Paolo Demuru: Polarização brasileira e extremismo disfarçado de encanto

Por Luana de Oliveira
Publicado no Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

O extremismo é uma característica vinculada às políticas de extrema-direita, algo que vemos repercutir com grande profundidade nos últimos anos. A questão central é que movimentos assim não surgem do nada. Normalmente, o fascismo se instaura em uma sociedade que já não se identifica com as políticas públicas de seu país, sendo parte de uma radicalização desesperada que mina aos poucos os resquícios de democracia existente em uma nação.

Quando a democracia de um país é constantemente sequestrada, a população desacreditada tende a buscar outras realidades possíveis, algo que muitas vezes causa mudanças radicais nas eleições, sendo o fascista escolhido por seu discurso que causa fascínio, mas é enganador.

Em entrevista especial concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU via chamada de vídeo, o semioticista Paolo Demuru, autor de Políticas do encanto: extrema direita e fantasias da conspiração, menciona que “a ameaça à democracia não é apenas a desconfiança nas instituições, é também o sediamento insinuado dentro do corpo social desse tipo de polarização fundada no ódio pelo outro”.

Atualmente, analisando as articulações progressistas pela escala 6×1 e outras mobilizações sociais, Demuru acredita que a sociedade brasileira está “assistindo algo muito interessante no campo da comunicação política, nesse sentido de disputar sonhos, principalmente com as gerações mais novas”.

IHU – O que explica a polarização política no Brasil e o surgimento do bolsonarismo nos últimos anos?

Paolo Demuru – É uma pergunta bastante complexa, porque me leva a pensar sobre as razões históricas presentes no quadro contemporâneo. Como chegamos em 2018 até 2022 e como estamos agora, em 2026? Em minhas pesquisas, iniciadas em 2010, refleti sobre estudiosos dos campos da ciência política, da sociologia, da filosofia e da psicanálise, partindo de discursos da semiótica sobre os impactos das Jornadas de 2013. Defino esse período como o marco inicial da explosão de acontecimentos que levaram à eleição de Bolsonaro em 2018, implicando, consequentemente, na polarização da política nacional.

Por que tudo isso começa a partir dali? Anteriormente, existia a ideia do Brasil como o país do futuro, todo o entusiasmo e toda positividade construída nos anos dos governos do PT, com umas oscilações claramente, mas funcionava até então. Porém, a jornada de 2013 foi a mudança e o marco inicial dessa explosão e do avanço da extrema-direita no Brasil. Eles foram capazes de cooptar algumas demandas que surgiram das ruas a partir dos famosos 20 centavos e consolidaram uma construção expressiva, muito bem elaborada, da ideia de que o Brasil fosse um país à deriva. Isso ocorreu porque as pessoas se manifestavam contra tudo, como publicou a Folha de S. Paulo em 17 de julho de 2013. Começa a se criar, ali, a ideia de um Brasil ainda muito cru. Era um país – e ainda é – com muitas questões. Mas tudo o que aconteceu naquela época foi fundamental para desconstruir a ideia de positividade e de entusiasmo.

Como semioticista, analista do discurso e das linguagens, das práticas semióticas que levam à construção de certas realidades e impactam a sociedade, sempre insisto no papel que, por um lado, a mídia, sua linguagem tradicional e as redes sociais tiveram nesse processo.

Estou construindo uma espécie de trilogia interpretativa sobre os acontecimentos daquele período, porque foi somente a partir de 2014, após a derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo (o famoso 7 a 1), que percebi algo que venho defendendo como hipótese: as paixões que antes eram sublimadas no campo do esporte, especialmente no futebol, passaram a atravessar o campo político.

Aquela derrota se cruza com os movimentos políticos surgidos em 2013 e, posteriormente, com as mobilizações pró-impeachment que ganharam força após a eleição de Dilma Rousseff contra Aécio Neves em 2014. Soma-se a isso o discurso de Aécio, que levantou suspeitas sobre a lisura do processo eleitoral, alimentando um ambiente de desconfiança e tensão política. Tudo isso se mistura a uma espécie de “fofoca política” marcada pela circulação intensa de narrativas, acusações e disputas simbólicas.

