Os sertões e os sertanejos muito além do discurso dominante

A partir da obra icônica de Euclides da Cunha e da histórica resistência de Antonio Conselheiro no arraial do Belo Monte, Sertão, sertões: repensando contradições, reconstruindo veredas, organizado por Joana Barros, Gustavo Prieto e Caio Marinho, faz uma leitura a contrapelo da história de Canudos e do imaginário sertanejo, desde a guerra que dizimou aquela população de “jagunços” até os dias atuais, passando pelas disputas territoriais e pelas obras de combate à seca.

Sertão, sertõesna verdade, são dois livros em um. De um lado, traz as fotografias mais marcantes sobre Canudos — não apenas as imagens de Flávio de Barros, que registrou o massacre empreendido pelo Exército em 1897, mas também dos momentos posteriores ao conflito: as reportagens de Pierre Verger, nos anos 1950; a documentação realizada por Claude Santos, Antonio Olavo e Alfredo Villa-Flôr na segunda metade do século XX; e fotos atualíssimas, feitas pelos próprios autores durante suas andanças pelas veredas de Canudos. As imagens são acompanhadas por análises que as localizam e contextualizam simbólica e historicamente como retratos de fases distintas da trajetória social do país.

Virando Sertão, sertões de ponta-cabeça, o leitor encontra um livro de textos que, assim como Os sertões, se divide em três partes. “Partimos do livro de Euclides da Cunha não para lhe render homenagens, mas para, caminhando pelas brechas e ranhuras da história dos vencedores, encontrar os sentidos múltiplos e diversos que constituem a formação social brasileira”, escrevem os organizadores: “um longo processo marcado pelo conflito e pela disputa dos sentidos de pertencimento e de constituição do mundo comum, de regulação do mando privado e das formas de existência social.”

Colocando em questão a fortuna crítica sobre Os sertões e o próprio sentido de sertão, a primeira parte — “No chão dos sertões e suas veredas” — se inaugura com uma carta do grande crítico Antonio Candido escrita em 2001, em que relaciona a resistência de Canudos à luta contemporânea pela reforma agrária, e segue com quatro artigos sobre a disputa de narrativas sobre a história de Canudos e sobre o que é “sertão”, “sertanejo” e “Nordeste” — tema que continua atual, uma vez que a região e seus habitantes continuam a ser considerados por certa elite econômica como sinônimo de atraso.

“A terra dos homens” se dedica aos aspectos físicos do sertão. O primeiro texto é assinado pelo renomado geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber, que nos leva a conhecer o domínio das caatingas. Outros dois artigos nos oferecem elementos para compreender e criticar os discursos dominantes sobre o combate à seca — fenômeno típico e cíclico do semiárido nordestino —, demonstrando, com análises climáticas e ambientas, que, diante da inevitabilidade do fenômeno, a saída talvez seja aprender a “conviver com a seca”, quando ela ocorre, garantindo direitos e oferecendo condições de vida digna aos sertanejos.

Na última parte, “O homem em luta”, o livro se debruça sobre as disputas políticas, trabalhistas e territoriais que permeiam os sertões — e, mais precisamente, a região de Canudos — na atualidade. Aqui, encontramos textos sobre a organização dos trabalhadores rurais no Submédio São Francisco; a atuação do Judiciário como “mediador” dos conflitos agrários, sobretudo no que diz respeito às comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto; a existência, ainda hoje, de “seguidores” de Antonio Conselheiro, que se empenham em reescrever a história de Canudos sob o prisma de quem resistiu; e as contradições do acesso à água, que, devido a açudes e transposições, finalmente chegou à região — mas não para todos.

Após resistir às investidas do Exército sob as ordens da então nascente República, Canudos foi destruída duas vezes: primeiro com ferro e fogo, pelas mãos dos militares que executaram os conselheiristas e queimaram o arraial; depois, passados sessenta anos, durante a ditadura, pela inundação das águas do Açude Cocorobó. O reiterado apagamento histórico, porém, jamais conseguiu silenciar a história dos vencidos. É esta que, como a ponta da igreja de Canudos em épocas de seca, reemerge nas páginas de Sertão, sertões, reforçando a necessidade de repensar as contradições e reconstruir as veredas tortuosas da formação política e social brasileira.

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LANÇAMENTO

Barco da Flipei (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes)
Festa Literária Internacional de Paraty
10 a 14 de julho

Onda progressista, a mudança que não veio

Por Isabel Loureiro

 

Na América Latina, de tempos em tempos, somos invadidos pelo sentimento desesperador do eterno retorno do mesmo. A cada tentativa de integração civilizadora, nossas sociedades são tragadas pela voragem do atraso que as mantêm presas à desigualdade, à falta de liberdade e à injustiça. Por quê?

No intuito de responder a inquietações que retornaram com força depois do desmanche da “onda progressista”, Fabio Luis Barbosa dos Santos procura, a partir de rica pesquisa de campo e de entrevistas, além de amplo domínio da literatura especializada, sintetizar o que ocorreu nas últimas duas décadas.

Ao analisar as contradições e os dilemas dos governos progressistas, o autor mostra que, apesar das particularidades de cada país, há características comuns: os presidentes não romperam com o legado macroeconômico das ditaduras; com pequenos piparotes na desigualdade, fortaleceram o capitalismo, deixando de cumprir promessas de integração social substantiva; levados ao poder pela insatisfação do campo popular com as políticas de ajuste neoliberais, canalizaram a revolta para demandas institucionais de pequeno resultado; e, por fim, se aproveitaram da acumulação por espoliação, surfando no consenso das commodities sem atentar para a predação socioambiental daí decorrente.

Em suma, enfraqueceram o campo popular e incrementaram a inserção subordinada e passiva de seus países no mercado mundial, em nome de uma política de esquerda. É fácil entender que a volta da direita ao poder não é um raio em céu azul.

Fabio Luis conclui que a derrocada da onda progressista atesta mais uma vez que, dado o caráter antinacional, antipopular, antidemocrático e predatório das classes dominantes no continente, a única alternativa civilizatória para a América Latina é o socialismo. Não por acaso, o último país analisado neste livro é Cuba. Seus dilemas são os dilemas do socialismo hoje.

