bell hooks: sacodir a poeira e encarar a crise de autoestima

Segue a introdução de Sacode a poeira, novo livro de bell hooks no catálogo da Elefante:

Lá por dentro: a autoestima hoje

Há alguns anos, uma revista de grande circulação publicou uma matéria de capa com a seguinte manchete: “O que aconteceu com a população negra dos Estados Unidos?”. Folheei as páginas numa banca de jornal, examinando estatísticas sobre desemprego, mães dependentes de auxílio social, taxas de divórcio, vício em drogas. Em seguida, larguei o exemplar ao reparar que as histórias escolhidas pelos jornalistas para retratar a vida dos negros no país sustentavam e reiteravam a noção de que a realidade dessas pessoas não continha nada de interessante. Como crítica cultural que escreve sobre a representação dos negros na mídia de massa, essa construção de negritude me deixou chocada — e furiosa. Me senti impotente diante dos brancos poderosos responsáveis por aquela publicação, gente capaz de decidir propagar o desaparecimento, a morte de uma raça inteira, apenas para vender revista.

Em tom de autocongratulação, o argumento central do texto sustentava que o povo preto tinha se apagado por completo, cometido um genocídio cultural coletivo. “Nós lhes demos direitos e oportunidades e olha só o que eles fizeram com isso.” Esse tipo de sentimento era comum no raiar das reações contra as ações afirmativas. Quando você proclama publicamente que um povo está culturalmente extinto, que desapareceu da paisagem, que não pode mais ser visto nem debatido, você se livra ao mesmo tempo da sua própria responsabilidade e do seu dever de reparação. Você anuncia a desgraça dessa população e diz ao mundo que ela escolheu esse destino: desaparecimento passivo, autossabotagem silenciosa, suicídio simbólico. Com audácia, você expõe a vergonha secreta dessa comunidade. A raiz dessa vergonha é que, com tanta coisa a favor deles, esses pretos fizeram tão pouco. E a culpa não foi do racismo.

Se o racismo não está por trás da falta de progresso das pessoas pretas, então o que poderia estar? Ninguém — nem lá atrás nem em tempos mais recentes — parece saber responder a essa pergunta. E ainda que eu nunca tenha aceitado a ideia de que o povo preto desapareceu, eu já havia começado a me perguntar por que não estávamos fazendo mais; por que, com tanta oportunidade e sucesso em todas as áreas, perdurava tamanho sofrimento na nossa vida. O sofrimento não era exclusividade dos pobres e desprovidos. Não tinha (nem tem) relação com quanto dinheiro ganhamos ou quanto sucesso conquistamos.

Muito antes de começar a buscar ao meu redor e perceber o quão disseminado é esse sofrimento emocional subjacente, eu já o havia detectado nos alunos com quem convivia nas instituições da Ivy League onde lecionava. Esses estudantes estavam entre os melhores, mais inteligentes e, frequentemente, os mais belos e, mesmo assim, eram acometidos por profundos sentimentos de insignificância e feiura, por dentro e por fora. Sentiam-se esmagados pelo peso das escolhas que tinham pela frente, incapazes de exercer a própria agência de forma significativa. Não raro estavam deprimidos sem saber o porquê. Drogas — ilegais ou prescritas — não resolviam o problema, e aconteciam mais tentativas de suicídio do que se ousaria debater.

Desde a primeira vez que deparei com suas histórias, fosse em meu escritório, no sofá de casa ou em quartos de hospital, percebi uma falta de autoestima abismal. E quando conversava com meus colegas, a geração baby boomer, que se destacou e deixou sua marca, as histórias eram similares. Ouvi pessoas relatarem profundos sentimentos de inadequação, de não ser “suficiente”, ainda que não fossem capazes de definir o que queriam dizer com isso. Ouvi e ouço falar de sensações de vergonha, culpa, inferioridade. Por fim, depois de escutar seguidas confissões de autodepreciação e autodesconfiança, fui compelida a encarar a realidade por trás desses testemunhos. Eu queria fazer alguma coisa, encontrar as explicações e as soluções. Pesquisa atrás de pesquisa, sempre caía na autoestima.

