Os feminismos ecossociais do Sul
Por Maristella Svampa & Enrique Viale
Início do quarto capítulo de Transição ecossocial justa: uma perspectiva do Sul Global
Olhares feministas e ecologia
Há muitas evidências históricas dos vínculos empíricos e epistêmicos entre gênero e ecologia, entre feminismo e meio ambiente. É desses vínculos que nasce o ecofeminismo, uma perspectiva ou corrente de pensamento e, ao mesmo tempo, um movimento social embasado na certeza de que a opressão das mulheres e a opressão da Natureza estão conectadas. Por um lado, a mulher é inferiorizada porque está mais próxima da Natureza. Por outro, a dessacralização e a exploração da Natureza baseiam-se na sua feminização.
A teoria ecofeminista ressalta o caráter patriarcal da dupla dominação praticada pelos homens no plano das relações interpessoais e no âmbito da sua interação com a Natureza. O alicerce dessa dupla dominação é um paradigma dualista e binário, que separa humano e não humano, masculino e feminino, público e privado, razão e emoção, moderno e não moderno, cujo correlato é uma lógica identitária que desqualifica e desvaloriza a diferença.
O ecofeminismo tem como ponto de partida a inversão do estigma da relação mulher/Natureza, redefinindo positivamente essa identificação por diferentes caminhos. Em primeiro lugar, propõe uma renovada conexão com o corpo e a Natureza, que contribuiu para o desenvolvimento de outras linguagens valorativas, enfatizando a interdependência, a complementaridade, o cuidado — ou seja, a ecodependência, especialmente no contexto da atual crise ambiental e civilizatória. Em segundo lugar, os ecofeminismos inseriram na pauta pública a importância do trabalho reprodutivo realizado majoritariamente pelas mulheres. Esse trabalho de cuidado, necessário para a sustentabilidade da vida, tem sido reiteradamente invisibilizado e desvalorizado, assim como o trabalho de manutenção dos ciclos naturais. Consequentemente, o ecofeminismo enfatiza que, assim como existe uma dívida ecológica e uma pegada ecológica, também existe, como afirma Yayo Herrero (2019), uma dívida de cuidados e uma pegada de cuidados, as quais estão ligadas à divisão sexual do trabalho.
Dentro do ecofeminismo existem diferentes correntes: há o ecofeminismo identitário, que naturaliza/biologiza o vínculo entre as mulheres e a Natureza; e o ecofeminismo construtivista, que concebe esse vínculo como uma construção sócio histórica, ligada à divisão sexual do trabalho. Vandana Shiva, em sua longa experiência de lutas, desenvolveu o ecofeminismo pós-colonial, identificado com a defesa da diversidade, pontuando que o chamado “desenvolvimento” não passa de um maldesenvolvimento que gera desigualdade e violência contra a Natureza. De acordo com Shiva, o maldesenvolvimento caracteriza-se pelos imperativos patriarcais modernos de homogeneidade, dominação e centralização.
Como veremos, para os feminismos ecoterritoriais, não se trata de sacralizar a Natureza nem de essencializar o vínculo das mulheres com a Natureza. Trata-se de feminismos descolonizadores, centrados em defender a terra e o território e mostrar que a sustentabilidade da vida e do planeta se baseia em outro tipo de relação com o corpo e com a Natureza, tanto material como espiritual, no contexto de uma epistemologia das emoções e dos afetos.
Feminismos ecoterritoriais do Sul
As mulheres encarregadas das tarefas de cuidado e de reprodução social são as primeiras a detectar os impactos sociossanitários e os relacionar com os modelos de maldesenvolvimento, cujos riscos são minimizados ou não aparecem nas estatísticas oficiais. Este tem sido o ponto de partida dos feminismos ecoterritoriais latino-americanos: a defesa das condições de vida frente à ameaça de contaminação e/ou a denúncia de seus impactos sobre a saúde, o ar e o meio ambiente. No contexto de expansão dos neoextrativismos, multiplicaram-se as expressões dos feminismos ecoterritoriais do Sul, comunitários, rurais — feminismos de caráter popular e periférico, nascidos nas margens sociais, étnicas e geográficas. São mulheres indígenas, camponesas, afrodescendentes, pobres e/ou em situação de vulnerabilidade, vindas de zonas rurais e urbanas, que rompem o silêncio e se mobilizam publicamente, recriam relações de solidariedade e novas formas de autogestão coletiva para enfrentar os impactos dos projetos industriais e extrativistas já instalados e a ameaça de novos megaprojetos e/ou a expansão da fronteira extrativista.