Ao mapear o debate público aberto em 2016 sobre os rumos da revolução, o autor mostra sem preconceitos nem idealizações os problemas enfrentados pela ilha, isolada no oceano do capitalismo global, assim como os limites da Revolução Cubana.

Das reflexões de Fabio resta uma advertência: a alternativa civilizatória para Nossa América, que vá além do canto de sereia do consumo, está num projeto socialista humanista fundado em valores como igualdade, liberdade e participação popular, combinando direitos universais com relações mercantis disciplinadas por um Estado soberano.

Mas é sabido que mesmo uma proposta reformista tão modesta continua tabu absoluto para os donos do poder. Só resta concluir com Fabio Luis que, diante da contrarrevolução permanente, reforma é revolução.

O guri da terceira idade

Por Antonio Lino
Fotografia Araquém Alcântara

 

 

Como aconteceu durante os sete anos em que trabalharam juntos na Venezuela, dr. Jorge Chaves e dra. Yudaimi Vera voltam a deixar o Buick Oldsmobile vermelho e branco, ano 55, estacionado em Cuba. O dobermann de estimação também não veio. Como consolo, o casal de médicos adotou um tigre de pelúcia, enorme, que descansa deitado sobre as patas, ocupando os dois lugares do sofá da sala.

Na cozinha, a dona da casa prepara o congrí, uma espécie de baião-de-dois caribenho, acrescido de bacon na mistura de arroz com feijão preto. E enquanto não sai o jantar, na varanda do apartamento, admirando a vista do quarto andar, brindo uma cerveja com o dr. Jorge. Lá fora, desde a tarde, o município de São Gabriel, no interior do Rio Grande do Sul, segue tomando uma boa ducha fria.

Persistente, a chuva do domingo deságua na terça-feira. No bairro Élbio Vargas, por volta das oito da manhã, a faxineira empunha um rodo contra as poças cheias à entrada do posto de saúde. Pontualmente, os médicos cubanos chegam para começar o expediente.

Passando ao largo da plaqueta amarela, aberta como advertência sobre o piso molhado, dr. Jorge e dra. Yudaimi cumprimentam a moça da limpeza, desejam bom dia às recepcionistas, se misturam à roda animada dos agentes comunitários de saúde, trocam gracejos afetuosos com as enfermeiras, e assim seguem juntos pelo corredor, distribuindo cordialidades aqui e ali, até que se despedem com uma bitoca, entram em seus respectivos consultórios, porta-a-porta um com o outro, e tomam assento para receber os pacientes… que não vêm.

À espera da estiagem, muita gente faltou aos agendamentos ou aguentou o mal-estar em casa. A meteorologia operou o inusitado: médicos aguardando sua vez de atender. Dra. Yudaimi, que em média realiza entre dez e quinze consultas antes do almoço, aproveita o recesso incomum para despachar um formulário deitado desde ontem sobre sua mesa.

Dedos floridos seguram a Bic: como ornamento, sobre as unhas azuis da doutora, a manicure pintou margaridas minúsculas. Os cabelos pretos, lisos, escorrem até os ombros, emoldurando o rosto maquiado naturalmente por um tom moreno. O batom rosa claro destaca seus lábios finos: sem exagero, as cores da vaidade não chegam a macular a austeridade branca do jaleco.

Eu é que atrapalho a concentração da médica, debruçada sobre o relatório clínico. Apontando os talonários empilhados ao seu lado, pergunto-lhe sobre a burocracia brasileira.

– Estou acostumada. Na verdade, em Cuba a gente preenche mais papel que aqui. Os prontuários lá são grossos assim, tem registro até do nascimento do paciente. Aqui, tem gente abrindo ficha só agora, já com idade.

É o caso de Amadeu Brabos. Aproveitando que o dilúvio amansou à condição de garoa, o senhor de 70 anos (“e quatro meses”), um “guri da terceira idade”, segundo o próprio, chega ao posto de saúde procurando o dr. Jorge. A anamnese é rápida. Amadeu havia se consultado na véspera. O retorno é só para trocar o curativo.

– Bah, de ontem pra hoje melhorou setenta por cento. Voltei até a mexer os dedos do pé, olha só.

Ao lado da maca, dr. Jorge observa a enfermeira desenrolar as bandagens usadas em volta do tornozelo esquerdo do garçom aposentado, que nos anos 1970 trabalhava de fraque e luvas brancas, com uma mão equilibrando a bandeja de prata e a outra nas costas, “estilo diplomata”, servindo nacos de faisão à elite carioca, em banquetes de gala no Iate Clube.

No Hotel Luxor, Amadeu aprendeu idiomas para melhor atender os hóspedes estrangeiros. Tendo viajado “o Brasil inteiro”, o gaúcho grisalho e conversador, natural de Rosário do Sul, admite que já foi “muito agitado”, mas garante que não fuma nem bebe mais:

– Depois de velho, tomei tenência no corpo.

É quando a enfermeira termina de desmanchar o curativo. No mesmo instante, dou um passo involuntário para trás, desvio o olhar. E, pela primeira vez desde que nos conhecemos, vejo uma expressão de contrariedade se instalar no semblante invariavelmente bonachão do dr. Jorge. O motivo é o tornozelo de Seu Amadeu, quase todo rodeado pelas carnes expostas de uma ferida profunda.

Para reter a atenção do paciente inquieto, o médico cubano dirige um olhar firme para dentro dos óculos de Seu Amadeu, e repete as prescrições da véspera como uma indisfarçada reprimenda, reforçando a importância da renovação periódica das gazes, da disciplina em relação à dieta, da obediência ao repouso absoluto e da correta administração dos medicamentos, para que a circulação periférica ganhe fluência, a úlcera perca sua voracidade atual e, se Deus quiser, para que as veias grossas e rígidas que afloram na panturrilha direita não estourem em nova ferida, passando a lhe carcomer também a outra perna.

Seu Amadeu agradece os cuidados teatralizando uma mesura subserviente, evocada como galhofa de seus tempos de garçom. Então, ao saber da minha profissão de escriba, reforça o ar solene, e faz votos de que, como o arcanjo mensageiro, patrono municipal, eu também remeta ao mundo as boas novas que vim buscar em São Gabriel.

