Os mitos da transição energética
Por Cidoval Morais de Souza
Publicado em A Terra é Redonda
Este pequeno ensaio nasce da necessidade de desmontar narrativas simplistas que cercam a transição energética em curso e que, ao invés de iluminar caminhos de justiça climática, acabam legitimando novas formas de exploração e desigualdade. Nosso objetivo é mostrar que os chamados “mitos da energia limpa” não são apenas equívocos técnicos ou falhas de planejamento, mas expressões de uma lógica histórica mais profunda, vinculada ao capitalismo global e às suas elites predatórias.
As motivações são claras: compreender como discursos oficiais e documentos institucionais reforçam a inevitabilidade de uma nova onda extrativista; revelar que por trás desses mitos está a disputa política entre dois termos utilizados para denominar a nossa era de crise climática: o Antropoceno, que dilui responsabilidades, e o Capitaloceno, que aponta para agentes históricos concretos da devastação; e, finalmente, propor as bases de um novo pacto ecossocial, que articule renda universal cidadã, reforma tributária verde e uma transição energética democrática, justa e sociossanitária.
Desconstruindo mitos
A transição energética tem sido apresentada como a grande solução para a crise climática, embalada por uma narrativa de “salvação ecológica”. Energia solar e eólica são descritas como limpas, baratas e capazes de gerar empregos, renda e sustentabilidade. Esse discurso, repetido em relatórios oficiais e campanhas corporativas, construiu um consenso de que a humanidade teria finalmente encontrado o ponto ideal entre crescimento econômico e preservação ambiental.
No entanto, essa visão é simplista e oculta contradições profundas. Megaparques eólicos e solares exigem grandes áreas, provocando desmatamento, fragmentação de habitats e impactos na fauna. A promessa de energia “100% limpa” não se sustenta diante da realidade dos processos produtivos. O mito da neutralidade tecnológica ignora que o problema não é apenas a fonte de energia, mas o modelo de consumo infinito.
Outro mito recorrente é o da “solução sem extrativismo”. A transição energética, ao contrário do que se afirma, está impulsionando uma nova onda de mineração global. A demanda por metais raros como lítio, cobalto, níquel e neodímio prevê multiplicar por quatro a exploração mineral até 2040. Essa corrida por recursos gera impactos profundos em territórios vulneráveis, especialmente no Sul Global, onde comunidades tradicionais enfrentam degradação ambiental e conflitos fundiários.
O discurso da energia verde oculta que, para viabilizar a infraestrutura renovável, é necessário intensificar a extração de recursos naturais, perpetuando a lógica colonial de exportação de matérias-primas e importação de tecnologia. O mito da “sustentabilidade sem conflitos” se desfaz diante da realidade: a transição energética atual não elimina impactos, apenas os desloca para outras etapas da cadeia produtiva.
Há também o mito da geração de emprego qualificado e local. Embora os projetos renováveis criem postos de trabalho, a maioria deles é temporária, restrita à fase de instalação dos parques. A operação exige mão de obra altamente especializada, muitas vezes trazida de fora, deixando poucos benefícios econômicos duradouros para as comunidades locais.
Além disso, os impactos sociais são significativos: ruídos das turbinas afetam a saúde, modos de vida tradicionais são destruídos e populações quilombolas e camponesas veem seus territórios transformados em enclaves tecnológicos. A energia gerada passa por cima das casas locais para abastecer centros industriais distantes, sem reverter em desenvolvimento humano.
O mito da energia limpa sem resíduos também merece destaque. O descarte de pás de turbinas eólicas, difíceis de reciclar, e de painéis solares, que contêm materiais tóxicos, está criando uma nova crise de resíduos sólidos. A reciclagem desses equipamentos ainda é cara e tecnologicamente desafiadora, o que ameaça transformar a transição em um problema ambiental adicional.
Além disso, o mito da transição justa se desmancha quando observamos que o processo está capturado por grandes corporações e fundos de investimento. Em vez de democratizar o acesso à energia, o modelo atual perpetua oligopólios, trocando o petróleo pelo sol e pelo vento, mas mantendo o usuário final refém. Em outras palavras, temos um campo de mitos que ocultam impactos e contradições, exigindo, de todos nós, uma crítica profunda para que não se torne apenas a face renovada de um extrativismo intensificado.