Os negros tiveram de se haver coletivamente com essa questão desde a escravidão até os dias de hoje. Uma luz vermelha se acendeu quando a crise de autoestima paradoxalmente se intensificou com o surgimento de uma miríade de oportunidades que nunca existiram para nossos ancestrais. E, ainda que o racismo e a supremacia branca sigam na ordem do dia, eles são bem menos determinantes dos rumos de nossa vida do que foram no passado. Olhando para minha própria família, refleti bastante para tentar entender por que meu irmão, minhas cinco irmãs e eu mesma parecíamos ser muito mais frágeis psicologicamente do que nossos pais. Como em muitas famílias negras do Sul em que a educação era prioridade, todos nós estudamos, aprendemos, conquistamos diplomas, ganhamos dinheiro. Por mais que, durante toda a vida, tenhamos tido um grau de privilégio material desconhecido para nossos pais, essas conquistas não foram capazes de mudar a concepção fundamental que tínhamos de nós mesmos. Frequentemente, nossas conversas revolviam em torno da autoestima.

Ninguém espera que um médico nos prescreva a cura antes de investigar as raízes do problema. Em Sacode a poeira: povo preto e autoestima, este é o caminho que trilho: um exame rigoroso da questão, que culmina em sugestões de como lidar com ela. Ao longo de Sacode a poeira, me apoio nas pertinentes definições de “autoestima” do psicólogo Nathaniel Branden, que sobreviveram ao tempo. De acordo com ele,

se plenamente realizada, a autoestima é a experiência de que estamos adequados à vida e a suas exigências. […] Autoestima é confiançana nossa capacidade de pensar; confiança na nossa capacidade de lidar com os desafios básicos da vida; e confiança no nosso direito de ter sucesso e felicidade; o sentimento de ser digno, merecedor e apto a asseverar nossas necessidades e vontades, viver à altura de nossos valores e aproveitar o fruto do nosso esforço.

Branden identificou seis pilares da autoestima: integridade pessoal, autoaceitação, autorresponsabilidade, autoafirmação, um viver consciente e com propósito. Sem autoestima, as pessoas começam a perder o senso de agência. Sentem-se impotentes. Sentem que o único papel que lhes cabe é o de vítima, nada mais. A necessidade nunca se esvai. E nunca é tarde para adquirirmos uma autoestima saudável, necessária para uma vida satisfatória.

Nós, pessoas pretas, temos relutado em romper com a negação e encarar o fato de que nossa baixa autoestima paralisante alcançou patamares epidêmicos, simplesmente por não parecer ser um diagnóstico profundo o suficiente. Com frequência, em livros e artigos escritos por pensadores negros, os autores detalham longas listas de males que sugerem uma crise de autoestima, e então se recusam a conectar esse sofrimento à falta dela porque, como diz um autor, seria “muito simplista”. O diagnóstico até pode ser simples, mas é óbvio que não tem sido fácil a tarefa de erguer alicerces firmes para a construção de uma autoestima saudável entre as pessoas pretas — se fosse, essa crise nem existiria. Temos focado tanto a maneira como os outros ferem nossa autoestima que acabamos por ignorar as feridas autoinfligidas. Para cuidar desses machucados, para aprender como abraçar o bem-estar emocional sem nos autossabotar, precisamos prestar mais atenção à questão do respeito próprio. Precisamos colocar a questão da autoestima em primeiro plano.

Ainda que venhamos de um longo período de silêncio — talvez até negação — em que não pudemos falar aberta e honestamente sobre a crise na maneira como enxergamos a nós mesmos e aos outros, e como os outros nos veem, nós, pessoas pretas, sabemos que nossa autoestima coletiva machucada ainda não sarou. Sabemos que estamos sofrendo. E é só encarando a dor que conseguiremos fazê-la ir embora.

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Foto: bell hooks e Marlon Riggs. Crédito: Lyle Ashton Harris

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