Em seguida, baixa a perna direita da calça esportiva, de tactel preto, escondendo o curativo novo. Abre o guarda-chuva. E sai mancando de volta à rua.

*

Dirceu Santos impermeabilizava o fundo do bote quando o piche quente respingou no seu pé descalço. A pele borbulhou. E durante quase um mês, a queimadura resistiu a cicatrizar. Diante daquela ferida teimosa pegando (literalmente) no pé do paciente, o dr. Yunior Carralero Perez aventou uma suspeita, e pediu os devidos exames para confirmá-la. Dias depois, de dentro do envelope do laboratório, sai a sentença vitalícia:

– Dirceu, você é diabético.

O diagnóstico não parece preocupar muito o areeiro de 62 anos que, durante a semana, se mete na água com uma pá nas mãos, e enche seu bote com o fundo do rio Vacacaí, matéria-prima boa para reboco e tijolo. Dirceu já convive em casa com a doença, que também adoça o sangue de Luiza Marlene, sua esposa. No sofá da sala, decorada com porta-retratos dos guris e emblemas que dividem a família entre o Inter e o Grêmio, o casal combina o novo regulamento da rotina doméstica. Além de reduzir o estoque de farináceos na despensa, Luiza pretende colar uma tabelinha na porta da geladeira, para evitar confusão e não perder a conta dos dois comprimidos diários de metformina 850mg, dose que, a partir de agora, cabe tanto a ela quanto ao marido:

– Você toma o seu que eu tomo o meu.

Dando sequência à dupla consulta domiciliar, dr. Yunior lê na contraluz a chapa mais recente da dona da casa. O quadro inspira cuidados: uma bronquite se infiltra outra vez nos pulmões defumados de Luiza, que segue tentando abandonar o vício que a consome desde os 14 anos.

– Hoje, quando dá vontade, quando vem aquela loucura, eu bebo um copo d’água.

Dirceu, por sua vez, recebe uma prescrição de exames e remédios paliativos para as dores lombares: um peso antigo do ofício, que o areeiro vai suportando por conta própria, a base de analgésicos, já que precisa completar mais três anos de trabalho para, enfim, descansar as costas na aposentadoria. Em seguida, o médico cubano se despede, formal. E sem demorar como a enfermeira e o agente de saúde no rame-rame da saída, chega primeiro ao carro que levará a equipe para a próxima visita.

Além da camisa cinza abotoada até o pescoço, dr. Yunior traja uma feição geralmente fechada, que à primeira vista me pareceu até alguma antipatia. A aparente sisudez, no entanto, é só a fachada de um profissional reservado e lacônico, difícil de entrevistar. No posto de saúde, por exemplo, são as enfermeiras que mais me contam sobre o trabalho do médico, exaltando seu caráter sempre prestativo, e revelando que ele chega até a pagar voluntariamente o táxi do próprio bolso, quando decide visitar algum paciente aos finais de semana. Sentado, espreitando a conversa por detrás das lentes dos óculos, o médico cubano se manifesta apenas para minimizar os casos e diluir o verniz de virtude com que as moças lhe pintam. O recato sobressai à sua personalidade. E fica ainda mais gritante, por contraste, quando confrontado com o jeito brincalhão de Dona Otacília:

– Pode entrar, gente! Vem que tem chazinho pra todo mundo.

Assim, de cara, pelas primeiras impressões do encontro, não dá para perceber. Aos poucos, no entanto, a senhora bem-humorada, prestes a completar 77 anos (“No dia 02 vou matar uma galinha”) vai deixando entrever os sinais da tristeza, que explica sua cabeça quase nua. Uma isquemia rapou os cabelos de Dona Otacília (“Tinha os cabelos por aqui assim, passava a mão caia tudo no chão”). Restou-lhe apenas uma penugem grisalha e um chumaço no cocuruto, que ela prende com uma fivelinha vermelha para não arrepiar (“Levanta um galho aqui pra cima, parece um garnisé”). A perda capilar, aparente, reflete outra, mais profunda: a morte recente do marido.

– Me deu um nó.

Valter era técnico de laboratório do Departamento Nacional de Estradas e Rodagens. O companheiro de Dona Otacília media, em porções de caçamba, cada um dos ingredientes necessários para a adequada composição do asfalto. A família cresceu pelos caminhos que o pai pavimentava: dos quatro filhos do casal, dois rapazes nasceram em Canoas, a guria em Porto Alegre e o caçula em Santa Maria. Ao se aposentar, Valter encostou em São Gabriel, às margens da BR-290, numa casa de madeira, ao lado de outras idênticas, situadas na vila DNER, bairro construído pela empresa aos seus funcionários. Há um mês, Dona Otacília vive sozinha sob o teto que o casal compartilhou por 40 anos. Penso em Lobo Antunes: “Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar…”.

Apontando um retrato enquadrado na parede, que mostra o marido ao lado de um fusca azul marinho (“Era um homem grande, nunca se queixou de nada”), Dona Otacília conta que, nos últimos tempos, Valter vinha acusando dores abdominais. Os médicos do plano de saúde creditaram o incômodo a sequelas do Parkinson, mal que o combalia há cinco anos. Ao conhecer o caso, dr. Yunior decidiu averiguar melhor. Mas já era tarde: feroz, e aparentemente incubado nos rins, o câncer logo se espalhou para o fígado, o estômago e, uma semana depois, corrompeu todo o intestino do marido de Dona Otacília. Desde então, uma vez por semana, o médico cubano vem à vila DNER conferir a saúde da viúva.

– Aqui o doutor sempre demora. Que é uma chorumela de doença.

Além da isquemia que lhe custou os cabelos, da pressão arterial exaltada e das dores nas mãos e nos joelhos, Dona Otacília tombou de seu alto-astral costumeiro, e precisou dos comprimidos de amitriptilina para se levantar da depressão. Após três semanas de tratamento, no entanto, a septuagenária começa a dar provas de que seu ânimo já recupera o vigor de sempre. Natural de Livramento, neta de dois uruguaios e uma argentina que não entendia português, Otacília logo aprendeu a falar e escrever em espanhol (“No colégio trocava o ipeloj, era aquela borração”). Enquanto dr. Yunior lhe apalpa as articulações, cumprindo os exames de praxe, a paciente bilíngue aproveita a oportunidade para desengavetar o castelhano. E também para cutucar a timidez do doutor:

– No queria puxar la barra, mas ele tá acertando comigo. Buenomédico, mui buenomédico. E no precisa avermelharse!