Em 2015, a mídia passa a dar ampla visibilidade à atuação do Movimento Brasil Livre (MBL), enquanto as manifestações de rua começam a consolidar a imagem de um país paralisado e dividido. Forma-se, então, um campo que se apresenta como o dos “defensores do Brasil”, no qual a camisa da seleção brasileira passa a ser cada vez mais apropriada como símbolo dos movimentos pró-impeachment e, posteriormente, da extrema-direita.

Do outro lado estariam os “vermelhos”, associados ao PT, a Dilma Rousseff, a Lula e à esquerda de modo mais amplo. As manchetes dos principais jornais reforçavam essa construção simbólica. Quando as manifestações eram contrárias a Dilma e Lula, frequentemente apareciam representadas como a voz do “Brasil” que ia às ruas. Quando eram favoráveis ao governo, eram retratadas como expressões de grupos políticos específicos, ligados ao PT e aos seus apoiadores.

Nesse contexto, começa a se consolidar uma polarização em que, de um lado, estariam aqueles identificados como os defensores do Brasil e, de outro, os petistas, os apoiadores de Dilma e Lula e a esquerda em geral.

Esse processo contribui para a formação de uma primeira grande polarização política, na qual a mídia tradicional desempenhou um papel fundamental. Soma-se a isso a lógica algorítmica das redes sociais que, embora ainda não fosse tão sofisticada quanto é hoje, já começava a produzir dinâmicas de segmentação, bolhas informacionais e discursos que frequentemente ecoavam as narrativas presentes nos meios de comunicação tradicionais.

Esse cenário foi captado por Jair Bolsonaro, que passou a ocupar uma posição simbólica capaz de canalizar parte dessas demandas e afetos dispersos. O próprio termo “mito”, que o definiu naquele momento e permaneceu associado à sua imagem por muitos anos, surge como uma forma de preencher um vazio passional que vinha sendo construído desde as manifestações de 2013 e que encontrou um ponto de inflexão na derrota do Brasil para a Alemanha, no emblemático 7 a 1.

A partir dali caiu a ideia do país como uma nação unida. O futebol possui, no Brasil, uma importância decisiva para a vida pública e para a constituição dos sentimentos de patriotismo, nacionalismo e pertencimento coletivo. Não se trata apenas de um esporte, mas de um espaço privilegiado de elaboração simbólica da identidade nacional.

Nesse contexto, a apropriação dos símbolos nacionais pelos movimentos pró-impeachment e, posteriormente, pelo bolsonarismo, insere-se nesse percurso histórico. Esses símbolos passam a oferecer uma nova forma de pertencimento coletivo, preenchendo parte do vazio deixado pela crise das referências anteriores e reconstruindo a ideia de grandeza nacional. A bandeira, a camisa da seleção e outros emblemas nacionais tornam-se elementos centrais de uma narrativa política que procura reativar sentimentos de identificação, orgulho e mobilização em torno da nação.

Esse processo me parece representar, por assim dizer, o momento da faísca inicial. As Jornadas de Junho de 2013, a Copa do Mundo de 2014 e o impacto simbólico do 7 a 1, os movimentos pró-impeachment, a apropriação dos símbolos nacionais e a construção, por parte da mídia tradicional, de uma polarização entre os chamados “defensores do Brasil” que defendiam o impeachment e a esquerda, especialmente o PT, constituem um conjunto de acontecimentos que ajudam a compreender a formação do cenário político contemporâneo.

Trata-se de um processo histórico e discursivo que, na minha interpretação, contribui para explicar a polarização que marca o Brasil atual e que esteve na base das eleições de 2018 e 2022, cujos efeitos ainda permanecem presentes. Ao longo desse percurso, consolidou-se uma divisão simbólica na qual determinados grupos passaram a reivindicar para si a representação legítima da nação, enquanto seus adversários eram frequentemente retratados como externos ou contrários aos interesses nacionais.

No entanto, observa-se atualmente um movimento interessante de reconfiguração desse quadro. O tema da soberania nacional, que durante muito tempo esteve mais associado aos setores conservadores e ao bolsonarismo, vem sendo progressivamente reapropriado pelo governo Lula e por setores da esquerda em geral. Em especial, Lula tem procurado recolocar a questão nacional no centro do debate político, disputando simbolicamente valores, narrativas e signos que, nos últimos anos, foram apropriados por seus adversários.

