Democracia e direitos das mulheres diante do avanço da extrema direita

Marilene de Paula é coordenadora de programa na Fundação Heinrich Böll, parceira da Elefante na publicação de Mulheres e extrema direita no Brasil (Christina Vital da Cunha & Jacqueline Moraes Teixeira). Ela é autora do prefácio da edição, reproduzida abaixo.

Prefácio
Por Marilene de Paula

Giorgia Meloni na Itália, Marine Le Pen na França, Michelle Bolsonaro no Brasil, Karina Milei na Argentina, Alice Weidel na Alemanha: pelo mundo afora, mulheres têm se destacado nos partidos e movimentos da direita radical ou como peças-chave na difusão de seus discursos.

Nas eleições municipais de 2024, no Brasil, Pablo Marçal, candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PRTB e expoente de uma extrema direita que se relaciona com o público via redes sociais, teve como candidata a vice a policial militar Antônia de Jesus Barbosa Fernandes. No anúncio da chapa, Marçal afirmou: “Ela é casada, católica, não nasceu na cidade de São Paulo, é nordestina […]. Fizemos uma oração de aliança para o povo” (Exame, 2024). Antônia combinava em si três elementos básicos na estratégia de diálogo com o público feminino conservador: é mulher, religiosa e policial. Além disso, sua origem baiana agrega o elemento regional, abocanhando mais uma parcela do eleitorado.

Flávio Bolsonaro, candidato da extrema direita para as eleições presidenciais de 2026, sinalizou que gostaria de ter uma mulher como vice, apesar de, no fim, ter resolvido escolher um homem.

A socióloga Katrine Fangen, da Universidade de Oslo, na Noruega, aponta que “as siglas populistas de direita seguem sendo eleitas principalmente por homens, mas a diferença não é mais tão grande como no passado: em âmbito internacional, cerca de 40% do eleitorado extremista de direita são mulheres” (DW, 2022).

O discurso da extrema direita tem sido cada vez mais modulado para atingir o público feminino. Esse fenômeno tem relação com o fato de que certas pautas — por exemplo, a flexibilização do acesso a armamentos e munições — não tiveram adesão entre as mulheres. A associação com a violência de gênero, que aumentou durante a pandemia, espantou parte do eleitorado feminino. Nesse sentido, a pesquisadora Rosana Pinheiro-Machado (UOL,2024) alerta que, embora a extrema direita tenha avançado nesse público, as mulheres ainda são uma barreira contra os extremismos. Por isso é que lideranças femininas têm sido fortalecidas pelos grupos conservadores — e um novo discurso está sendo cunhado para engajá-las, especialmente em temas relacionados a família, religião, maternidade e costumes.

As movimentações de Michelle Bolsonaro e Damares Alves na realização de eventos conservadores para mulheres pelo Brasil sugerem um esforço de construção de uma base política e social voltada à consolidação dos projetos de poder da extrema direita. Contudo, apesar de terem ganhado notoriedade e seguidoras ao longo dos anos, as barreiras do machismo e da misoginia ainda parecem colocar limites a seus projetos de poder.

Foi tentando entender mais uma parte do quebra-cabeça em que se transformaram a política e a sociedade brasileiras que convidamos as pesquisadoras Christina Vital da Cunha e Jacqueline Moraes Teixeira para, juntas, analisar as lideranças femininas da extrema direita, ou seja, aquelas mulheres que transitam nos círculos mais altos do poder e que contribuíram decisivamente para a organização das forças conservadoras no Brasil. Apesar de essas mulheres estarem ganhando grande visibilidade, o gênero continua a ser um fator relevante na distribuição de poder político. As declarações dos chefes partidários insistem em colocar as mulheres apenas como braços para o trabalho nas comunidades. Propostas como a substituição do voto individual por um modelo de “voto familiar”, embora façam parte da estratégia da extrema direita para continuar ditando a agenda midiática, também sinalizam as disputas internas discursivas e dentro dos partidos.

Como sinalizam as autoras, as lideranças femininas da extrema direita recusam o confronto direto, apostam na construção de alianças e elegem como inimigo o “feminismo” — o qual, segundo elas, simboliza a ruptura, a inimizade, a agressividade. Assim, o feminismo é frequentemente retratado como uma ameaça à família heteronormativa e aos papéis tradicionais de gênero, considerados centrais para a organização da sociedade. Lideranças do movimento feminista apontam que a presença de mulheres em espaços de poder é relevante, mas não suficiente para promover igualdade de gênero. A questão central continua sendo quais direitos, políticas e relações sociais devem ser impulsionados por um projeto político que fortaleça os direitos das mulheres — o que, ao mesmo tempo, não implica ignorar a diversidade entre as mulheres: elas constituem um grupo heterogêneo e, como vemos, impulsionam projetos políticos radicalmente distintos.

A Fundação Heinrich Böll, desde a sua criação, apoia os movimentos de mulheres por entender que uma sociedade com justiça social e igualdade só é possível a partir da promoção dos direitos e da autonomia das mulheres, da garantia de sua representação nos espaços de poder, do fortalecimento do antirracismo. Apoiamos a atuação de organizações e movimentos sociais em comunidades e territórios pelo Brasil, no qual o protagonismo das mulheres é sempre inspirador e revolucionário.

O livro Mulheres e extrema direita no Brasil é mais uma ferramenta para contribuirmos com o debate sobre gênero, democracia e poder — com base em dados, personagens e histórias que passaram a ocupar o centro da cena política nacional e internacional. Esperamos que esta publicação estimule novas reflexões, diálogos e pesquisas sobre um dos fenômenos políticos mais desafiadores da atualidade: a ascensão da extrema direita e, com ela, da violência contra as mulheres. Agradecemos imensamente a Christina Vital da Cunha e Jacqueline Moraes Teixeira por nos brindar com esta análise e nos instigar a entender melhor esse fenômeno. A partir do trabalho das autoras, podemos fazer mais perguntas, duvidar do que sabemos e desenvolver reflexões e contranarrativas que contribuam para avançarmos no fortalecimento da democracia e dos direitos de todos e todas.

Boa leitura!

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Foto: Bandeira feminista durante manifestação de rua. / Crédito: Miguel González/Pexels

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