Depois de se divertir pelo rubor que conseguiu instalar nas bochechas do cubano, Dona Otacília prossegue:

– Estoyprocurando me arrumar, dentro de losconformes. Que é pra mim chispar lamula.

Às voltas com a papelada obituária do marido, a viúva aguarda apenas os derradeiros carimbos para viajar. O primogênito sugeriu sua mudança para Porto Alegre, de modo que a mãe não ficasse sozinha naquela casa engrandecida pela ausência do pai. Mas Dona Otacília só topou passar uma temporada com a filha em São Paulo. Só uma temporada, ela frisa:

– Meu canto é aqui.

Ao final da visita, dr. Yunior lhe deseja boa viagem, caso a ida a São Paulo se confirme mesmo na semana seguinte, antes da próxima consulta. Então, os dois se despedem. Ela o acompanha até a porta. E quando o visitante já está a meio caminho do portão da rua, a anfitriã ergue a voz para chamá-lo:

– Dotor,dotor, me esqueci una cosa… quanto laconsulta?

Sem dizer nada, dr. Yunior lhe dá as costas, escondendo o sorriso tímido. E retoma o passo apressado em direção à saída, enquanto Dona Otacília, com ar maroto, acena de longe:

– É o único que falou em dinheiro ele sai correndo.

*

Desde que dr. Jorge e dra. Yudaimi ajudaram a regular sua tireoide e a içaram da depressão, Carmen Ferraz passa quase todos os dias no posto de saúde, só para deixar uma térmica de café e uns pedaços de bolo, como regalo aos seus “amigos estrangeiros”:

– Eles cuidam de mim, eu cuido deles.

Além dos mimos calóricos de Carmen, responsáveis diretos pelo sobrepeso de seis quilos que dra. Yudaimi incorporou desde sua chegada ao Brasil, os médicos cubanos contam também com a generosidade espontânea de outros pacientes. Hoje, por exemplo, ao final do expediente, o casal leva para casa um pote de doce de abóbora, uma banda de queijo meia cura, um brinco com pingentes dourados e uma capa de almofada tricotada. Entre dar e receber, em nossa despedida, acaba que eu é que ganho um presente dos médicos: um chaveiro com as cores da bandeira de Cuba. Entregamos ao acaso um futuro reencontro, indefinido mas desejado. E então pergunto aos dois sobre seus planos, depois que cumprirem este último ano que lhes resta de missão em São Gabriel:

– Queremos muito trabalhar na África. Mas antes, vamos parar por um tempo em Cuba. Já estamos com 39, hermano. Chegou a hora de termos um filho.

Estacionado em frente ao posto de saúde, o motorista da Prefeitura aguarda nossos últimos cumprimentos para conduzir os médicos de volta para casa, no centro da cidade. Dr. Jorge abre a porta de trás para a esposa. E quando se posiciona para sentar no banco da frente, de súbito, se detém mais um instante do lado de fora do carro, erguendo novamente a cabeça: passando pela rua, Seu Amadeu Brabos lança um aceno ao médico. O doutor ergue a mão como resposta. E assim, impávido, sem demonstrar nenhum sinal de constrangimento pelo encontro que o flagra no pulo, descumprindo o repouso que lhe foi prescrito pela manhã, o “guri da terceira idade” logo segue adiante, com o curativo já meio sujo no tornozelo, andando pelo bairro de bicicleta.

Um pouco do que acabamos de perder

Este é o texto mais triste que já enviamos a nossos leitores e leitoras. Na quarta-feira, 14 de novembro, Havana anunciou que, até o final do ano, retirará do Brasil os profissionais de saúde cubanos que trabalham no Programa Mais Médicos, lançado em 2013.

A decisão foi tomada após declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro, que decidiu impor condições à permanência dos médicos cubanos no país: revalidar seus diplomas, ter o direito de trazer as famílias e receber integralmente seus salários, ao invés de destiná-los majoritariamente ao governo da ilha.

As mudanças ferem o acordo assinado entre Brasil, Cuba e a Organização Pan-Americana de Saúde, que desde o início do Mais Médicos trouxe profissionais cubanos para atender as pessoas mais carentes do país, nos rincões mais desassistidos de nosso território, onde os médicos brasileiros não querem estar.

O anúncio de Havana culmina uma experiência humanista inédita por aqui, que, apesar de todos os seus aspectos positivos, enfrentou a resistência das elites políticas e econômicas brasileiras desde o começo. Basta lembrar da intensa campanha das entidades médicas contra o programa, e da vergonhosa recepção que os doutores cubanos receberam nos aeroportos.

As redes sociais fervilharam com mentiras de todo tipo: desde denúncias de que o PT estava trazendo guerrilheiros cubanos disfarçados de médicos para dar início a uma revolução comunista, até preocupações hipócritas sobre a exploração dos doutores pela horrenda ditadura castrista — “são escravos”, dizia-se, enquanto fechava-se os olhos para a escravidão que realmente acontece em oficinas de costura, canteiros de obras e fazendas do país.

Em meados de 2017, quando o Mais Médicos completava quatro anos, publicamos Branco vivo, de Antonio Lino, escritor que havia pegado a estrada para conferir os brasis, os brasileiros e as brasilidades encontrados pelos profissionais contratados pelo programa. O livro é resultado de seu olhar aguçado para nove localidades desse gigantesco território, complementado pelas fotografias do renomado intérprete do Brasil, Araquém Alcântara.

Na época, consideramos Branco vivo “uma ode à humanidade em tempos sombrios”. Só não podíamos imaginar que as sombras assumiriam formas tão nefastas, a ponto de, agora, impedirem a presença dos profissionais que viabilizaram o programa no Brasil — já que, sem os cubanos, o Mais Médicos dificilmente teria decolado.

Diante da conjuntura, é com muito pesar que disponibilizamos o pdf de Branco vivo para que as crônicas de Antonio Lino — finalistas do Prêmio Jabuti 2018 — possam chegar a quem deseja conhecê-las, seja pelas telas de celulares, computadores ou tablets, ou por xerox e impressões.