Essa é, em linhas gerais, a pequena arqueologia que proponho para compreender a polarização política brasileira contemporânea e o surgimento do bolsonarismo. Bolsonaro aparece como a figura que conseguiu ocupar esse vazio simbólico e afetivo, captando simultaneamente um conjunto de demandas discursivas e paixões coletivas que vinham se acumulando desde o início da década de 2010. Na minha perspectiva, os acontecimentos políticos não se definem apenas pelos fatos em si, mas também pelas narrativas que lhes atribuem sentido. Foi justamente nessa articulação entre discurso, afetos e disputas simbólicas que o bolsonarismo encontrou as condições para emergir e se consolidar como uma força política de alcance nacional.

IHU – O que é política do encanto? Como essa política usada pela extrema-direita tem alcançado inúmeras pessoas e quais práticas de persuasão caracterizam essa aproximação?

Paolo Demuru – Tenho usado esse termo no meu livro Políticas do encanto: extremadireita e fantasias da conspiração (Elefante, 2024) justamente para explicar a maneira como a extrema-direita no Brasil, e no mundo ocidental de modo geral, tem conseguido implementar consenso não apenas em suas próprias bolhas e esferas políticas tradicionalmente consolidadas em eleitorados tradicionalmente construídos ao longo das décadas, mas também de maneira mais ampla, na sociedade como um todo.

A tese principal do livro, sintetizada no conceito de “políticas do encanto”, associa-se às práticas comunicativas da extrema-direita. A hipótese é que sua eficácia decorre do fato de se tratar de um discurso que se concentra menos no racional e nas explicações lógicas e consequenciais dos mal-estares da contemporaneidade e mais em seu enquadramento afetivo e passional.

Trata-se, portanto, de uma forma de construção discursiva que opera sobretudo por meio dos afetos, das identificações e das fantasias, mobilizando emoções coletivas e oferecendo formas de pertencimento e de interpretação do mundo. Um discurso que, antes de tudo encanta. Encanta e produz maravilha em um mundo onde a maravilha está em falta.

Portanto, o discurso da extrema-direita beira às narrativas conspiratórias chamadas de fantasias de conspiração. Uso esse termo porque são discursos de fato fantasiosos e a sociedade precisa de fantasias para enquadrar e entender a realidade. Não uso esse termo de maneira pejorativa, pelo contrário. Enquanto seres humanos, precisamos de histórias. Somos feitos de histórias para enquadrar a realidade e poder entender como funcionam as nossas existências e que quadros que definem a nossa existência, sejam políticos, sejam sociais, econômicos ou religiosos.

O discurso da extrema-direita é um discurso que encanta e foi capaz de produzir encantamento num mundo onde o encantamento era algo que estava faltando. Por que digo isso? Tivemos tempos bastante complexos do ponto de vista econômico e ambiental. Os anseios da população dizem respeito, sobretudo, à necessidade de conseguir um salário e ter dinheiro suficiente para viver até a próxima semana e, muitas vezes, até o próximo mês. Todas as desigualdades que surgiram em decorrência da consolidação do sistema capitalista neoliberal, profundamente enraizado nas plataformas digitais, na plataformização do trabalho e no empreendedorismo, ou melhor, na precariedade disfarçada de empreendedorismo, somam-se às crises ambientais e aos eventos climáticos extremos. E não se trata propriamente de desastres, pois sabemos cada vez mais quais são suas causas e o que deve ser feito para evitá-los.

Tudo isso constitui o que chamo de núcleos de verdade sobre os quais o discurso da extrema-direita se instala. Além de oferecer respostas extremamente simples para questões complexas, esse discurso afirma, por exemplo, que a causa das desigualdades sociais, da precariedade do trabalho, da falta de dinheiro para pagar as contas ou da necessidade constante de parcelar e endividar-se não está em um sistema político e financeiro que produz desigualdades e concentra poder e recursos nas mãos de 1% da população, enquanto os outros 99% permanecem sem acesso a esses mesmos privilégios.

Em vez disso, esse discurso desloca a responsabilidade para outros grupos, argumentando que houve avanços em políticas associadas à esquerda que favoreceram parcelas específicas da população, retirando direitos de quem supostamente os mereceria. Como exemplos, são frequentemente mencionados as políticas de cotas para a população negra, os direitos conquistados pela população LGBTQIA+, os avanços das mulheres, além de críticas dirigidas a esquerdistas, ao chamado “marxismo cultural” e aos professores acusados de doutrinação, entre outros alvos recorrentes.