Legitimação oficial
O documento “Minerais críticos e estratégicos no Brasil: um passaporte para o futuro”, do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) e do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM) é uma espécie de legitimação oficial dos mitos da transição energética. Nas falas de abertura, os minerais críticos são apresentados como “ativos estratégicos” indispensáveis para o futuro sustentável do Brasil.
O discurso é marcado pela retórica da inevitabilidade: sem mineração, não há transição. Essa narrativa constrói uma “janela de oportunidade” para atrair investimentos e consolidar competitividade. A sustentabilidade aparece como promessa genérica. O resultado, portsnto, é um discurso que naturaliza a intensificação da exploração mineral, transformando-a em requisito fundamental para a transição energética.
O documento reforça, ainda, essa visão de “legitimação dos mitos” ao destacar que a demanda mundial por lítio, níquel, cobalto e terras raras crescerá exponencialmente até 2040, e que o Brasil deverá se posicionar como fornecedor estratégico. A ênfase está em infraestrutura, regulação e inovação, mas sempre subordinadas à lógica de mercado e exportação.
O texto celebra a integração às cadeias globais, mas não discute soberania tecnológica ou justiça energética. O documento que legitima a mineração como motor da transição, não problematiza quem ganha, quem perde e quais territórios serão sacrificados, mas isso, ainda que contra a vontade dos que o produziram, pode-se lido nas entrelinhas.
O diagnóstico apresentado é claro: o contexto global apresenta a mineração como condição indispensável; o panorama brasileiro celebra reservas abundantes; e a infraestrutura aponta gargalos que exigem grandes investimentos, sobretudo voltados à exportação. A regulação defende marcos mais ágeis para atrair investidores, mas sem mecanismos claros de proteção socioambiental.
A inovação é subordinada à lógica de mercado, enquanto o mercado internacional projeta o Brasil como player estratégico, mas, em nossa leitura, dependente. As recomendações finais reforçam políticas de incentivo e financiamento voltadas à competitividade e abrem, por assim dizer, as portas para uma nova onda extrativista, reforçando a posição subordinada do Brasil nas cadeias globais e invisibilizando os impactos sociais e ambientais da mineração.
Antropoceno x capitaloceno
Os mitos da transição energética não surgem por acaso: eles são alimentados por uma narrativa que dilui responsabilidades e universaliza a culpa. O conceito de Antropoceno, por exemplo, sugere que toda a humanidade seria igualmente responsável pelo colapso ambiental, como se a crise climática fosse resultado de uma ação coletiva e homogênea. Essa visão, embora difundida, é problemática porque invisibiliza desigualdades históricas e concentrações de poder.
O historiador Francisco Serratos, em seu livro Capitaloceno: uma história radical da crise climática (Editora Elefante), mostra que apenas uma pequena parte dos humanos – as elites econômicas e políticas – foi capaz de destruir biomas inteiros. O Antropoceno, ao universalizar a culpa, acaba funcionando como narrativa que oculta quem realmente se beneficia e quem paga os custos da devastação.
A opção pelo Capitaloceno nos permite compreender que a crise climática é inseparável da história do capitalismo. Jason Moore, em Antropoceno ou Capitaloceno? Natureza, história e a crise do capitalismo (Editora Elefante), argumenta que o capitalismo não apenas explora trabalho e natureza, mas as integra em uma lógica de acumulação infinita, transformando ecossistemas em mercadorias. Andreas Malm, em Capital fóssil: a ascensão do motor a vapor e as raízes do aquecimento global (Elefante), reforça que a dependência dos combustíveis fósseis não foi uma escolha técnica neutra, mas uma decisão política que consolidou o poder das elites industriais.
Donna Haraway, em Ficar com o problema: fazer parentes no chthluceno (N-1 Edições) alerta, como Francisco Serratos, que o Antropoceno dilui responsabilidades, enquanto o Capitaloceno aponta para agentes históricos concretos da devastação. Assim, os mitos da transição energética – energia limpa, empregos locais, sustentabilidade sem conflitos – são sustentados por uma narrativa que oculta o papel do capitalismo como motor da crise.
A crítica de Francisco Serratos é incisiva ao mostrar que a crise climática não é resultado de um evento isolado, mas de um processo histórico de quase cinco séculos. A passagem do feudalismo ao capitalismo, a conquista da América, o colonialismo europeu e o extermínio de povos indígenas são marcos dessa trajetória.