Não, o livro não está esgotado. Continua à venda — e continua lindíssimo. Mas acreditamos que facilitar o acesso à obra, neste momento, é um imperativo ético e político contra o avanço do ódio, além de uma maneira de agradecer o trabalho de profissionais que deixam casa e família para colocar um estetoscópio no peito dos moradores dos maiores cafundós do mundo.

A origem dos brancos, o mundo celeste dos Guarani e Jesus, filho de Tupã

Na terça-feira, 17 de abril, a Editora Elefante lança O perecível e o imperecível: reflexões guarani mbya sobre a existência, de Daniel Calazans Pierri, segundo título da coleção Fundo & Forma, que publica obras contemporâneas de antropologia. Na ocasião, o autor debaterá sua obra com Jera Poty Miri e Tiago Karai, lideranças indígenas da cidade de São Paulo. O bate-papo contará ainda com a presença de Dominique Tilkin Gallois, professora do Departamento de Antropologia da USP.

Em três capítulos, Pierri descreve e analisa as visões de mundo coletadas junto após longas conversas e anos de pesquisas junto aos Guarani Mbya em aldeias do Sul e Sudeste do país. A maioria das entrevistas são apresentadas em versão bilíngue português e guarani. No livro, o leitor poderá conhecer mais sobre como os mbya enxergam a criação do mundo dos índios e do mundo dos brancos, além de sua interpretação sobre a vinda de Jesus, filho de Tupã.

O perecível e o imperecível é resultado de pesquisa que ‘finalizei’ em 2013, e tive com essa publicação a intenção de valorizar o pensamento filosófico dos anciãos e anciãs guarani com quem tenho convivido, além de apresentar um ponto de vista sobre o mundo guarani que permita trazer mais empatia e respeito por parte dos jurua, os não indígenas”, explica Daniel Calazans Pierri.

“Considero especialmente relevante no livro as transcrições de conversas que tive com esses pensadores e pensadoras guarani mbya, e que traduzi junto com meu amigo Werá Alexandre: são reflexões sobre nossa existência nessa terra perecível que vivemos; sobre os guarani, as divindades e seus belos modos de existência; e sobre os jurua e seu avassalador modo de vida capitalista, inaugurado quando os próprios jurua decidiram assassinar o filho de Tupã, que veio a terra para ensiná-los”, complementa o autor.

“Daniel Pierri, em trabalhos recentes, restaura os direitos especulativos do pensamento guarani contra a voga hipercriticista e ‘materialista’ que recusou qualquer tipo de fundamento religioso aos deslocamentos territoriais dos Guarani em nome de considerações ecológicas”, afirma o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

“Pierri mostrou que a especulação cosmológica, escatológica e filosófica dos Guarani não é separável e menos ainda excludente de uma reflexão sobre as condições materiais de existência desses povos”, continua. “Mas uma reflexão não é um reflexo. Esse pensamento é uma reflexão filosófica feita a partir das condições históricas de opressão e de dominação que os povos guarani sofreram ao longo de cinco séculos.”

 

Lançamento

Terça-feira, 17 de abril, às 19h
Ateliê do Bixiga
Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bela Vista, São Paulo-SP
Próximo às estações de metrô Brigadeiro e São Joaquim
Debate com
Jera Poty Miri, liderança guarani mbya
Daniel Pierri, autor
Dominique Tilkin Gallois, professora USP
Tiago Karai, liderança guarani mbya
Entrada franca!

A coragem e a sensibilidade
dos Kaiowá contra o fim do mundo

Por Tatiane Klein
Especial para Editora Elefante

 

O antropólogo Bruno Martins Morais era advogado quando decidiu fazer um estudo sobre os atores contrários às demarcações das terras dos Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva no Mato Grosso do Sul. Seus planos mudaram radicalmente ao chegar às retomadas, áreas ocupadas pelos Guarani na luta pela recuperação de seus tekoha, “lugar em que se pode ser”.

Atento aos discursos sobre a violência e as mortes causadas por ataques de pistoleiros, empresas de segurança privada e latifundiários, Bruno se dedicou a compreender a perspectiva dos Kaiowá sobre os mortos — e sobre a morte — no contexto de luta pela terra. O resultado é o livro Do corpo ao pó: crônicas da territorialidade kaiowá e guarani nas adjacências da morte, premiado pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e lançado em novembro pela Editora Elefante.

Nesta entrevista, Bruno refaz as perguntas que direcionaram seu trabalho de campo e relembra as lições que tirou da convivência com os Kaiowá: “Meu livro é uma denúncia, mas uma denúncia esperançosa. Demonstra que é trágico o que os Kaiowá estão vivendo, mas que precisamos de muito pouco para refundar o mundo: coragem e sensibilidade”.

Confira:

De início você queria pesquisar empresas de segurança privada, fazendeiros, sindicatos rurais, e acabou nas retomadas de terras. Qual é o diferencial da pesquisa que você acabou fazendo?

Fazer uma etnografia do sistema de segurança do agronegócio — que eu chamava de sistema de vigilância territorial — seria interessante, se fosse possível e se a conjuntura tivesse ajudado, pois possibilitaria descrever um olhar a partir do ponto de vista dos fazendeiros e de quem gere esse sistema de segurança. Por outro lado, creio que teria produzido uma narrativa permeada de fontes e de uma linguagem policial: uma linguagem de Estado.

Essa é a grande diferença. O que eu tento mostrar em Do corpo ao pó é que existem registros diferentes de linguagem para as coisas, e existem palavras que são pontos de encontro semântico desses registros. O meu trabalho foi tentar explorar esse outro lado: a capacidade que os índios têm de multiplicar sentidos nas palavras que a sociedade nacional e o Estado usam — e a linguagem que eu usava como advogado nos processos.

A palavra que foi o ponto de desenvolvimento do meu trabalho foi “violência” — uma palavra a que o Estado dá um certo sentido. Então eu passei a falar com os Kaiowá sobre violência, sobre assassinatos, e eles abriam a palavra “violência” em um leque de outras coisas, fundadas em uma descrição pormenorizada do corpo — e que levava do corpo à terra. Como dizem os Kaiowá no livro, eles têm uma palavra (ombojera) que remete à capacidade de desdobrar uma coisa sobre ela mesma. “Violência” foi se desdobrando até que se fizesse nesse livro, que traz, no limite, uma descrição do cosmos, da vida, do mundo, do surgimento e do fim das coisas segundo ouvi dos kaiowá e guarani.