Inicialmente, muitas dessas lutas ecoterritoriais não se identificavam como “feministas”. Essa reticência mostra que, longe de ser resultado de um rótulo automático, a reapropriação do feminismo e a crítica ao patriarcado fazem parte de um processo dinâmico e coletivo de construção cultural. É através de uma dinâmica recursiva — sobretudo de um diálogo intergeracional, no balanço entre o envolvimento coletivo e o retorno ao privado, atravessado por laços de opressão patriarcal — que a luta começa a ser ressignificada também como “feminista” e “antipatriarcal”. A possibilidade de nomear a opressão doméstica e familiar e a violência patriarcal antes naturalizada e/ou silenciada potencializa a luta em defesa da terra e do território. Nesse processo de empoderamento popular, desmitificação do desenvolvimento e construção de uma relação diferente com a Natureza, emerge a reivindicação por uma voz livre e honesta, “uma voz própria”, que questiona o patriarcado em todas as suas dimensões e busca reposicionar o cuidado em um lugar central e libertador, ligado inquestionavelmente à nossa condição humana.
Esse movimento vai tecendo feminismos descolonizadores que contestam a visão individualista e moderna-ocidental em favor de uma visão fundada na experiência coletiva e comunitária. Ao mesmo tempo, mobilizam uma perspectiva relacional, com raízes ancestrais ligadas a cosmovisões distintas à modernidade, partindo de um enquadramento mais holístico e organicista da Natureza. As lutas ampliam as temáticas tradicionais, uma vez que são debatidos assuntos como terras, corpos e representações a partir de uma perspectiva não liberal, dando destaque às relações com o território por meio das ideias de “corpo-território” como forma de defesa diante da pretensão de conquista. Essa visão — observada de maneira muito similar do México à Argentina, passando por Equador, Colômbia, Peru e Bolívia — constitui o ponto de partida de uma concepção alternativa da relação entre sociedade e Natureza, que enfatiza a centralidade da interdependência e da ecodependência no contexto da crise ecológica e climática (Svampa, 2017; 2021).
A despeito de suas diferenças, a dinâmica de mobilização gera intensos atravessamentos sociais e étnicos que ampliam a linguagem e a democratização no heterogêneo espaço feminista de lutas contra o extrativismo. Por meio da mobilização coletiva, a subjetividade de mulheres que permaneciam isoladas no âmbito doméstico, com raros contatos interclasse não hierárquicos, passou por intensas transformações, despertando para novos conceitos: dano ambiental e justiça ambiental, água para os territórios, corpo e território, territorialidade e cuidados, cura e Natureza, acesso à terra e soberania alimentar, entre outros. Surgiram também espaços de articulação regional, muitos dos quais se expressam em redes compostas por defensoras do meio ambiente, com o apoio de ONGs e fundações de diferentes países, como o Fondo de Mujeres del Sur, o Fondo Acción Urgente de América Latina y el Caribe e a Red Latinoamericana de Mujeres Defensoras de Derechos Sociales y Ambientales. Um dos núcleos do processo é a construção de pontes interclasses e o diálogo intergeracional, papel facilitador assumido sobretudo pelas mulheres jovens, ativistas de diferentes áreas — antropólogas, geógrafas, comunicadoras, advogadas, sociólogas, artistas — que se aliam às lutas construindo um conhecimento autônomo, cartografando e mapeando os corpos-territórios em busca de caminhos de reparação e resiliência, em diálogo com os saberes locais e ancestrais.
Em suma, a confluência de experiências entre o público e o privado abriu um espaço inédito de entrelaçamento entre coletivos de mulheres de diferentes idades e setores sociais. Reuniram-se, de um lado, mulheres pobres, de origem rural, camponesas e indígenas, ou residentes em pequenas localidades, grupos de afetadas por desastres ambientais, em situação de marginalização tanto social quanto étnica; e, de outro lado, ativistas e ONGs especializadas, coletivos de profissionais críticas, que defendem a ampliação dos direitos das mulheres. O resultado tem sido a expansão do campo das lutas feminista e ambientalista e, sobretudo, a elaboração de uma nova epistemologia feminista, com a inclusão de novos temas e olhares sobre o território, assim como o desenvolvimento de uma visão mais horizontal dos feminismos existentes, acima das diferenças de classe e etnia, ou das distâncias entre o urbano e o rural.
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Foto: Mulheres em campo de arroz na Índia | Crédito: Dibakar Roy/Pexels