E, claro, quando essa “verdade” é revelada – quando alguém lhe diz que nada disso acontece pelas razões que você imaginava, mas porque existe uma pequena seita de eleitos e poderosos que favorece grupos considerados esquerdistas, marxistas, globalistas, entre outros, e que supostamente domina o mundo –, você não apenas encontra uma explicação para os seus problemas cotidianos. Passa a acreditar que compreende por que não tem dinheiro suficiente para viver, por que trabalha exaustivamente e chega no fim do mês sem recursos, ou por que a chuva e o vento derrubam postes de energia, deixando cidades inteiras sem luz por dias ou até semanas, como já ocorreu em grandes cidades brasileiras. Além de explicar todos esses fenômenos, eles criam maravilha porque finalmente a pessoa entra em contato com o saber.

Nisso, as pessoas começam a se identificar que fazem parte de um pequeno grupo de eleitos que conhecem a “verdade”. Enquanto isso, tudo aquilo que outros atores procuram explicar por diferentes meios, recorrendo ao raciocínio lógico – como ocorre no campo progressista, nos discursos institucionais, nos governos, nas organizações não governamentais e em organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) –, muitas vezes não alcança esse público. Essas instituições procuram explicar um mundo complexo por meio de discursos igualmente complexos, o que, de certo modo, é justificável.

Já essa outra narrativa, mais sedutora, apresenta-se de forma muito mais simples. Isso porque, além de oferecer explicações, ela produz encantamento e um sentimento de pertencimento. Esse pertencimento não surge apenas da descoberta desse suposto conhecimento revelado e dessa pretensa verdade absoluta, mas também de outras práticas, muitas delas de caráter lúdico, que reforçam os vínculos entre aqueles que compartilham dessa visão de mundo.

Essas práticas lúdicas podem assumir diversas formas: vestir a camisa da seleção brasileira como símbolo de pertencimento político, recorrer ao humor como estratégia de comunicação – algo amplamente utilizado nos últimos anos –, adotar uma linguagem simples e direta ou direcionar mensagens específicas ao público religioso. Há também a incorporação de elementos do discurso de coaching, como ocorre, por exemplo, em narrativas associadas a figuras como Pablo Marçal, que dialogam com aspectos da teologia da prosperidade e ajudam a construir um imaginário centrado na superação individual.

Esse é um dos elementos centrais do discurso encantador: a promessa de que “você pode conquistar seu primeiro milhão” ou de que “você pode criar o seu próprio negócio se seguir os meus métodos e cursos”. O que esse tipo de narrativa oferece? Acima de tudo, uma perspectiva de futuro – e isso não é pouca coisa. Trata-se, muitas vezes, de futuros idealizados, marcados por promessas de prosperidade, realização pessoal e ascensão social.

A extrema-direita passou a explorar de maneira particularmente eficaz as linguagens das redes sociais e das plataformas digitais, apropriando-se de formatos caracterizados pela simplicidade, pela objetividade e pela provocação.

Inclusive, não apenas na língua verbal, mas na linguagem do audiovisual, nos memes, as maneiras como se usam certas linguagens em documentários, por exemplo, mais focada na paixão, no deslumbre, como faz muito bem o Brasil Paralelo. Tudo isso foi sendo muito frequentemente utilizado pela extrema-direita aqui no Brasil, não só aqui mas também fora, para conseguir um consenso mais amplo via afeto, via paixões que constroem as bases para uma leitura cognitiva racional do mundo, a partir dessas múltiplas verdades que especifiquei.

IHU – Os algoritmos podem interferir no acesso de conteúdos e impactar as eleições? Como o governo Trump e as big techs podem impactar nas eleições deste ano?

Paolo Demuru – Podem impactar e já impactaram muito. Falo pela avaliação de 2016. Diferentemente do que aconteceu aqui em 2022, ou até mesmo em 2018 no Brasil, ou nas últimas eleições de Trump nos Estados Unidos, nós sabemos cada vez menos o que acontece nos bastidores das redes sociais.

Até pouco tempo, tínhamos acesso às Interfaces de Programação de Aplicações (APIs, na sigla em inglês) não só no Twitter (X), mas também na Meta, com algumas ferramentas específicas. Agora, tudo isso se tornou mais restrito e mais caro, mais controlado pelas próprias plataformas e big techs. Os pesquisadores que trabalham na academia têm cada vez menos acesso a esses dados e precisam pagar muito mais, ou não conseguem acesso porque eles simplesmente não liberam.