A maior onda recente de solidariedade aos Guarani Kaiowá foi motivada por uma carta da comunidade de Pyelito Kue/Mbarakay, interpretada como intenção de um “suicídio coletivo”. Eles diziam que queriam ser mortos e enterrados ali mesmo, junto de seus antepassados, um discurso que não é incomum em outras falas públicas dos Guarani Kaiowá. Como você lê estas falas?

Os discursos kaiowá sobre o corpo e sobre a terra são abundantes e estão em todos os registros, desde os registros coloniais. Eu mostro no capítulo 3 do meu livro que toda etnografia kaiowá gasta um tempo para dizer coisas em relação ao corpo e à morte. Há uma série de mitos e narrativas de rezas que mostram os guarani rezando sobre os ossos, e talvez essa palavra não seja apropriada, mas existe uma fixação dos Guarani em superar a morte. Esse é o fundamento dos termos akandire ou aguyje, que é conseguir superar a morte com o corpo intacto. Isso está presente tanto nos discursos xamânicos como nos discursos que os guarani fazem para o Estado.

Eu fico pensando o quão restrito é o ponto de vista da sociedade nacional quando escuta esses discursos e os traduz de maneira direta, como [se fossem] agenciamentos da lei para demarcar cemitérios como áreas tradicionais. Isso não é nem verdade do ponto de vista dos técnicos do Estado, porque o relatório [de identificação e delimitação de terras indígenas] da Funai [Fundação Nacional do Índio] leva isso em consideração de maneira muito marginal. Me parece uma apropriação muito direta, porque não está atenta à distância entre os dois discursos, ao equívoco entre eles: projeta sobre os Kaiowá uma linguagem de Estado, jurídica, que não está pressuposta desde o ponto de vista deles.

Tekoha é talvez um dos conceitos guarani que mais tem viajado, chegando até ao Teatro Oficina, na disputa por uma área na cidade de São Paulo. Entre os Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva nós sabemos também que esse termo tem ganhado novos sentidos.

Os equívocos são de dupla mão. Talvez a gente tenha muito mais dificuldade de entender alguns deles. Um bom exemplo disso é o termo tekoha, que entra para a nossa linguagem como um sinônimo de aldeia, de terra indígena, de reivindicação de terra. Eu, como advogado, na hora de listar os acampamentos, uso a palavra tekoha, traduzindo como uma reivindicação de terras. No livro, essa foi uma das palavras que mais me deu trabalho. A tradução mais clássica do termo é “o lugar onde se pode ser”, mas na agência dos indígenas ela está relacionada com todas as possibilidades de ser sobre esse território — que são muitas e estão relacionadas com os antepassados, mas também com o futuro. A palavra tekoharã [usada para se referir aos acampamentos de retomadas] tem uma partícula de futuro (-) que identifica uma potência de tekoha, um lugar em que você poderia ser.

Nesse sentido, a maneira como os textos mais clássicos da literatura traduziram tekoha me parece muito pobre. Existe uma discussão sobre se no tekoha há uma família ou muitas famílias, e me parece que esse não é um problema guarani, mas um problema de quem vai fazer o laudo de identificação [e delimitação da terra indígena]. É um problema do Estado. E o que o Estado precisa tentar produzir são traduções menos equivocadas, que ressoem mais entre um registro e outro.

Quando fomos escutar esses discursos, nós — e digo isso como antropólogo — também traduzimos mal. Se você olhar a literatura [sobre povos] guarani de maneira geral, [verá que] só muito recentemente começaram a se fazer trabalhos a respeito do corpo guarani, o que me parece muito estranho, já que os Guarani estão o tempo todo se referindo ao corpo. O meu trabalho é uma tentativa de abrir caminho para o tema da corporalidade. Nisso, eu faço tributo às contribuições dos antropólogos que trabalharam no Mato Grosso do Sul e que já estavam estudando o tema do corpo kaiowá, como Levi Marques Pereira, Diógenes Cariaga e Lauriene Seraguza.

No livro você opõe a forma de territorialização de que os Guarani Kaiowá foram objeto, com a criação de pequenas reservas indígenas no início do século XX, a uma forma própria de estar no território, que tem seu eixo no corpo. Gostaria que você falasse sobre essa proposta.

A minha proposta de entendimento da territorialização do Estado e do que isso produziu, os efeitos do cerco sobre o corpo guarani, é a de que isso foi compreendido pelos Guarani a partir de uma ideia de disciplina do corpo. Na reserva, o Estado é um ente disciplinador, e quando ele territorializa — para usar um termo de João Pacheco de Oliveira —, isso não é só um projeto de delimitação de fronteiras, mas de disciplinamento do corpo: um projeto de colonização no seu sentido mais lato.

A expressão máxima disso é a cerca, a concretização da territorialização do Estado. Esse projeto do Estado é processado no corpo kaiowá a partir de várias entidades: é agenciado pelas escolas, pelos postos de saúde e também pelo capitão e pelo cabeçante — uma figura importante nas reservas kaiowá, que agencia o trabalho [dos demais]. Quando você conversa com os Kaiowá que voltaram do trabalho nos canaviais, ou com os Kaiowá que estão na reserva, as pessoas dizem: é como se meu corpo não me pertencesse, ou como se meu corpo produzisse duplos, imagens dele mesmo. O corpo vai produzindo imagens e ao mesmo tempo vai se esvaziando.

E como isso acontece nas áreas retomadas, como o Apyka’i, da Dona Damiana, em que você concentrou a pesquisa?

