A submissão glorificada
Por Mariana Serafini
Publicado na Carta Capital
Mulher virtuosa, quem a achará?” É com o célebre trecho bíblico de Provérbios 31 que a vilã Virgínia, interpretada por Bruna Linzmeyer, atrai mulheres em busca de sua “melhor versão” em Virtuosas, terror social de Cíntia Domit Bittar que estreou nos nos cinemas brasileiros na quinta-feira 24. O versículo, caro ao imaginário evangélico, serve de portal para um retiro VIP de mentoria cristã, prática cada vez mais comum entre fiéis. O refúgio paradisíaco, a estética clean em tons pastel e uma mansão impecável compõem o plano de fundo para uma busca por aperfeiçoamento pessoal e gestão do lar que deságua em um pesadelo sufocante. Ali, a obsessão pela perfeição converte-se em vigilância, violência e colapso.
Muito antes de chegar às telas, no entanto, Virtuosas já fez inimigos nas redes sociais. A crítica social contida em seu enredo ofendeu as evangélicas, que se uniram para atacar a obra e pedir boicote. Pastoras, influenciadoras e mentoras femininas conservadoras acusam a produção de desfigurar textos sagrados, ridicularizar a fé e confinar a mulher cristã a uma caricatura manipulável. Para a diretora, a crítica já era esperada, porém, o fato de ter sido feita baseada apenas no trailer preocupa. “Vivemos um tempo de banalização do vídeo nas redes sociais, tudo passa muito rápido e as pessoas tiram conclusões por pequenos trechos, sem buscar o contexto. É assim que as fake news prosperam na sociedade. Essa crítica é um reflexo do nosso tempo”, diz Bittar a CartaCapital. Em um vídeo publicado do Instagram, a terapeuta ocupacional cristã Cleo Machado qualifica o filme como “lixo ideológico” e uma armadilha do “sistema” para “descaracterizar a família”. Criadora da Jornada das Mulheres Extraordinárias, uma imersão voltada ao público feminino focada em “cura emocional, transformação e conexão”, ela acredita que a abordagem da obra é uma “distorção do que de fato é a mulher virtuosa”. A escolha da data de estreia não foi ao acaso, revela a diretora. “Fiz questão de colocar o filme nas salas de cinema no período eleitoral justamente para ampliar essa discussão.”
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Pesquisadora desse universo há 30 anos, Christina Vital da Cunha, professora da Universidade Federal Fluminense, revela uma ironia histórica nessa engrenagem: a mobilização em células recupera o mesmo método que consagrou a esquerda católica nas Comunidades Eclesiais de Base entre as décadas de 1960 e 1980. “As líderes comunitárias daquele período da ditadura militar se aproximavam das vizinhas conversando sobre os problemas diários do bairro e unindo fé e engajamento. É essa mesma lógica de afeto, escuta e convivência no território que hoje impulsiona as mulheres conservadoras”, explica a especialista, coautora do livro Mulheres e a extrema direita no Brasil (Editora Elefante, 2026) com Jacqueline Moraes Teixeira.
Professora de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, Teixeira detalha como essa gramática eclesiástica foi transposta para a política partidária sob o comando de Michelle Bolsonaro no PL Mulher, a ala feminina do partido de Jair Bolsonaro. “A grande inovação foi funcionar exatamente pela lógica das células: não importava se o município tinha ou não um diretório formal. As mulheres baixavam os conteúdos na internet, reuniam amigas em casa para um café com bolo e se filiavam em grupo. Isso gerou um sentimento de pertencimento não a uma burocracia partidária, mas a um movimento”, explica. O resultado prático foi um salto de crescimento de 930% das mulheres no PL e a eleição de 995 candidatas municipais em 2024, entre prefeitas, vices e vereadoras.
O movimento veio acompanhado de uma transformação estética e simbólica. Embora sempre em busca de uma imagem da feminilidade “pura” e perfeita, as lideranças religiosas da extrema-direita deixaram de lado a tradicional saia longa e a “moda crente” para assumir uma roupagem moderna e versátil. Hoje, elas vestem alfaiataria desconstruída, jeans, tênis e até camisetas com frases. “Tudo isso gera mais identificação com as mulheres reais”, explica Teixeira.
Segundo a professora, no plano do imaginário e da cultura de massa, a projeção da ex-primeira-dama ancorou-se diretamente no arquétipo da rainha Ester, uma figura bíblica cuja estética e apelo popular foram gestados ao longo da última década pelas superproduções de teledramaturgia da TV Record, como a recente A Rainha da Pérsia, exibida em 2024. Ester encarna a esposa carismática, sábia e estrategista que, casada com um rei impulsivo e de virtudes duvidosas, utiliza de amabilidade, paciência e inteligência de gestão para contornar grandes crises de governo e salvar seu povo sem jamais afrontar a autoridade masculina. Na campanha eleitoral de 2022, Michelle Bolsonaro emergiu justamente como essa liderança afetuosa e capaz de apaziguar os estragos do marido pouco habilidoso. “Naquele momento, ela assume a gestão do cuidado do Estado como se dissesse ‘ele é falho, mas confie em mim’”, explica Teixeira.
Leia a reportagem completa na Carta Capital.
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Foto: Cena do filme Virtuosas / Crédito: Olhar Filmes