Nas próximas eleições, cada vez mais saberemos menos do que está acontecendo nas lógicas algorítmicas que governam a nossa presença nas redes sociais. O modo como nós construímos e abastecemos o nosso feed, o que chega para nós, o que chega para os outros, como se constroem bolhas, o que circula e o que não circula, etc.

Portanto, isso é muito complexo. Desde a eleição de Trump, onde houve um alinhamento entre as Big Techs e o governo de Trump, isso tudo se consolidou de uma maneira radical.

Dito isso, eu gostaria de focar um pouco no meu campo específico de estudos, que é o campo da semiótica e da análise dos processos de construção de sentidos, de produção e interpretação dos sentidos dos discursos que circulam no debate público. Pretendo contribuir a partir desse ponto de vista porque, sobre essas questões mais estruturais, há muitos colegas que já vêm intervindo no debate público e, em grande medida, o que mencionei até aqui já foi apontado por eles.

O que posso dizer a partir do meu olhar de semioticista é que as Big Techs têm insistido fortemente em determinados tipos de discurso. Um exemplo é o discurso do avanço tecnológico, frequentemente mobilizado em oposição à regulamentação das redes sociais. Trata-se de uma narrativa que apresenta o desenvolvimento tecnológico como algo inevitável, como se os aspectos tecnológicos não precisassem ser analisados ou regulados do ponto de vista político e jurídico, considerando também os direitos da população e a necessidade de evitar concentrações excessivas de poder.

Nesse contexto, constrói-se a ideia de que, caso os governos, como tem ocorrido no Brasil, busquem regulamentar as plataformas digitais, eles acabarão ficando para trás, prejudicando a inovação e dificultando o crescimento econômico. Segundo essa narrativa, a regulamentação não afetaria apenas a macroeconomia, mas também a microeconomia, especialmente a vida dos microempreendedores, que teriam suas atividades dificultadas.

Isso se faz a partir também da construção de discurso, da construção de expressão, de fantasias que não são apenas fantasias, que têm impacto concreto. Então, é algo que serve também para fortalecer a democracia a partir das concretudes, não a partir do momento.

Precisamos dessas articulações, fundamentalmente de caráter discursivo, narrativo, construção de histórias conjuntas que criem essa ideia de coletividade em nossas cidades numa coletividade de uma mudança possível e concreta que pode acontecer no Brasil.

IHU – Fale um pouco sobre seu livro Políticas do encanto: extrema direita e fantasias da conspiração. Quais os principais pontos analisados através da semiótica?

Paolo Demuru – Fora o que já falamos anteriormente, o que falo no livro é da necessidade de contradiscurso a esse discurso encantador da extrema-direita. Não podemos apenas focar na construção e divulgação dos dados de raciocínio lógico ou na negação do discurso do outro. Houve o caso típico, por exemplo, do discurso antivacina em que afirmaram que a vacina causava autismo e respondemos que “não é verdade que a vacina vai causar autismo”, ou no exemplo em que respondemos diretamente sobre as eleições com um “não é verdade que as urnas foram fraudadas”.

Muitas vezes, o campo progressista respondeu com esse tipo de discurso, mas ele não é eficaz, inclusive tem estudos sobre isso. Tal discurso é eficaz apenas em certos contextos midiáticos ou apenas em alguns contextos internacionais. Mas, de modo geral, como estratégia, principalmente na esfera das medidas digitais contemporâneas, não tem sido muito eficaz, porque a verdade circula muito menos, enquanto o discurso falso circula muito mais. Os estudos também demonstram isso.

Acabou de ser traduzido no Brasil e publicado pela editora Fósforo, o livro clássico de George Lakoff intitulado Não pense num elefante: entenda seus valores e aprenda a enquadrar o debate, que fala exatamente disso. A obra traz a reflexão que se você falar com uma pessoa e dizer para ela não pensar em um elefante a primeira coisa que a pessoa vai pensar é no elefante.

Então, se você não quer anistia, talvez não seja o caso de falar sem anistia. Não digo que possa ser sempre ineficaz, mas, de modo geral, além de negar, é preciso afirmar. O que defendo no livro é a necessidade de afirmar, além de negar, e pautas como a vida além do trabalho trazem isso.

____
Foto: Cristiane Mota | Pexels

Também pode te interessar