A cerca tem um sentido ambivalente. Se na reserva ela está cercando os índios, na retomada ela está cercando a fazenda: está tentando proteger a fazenda da disposição inabalável de Dona Damiana em reaver a terra que ela considera como dela. Falo disso no capítulo 2. A reivindicação de Dona Damiana está inscrita nos corpos das pessoas: na memória do corpo dela mesma, da família dela e das pessoas que viveram naquele espaço. Nesse sentido, o acampamento de retomada é uma inversão e uma negação da disciplina do cerco das reservas. O acampamento de retomada é o espaço que busca impor uma disciplina nova sobre o corpo. Isso está expresso nos ritos funerários, como possibilidade de controlar, no limite, a própria morte. Se você não consegue autodeterminar a própria vida, que pelo menos você não abra mão da morte — ou da morte dos seus.

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade reconheceu os processos de remoção forçada dos Guarani Kaiowá para reservas como graves violações de direitos humanos. No livro, você indica que esse cerco não é um processo acabado, dizendo que “o sarambi não foi concluído com a concentração dos indígenas nas reservas”…

Sarambi, antes de ser um conceito historiográfico, é uma palavra em língua guarani que quer dizer “espalhamento” ou “esparramo”. Ela foi agenciada em contextos políticos e foi usada na literatura etnológica e na historiografia para definir um período de tempo — aquele que se sucedeu a frente de ocupação da abertura das fazendas, em que as famílias kaiowá se esfacelaram, espalhando-se pelas territorialidades precárias onde conseguiram se estabelecer. Ela não só identifica esse período de tempo, mas o processo que eles viveram nesse período: a experiência de desarranjo dos laços de parentesco. A partir de um momento da história, isso passa a estar diretamente relacionado com o loteamento das terras do Mato Grosso do Sul e da produção de um cerco às terras kaiowá. A palavra sarambi denomina um processo, e é importante reconhecer isso para poder reconhecer que os efeitos dessa colonização estão aí até os dias de hoje, desarranjando e rearranjando as relações de parentesco e de sociabilidade kaiowá. E [reconhecer também] que uma política de reparação tem que passar pela restituição dos territórios — mas, para além disso, precisa se desenvolver enquanto processo, não com compensações pontuais.

Você inicia o livro afirmando que encontrou nas retomadas uma forma de lidar com os mortos que contradizia os estudos sobre povos falantes de línguas do tronco Tupi — como são os Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva.

Estava de certa maneira consolidado que os povos tupi, quando morria alguém, colocavam fogo nas casas e saíam daquele lugar, para fundar um outro lugar. Mas as etnografias, mesmo as dos anos 1960 e anteriores, descrevem na verdade dinâmicas muito mais complexas de lidar com a morte e com o morto. Existem muitas referências, no Xingu, entre os Tupi no Mato Grosso, enterrando os mortos no centro das aldeias ou enterrando os mortos dentro de casa. O que posso dizer é que, a partir do momento em que você pisa em uma retomada kaiowá, como por exemplo o Apyka’i, as pessoas te levam para conhecer os cemitérios. Se eles faziam isso antes, não sei. Os mortos estão presentes nos discursos das pessoas, nas rezas, nas cartas que a [organização política dos Kaiowá do Mato Grosso do Sul] Aty Guasu emite, de uma maneira muito direta. Existe uma possibilidade de localização do morto no terreno, e uma identificação do morto como protetor do lugar. A própria retomada é um processo de acordar essas pessoas que estão dormindo. No capítulo 4 do livro há uma descrição muito bonita de um rezador sobre como é feita uma retomada: ele canta, às vezes por um mês, um ano, e, quando entra na retomada, ele vem cantando. Os mortos que estão enterrados lá despertam e vêm dançar com ele. Ele fala assim: “Meu povo está chegando! Que felicidade, meu povo está chegando!”. 

É comum ouvir também dos Guarani, em suas falas públicas, que eles lutam por meio de seus cantos e rezas. Como é que esses cantos são agenciados no movimento de “furar o cerco” das fazendas?

O meu trabalho traz um pouco desses agenciamentos e tem até a tradução de um canto, mas não descreve o canto como uma tecnologia. O que me parece é que o canto, de maneiras que talvez para a gente sejam inacessíveis em primeiro momento, têm todo o tipo de função: desde tirar piolho, espantar formiga da roça, até imobilizar os inimigos. Então, dá para entender os cantos como uma técnica ou tecnologia kaiowá de agenciamento do mundo. É muito comum estar nas manifestações, por exemplo, e os Kaiowá irem rezar e pedir para as pessoas saírem da frente, porque o canto tem uma direção no espaço.

No livro está descrito um canto que se chama Piraguai, do Sr. Olímpio, e que ele usaria não só para limpar a roça, mas também como canto de guerra, uma armadilha para os inimigos. E os cantos têm uma grande importância no trato com os mortos. Se o rito funerário é um processo de localização do morto na terra, o canto atua como o instrumento desse processo de localização. Primeiro, você reza o corpo do morto no momento do enterro; depois você tem o velório da cruz durante sete dias — isso está etnografado no livro também. E pelo que me descreveram os Kaiowá, você vai rezar aquele túmulo pelo o resto da vida. 

O que você aprendeu enquanto esteve pesquisando entre os Kaiowá?

O livro traz uma série de elaborações kaiowá e guarani sobre o nosso potencial — o meu, o seu, o da sociedade nacional — de destruição do mundo. Quando os Guarani Kaiowá estão falando de morte e de violência, eles estão falando disso. Eles estão falando: “Vocês têm uma tecnologia de produção de corpos vazios!”, e a produção desses corpos vazios está criando problemas nessa terra, desmesurando o cosmos, misturando coisas que não deviam estar misturadas: os vivos e os mortos. Esse é um livro cheio de impressões negativas dessa nossa tecnologia. Inclusive, de conclusões muito trágicas: nos capítulos finais, eles descrevem esse mundo não como um mundo que está acabando, mas que já acabou. 

Ao mesmo tempo, o livro traz uma série de demonstrações dos Kaiowá sobre como existem tecnologias para refundar esse mundo — e sobre como refundar o mundo é mais fácil do que destruí-lo. A lição do Apyka’i é que você precisa de muito pouca coisa para refundar uma aldeia: você precisa de um pouquinho de água, um pedacinho de terra, três árvores. Nesse sentido, meu livro é uma denúncia. Mas uma denúncia esperançosa, porque demonstra que é trágico o que os Kaiowá estão vivendo, mas que precisamos de muito pouco para a gente refundar o mundo: é preciso coragem e sensibilidade. São essas as duas lições que eles me dão.