Episódios como a exploração do látex nas florestas tropicais, a guerra pelo guano e a fome na Índia sob domínio britânico revelam como o capitalismo global sempre se alimentou da devastação de territórios e populações vulneráveis. Derrubar uma árvore não altera toda uma floresta, mas derrubar florestas inteiras para o cultivo de açúcar ou soja leva ecossistemas ao colapso.
O que alimenta os mitos é justamente a recusa em reconhecer que a transição energética atual está subordinada à lógica neoliberal. Ao apresentar a mineração como motor da transição, documentos como os do IBRAM e CETEM reforçam a ideia de inevitabilidade e oportunidade, mas invisibilizam os impactos sociais e ambientais. Essa narrativa é funcional ao Capitaloceno: legitima a intensificação do extrativismo em nome da sustentabilidade, mas perpetua desigualdades históricas.
O mito da neutralidade tecnológica, por exemplo, ignora que trocar gasolina por baterias de lítio não resolve o problema do modelo de crescimento infinito. O mito da democracia energética oculta que a “onda verde” é dominada por grandes fundos e corporações, mantendo o usuário final refém de oligopólios.
Ao recusar o Antropoceno e apostar no Capitaloceno como chave de leitura da era contemporânea, nossa análise revela que a crise climática é fruto de escolhas políticas e econômicas, não de uma suposta “natureza humana”. O Capitaloceno nos obriga a reconhecer que a transição energética, se mantida sob a lógica neoliberal, apenas perpetuará a mesma dinâmica de exploração. Os mitos funcionam como cortina de fumaça, ocultando que o verdadeiro motor da crise é o capitalismo global e suas elites predatórias.
Reconhecer isso é condição para pensar alternativas emancipatórias: uma transição energética democrática, justa e produtiva, capaz de romper com a lógica extrativista e construir um futuro baseado em solidariedade e sustentabilidade.
Por um novo pacto ecossocial
O fechamento deste ensaio exige que avancemos para além da crítica, desenhando as bases de um novo pacto ecossocial. Inspirados em Maristella Svampa e Enrique Viale em Transição ecossocial justa: uma perspectiva do Sul Global (Elefante), defendemos que a transição energética não pode ser apenas tecnológica, mas social e política. Isso significa reconhecer energia como direito inalienável e território como abrigo, rompendo com a lógica extrativista que perpetua desigualdades.
Um pacto ecossocial precisa articular justiça climática, soberania energética e participação comunitária, garantindo que os benefícios da transição não sejam capturados por grandes corporações. A renda universal cidadã surge como instrumento central para reduzir vulnerabilidades e assegurar dignidade, permitindo que populações historicamente marginalizadas tenham condições de enfrentar os impactos da crise climática.
Outro pilar desse pacto é a reforma tributária verde, capaz de redistribuir recursos e responsabilizar grandes emissores. A tributação progressiva sobre carbono, mineração e atividades poluentes deve financiar políticas públicas inclusivas, como transporte urbano sustentável, habitação digna e sistemas de saúde resilientes. A transição energética democrática precisa ser também produtiva e urbana, integrando inovação tecnológica com justiça social.
Isso implica fomentar cooperativas locais de energia, geração distribuída e modelos comunitários que rompam com o oligopólio das corporações. Ao mesmo tempo, é necessário fortalecer políticas sociossanitárias, reconhecendo que a crise climática impacta diretamente a saúde das populações mais pobres. O pacto ecossocial, portanto, não é apenas ambiental, mas profundamente social e redistributivo.
Em nossa compreensão, esse pacto deve ser pensado a partir do Sul Global, como defendem Maristella Svampa e Enrique Viale, reconhecendo que a transição justa precisa enfrentar as desigualdades históricas entre Norte e Sul. O Brasil não pode se limitar a ser fornecedor de matérias-primas para a transição energética mundial; precisa construir soberania tecnológica e energética, articulando desenvolvimento com justiça territorial.
A transição ecossocial justa exige romper com os mitos que alimentam o Capitaloceno e propor alternativas emancipatórias. Renda universal cidadã, reforma tributária verde, transição energética democrática e políticas sociossanitárias são os pilares de um futuro possível. Esse pacto não é apenas uma agenda política, mas uma utopia concreta: a construção de um mundo em que energia, território e vida sejam tratados como bens comuns, e não como mercadorias.












