrativa. O protagonista submerge em um fluxo bastante palpável de tempo: ele relembra esses “seis anos caminhando por um planeta em aquecimento”. Quando o ar em torno da Union Square se torna“ pesado de água em fase gasosa”, com “uma umidade tropical que não era nada natural em Nova York, uma atmosfera funesta”, o tempo comum se desliga, o ar parece “o próprio tempo derrotado caindo do céu”. O protagonista afunda em uma obsessão com a temporalidade enquanto rumina sobre o que acredita ser a origem de todas essas tempestades: as mudanças climáticas.  (…)

(…)  Não há sincronicidade nas mudanças climáticas. Hoje, mais do que nunca, habitamos o diacrônico, o discordante, o incipiente: os combustíveis fósseis de centenas de milhões de anos de idade, a combustão em massa ocorrida ao longo dos últimos dois séculos, o clima extremo que já foi gerado a partir daí, as jornadas rumo a um futuro infinitamente mais extremo — a menos que algo seja feito agora—, o rastro de emissões presentes que vai avançando para bem longe. A história voltou subitamente à vida por meio de uma natureza que, também ela, ressurgiu. Ainda estamos em estágios muito iniciais, mas nossa vida diária, nossa experiência psíquica, nossas respostas culturais e até mesmo nossa política já dão sinais de terem sido tragadas por forças planetárias para dentro do buraco do tempo, com a dissolução do presente tanto em passado quanto em futuro. A pós-modernidade parece ter sido visitada por sua antítese: uma condição de tempo e natureza que conquista cada vez mais espaço. Vamos chamá-la de “condição de aquecimento” (warming condition).

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Foto: Casas inundados na Índia / Crédito: Imad Clicks / Pexels

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