Muitas vezes a imagem usada pelos Guarani Kaiowá para os cantos e rezas é de fazer a terra florescer ou embelezar a terra…

E a imagem do fim do mundo deles é uma terra onde as flores não mais florescem. No fim do livro eles falam disso. O problema de morrer muita gente e de criar corpos vazios é que você para de ter reza, para de enfeitar o mundo, e então as flores não mais florescem. Isso é de uma sensibilidade muito grande, e é um diagnóstico muito preciso da época que a gente está vivendo.

 

Tatiane Klein é jornalista e doutoranda em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP)

Branco vivo,
um olhar para o Brasil

Nosso décimo-quarto título é uma belezura de livro. Pra chegar até o lançamento, dia de beijos, abraços e autógrafos, tivemos que relar muito. O casamento de Branco vivo com a Editora Elefante começou há muito tempo: mais ou menos uns cinco anos, quando tomamos uma cerveja com Antonio Lino para conversar sobre assuntos de que não nos lembramos mais.

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Os tempos passaram, cada um para o seu lado, e nos reencontramos no início de 2017. Lino já tinha um livro publicado, o Encaramujado, nós já havíamos colocado o mundo uns onze títulos. Nos gostamos. Então reunimos os contos não ficcionais do autor, preparados e revisados por Tadeu Breda, aos talentos gráficos de Ana Carol Soman e Bianca Oliveira, responsáveis pelo projeto gráfico e pelo tratamento das fotografias — sim, as fotografias de Araquém Alcântara, que gentil e generosamente aderiu ao projeto com o fruto de seu olhar privilegiado sobre o Brasil, as brasilidades e os brasileiros.

Conversas, ajustes, testes: e mais um livro ganhou o mundo. Estamos felizes. Só temos a agradecer. A manada cresce, bonita, cada vez mais bonita. O caminho ensina. Vamoquevamo!

Livro descreve os brasis e os brasileiros
encontrados pelos doutores do Mais Médicos

Ao longo de um ano, o escritor Antonio Lino acompanhou o trabalho de médicos e médicas em aldeias indígenas, comunidades quilombolas, assentamentos rurais e periferias urbanas. A proposta era conhecer de perto os brasis, os brasileiros e as brasilidades encontrados por sete doutoras e cinco doutores do Programa Mais Médicos.

O resultado destas idas e vindas pelos cafundós do país é o livro Branco vivo, que será lançado pela Editora Elefante no dia 26 de agosto, em São Paulo. Além das nove histórias escritas por Lino, a publicação traz um ensaio fotográfico do renomado intérprete do Brasil Araquém Alcântara.

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Num itinerário que passou pelas cinco regiões do país, foram escolhidas nove localidades que demonstrassem a diversidade nacional: das aldeias xikrin, no Pará, até os pampas gaúchos, passando pelo sertão do Sergipe, Vale do Jequitinhonha e periferias de Manaus e São Paulo. Na maioria cubanos, os doutores e doutoras retratados no livro participaram do Mais Médicos entre 2013 e 2017.

Tomando a saúde pública como ponto de partida, Branco vivo lança um olhar panorâmico para as realidades locais, registrando histórias de vida que extrapolam os prontuários clínicos. Pelos textos de Antonio Lino e pelas fotos de Araquém Alcântara, o livro oferece um ponto de vista sensível e profundo sobre gentes e lugares que o Brasil esconde — ou revela.

 

LANÇAMENTO

Data: 26 de agosto, sábado, às 15h
Local: Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga, São Paulo-SP
Bate-papo com Antonio Lino e Araquém Alcântara, comes, bebes, abraços e beijos.

 

BRANCO VIVO

Autor: Antonio Lino
Fotos: Araquém Alcântara
Projeto Gráfico: Ana Carolina Soman
Editora Elefante
Páginas: 252
Publicação: Agosto de 2017
ISBN: 978-85-93115-04-2
Dimensões: 14 x 21​ cm

 

SOBRE OS AUTORES 

ANTONIO LINO é escritor. Nasceu em São Paulo, em 1978. Trabalha há 15 anos como redator independente para organizações da sociedade civil e para o governo, escrevendo sobre temas como políticas públicas de juventude, meio ambiente e cultura popular. Durante um ano e três meses, morou numa Kombi e percorreu mais de trinta mil quilômetros pelo Brasil. Em 2011, publicou Encaramujado, livro que reúne suas crônicas de viagem. Atualmente, depois de uma temporada de dez meses na África, o autor prepara um romance sobre a história da Libéria.

ARAQUÉM ALCÂNTARA nasceu em Florianópolis em 1951 e é um dos mais importantes fotógrafos em atuação no país. Desde 1970, se dedica integralmente à documentação da natureza e do povo brasileiro. É autor de mais de quarenta livros, como Terra Brasil (1997), Brasileiros (2004), Amazônia (2005), Bichos do Brasil (2008) e Sertão sem fim (2009). Premiado nacional e internacionalmente, já teve mais de setenta exposições individuais. Priorizando a fotografia como expressão plástica e instrumento de transformação social, é um dos mais combativos artistas em defesa do patrimônio natural do país.

PT é esquerda? Esquerda é PT?
Um debate necessário

Em 11 de abril, por iniciativa da Editora Elefante, quatro militantes-intelectuais da esquerda brasileira se juntaram na sede da Fundação Rosa Luxemburgo, em São Paulo, para discutir a profunda crise que se abateu sobre partidos e movimentos populares brasileiros após o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Marcado pelo alto nível argumentativo e pelo respeito entre os participantes, o debate também serviu para lançar hipóteses sobre a situação do Partido dos Trabalhadores e suas relações passadas, presentes e futuras com as organizações sociais.

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A ideia foi trazer à roda as ideias e os autores de dois livros publicados recentemente sobre o tema: André Singer, Cibele Rizek e Isabel Loureiro, que assinam artigos em As contradições do lulismo (Boitempo, 2016); e Fabio Luis Barbosa dos Santos, responsável pelo ensaio Além do PT: A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana, cuja primeira edição lançamos em novembro de 2016, mas que já tem uma segunda, lançada em março.

A íntegra do debate pode ser ouvida aqui: